A Hora das Sombras
1 ZERO
Seus passos eram cautelosos, o cascalho estalava nas solas de suas botas conforme atravessava as ruas daquele vilarejo. As chamas de uma casa incendiada eram a única fonte de luz naquele momento. Ela olhou para os lados, havia sangue por toda parte. No chão de cascalho, nas paredes das casas, sobre os corpos retalhados. Olhou para o céu e viu poucas estrelas, muitas nuvens e uma fraca lua crescente. Respirou fundo e voltou a caminhar. Um pouco mais a frente, perto dos estábulos, pode ouvir um tipo de sussurro, seguido de soluços, como se alguém estivesse em prantos. Apertou o passo, identificou que o som realmente vinha dos estábulos e então acelerou. Correu desesperadamente e então atravessou o portal do grande galpão onde deveriam estar os cavalos, mas agora só residiam animais mortos, completamente retalhados.
Respirou fundo novamente, sentiu um tipo de culpa, misturada com pena, pelos animais. Engoliu o sentimento, desviou os olhos e voltou a prestar atenção em sua audição. Enquanto caminhava ouviu os sussurros vindo dos fundos do galpão, numa das últimas baias. Caminhou lentamente até a entrada da baia e apoiada numa das vigas que compunham o portal, ela deslizou para dentro. Com os cantos dos olhos ela o encontrou, jogado no chão, coberto de feno e sangue. Sua garganta apertou. Droga, como ela odiava a lembrança desse sentimento. Tristeza.
Fechou os olhos por um segundo, controlando o sentimento e foi até ele.
— Lucan...?
— Eu vi de novo… de novo…
— Mas já? Não tem nem dois dias desde a última vez. A frequência tá aumentando. — ela disse, calmamente.
— Eu vi… nosso avô, rindo. De novo… e de novo…
Lucan estava transtornado. Estava agachado, abraçando os joelhos, tremendo de frio e medo. Seu rosto estava banhado em sangue, os olhos amarelos encaravam o nada com uma loucura intensa, que a incomodava. Ela pousou sua mão sobre o ombro de Lucan e logo a levou ao rosto dele. Não se importava com o sangue. Os dois não se importavam.
— Foi só isso dessa vez?
— Não… ela estava lá também… e ela saltava do mar e me engolia. — ele estreitou os olhos e cerrou os punhos com muita força — Foi tão real… tão…
Sem deixar que ele terminasse, o puxou para perto e o abraçou. O ato foi tão automático, que quando percebeu que ela o estava envolvendo com seus braços, Lucan arregalou os olhos, incrédulo e moveu suas órbitas para tentar encontrar o rosto da garota. Pode ver, com o canto dos olhos, que ela estava igualmente desacreditada. Passaram alguns segundos daquele jeito, ouvindo o silêncio da noite. Ambos encarando o nada, presos em seus pensamentos.
— Verônica…? — chamou, tentando acordá-la de seu devaneio.
— Sim… — disse, afastando-se do rapaz.
Assim que se afastou, ele pode finalmente ver seu rosto. Verônica era uma garota magra, de pele pálida, cabelos negros curtos, lábios carnudos e bem vermelhos, que combinavam com os olhos, igualmente grandes e de um castanho avermelhado que ele nunca viu.
— Você está bem?
Ela soltou um risinho abafado e encarou aquele garoto baixo, de cabelos castanhos bagunçados, olhos amarelos e completamente lavado em sangue.
— Eu que pergunto. Você não é o único estranho aqui, lembra?
Os dois riram.
Verônica se levantou, deu uma espiada em volta e percebeu que havia trapos e alguns pedaços de cavalo onde quer que olhasse. Levantou uma das sobrancelhas, admirada com o estrago que Lucan conseguiu fazer. Algumas das baias estava quebrada, havia o corpo coberto de feno no fim do corredor. Voltou a olhar para o garoto, que deu um sorriso triste e deu de ombros.
— Tudo bem, levanta daí, tenta se limpar o máximo possível, que eu vou tentar te achar roupar novas.
E assim Verônica saiu do estábulo, olhando em volta rapidamente e correu até a casa mais próxima. Forçou a porta, mas ela estava trancada. Estranhou, por que Lucan a teria arrombado para ver se restava alguém vivo lá dentro, ele sempre fazia isso. Foi quando olhou um pouco para cima e viu um arrombo na parede do segundo andar. Ergueu ambas sobrancelhas, hoje ele havia se superado. Respirou fundo e meteu o pé na porta, que se partiu da tranca e foi contra a parede interna. Entrou lentamente, passou um pequeno corredor e deu de cara com o primeiro cômodo que era o da lareira. Haviam algumas cadeiras, móveis com decorações e uma estátua de algum deus que Verônica não conseguiu, nem mesmo quis, reconhecer. O próximo cômodo era um quarto, com um grande armário. Verônica o abriu e revirou as roupas, até encontrar uma túnica e uma calça preta, e um par de botas. Ao se levantar e virar para a cama do quarto, ela viu os estragos de Lucan e uma de suas vítimas, um senhor, de talvez uns sessenta e poucos anos, partido ao meio, com o pescoço rasgado. A janela ao lado dele estava destruída. Deve ter sido por ali que Lucan saiu. Se voltando para a porta, foi que Verônica reparou nos batentes da porta, quebrados e com marcas de garras.
Decidiu que não iria mais reparar naquilo e se focar em levar o garoto de volta para o acampamento. Eles haviam dormido num rio, há poucos quilômetros daquele vilarejo.
Ao sair da casa, Verônica percebeu algo que a fez se xingar por não ter reparado assim que chegou no vilarejo. Um pequeno templo de pedra, com uma grande gravura de Yggdrasil entalhada nas portas de madeira. Ela se aproximou e analisou o desenho, quando viu o entalhe da runa de Odin, o deus dos deuses.
— Merda!
Ela correu de volta para os estábulos e encontrou Lucan jogando um balde de água sobre o corpo sujo. Feno e sangue desciam em cascatas pelos poucos músculos do rapaz. Ele se virou e ao ver Verônica parada, com um ar de preocupada, Lucan foi para trás de uma das baias.
— O que foi? Age como se nunca tivesse visto.
— Não é isso seu imbecil. Essa cidade... eles adoravam Odin.
O tom debochado de Lucan desceu junto com o ar que ele engoliu. Ele se apoiou em uma das divisórias das baias e pousou a cabeça sobre as palmas abertas. Sentiu algo cair sobre sua cabeça, eram as roupas que Verônica atirava sobre ele.
— Termine de se limpar e se vista logo. Temos muito pelo o que nos desculpar e só mais umas duas horas antes de amanhecer. Eu vou preparar o templo.
Lucan não viu quando Verônica deixou os estábulos. Ela estava com muita pressa. E devia, o sol nasceria em breve. O garoto pegou as roupas e voltou para o balde.
Em alguns minutos ele estava vestido e parado na frente do singelo templo de pedra, com portas de madeira, gravadas com Yggdrasil, a árvore dos mundos, com a runa de Odin em um de seus galhos. O interior obscuro do templo era iluminado por fracas vela, certamente acesas por Verônica. A mesma veio em sua direção, em silêncio, o olhando do alto dos poucos degraus, parada abaixo dos enormes batentes da porta. Ela estendeu a mão direita, com olhar terno. Ele estendeu a o braço e pegou a mão fria da garota, devolvendo o olhar. Os dois entraram no templo e se dirigiram até o altar, atravessando um corredor de pilares ornamentados com figuras do Deus-Rei e sua batalha contra o lobo Fenrir. Ao chegarem no fim do corredor, eles encontram a estátua de Odin, esculpida em mármore. O Deus-Rei estava em pé, com a cabeça baixa, apoiando em sua lança, Gungnir, como se ela fosse um cajado. Lucan se aproximou do altar e sem tirar os olhos do rosto da estátua ele se ajoelhou. Verônica o imitou.
— Odin, pai dos Deuses, senhor da sabedoria e protetor do sol e da lua… perdoa-me pois contra ti falhei. Perdoe cada vida inocente que em seu solo ceifei e cada guerreiro teu que humilhei. Permita aos seus bravos guerreiro lugar em tua mesa, pois bravos foram contra mim.
Lucan se abaixou em seguida e com a face ao chão, rogou em murmúrios, pedindo perdão pela afronta ao Deus-Rei. Verônica novamente o imitou e os dois voltaram a repetir o verso, em uníssono. Mas dessa vez, pediam forças, para a jornada longa que os aguardava.
— Odin, pai dos Deuses, senhor da sabedoria e protetor do sol e da lua… guie minha mão para o coração de meu inimigo. Abra meus olhos para a sabedoria que reside além de Midgard. Nos acompanhe em nossa luta contra as maldições de seus filhos e nos de o poder para vencê-las.
Verônica ficou em silêncio e logo se sentou nos calcanhares. Ao ver que Lucan não se levantava, ela pôs a mão em suas costas e sentiu seu corpo tremer. Logo em seguida, Lucan fechou as palmas das mãos, que estavam ao chão, em punhos e com todo o ódio que sentia, disse em voz alta.
— Odin, por favor… deixe-me matar Fenrir!
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