Luís Carlos acordara no sofá da casa de Rodrigo, que estava esparramado no outro sofá, roncando feito uma motosserra. Os dois haviam bebido e conversado até quase virarem a noite. A boca estava seca por causa da bebedeira de horas antes.

Levantou-se com um pouco de dificuldade e caminhou até a cozinha, apanhou um copo de armário e o encheu com água do filtro de barro sobre a bancada.

Na mesa, estava Marta, sozinha, tomando café em silêncio.

— Bom dia, Marta! — Luís sentou-se à mesa, de frente para a esposa do amigo. — Eu posso falar com você?

A mulher apenas balançou a cabeça, concordando.

— Por que você não fica mais perto da gente nas festas? — ele iniciou, e ao perceber o espanto de Marta, Luís pode sentir seu coração dar um pulo. Ele havia tocado na ferida. Era sua chance de desestabilizar a oponente. — Sabe... Antes você participava, ria, bebia com a gente e agora você se tranca no quarto toda vez que eu chego.

Naquele instante. Marta voltou seu olhar para o rosto de Luís. O que era para ser um contato visual rápido, por educação, se tornou uma longa encarada. Ela ficou nervosa de repente, como se tivesse visto algo diferente. Suas bochechas ficaram vermelhas e sua respiração começou a acelerar. Foi como se a mulher o tivesse visto pela primeira vez.

— Eu... — Marta gaguejou, desviando o olhar, parecendo alguém que finalmente se liberta de uma hipnose. — Eu... Eu estava sobrando e decidi não atrapalhar mais com a minha presença! — ela rebateu, secamente, enquanto erguia o queixo para demonstrar superioridade.

— Você nunca atrapalhou, Marta. — respondeu o loiro. — Na verdade, você faz muita falta. Nós sentimos a sua falta, Marta. — continuou, olhando nos olhos da mulher. — Não se afaste de nós.

Antes que Marta pudesse responder alguma coisa, Luís Carlos levantou-se e saiu da cozinha. Estava iniciada a "operação megera".

Com aquela conversa, Luís percebeu que Marta estava diferente, menos arisca, porém continuava a se esconder no quarto. "Ela vai dar abertura, mas eu preciso esperar" pensou consigo mesmo. "E se ela... Se apaixonasse por mim? Eu poderia usar isso para mostrar ao Rodrigo que a mulher dele não vale nada..." "Como criar paixão dentro da cabeça de outra pessoa?"

A resposta estava bem perto... Marta ainda sentia muita raiva da aventura extra-conjugal que o marido teve anos antes. Nenhuma mulher se sentiria valorizada depois de sofrer uma traição... Era só usar isso a favor do jogo. Parecia cruel, nem ao menos Luís concordava com a merda que Rodrigo havia feito, mas ele tinha o dever de ficar ao lado do amigo. Afinal, mulheres vem e vão, os amigos ficam.

Depois de alguns dias, era por volta de 14h. Luís Carlos acabava de sair do merecido banho depois de uma manhã intensa de trabalho na fábrica. Seus filhos estavam na escola e sua mulher estava trabalhando na loja de roupas no centro da cidade. Isso significa que ele estava sozinho em casa. Quer dizer... Sozinho até que...

— Luís Carlos! — uma voz familiar quebrou o silêncio da escuridão. A voz acompanhava batidas na porta. Era Marta.

"Eu sabia que ela iria me procurar" pensou consigo mesmo, enquanto se enrolava na toalha para sair do banheiro e ir direto para o quarto.

— Pode entrar, já tô indo! — exclamou o loiro, vestindo-se diante do espelho na porta do guarda roupa. Luís não era de se jogar fora, pelo contrário, era um belo homem de trinta anos, alto, de olhos azuis e brilhantes, cabelos loiros e lisos, mantidos curtos. Seus traços bonitos eram arrematados com um bigode, que, somando com seu físico forte na medida certa, ele lembrava muito aqueles galãs hollywoodianos dos anos 80.

Minutos depois, o loiro apareceu na sala para atender a visitante, que já estava acomodada no sofá, à sua espera.

— Oi, Marta! — disse ele, secando os cabelos com a toalha. Marta se levantou do sofá e voltou seu olhar ao dono da casa. Luís teve a impressão de a mulher ter ficado ruborizada, disfarçando certo desconforto. Só então ele percebeu que estava sem camisa. — Er... Tudo bem? — acrescentou, percebendo a tensão no ar.

— Eu preciso falar com você! — respondeu a mulher, rispida, enquanto elevava o queixo.

— Quer um café, ou água...

— Eu quero que você pare de enrolação e me diga logo quem é a puta que o meu marido andou comendo. — Marta rebateu, com dureza na voz.

Notas finais
O que acharam? Será que o Luís vai contar alguma coisa? Até mais!