A Joia da Loucura
6 Heather – Capítulo 6
Notas iniciais
Heather esperava morrer rapidamente, que seus amigos conseguissem superar sua perda e principalmente esperava não dar nenhum trabalho para os semideuses do acampamento. Não seria legal ser xingada enquanto eles tentavam enterrar o seu corpo carbonizado. Depois de alguns segundos estranhou não sentir as chamas em sua pele. Ainda de olhos fechados tentava encontrar uma resposta. Será que morrer era daquela forma? Sem dor, sem desespero e bem rápido? Não, ainda sentia o calor das chamas em volta do punho de Zeus, apreciava o vento atingindo sua pele e deixando-a tremula, escutava a Quimera e pior ainda sentia o cheiro do animal. Então, se não estava morta, o que tinha acontecido? Aos poucos começou abrir seus olhos, precisando de mais alguns segundos para se ajustar a claridade. Só que não era apenas a claridade das chamas que atrapalhavam a sua visão, a não ser que o fogo tinha decidido ser colorido. Vermelho, amarelo, azul, lilás, verde e outras cores. No total eram sete cores.
Aquilo lembrava uma coisa, não conseguia se lembrar o quê. A princípio ficou perplexa e encantada com o show pirotécnico, então finalmente reconheceu o que estava a sua frente, e soltou um suspiro de alívio. Era um Arco-Íris. As cores do Arco-Íris se tornaram sólidas o suficiente para barrar as chamas. Não sabia quem estava conjurando aquela barreira, nem se era sua mãe, algum irmão ou até si mesma, porém agradecia mentalmente. A Quimera também foi pega de surpresa, cessando seu lança chamas. Tempo para outros semideuses se aproximarem, não importando mais de qual time cada um era. Embora com Heather ainda segurando a bandeira da equipe vermelha e pela cara dos garotos de Ares, a equipe azul tinha ganhado.
– Quimera! Filhos de Apolo preparem seus arcos. Filhos de Ares e Atena, formação! Heather não se preocupe, iremos te ajudar! – Finalmente Quíron tinha chegado e assumia o comando.
– Não! Ninguém ataca! – Heather falou. Aquele bicho podia acabar com ela instantaneamente e agora ela notava, não tinha mais a sua barreira mágica e mesmo assim continuou confiante sem razão. – Deixem isso comigo... É o meu desafio! Acho... Acho que minha mãe está por trás disto!
– Heather, essa é uma Quimera! Temos que...
– Calado Quíron! Não se meta, por favor! – A garota tinha certeza de sua morte ou morreria com a Quimera ou com Quíron. Pela cara dos outros semideuses, ela tinha sido a primeira a mandar Quíron se calar. Despertando a Quimera de estado de torpor assim.
– E ai gatinho, quer brincar? – Idiotice chamar uma Quimera de gatinho? Talvez, mas Heather não estava mais sentindo medo, estava se sentindo como se... Estivesse ganhando algum prêmio.
A Quimera então atacou, desta vez decidiu pular contra ela. Garras e dentes amostra. O cheiro de pelo molhado era insuportável, mesmo assim Heather conseguiu se mover rolando para o lado enquanto a criatura cravava suas presas nas rochas do Punho de Zeus. Graças aos deuses as chamas que a cercavam extinguiram-se, evitando que se queimasse no seu rolamento. Conseguiu desta forma, escapar de seu encurralamento e se posicionar atrás da Quimera.
– Cara, eu estou ficando maluca, definitivamente estou ficando maluca! – a garota encarou o rabo de serpente sem muita atenção e saltou para o dorso felino, prendendo a serpente-rabo contra as costas do bicho. O monstro não ficou feliz, e começou a se mover para todos os lados. Seu rabo de serpente tentava atacar a filha de Íris nas pernas sem sucesso do modo que estava presa só conseguia morder a si mesmo e a garota não ajudava segurando a segunda cabeça pelos chifres da cabra. – Upa cavalinho! Vamos com calma que faz tempo que não monto em um touro!
Heather acabava brincando. Enquanto a Quimera corria para todos os lados, ria ao ver os semideuses fugindo do monstro. Nem mesmo fogo o monstro lançava de tão determinado a tirar a garota de suas costas.
– Essa garota vai se matar com a Quimera e matar a todos nós! – Uma das filhas de Afrodite acabou reclamando antes de pular para o lado escapando da Quimera e sem sorte caindo numa poça de lama. – Quer dizer, agora quem mata essa garota sou eu! – Enquanto outros semideuses seguravam a filha de Afrodite. Heather ainda se concentrava na besta meio felina aparentemente cansada e se tornando mais lenta.
– Isso gatinho, vamos nos acalmar! – Incentivou rápido demais. A Quimera usou toda a sua força num movimento brusco, impossibilitando a filha de Íris de se segurar a jogando diretamente para o chão. – Ai! Isso não vale!
Agora finalmente seria morta, enquanto formulava uma teoria em sua cabeça. Não tinha pensado antes, mas, e se tivesse sido mesmo ela quem criara aquela barreira de cores? Será que conseguiria criar outra ou talvez criar uma arma? Mesmo no desespero se concentrou. Desconhecia seus poderes e muito menos sabia como controlar eles, no entanto, era sua única chance. Mais uma vez a Quimera se preparou para lançar fogo contra ela. As chamas estavam avançando em sua direção e nada de proteção ou arma. Porém, algo aconteceu com as labaredas da Quimera. Quando o fogo se aproximou da garota, este brilhou de uma forma diferente e moveu-se para a mão dela. No princípio Heather se assustou ao ver as chamas mudando de cor e ganhando forma. Mas logo em seguida acabou agradecendo sua mãe por aquilo. Agora a Quimera já não laçava fogo parecia ter se esgotado e ainda se encontrava de boca aberta, como se estivesse tentando. Enquanto isso, a filha de Íris segurava uma lança de quase dois metros multicolorida.
– Rá rá, agora é a minha vez!
Ok, ela era definitivamente maluca, pois correu em direção da Quimera e moveu sua mão com a lança contra a boca ainda aberta do monstro. Em segundos sua nova arma desapareceu pela garganta do animal e este, por sua vez, entrou em colapso. Primeiro tremeu, depois sua cabeça de cabra começou a dar cabeçadas na de leão e a serpente balançava para todos os lados como se fosse um balão perdendo o ar. Logo a Quimera começou a brilhar e quando Heather notou, o monstro estava pegando fogo de dentro para fora. Aos poucos a garota via o monstro ser consumido pelas chamas e finalmente terminou, restando apenas às cinzas no chão a sua frente, e os outros semideuses a sua volta boquiabertos.
– Ok! Quem é o próximo? – Heather perguntou com um sorriso no rosto, sorriso do qual durou apenas alguns segundos. Em seguida, sua vista escureceu e as pernas se transformaram em mingau levando-a ao chão, desmaiada.
Assim que sua visão escureceu e a garota voltou a abrir os olhos, se viu em outro lugar, não no bosque como antes. Estava parada de frente a uma loja de conveniência. Na porta, lia-se uma placa pintada à mão: PRODUTOS & ESTILOS DE VIDA ORGÂNICOS ARCO-ÍRIS.
Só poderia ser brincadeira, a loja se chamava daquela forma? Quando estava pensando em se virar, viu a porta da loja se abrir sozinha como se a convidasse. Bem, agora não tinha como fugir, ou tinha? Não, não tinha, e quem quer que estivesse lá dentro, já a tinha visto. Com os passos rápidos subiu a escada da loja e atravessou a porta, entrando em um novo "mundo". As luzes da loja se acenderam. Música de flauta começou a tocar. Os largos corredores estavam cheios de latas de nozes e frutas secas, cestas de maçãs e araras com camisas tie-dye e vestidos de tecidos leves como os da fada Sininho. O teto era coberto de sinos de ventos. Ao longo das paredes, caixas de vidro exibiam bolas de cristal, geodos, apanhadores de sonhos de macramé e um monte de outros itens estranhos. Devia haver um incenso sendo queimado em algum lugar, ou melhor, vários, já que tudo cheirava a buquê de rosas queimadas, Heather jurava estar sonhando.
Ah, claro! Debruçada sobre um balcão, olhando entediada para uma revista, estava uma garota que aparentava ser universitária. Mas ao ver Heather, a garota fechou a revista e saiu de trás do balcão. Ela era baixa e musculosa, com botas de cadarço, bermudas cargo e uma camiseta bem amarela escrito: P.E.V.O.A.I.
– Posso ajudar? – Finalmente a garota caminhou em direção onde Heather estava.
– Hm... Não, eu só estava de passagem! Descul... – Heather estava quase terminando de falar, quando uma voz cortou o que ela dizia.
– Fleecy, temos algum novo cliente? – uma nova voz surgiu dos fundos da loja, sendo seguida por sua dona. Uma mulher de meia-idade com pele azeitonada, longos cabelos negros, óculos sem aro e uma camiseta com as escrituras: Vida natural, vida saudável! Ela usava colares de âmbar e anéis de turquesa. E cheirava a pétalas de rosa. – Ora, ora, quem diria! Olá, pequena!
– Pequena? Desculpe senhoras, mas entrei na loja por engano! Eu não deveria estar aqui! Eu... – Heather não sabia como completar a frase. Não sabia como tinha chegado ali e nem como ir embora. E a mulher a sua frente parecia muito com alguém que Heather conhecia, só restava saber quem.
– Ah, não está me reconhecendo! Pequena garota abra seus olhos, liberte seu coração, abrace a vida saudável. Sou eu, Íris! Sua mãe!
Então era dai que a mulher se parecia com alguém. Heather se parecia com ela. Aquela era a mãe da garota, uma deusa.
– M... mãe?
– Fleecy, por favor, vá buscar uma xícara de chá para a minha pequena? Pode trazer uma para mim e para você também, se desejar! Preciso ter uma conversinha com ela! – Íris falava de um modo doce e calmo. Enquanto via a "assistente" de sua mãe sumir na loja, Heather se virou para a deusa no momento em que esta falava.
– Bem, minha pequena, nós não possuímos muito tempo, então tenho que ir direto ao ponto! Essa missão em que você está indo. Será perigosa e preciso te entregar algo. Não me faça perguntas, apenas aceite e você logo vai entender o que deve fazer! – A deusa tirou de dentro de seu bolso uma pequena pedra. Um prisma. Conforme a luz branca da loja atingia o prisma, um arco-íris surgia do outro lado da pedra transparente. Quando a garota segurou a pedra sentiu esquentar suas mãos, mas não era como o calor das chamas da Quimera, era na verdade um calor agradável. – Soube que Apolo presenteou o filho dele e eu não poderia ficar para trás, não é?! Esse prisma vai se transformar em uma lança ou espada, o que preferir! Pode usar para mandar mensagens de íris, no caso, minhas mensagens! E quando mais estiver precisando de ajuda conseguirá escapar com esta pedra, levando os seus amigos junto para qualquer outro lugar. Como se as mensagens de íris tivessem se transformado em mensagens de teletransporte. Porém, essa escapatória só poderá ser usada uma vez e depois nunca mais, use com cuidado!
– Mãe! Eu...
– Filha, fique quieta e me escute! Para onde você vai, nenhum semideus se aventuraria. Até mesmo nós deuses mantemos certa distância! No caminho, os membros da missão vão enfrentar um desafio para si próprio e o seu vai ser o primeiro. Peço que não sinta medo, lembre-se que estarei te protegendo. O que vocês buscarão está muito bem escondido, mas sei que vocês encontrarão. Todos subestimam meus filhos por causa dos meus atributos, no entanto você mesma viu, enquanto lutava, do que é capaz. Não deixe que ninguém te subestime.
– Mãe! O que vamos enfrentar? Qual é o meu desafio? E o que quer dizer com não deixar ninguém me subestimar?
– Já disse filha, nada de perguntas! Deuses não podem interferir no caminho dos mortais, apenas podemos ajudar! Agora guarde o prisma no bolso e se prepare para acordar! Peço desculpas por não podermos tomar chá, talvez outra hora! Zeus já deve estar sentindo nossa conversa e vai ficar furioso comigo! Agora vá e acorde!
Assim, que a garota colocou seu prisma no bolso, piscou os olhos e ao abri-los estava encarando o rosto de Ethan.
– Droga, garoto! Sai de cima de mim!
Viu o garoto rir e se sentou no sofá em que estava. Estava em uma sala diferente de antes. Tinha uma lareira, outros sofás, uma mesa de centro. E mais três pessoas ali, tirando Ethan e ela mesma. Quíron era uma das pessoas, desta vez estava sentando em uma cadeira de rodas e Heather não sabia dizer como o corpo de cavalo tinha sumido ou se encaixado na caixa de metal. Elizabeth era outra, encostada na janela com um olhar preocupado que suavizou ao ver a amiga acordada, acabou até sorrindo. E o último, era um rapaz loiro parecido com um surfista, de olhos azulados... Bem, seus vários olhos eram da mesma cor. O cara deveria ter olhos nos braços, nas mãos, nas bochechas, em todos os lugares aparentes e talvez até nos não aparentes.
– Finalmente, acordou a bela adormecida! Tivemos que pedir para que Argos, o chefe de segurança, trazê-la aqui para a Casa Grande. – O primeiro a falar algo tinha sido Ethan. Assim que disse o nome Argos, apontou para o cara loiro com os vários olhos. – Você dormiu por dois dias inteiros e não parava de falar sobre loja de conveniência e chá, estava sonhando com o que afinal de contas?
– Eu... Sonhei com a minha mãe! – Heather começou a relatar sobre o seu sonho e os alertas de sua mãe.
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