A Joia dos Crevan-em Hiatus
5 Quarto capítulo
Notas iniciais
Caro Wiru,
Não sei exatamente como escrever-te esta carta, entretanto vou escrevê-la conforme meu coração me instruir a fazê-lo.
Espero não estar-lhe sendo um estorvo, livre-me Deus de estar sendo um incomodo, nem estar te atrapalhando com esta carta, sentir-me-ia péssimo caso isso ocorresse. Porém estava sentindo tanto tua falta e me encontro curioso para saber como está, afinal, pois tem duas semanas desde a ultima vez que nos falamos e, por consequência, que tive noticia tuas.
Meu pai disse-me que irá retornar para Alemanha um dia antes do meu aniversário no mês que está para vir e preciso confessar-te que fiquei um pouco triste, pois não terei o prazer de tua companhia até que possas voltar para mim, ou melhor, a Londres, no ano que vem.
Entretanto espero que antes que partas, possamos desfrutar de uma tarde agradável juntos ao piano, talvez você até consiga me ensinar a tocar “Für Elise”, ou disputando em uma partida de xadrez ou quem sabe até mesmo uma rodada de deduções...
Esta tarde estive recordando acontecimentos deste ano que passamos juntos na Academia Weston e senti a vontade de compartilhar tais lembranças com você.
Creio que a primeira seja o primeiro dia de aula, ou melhor, o dia em que derrubei tinta na programação do professor.
Você deve se lembrar não é? Não faz tanto tempo assim...
Recordo-me de ter chegado a Weston junto a você e meu irmão. Papai havia me dito que eu precisaria frequentar a escola durante um ano, para me acostumar aos modos da aristocracia e quem sabe fazer algum amigo. Não, eu não queria ter ido pra Weston, preferia ir para qualquer lugar que não fosse lá, entretanto papai disse que era necessário.
Quando eu entrei na carruagem e vi você lá eu confesso que me animei, pelo menos não chegaria sozinho lá. Lembro que conversamos todo o trajeto até Weston, mas não sobre o que especificamente, acho que algo a respeito da indicação de papai para Lorde ou qualquer coisa do gênero.
Fiquei deslumbrado ao ver a academia a distância — “é maior que a sua casa” — lembro de ter comentado. Você riu... — “Wiru, você tem um sorriso tão bonito... deveria sorrir mais..”. — disse-lhe indicando com meus indicadores um sorriso. — “Não fale coisas assim na academia Grell...” — você me respondeu serio arrumando seus óculos daquela forma estranha. — “Por que Wiru? Não há nada de errado...” — eu não via mal nenhum no que eu havia dito, mas eu sei agora que você só queria me proteger dos outros garotos.
Certo, não me lembro direito o que aconteceu depois disso então eu vou pular para quando chegamos no dormitório.
—“EU fico com a cama de cima!” — gritei correndo até a escadaria do beliche. Você fechou a porta atrás de si e carregou nossas coisas até a mesa ao lado do beliche.
Ah, é mesmo, você tinha insistido em carregar minhas coisas, fiquei muito grato por aquilo Wiru. Realmente muito grato, foi muito gentil da sua parte.
—“ Não grite assim Sutcliff”— respondeu frio. Eu lembro que desde o segundo que entramos na academia você havia começado a me chamar pelo sobrenome... Jesus, como aquilo me irritou... você nunca havia agido daquela forma comigo, me irritou bastante no começo , mas eu decidi não falar nada sobre aquilo, só me espreguicei na cama ignorando o que havia dito.
Lembro-me que ficamos conversando um pouco até que o líder do nosso dormitório nos convocou para conhecer a academia. Hah, você obedeceu como um animalzinho treinado, sim, foi por isso que eu abafei meu riso, mas mesmo assim eu fui junto, como nós dois bem sabemos.
Foram muitas salas as que conhecemos naquele dia, mas quando fomos até a ultima daquelas que frequentaríamos, decidimos permanecer nessa para acompanhar o próximo período de aulas. Não me lembro exatamente o que, entretanto um jovem chamado Dimitry pegou algo de minha mesa e eu fui tentar recuperá-lo. Corri atrás daquele russo, mas ele me provocou e eu tive que subir sobre a mesa do professor, lembro-me de sua expressão ser de desapontamento e vergonha, perdoe-me por ter causado tamanho desconforto a você. Enfim, após subir sobre a mesa do professor eu tentei alcançar o garoto, mas antes disso eu consegui ouvir a voz repreensiva do professor por estar sobre sua mesa, e assustar-me com a mesma, esbarrando no tinteiro que se encontrava próximo a mim, acabando por derrubar a tinta sobre os materiais do professor.
Bem, você me defendeu daquilo, justificando o ocorrido apontando a ordem dos fatos oferecendo-se para testemunhar em meu favor para que não fosse punido sozinho. Serei eternamente grato a ti devido a isto também, certamente eles teriam sido cruéis em minha punição, porém devido a sua gentileza e boa vontade, eles decidiram não me punir.
Entretanto... Os outros rapazes passaram a olhar para nos de uma forma estranha e desagradável, você percebeu isto? Eu percebi. Eles sabiam tanto quanto eu que meu lugar não era ali.
Bom, não quero remoer essas memórias ruins apenas, o ponto que eu quero chegar é o que veio após aquilo, a noite, quando já estávamos deitados cada um de nós em nossas camas. A conversa que tivemos ainda está fresca em minha lembrança.
—“ Sabe Sutcliff... eu também não desejava estar em Weston...”— você me disse e eu me surpreendi. —“Como assim wiru?!” — na minha cabeça aquilo não era plausível, porque você estaria em Weston se não desejasse estar lá?!
Sua resposta de longe foi a que imaginei. —“meu pai concedeu-me duas opções: eu voltaria para a Alemanha neste ano e passaria dois anos por lá, ou cursaria um ano em Weston e no seguinte estudaria na Alemanha”— olhei para cima tentando imaginá-lo divagando na cama abaixo de mim da mesma forma. Sua pausa foi breve e após um suspiro abafado, retomou sua fala calmamente —“ seu pai então disse ao meu que tu irias frequentar Weston neste ano e... eu fiz minha escolha”— senti minhas faces esquentarem com aquilo por algum motivo, mas antes que eu o descobrisse você se calou e eu tive a certeza de que estava dormindo.
Bem, se eu soubesse o que eu sei agora não teria estranhado sua resposta, mas como eu não sabia... bem tenho que confessar que passei a noite pensando naquilo e agora, que penso nisso novamente consigo sentir minhas faces quentes outra vez. Minhas mãos estão suando e meu coração está acelerado... não sei o que está acontecendo... O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO COMIGO?!
Perdão, sei que foi inadequado isso, mas agora já foi escrito e já escrevi demais aqui para simplesmente começar outra vez. Desculpe-me por divagar.
Bem, outro fato que me recordei foi daquela noite na torre de astronomia em que observamos as estrelas cadentes pelo telescópio. Lembro que você estava hesitante e quase desistiu quando eu reclamei do horário, mas por fim fomos até lá.
—“esse lugar é muito de LUAnático... entendeu a piada?!”— você fez uma careta enquanto eu ria da minha própria piada ruim — “silêncio Sutcliff” — me repreendeu e eu ri mais alto para te provocar. —“deixe de ser tão ranzinza wiru... desse jeito vai acabar ficando SOLzinho”— eu gargalhei com a outra piada ruim e você só virou as costas para mim e descobriu a luneta que apontava para o céu escuro. —“você quer ver a chuva de meteoros ou não?”— ah, é mesmo, era uma chuva de meteoros, não estrelas cadentes... enfim, eu me aproximei de você ainda arfando por ter rido tanto de algo que não tinha tanta graça assim. —“hm... acho que vou ter que levantar” — você disse olhando para mim em relação à altura da luneta. Minhas faces esquentaram quando você rodeou minha cintura e me levantou. Eu senti seu coração nas minhas costas e aquilo me confortou. Não que eu precisasse, mas aquilo foi muito agradável, uma batida depois da outra, uma seguindo a outra calmamente. Concentrei-me tanto naquilo que eu só me dei conta quando você me cutucou com o nariz. — “Você é pesado sabia?”—
Suspirei antes de fechar um dos olhos e espiar pelo vidro da luneta. Assim que o primeiro rastro de luz apareceu eu me encantei completamente, era tão brilhante, tão bonito ... —“isso é maravilhoso William” — murmurei encantado. Você me desceu e pôs a mão e meu ombro, mantendo-a ali durante alguns instantes. Nós nos sentamos e observamos os rastros de luz atravessarem os céus. Ambos suspiramos antes de eu te abraçar.
—“O que é isso Sutcliff?”— perguntaste assustado— “meu agradecimento”— disse simples, afastando-me de você e voltando a observar o céu estrelado.
A imensidão daquele céu... não sei por qual emoção, mas meu coração parecia querer escapar pelos meus lábios. Bem, não sei porque estou falando essas coisas para você, devem estar te confundindo... eu estou confuso... meu coração está apertado, acho que nunca te enviarei esta carta. É, é o que irei fazer, guardar isto em segredo, você nunca irá saber e se um dia souber... espero não assustá-lo com minhas palavras.
De seu amigo, Grell Sutcliff
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