A História de Uma Semideusa - Crios
17 Minha Morte É Programada
Notas iniciais
Na minha frente, uma escada em um corredor estreito seguia reto até dar em uma porta ornamentada com escritos. Vector e o Sr. Terácio se aproximaram da casa, mas não entraram.
– Suba. – disse o diretor. – Lá em cima você encontrara um livro. Diga as palavras certas e ele se abrirá, revelando seu destino. Lembre-se: assim que você olhar o seu destino saia de lá e não tente ler outras paginas do livro.
– Entendi. – eu respondi. – Devo ir sozinha?
– Não. Vector irá com você. Estarei esperando vocês aqui fora.
Vector não parecia muito feliz com a ideia de entrar lá dentro, mas ele entrou mesmo assim. Parou do meu lado, deu um suspiro e começamos a subir. A escada parecia não acabar nunca e eu já estava bastante cansada, porém não parei. Algo naquele lugar me dizia que se eu parasse não iria gostar muito. Depois de uma hora (eu olhei no meu relógio) eu imaginava que já tivéssemos subido tanto, a ponto de ultrapassar o Olimpo. Finalmente chegamos à porta.
Eu coloquei a mão na maçaneta, mas ao toca-la a porta se abriu sozinha, revelando um lugar incrível. Eu esperava um sótão velho com bugigangas e um livro empoeirado no meio, mas fiquei feliz com o que veio. Era uma sala com as paredes inteiramente douradas, e prateleiras da mesma cor, cobertas de livros. A luz do sol que inundava o local chegava a cegar. No meio, em cima de um pedestal, estava um livro com a capa marrom e velha, mas com detalhes dourados incríveis. Um escrito em grego antigo dizia: Abra.
Aproximei-me do pedestal. Vector encarava encantado, todo o lugar. Eu toquei a capa do livro e imediatamente recuei a mão. A capa era quente, parecia que eu estava tocando em fogo (e creiam, as minhas experiências no São João podem provar). Vector se virou para mim.
– Tem que mandar ele se abrir. – disse ele.
– Abra. – eu disse, percebendo que minhas palavras tremiam.
O livro se abriu e as páginas começaram a se passar sozinhas e rapidamente. Hesitei um instante. O livro ia cada vez mais rápido. Quando já estava chegando quase no final, o livro parou aberto. Mostrava duas páginas. Uma estava com a imagem de uma garota extremamente parecida comigo, lutando contra o titã que eu identifiquei ser Crios. Na outra página, estravam escritos quatro versos:
Sangue de quatro deuses ela terá
A semideusa que o mal derrotará
Usando a força e a determinação
O último golpe virá do coração
Assim que eu acabei de ler o último verso, o livro se fechou. Vector olhava para mim com uma expressão preocupada. Eu comecei a ficar tonta e a ver as coisas meio turvas. Desci do pedestal e puxei Vector comigo, sem ligar para o protesto dele. Eu cambaleava e só parei do lado de fora da sala, no primeiro degrau da escada. Senti meus olhos se encherem de lágrimas e me sentei no chão. Vector se sentou do meu lado.
– O que foi que você viu? – ele perguntou.
– E-eu sei que sempre quis ser uma semideusa. – parei para fungar. – Ma-mas eu não imaginava que iria fazer parte de uma profecia.
Eu desabei a chorar. Vector me abraçou. Em outro momento eu teria achado aquilo embaraçoso, mas agora eu estava confusa demais para pensar em alguma coisa que não fosse a minha profecia. Vector se levantou e estendeu a mão para que eu me levantasse também. Descemos as escadas. No meio do caminho eu parei por um instante. Não conseguia andar direito e chorar ao mesmo tempo.
Assim que parei, vi uma escuridão me atravessando e depois eu desmaiei.
Acordei de novo na enfermaria. Acho que eu ia me mudar pra lá. Sentei-me na cama. O lugar estava vazio, exceto por mim e pelo Sr. Terácio, que estava sentado em uma cadeira ao lado da minha cama. Eu olhei para ele.
– O que aconteceu? – perguntei.
– Você desmaiou na descida. – ele respondeu. – Uma sombra passou por você.
– Que dia é hoje?
– O mesmo dia de antes. Você só perdeu o almoço.
Dei um suspiro. Então eu ainda tinha a tarde inteira para treinar. Eu estava com medo. Não sabia se realmente podia derrotar Crios. Eu era somente uma garota. Mas não somente uma garota falou a minha consciência Uma semideusa, uma heroína. Respirei fundo. Eu tinha que conseguir. A sobrevivência do Acampamento Clube dos Deuses dependia de mim. Esse pensamento me atormentava, mas também me determinava.
– Vector disse que não viu a profecia. – disse o diretor. – Você poderia me informar?
– Sangue de quatro deuses ela terá/ A semideusa que o mal derrotará/ Usando força e determinação/O último golpe, virá do coração. – recitei.
– A única coisa que me preocupa é o último verso.
– O último golpe, virá do coração?
– Sim. O último golpe... Não dá uma sensação muito boa.
Engoli em seco. Só agora eu havia percebido. O último golpe... Dava a impressão de que depois da escolha eu iria morrer. Mas não podia ser. Eu estava apavorada demais. Comecei a chorar. Eu simplesmente não podia ser a semideusa da profecia, senão eu teria que morrer!
– Geralmente as profecias tem sentido duplo. – falou o Sr. Terácio, na esperança de me acalmar. – Não tome conclusões precipitadas.
– Está bem claro! – eu berrei. – Estava lá! Estava escrito! Eu vou derrotar Crios e depois morrer!
Acho que desistindo de me convencer, porque ele percebia também que não havia esperança, o diretor abaixou a cabeça e saiu da enfermaria. Em alguns segundos, muitas pessoas entraram ali dentro, tantas que por um momento eu esqueci a profecia. Primeiro eu vi Sara. Ela havia acenado para mim e fechava as cortinas da minha cama.
– Façam um fila! – ela gritava.
Depois que todos já não estavam mais conversando. Ela havia colocado a cabeça para dentro da cortina e me disse baixinho:
– O pessoal já vai entrar. Se eu fosse você não ficava ai deitada com cara de doente. Eu tenho certeza de que você não ficou maluca como todos estão falando.
Ela terminou com uma piscadela e voltou para fora.
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