A Horda

3 Ana Clara.


Era tarde da noite e eu caminhava pela rua daquele bairro aparentemente pacato. Minhas mãos estavam cheias de sangue e não carregava nenhuma arma comigo, lagrimas escorriam sem parar por meu rosto mas eu não emitia nenhum som.
Eram visíveis um ou dois errantes caminhando e se arrastando em cada esquina que eu passava mas eles nem sequer notavam minha presença, não tentavam me pegar, nem mesmo se viravam para me olhar.
Eu me mantinha andando sem direção, me afastava cada vez mais daquele bairro ate por fim parar, frente a uma carcaça de um carro, ao lado das portas dois corpos parcialmente mutilados, uma mulher e um homem vestidos com farda policial.
Me agachei próxima a eles e senti cada vez mais lagrimas descerem por meu rosto, constantes e silenciosas. Tudo estava silencioso, nem mesmo um som, um gemido, nada.

De repente senti meu braço ser puxado pelo homem que estava no chão, não reagi, logo a mulher agarrou meu outro braço e novamente permaneci sem reação, deixando me levar por eles e caindo ali até sentir a dor de duas mordidas, uma em cada braço, arrancando pedaços da minha pele. Tentei gritar mas nenhum som saia, senti novamente outra mordida e outra e mais outra.
Escutei uma voz feminina e com sotaque espanhol puxado, ela gritava comigo, a senti me tocar e a me balançar e seus gritos se tornavam mais e mais altos.

Acordei em um sobressalto olhando em volta e me afastando da mulher loira que tinha um olhar preocupado sobre mim. Lagrimas rolavam por meu rosto e eu soluçava. ' Foi apenas um pesadelo ' — ouvi a voz feminina falando comigo.

Olhei em volta, a janela, já havia amanhecido. Me sentei na cama, olhei pra mulher ao meu lado e sequei minhas lagrimas.

— 'C-como esta se sentindo? Seu braço, como esta? '— perguntei ainda tentando conter os soluços do choro involuntário.

A loira voltou a se deitar novamente e a olhar pro teto. — ' Ainda esta dolorido...' — Ela voltou a me olhar e pude ver um pequeno sorriso — 'Alias, me chamo Ana Clara.'

Olhei pra ela após secar as lagrimas que ainda teimavam em cair e meio sem jeito respondi a apresentação dela — ' Eu... bem, eu me chamo Maya, não posso dizer que é um prazer conhece-la nessas condições mas... fique a vontade para ficar aqui o quanto precisar, até seu braço melhorar e você descansar o suficiente. ' — Eu sabia que logo ela teria que ir, eu teria que ir, não dava para me manter ali o resto da vida... sozinha.

Os dias foram passando, a febre de Ana cedeu e ela já estava aparentemente melhor mas seu braço ainda estava em recuperação, pois parecia que havia infeccionado. Passamos quase uma semana juntas, ela me contando sua história e eu a minha. Ana parecia uma pessoa de confiança, e com o tempo acabei me apegando de mais a ela, sua história não parecia muito diferente da minha apesar da diferença de 10 anos.

Ana havia mudado para Atlanta com alguns amigos, veio da Espanha para cá pouco antes dessa loucura toda começar, perguntei a ela sobre os tais amigos que haviam vindo com ela mas a unica resposta que consegui obter foi que, após a infestação do vírus os seres humanos se tornaram cada vez mais selvagens e malvados.
Ela me explicou como que conseguiu aquele ferimento no braço, dessa vez com um pouco mais de detalhes. Ela estava com dois amigos, uma mulher e um rapaz, quando foram abordados por uma gangue de mais ou menos 7 homens com armas pesadas. Eles lhes fizeram uma proposta, ir com eles ou morrer ali, diziam ter um grupo de sobreviventes agora tentando montar uma comunidade pacifica para poderem combater os mortos-vivos e tentar sobreviver e recuperar suas vidas. Ana disse que o modo deles abordarem não parecia tão pacifico assim, eles mataram o rapaz e a moça conseguiu fugir sem ninguém a ver. Durante toda a discussão após a morte do rapaz, pode-se ouvir barulhos e gemidos vindo de todos os lados, eles haviam chamado a atenção dos zumbis e um monte deles estavam se aproximando, Ana apenas teve tempo de entrar no trailer onde estava algumas de suas coisas e sair dali o mais rápido possível enquanto eles se defendiam e matavam os zumbis mais próximos.

Durante a sua saída ela teve que desviar de alguns mortos vivos e acabou, sem querer, atropelando um dos bandidos e, consequentemente, o companheiro mais próximo deste descarregou um cartucho de balas no trailer e uma delas a certou no braço. Ela conseguiu fugir e só parou quando chegou aqui nesta casa aonde estamos agora.

Ana e eu nos distraiamos juntas enquanto eu cuidava de seu ferimento. Quando as vezes parecia ter alguns zumbis próximos de mais da casa eu saia para matar os mais perto e quando ela se sentia melhor e sem febre ela ia junto para acabar mais rápido. Porém, nossa comida estava começando a ficar escassa e os remédios também, o braço dela ainda não estava completamente curado e ela precisaria deles. Decidi então em sair a procura pelo condomínio. Era um lugar calmo então eu poderia entrar e sair das casas sem problema algum, pegar comidas, roupas e remédios rapidamente e voltar.

Ana exitou no começo em me deixar ir sozinha, mas a convenci e logo sai com duas mochilas vazias, uma arma presa no sinto do meu vestido e uma adaga em minha mão. Não pretendia demorar, iria vasculhar apenas as casas mais próximas e voltar ao entardecer, foi isso que ela me fez prometer, porém, não foi bem isso que aconteceu.

~ Ana, onde quer que esteja, me perdoe... eu darei um jeito de voltar. ~