A Joia da Loucura
1 Elizabeth – Capítulo 1
Notas iniciais
Mesmo antes de toda a bagunça se iniciar, Elizabeth não estava tendo lá um ótimo dia. Desde bem cedo estava sentada no fundo de um ônibus escolar com seus colegas de classe, ouvindo todo aquele falatório irritante que se impunha das bocas de todos. A única parte boa daquela viagem era que ela poderia conversar mais com seus amigos sem ninguém se importar. Sentada ao seu lado direito, na cadeira do corredor do ônibus, estava Heather, a primeira pessoa em que conhecera naquele colégio. E sua melhor amiga e confidente, como era de se esperar.
Heather não era uma garota feia. Seus cabelos, de uma coloração castanha quase preta, naquele dia caíam em cachos sobre o ombro. A pele clara, mas os olhos escuros formando um contraste harmonioso em seu rosto. Vestia um jeans acompanhado de uma camiseta branca. Era daquele jeito simples que ela ficava bonita, ao menos era o que Elizabeth achava da amiga. Mas no momento, Heather estava falando sem parar. Tudo bem, Lizz não estava realmente prestando atenção no assunto, sabia apenas ser alguma coisa sobre revistas de moda e como este não era um atrativo para Elizabeth, ela apenas olhava através da janela observando a cidade passar em borrões, enquanto o ônibus seguia viagem.
Seus pensamentos começaram a vagar bastante até que um brilho no céu chamou a sua atenção. Poderia ser apenas um avião refletindo a luz do sol em sua fuselagem, mas, de algum modo, aquele brilho era diferente. Diferente do que, até então, ela já havia visto. Por isso acabou franzindo a testa, olhando para onde o brilho estivera antes.
– Lizz? O que foi?
A voz de Heather a chamou novamente para si, ao pegá-la um pouco de surpresa.
– Hm... Nada! Apenas vi um avião!
Sim, ela sabia que aquilo não era um avião e não sabia como tinha certeza daquilo, mas deixaria quieto quanto à informação, não queria ser taxada de maluca.
– O que foi meninas? Cansaram de falar sobre as revistas?
Este era seu outro amigo, Ethan, que acabava de virar ficando de joelhos em sua cadeira para olhar as garotas que estavam no assento de trás. Foi o segundo quem Elizabeth conheceu no colégio. Aliás, conheceu graças a Heather, que acabou brigando com ele, depois de muito tempo de implicância entre os dois, e Elizabeth se meteu na briga, levando os três para a coordenação, e claro, ficaram presos até depois da hora, de castigo. Ao menos desta briga surgiu uma boa amizade entre os três. E não poderia falar que ele era feio, pois não era. Era um garoto de pele bronzeada, os cabelos eram de um castanho bem claro, quase dourados, lisos e curtos. Não tão magro e nem tão gordo, era de uma aparência normal nada de diferente nele, tá, talvez os olhos que eram um azul penetrante.
– Engraçadinho você, hein, Ethan! – respondeu Heather, enquanto mostrava a língua para ele.
– Sei que você me ama, Heather! Pena que tem vergonha de assumir!
E com aquelas palavras ele tinha acabado de receber uma tapa na testa provido por Heather, fazendo com que Elizabeth sorrisse. Ao lado de Ethan estava sentado o último membro do grupo, era Pólux. O mais velho do grupo, devia ter na base de dezessete anos, talvez dezoito, enquanto os outros três possuíam por volta de quinze anos. Pele morena, cabelos encaracolados, olhos escuros e um pequeno cavanhaque no queixo. Naquele dia estava vestido como quase em todos os outros, camiseta preta, calça jeans e o boné que ele nunca largava. Logo, Pólux olhou por entre os bancos, com um sorriso nos lábios enquanto falava.
– Vocês estão chatos hoje, hein?!
Com aquele comentário o quarteto seguiu rindo e conversando, enquanto o ônibus seguia por entre os prédios da cidade onde estavam. Nada ali interessava, então acabavam na conversa mesmo. Até que a voz vinda da frente do ônibus chamou a atenção de todos.
– Queridas criancinhas! Prestem atenção! – A voz vinha da professora de história que cismava em tratar a todos como crianças e não como os adolescentes que eram. – Estamos finalmente chegando. Se olharem para a sua direita será possível ver o Monumento a Washington! Um dos maiores Obeliscos aqui nos Estados Unidos! E, ali será a nossa primeira parada. Peço que todos juntem suas coisas e se preparem para sair do ônibus! Ah, e mais uma coisa. Vocês quatro... – a professora apontava para o quarteto do qual Elizabeth fazia parte – Se fizerem, falarem, pensarem ou até respirarem e algo errado acontecer, podem ter a maior certeza que esta vai ser a última excursão da vida de vocês! Isso vale principalmente para você, pequena Elizabeth.
Com aquele aviso a visita à Washington estava iniciada. Bem, era raro uma excursão naquele colégio interno e a primeira em que Elizabeth conseguiu ir era logo para Washington, com sua "querida" professora de história, alguém tão adorada — ou quase, e claro, acabou recebendo o pequeno aviso. Elizabeth e seus amigos costumavam fazer brincadeiras, mas não era nada tão pesado. Aquela professora que os odiava mesmo.
Depois de alguns minutos, todos já haviam descido do ônibus e se encontravam na fila para entrar no monumento. Elizabeth já estava começando a se sentir entediada, principalmente por estar sendo toda hora vigiada por sua professora. Pelo visto eles não eram as únicas pessoas que tiraram o seu dia para visitar o lugar, dava para ver dois grupos de turistas. Quatro chineses discutindo estavam parados próximos a entrada, um grupo de cinco brasileiros, que era fácil de identificar graças às camisas da Seleção Brasileira vestidas por eles, estavam parados logo atrás dos chineses conversando calorosamente entre eles, e, logo depois daqueles cinco brasileiros, vinha o grupo da escola de Elizabeth. Quando finalmente chegou a vez do pequeno grupo do colégio, que deveria ter entre dez a vinte estudantes entraram todos de uma vez com a permissão do guia e subiram as escadas até um andar onde conseguiam olhar o horizonte através de uma janela cravada na pedra do monumento.
Elizabeth nem mesmo escutava o que o guia falava sobre a história do local, estava ocupada no momento admirando pela janela o mundo lá abaixo e tudo que se estendia aos pés do monumento. Quando já estava se afastando da janela, viu novamente o brilho no céu e desta vez, ele aparentava estar mais próximo. Assim que o brilho surgiu, sentiu certo formigamento em sua nuca como se alguém houvesse assoprado no local, o que aumentava ainda mais suas suspeitas que algo iria acontecer. Ela não sabia como e nem por que, mas sentia que algo iria acontecer.
– Muito bem, quero todos reunidos aqui para um rápido teste! Primeiro, me digam o que o guia falou logo assim que entramos no Monumento. Quando o construíram, quem o construiu justamente ali e o que ele representa? – a professora de história estava de braços cruzados na frente do grupo, olhando para cada um, esperando alguém responder, até que seus olhos se encontraram com o de Elizabeth. – Pode me responder Elizabeth? Ou estava ocupada demais olhando pela janela?
Com aquelas palavras, a garota sentiu seu rosto queimar. Tudo bem que ela era um pouco bronzeada, não tanto quanto Ethan, mas nem mesmo daquela forma dava para esconder suas bochechas se avermelhando com a vergonha.
– Desculpe professora, não consigo lembrar!
– A resposta correta seria: Construído entre 1848 e 1888, foi desenhado pelo arquiteto Robert Mills e é um memorial a George Washington! Agora, como sua resposta foi completamente errada, menos dois pontos para você, Elizabeth! Mas, agora se vocês não se importarem, que tal um piquenique aqui? Antes de irmos novamente para o próximo ponto turístico? – a professora estendeu o braço, abrindo um sorriso largo para todos, mas ao focalizar seus olhos em Elizabeth seu sorriso mudou para algo prazeroso, como se a mulher gostasse de tirar pontos da garota, o que pelo jeito era verdade.
A tarde tinha passado rápido, todos comeram algo que tinham trago, Elizabeth ainda estava com um pedaço de sanduíche nas mãos e tentava parar de rir de Ethan, que por sua vez, fazia brincadeiras imitando alguém da sala de aula. Elizabeth ainda tentava entender como seu amigo conseguia imitar tão bem as outras pessoas só de olhar apenas uma vez o modo como eles agiam.
– Criancinhas, cuidado para não quebrarem nada! Criancinhas, não toquem ai! Elizabeth está querendo ficar novamente de castigo? – Ethan estava imitando perfeitamente o timbre de voz da professora de história deles, até mesmo imitava um pouco a voz. Vez ou outra ele parava de falar, pois a mulher olhava na direção do quarteto, mas assim que tirava os olhos, ele voltava as suas imitações.
– Ta, ta, minha barriga já está doendo de tanto rir, por favor, pare! – Heather estava com os braços em volta da barriga, o rosto completamente vermelho de tanto gargalhar e com um pouco de falta de ar por causa daquilo.
– É cara, para um pouco! Vamos comer, vai. Antes que a "babá" nos mande levantar para mais um passeio! – Pólux estava rindo um pouco, mas não o de costume e até mesmo seu tom de voz estava um pouco sério, o que atraiu a atenção de Elizabeth.
– Pólux, o que fo... – a sua voz perdera total intensidade, novamente notara o brilho no céu, e desta vez algo a mais. Percebendo a sombra negra que acompanhava o brilho, que aos poucos ganhava tamanho conforme se aproximava do solo. Foi com terror crescendo no peito e aquela sensação incomoda na nuca que Elizabeth notou a sombra indo direto em sua direção. Talvez seu olhar de medo ou sua boca escancarada de descrença tenha atraído a atenção de Pólux que olhou na mesma direção em que a garota olhava, e de moreno o garoto passara a pálido, como se estivesse acabado de ver um fantasma.
– Não... Isso não! – Pólux não perdeu tempo falando, já tinha se levantado e puxado os três amigos pelos braços. – Corram! Elizabeth corra, aquela coisa está aqui atrás de você! Fuja, vá com Ethan e Heather para o mais longe daqui, eu cuido disso! Vá! AGORA!
Seu grito fez com que Lizz despertasse de seu "transe", e chamou a atenção de todos ao redor, Elizabeth viu algumas pessoas apontando para sombra. E rapidamente foi obedecendo, agarrou o braço de seus amigos e começou a correr, mas algo dentro de seu peito a impedia de fugir e a fez parar a poucos metros de Pólux com os amigos ainda presos pelos braços. Talvez sua consciência falando que era errado deixar Pólux para trás... Não, era algo diferente... Era vontade de enfrentar quer o que fosse aquilo.
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