A Ilha do Sherdacé (Hastorn)
16 Capítulo 15
Logo pela manhã, os quatro irmãos foram em direção ao cemitério, passaram por algumas ruas apertas e quentes até chegarem a um terreno com árvores sem folhas e aparentemente deserto.
—Ali foi onde ela foi enterrada. — Arion apontou uma árvore sem folhas.
Gaherd se ajoelhou em cima do tumulo dela, e ficou olhando um tempo o chão frio e seco, de repente ele foi ficando marcado das lágrimas que escorriam do seu rosto; ele tentou segura-las, mas a tristeza era grande demais, chorou como nunca havia chorado antes e nem voltaria a repetir até o final de sua vida. Sentia tanta vontade de abraça-la. Passou tanto tempo sonhando com o reencontro com ela e agora estava tudo acabado. Cada vez que pensava nisso mais vontade tinha de chorar. Ele agradeceu por estar sozinho, não era bom que ele, um homem (assim ele se considerava) chorasse. Samantha ficou comovida, mesmo distante podia ver que ele chorava e soluçava muito.
Pausa:
Para que não haja duvidas, ou se diga apenas que foi uma “suposta morte” esclareço desde já. Sim. Realmente a rainha Alene foi enterrada em uma cova comum longe de casa e longe de sua sanidade. Mesmo sem conhecer Gaherd pessoalmente diria que ele foi mais feliz chegando tarde demais do que se visse o estado de sua mãe. Não havia muita sensatez dentro de sua cabeça, mesmo que seja tão difícil ler a mente de uma pessoa em um grau de perturbação como o dela. Pelo sim pelo não, digo de uma vez por todas como foi o final da curta vida de Alene Amonati:
Foi logo após o almoço, as feridas estavam começando a cicatrizar ela sentou em frente a lareira com o olhar fixo no fogo. Não pensava em nada. Era conflitante para ela. Manter a mente vazia era mais confortável. A dona da casa perguntou algo a ela, mas como sempre ela permaneceu calada. Ainda restavam resquícios de sua beleza, mesmo depois de todas as cicatrizes externas e internas. De súbito sentiu algo estranho. Como se seu corpo estivesse dando um aviso. De alguma forma ela sabia. É difícil definir a morte, sendo eu um ser imortal. E sendo Alene um ser perturbado demais para entender o que se passava em sua cabeça. Pela primeira vez em muito tempo permitiu-se pensar. Varias cenas de variados momentos de sua vida. A maioria tão vazias e dispensáveis, ou mesmo tristes que resolveu puxar da memoria um tempo agora distante. Tinha 14 anos e conversava com um garoto, um pouco mais velho que ela. Era um tempo bom. Não conseguia lembrar seu nome ou seu rosto exatamente, lembrava o som de seu riso e de como ele parecia estar apaixonado, mas não por ela, pelas palavra; suas mãos, viviam manchadas de tinta, de tanto escrever músicas, historias e poemas. Lia todos com uma paixão que ela ficava encantada só pela maneira com que ele pronunciava cada palavra. Naquele momento ela sabia que era realmente feliz. Uma felicidade diferente da que sentiu quando deu a luz a seus filhos. Agora todos mortos. Ah, ela mal sabia... Preferiu ignorar a lembrança deles e de Reginald e pensar apenas no menino da sua adolescência. E foi revivendo aquele momento repetidas vezes até que tudo em seu dentro de si silenciou e apenas restou seu corpo frio com os olhos fixos na lareira.
Samantha deixou Arion e Taylor conversando e foi se aproximando devagar. Sem que Gaherd percebesse ficou sentada atrás dele, apenas olhando. Quando ele finalmente cansou de chorar, virou-se com o rosto inchado e se deparou com Samantha que também derramara algumas lágrimas.
—O que você estava fazendo aqui? — Disse ele virando o rosto envergonhado.
—Vendo.
—Não tinha mais nada pra ver? — Ele se levantou de costas para ela.
—Achei que você precisava de ajuda, eu perdi meu pai sabe, sei como é.
—Eu daria de tudo para ter perdido meu pai ao invés da minha mãe. E se eu precisasse de ajuda, teria chamado minha irmã não você. — E saiu em direção a Taylor e Arion.
Naquela noite ele sonhou com a mãe, um sonho estranho: ele tinha quatro anos e ia ao encontro de Alene que carregava Elisa no colo, então olhou pra ele e sorriu, logo em seguida foi arrastada por guardas para fora, deixando Elisa chorando. Elisa aos prantos porque teve sua mãe arrancada de si, ele sabia o que era isso. Acordou assustado e percebeu que havia chorado durante o sono. Deitou novamente e dormiu dessa vez sem sonhos.
Igrane foi ao mercado de Monte Cristallum, deixando os quatro sozinhos. Gaherd estava muito abatido, mas Samantha estava sempre ao se lado. Isso o irritava. Por que tanta perseguição?
—Por que você sempre está do meu lado?
—Acho que você precisa conversar.
—Eu não quero conversar. Só quero que você me deixe em paz.
—Tudo bem, se decidir conversar, eu vou estar ali. — E mostrou uma sala isolada no final de um pequeno corredor ao lado da cozinha. Ouviu pequenas batidas e ficou curioso, aguentou por um tempo, mas a curiosidade era grade demais. Foi até a parte isolada da casa e se deparou com Samantha fabricando uma peça que lembrava um bracelete com algumas pedras coloridas.
—Você que fez?
—Sim. Eu faço algumas coisas de vez em quando.
—Você é uma ferreira?
—Mais ou menos, mas só quando minha mãe não está.
—Ela não gosta?
—Diz que uma mulher não deve trabalhar com esse tipo de coisa. Essa era a oficina do meu avô.
—É uma peça muito boa.
—É.
—E essa espada? — Era grande e rica em detalhes.
—Meu irmão que fez, mas eu que o ajudei. Ele gosta de lutar. — Gaherd olhava com cuidado o objeto, não era uma espada como as que Max fabricava, era sem duvidas muito melhor, parecia realmente uma espada e não simplesmente um pedaço de ferro meio torto e meio afiado. E você?
—Eu o que?
—Sabe lutar?
—Mais ou menos. Eu brincava com meu amigo com galhos.
Ela riu.
—Galhos?
—O filho do homem que me criava não emprestava aquele pedaço de metal pra ninguém. Digo isso por que agora sei o que é uma espada de verdade.
—Quer tentar?
—Mas a espada não é do seu irmão?
—Tem varias aqui. — E entregou uma a ele.
—Como você conseguiu isso? É leve demais para uma espada.
—Eu tenho alguns segredos. — E sorriu para ele. -Vamos treinar.
Ela os levou até a floresta carbonizada. Passaram um bom tempo ali. Até que Samantha se jogou em cima da Gaherd fazendo-o cair no chão. Eles riram por um momento. Ela brincou com seu cabelo cacheado. Ele acariciava sua cabeça olhando para ela com certa admiração. Quando ela percebeu seu olhar o confundiu com outro tipo de olhar e pulou para trás, falando constrangida:
—Vamos pra casa.
Ela foi na frente arrastando a espada no chão. Gaherd foi a passos lentos pensando o porquê dela ter reagido daquela forma e ficou confuso. Samantha também se sentia da mesma forma.
—Chegamos! -Gritou ela ao entrar na casa.
—Da próxima vez que sair sem me avisar eu juro que lhe dou umas palmadas Samantha.
—Você também Gaherd.
—Desculpe.
—E ainda anda com uma espada? E se mamãe tivesse chegado?
—Gaherd! Não sabia que você lutava. — Taylor olhou espantada para as mãos do menino.
—Com uma espada de verdade não. — Taylor poderia ter dado mais broncas, mas ele parecia mais animado e não queria que ele voltasse a pensar em Alene.
—Acho que podemos ir embora agora.
—Não. Fiquem. Um ou dois dias a mais.
—Só estamos dando prejuízo pra vocês.
—Taylor sabe costurar.
—É mas....
—Ensine minha irmã e podem ficar sem culpa. Ela precisa aprender a costurar e tecer. Temos um acordo?
—Sim. — Respondeu ela sem jeito.
Os dias foram se transformaram em semanas e Samantha que agora tinha certa técnica com os tecidos tentava agradar cozinhando.
—O que é isso? — Perguntou Gaherd quando viu o liquido jogado em seu prato.
—Gaherd. — Taylor o censurou.
—Eu acho que ficou bom, experimentem.
Gaherd e Taylor provaram a sopa de Samantha, era horrível.
—Esta bom?- Samantha perguntava ansiosa.
—Uhum. – falou Gaherd engolindo com nojo o liquido viscoso. — Taylor deu um cutucão com o cotovelo nele.
—Está bom sim. — Taylor tentava ser agradável.
—O que está bom?- Perguntou Arion chegando em casa.
—Arion, eu fiz o almoço.
—Por quê? — Falou ele espantado.
—Pras visitas não passarem fome.
—Eles estariam melhor com fome. Não precisam comer isso aí, vamos pra uma taverna aqui perto, eles servem uma coisa mais agradável.
Os dois olharam para Samantha que fitava Ansur com pequenas labaredas nos olhos.
—Podem ir. – Antes de terminar a frase eles já estavam em pé.
—Você não vem?- Perguntou Arion.
—Não, vou ficar aqui. Não está tão ruim assim — e provou uma colherada.
—Esperem por mim... -Gritou ela tentando alcança-los.
Quando finalmente decidiram ir embora, Igrane os proibiu.
—Vocês nunca vão chegar lá antes do começo do inverno. Vão acabar mortos na metade do caminho.
—E o que vamos fazer aqui?
—eu realmente gosto de vocês aqui. Samantha tem progredido muito na arte do tear desde sua chegada.
—Minha mãe de criação que ensinou tudo.
—Eu até tentei, mas não sou boa professora.
Um silencio constrangedor se formou. Foi quebrado graças e pergunta de Gaherd.
—Onde está Arion?
—Caçando, não temos muita comida desde o incêndio da floresta, muitos animais morreram.
—O que aconteceu? — Gaherd lembrou da entrada da vila, e da floresta onde treinaram uma vez.
—Uma das caldeiras explodiu. As coisas tem ficado ruins desde então.
—O que tinha lá?
—Coelhos, alguns ursos, veados. Agora só um monte de árvores queimadas e o que sobrou do cadáver dos animais. Não tivemos mortes mas é muito difícil caçar com boa parte da floresta naquele estado.
—Meu irmão sabe um feitiço de fazer crescer mais rápido as plantas.
—Ele estuda na Grande Torre?
—Não.
—Pode traze-lo um dia aqui, seria muito útil...
Gaherd pediu um objeto que pudesse cortar fácil sentou em um banco em frente a um escudo polido e se posicionou, Samantha que olhava a tudo curiosa perguntou.
—O que vai fazer?
—Cortar o cabelo.
—Por quê?
—Não gosto dele comprido. Prefiro bem curto.
Samantha achava o contrario, no dia em que treinaram na floresta, adorou brincar com os cachos da cabeça de Gaherd.
—Quer ajuda?
Ele a olhou desconfiado. Mas mesmo hesitante deixou. Ela era habilidosa e tinha cuidado e paciência. Isso curava o pequeno trauma do ultimo corte feito por outra pessoa nos cabelos dele. Olavo os puxou e sem cuidado cortava os fios e acabava por arrancar outros, provocando certa dor. Mas com Samantha era diferente. As mãos delicadas apesar do trabalho com o ferro davam a Gaherd uma sensação boa. Quando ela terminou ele ficou desapontado, poderia ficar ali o dia inteiro com ela tocando sua cabeça. Samantha levantou o escudo para ele ver o resultado.
—Está bom?
—Está.
Ficaram um tempo parados olhando um para o outro se aproximando sem perceberem. Ele a beijou primeiro e o suto de Samantha não foi maior por que já o desejava há muito tempo. Segurou sua cintura e a puxou para mais perto de si. Se beijaram por um pouco tempo totalmente desajeitados devido a falta de prática. Só pararam por que ouviram os risos de Taylor que estava parada na porta.
~~*~~
Um rigoroso inverno se instalou. Nem dragões se arriscavam a sair das escuras cavernas. Em Monte Cristallum a comida começou a ficar escassa e os depósitos já estavam ficando vazios. Porém essa era a época de fartura do norte, sem os dragões a pesca era mais farta e segura.
—Eles comem peixe todos os dias e nós catamos migalhas. — Reclamou Arion comendo um pedaço de pão seco.
—O rei está melhor que todos, não podemos esquecer. — Gaherd falou sempre lembrando do ódio que tinha por Reginald.
—E a cada ano está pior. Vocês não sabem o que é passar por isso, moravam no sul. Aqui as coisas são diferentes desde o fechamento dos tuneis.
—Que tuneis?
—De pedras preciosas, essa vila já foi um ótimo lugar para se viver; ainda posso lembrar de quando eu era criança. O cheiro da floresta, as casas, as pessoas mais felizes mais confiantes.
—Vivamos disso, da fabricação de joias, agora só podemos explorar as minas de ferro.
—E apenas para o exercito, e a cada pedido o pagamento diminui, Mal da pra comer.
—Começamos a vender nossas joias para comprar produtos, mas elas estão acabando e todos sabem que a venda é ilegal.
Era um mundo novo, dessa escassez Gaherd e Taylor haviam se livrado, mas ambos sabiam de quem era a culpa.
Arion tentava caçar, mas se já era difícil na época farta, agora na época de escassez era quase impossível. Quando finalmente conseguiu agarrar um pequeno esquilo ouviu a voz dela:
—Tudo bem, eu desisto, você anda rápido demais. — Disse Taylor ofegante.
—Mas o que você está fazendo aqui?
—Te ajudando.
—Você? — Ele a olhava com desdém. — E com uma espada?
—Sua irmã também treina.
—Mas é diferente, eu sei que ela é boa por que eu mesmo ensinei tudo o que ela sabe.
—Me ensine então, oh magnifico cavaleiro.
Voltaram para casa e simularam uma luta. Taylor mostrou um talento nato para a luta, o que deixou Arion extremamente surpreso.
—Você é muito boa. Nunca vi algo assim.
—Não seja bobo, não precisa rir de mim assim descaradamente.
—Eu falo serio. Com quem aprendeu?
—Nunca peguei em um espada.
—Surpreendente.
Arion fez três espadas. E presenteou a Taylor e seu irmão.
—A terceira vocês podem dar a alguém especial.
Arion saia para caçar todos os dias, mas era raros os dias que voltava com a carne.
—Alguma coisa? — Perguntou Igrane ansiosa.
—Não mãe, nada. — Arion estava cabisbaixo.
—Não temos mais carne, em breve não teremos mais farinha. Não sei quanto tempo vamos aguentar.
—Vamos diminuir as refeições e as quantidades. — Tentou amenizar Samantha.
—Acho que seria melhor irmos embora.- Taylor estava muito desconfortável com aquela situação.
—De maneira nenhuma. — Proibiu Igrane.
—Mas estamos comendo toda a comida de vocês.
—São hospedes aqui. Vamos sobreviver. Já passamos por coisas bem piores.
As noites eram cada vez mais longas e geladas, os dias curtos e nublados. Em pouco tempo não havia nada para comer.
—Eu vou sair e tentar caçar nem que seja um coelho.
—Está nevando forte demais, pode haver uma tempestade.
—Não importa mãe, se não comermos algo vamos acabar morrendo de qualquer forma. Quatro dias sem uma migalha de pão... Eu só volto com comida.
—Eu vou com você. — Gaherd já estava vestido e armado.
—Sabe caçar?
—Eu aprendo. Melhor que ficar aqui sentado.
A caça foi fracassada, mas mesmo assim os dois permaneceram na floresta a espera de qualquer coisa viva que passasse. Ficaram sentados, porém fazia tanto frio que eles mal podiam se mexer, e em pouco tempo a neve que caia começou a encobrir seus corpos até que não restasse quase nada descoberto, um cobertor frio e mortal. Quanto tempo até a morte evidente? Ou de fome ou de frio.
—Gaherd? — Alguém o chamava, mas ele não conseguia mais pensar em nada. Os lábios que antes tremiam agora estava congelado, o rosto queimado de frio, cansado e com fome de Gaherd poderiam causar pena em qualquer um.
—Aquilo é um coelho?
—Acho que sim. — Gaherd se forçava a ver, mas a neve cobria quase todo o chão e o coelho todo branco se camuflava. Antes que percebesse Arion havia se atirado em cima do animal.
Em Arandril Reginald não sentia as consequências do inverno e todas as noites desfrutava de banquetes da manhã até a noite.
—Está sendo um inverno bem gelado não acha Harold?
—Muitas pessoas estão morrendo de fome e frio, não acha melhor distribuir pão?
—Não me incomode com assuntos sem importância. Esse povinho e suas doenças não me interessam.
Harold desejava do fundo que ele pudesse morrer. Se ele pudesse morrer ele mesmo o teria matado.
Quando a neve finalmente derreteu e o tempo esquentou eles anunciaram:
—Nós vamos embora hoje à tarde.
—Mas já?
—Estamos fora há muito tempo, em Tagom devem estar todos preocupados.
Poucos dias antes, Oghan havia aparecido pedindo permissão para ir com eles para o sul. Gaherd se despediu sem jeito de Samantha, Ele não considerava aquilo importante, sentiu como se tivesse traído Elinor.
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