A Herdeira do Trono
6 Capítulo V - Maya
Notas iniciais
Eu seguia Scott por entre as árvores me perguntando se ele era realmente confiável. Tinha passado o dia pensando em como ele era lindo sem camisa. Afastei esses pensamentos. Já estava escurecendo e estávamos andando havia horas. Estava começando a ficar cansada. Chegamos a um lugar aberto, uma clareira. Olhei em volta, procurando qualquer perigo...
Senti uma dor no peito de repente, e instintivamente olho para Scott, que está quebrando vários galhos de uma árvore. Seguro seu braço com força e olho ferozmente para ele. O empurro para longe da árvore antes de falar:
– O que você estava fazendo?! – falei, com a voz calma, mas o olhar mortal.
Ele soltou uma risada nervosa e passou as mãos no cabelo, provavelmente desconfortável.
– Eu... Ahn... Estava quebrando os galhos, não era óbvio? – ele disse, se enrolando um pouco no começo da frase.
– Eu sei disso!
– Então porque perguntou? – ele ironiza.
– Estava perguntando, porque você acha que tem o direito de machuca-la?! – digo com a voz ameaçadora, sem me deixar abalar pela sua ironia.
– Quem? A árvore? – ele parecia confuso.
– Não Scott, a sua armadura! É óbvio que é a árvore! – ironizei e o olhei mais mortalmente ainda, mas contorci o rosto com um sorriso cínico.
– Ah, esqueci, vocês não matam a natureza. Bem, desculpa. – ele disse e se sentou na terra. – Vamos passar a noite aqui. – anunciou.
Revirei os olhos e me virei para a árvore, para ver se estava tudo certo. “Vocês são malucos” o ouvi murmurar baixinho, e consegui ouvir.
– Ouvi isso. – digo e olho para ele com cara feia.
Ele levantou as sobrancelhas, surpreso. Virei de volta para a árvore e constatei que não podia arruma-la, não na frente dele. Então peguei os galhos do chão e os amontei numa pilha em frente a Scott. Ele deu um sorriso convencido e revirei os olhos.
– Volto num instante, acende para mim, por favor? – falo e me levanto, seguindo a direção que conhecia muito bem.
– Certo... – ouvi sua resposta hesitante, antes de entrar no meio das árvores.
Andei um pouco até achar a rocha. Era alta, com uns seis metros de altura e deformada, difícil para escalada para qualquer um sem treinamento, seu topo era liso e provavelmente escorregadio. A subi me lembrando dos treinamentos para guerreira. Uma mão, um pé, uma mão, um pé. Sempre me lembrando de encaixar as unhas. Cheguei ao seu topo e deitei para observar o céu.
As constelações são difíceis de enxergar. Para encontrar as que mais gosto sempre tento achar a Ursa Menor. Quando criança pensava que depois das nuvens existiam vários planetas, planetas onde as pessoas não viviam em guerra, e era tudo mágico e bonito. Gostava de andar pela Floresta Verde e pensar na infinita cadeia de probabilidades que apenas quebrar um galho pode causar. Pensava que algum passarinho precisaria daquele galho para construir seu ninho e abrigar seus filhotes, e sem aquele galho os seus filhotes não teriam um lugar para nascer e morreriam.
Cada perda deve ser evitada. Se cada uma das pessoas pensasse assim, na infinita cadeia de probabilidades, talvez o mundo fosse um lugar melhor. Talvez não houvesse tantas guerras entre os dois povos e todos viveriam em paz e harmonia...
– Você pensa como uma líder – a voz do vento sussurrou.
– Quem é? – tentei ficar calma.
– Foi por isso que eu te escolhi... – um rosto apareceu em meio às estrelas – Você nasceu para governar.
Fiquei sem saber o que falar, enquanto o rosto desaparecia e um forte vento circulava ao meu redor, olhei para o lado e Ela estava lá. Não tinha palavras o suficiente para descrevê-la, era magnífica do seu jeito. Seu corpo era uma mistura de todos os elementos. Os cabelos eram água, que deslizava sobre suas costas. Quando abriu os olhos, vi apenas fogo. O corpo era formado de terra e folhas girando com o ar.
– Senhora? – gaguejei.
– Me chame de Maya – ela sorriu. Sua voz vindo com o vento – sabe por que estou aqui?
– Não – sussurro – Por que... Maya?
– Você talvez se pergunte por que tem o dom da Terra, não é? Maya, você é a minha Escolhida, assim como é a Escolhida por todos. Esta Floresta – acena com o braço ao redor – faz parte de você assim como faz parte de mim.
– É por isso que senti quando ele quebrou os galhos?
– Sim querida. Como uma boa deusa, devo adverti-la: Aja como um predador seja uma Caçadora.
– Não entendo...
– Mantenha sempre um pé atrás de todos, apenas chegue perto de sua presa quando estiver distraída. – ela dá um sorriso acolhedor. – Muitas coisas estão por vir Maya, minha querida. Pode contar comigo sempre que precisar.
– Eu... Quer dizer, existem mais pessoas como eu? Que tem dons?
Ela apenas sorri, enquanto se desmancha em vento. Desço da pedra e vou andando, seguindo a luz do fogo de Scott. Mesmo sem fogo, eu poderia senti-lo. Era como se eu fosse uma mosca atraída pelo seu brilho, se é que ele possuía um.
Aja como um predador seja uma caçadora.
Sentei-me de frente pra ele, enquanto o mesmo observava as estrelas. Vi uma bacia com água e percebi que minha garganta estava seca. Inclinei-me para ela e vi meu reflexo. A pele do rosto estava toda suja, os cabelos bagunçados. Meus olhos pareciam cansados. Vi meus dedos, as unhas sujas e quebradas. Precisava arrumar minha aparência se ia aparecer diante do Rei.
A ideia de ser princesa ainda me atormentava, não conseguia me imaginar usando joias ou coisas reluzentes como a armadura de Scott. Nem com um vestido com babados rosa ou uma coroa. Soltei um suspiro e bebi a água, antes de pegar uma maçã e comer.
Deitei-me no chão ao lado de Scott, separada pela fogueira. Ouvia mesma dali sua respiração.
– Maya, você pode dormir, eu fico de vigia primeiro. Quando estiver com sono acordo você. – ele disse.
As palavras Dela rimbombavam minha mente, mas mesmo assim assenti e virei de lado. Encolhi as pernas e deitei a cabeça sobre um braço, depois disso adormeci.
~*~*~*~
Scott me chacoalhava de leve, me virei e abri os olhos para encontrar os deles. Já estava de dia. Lembrava-me vagamente dele ter me acordado no meio da noite para ficar de vigia, mas sentia que podia dormir. Sentei-me na grama e cocei os olhos.
– Vamos andando. – ele disse antes de por a mochila no ombro e se levantar. – Estou sentindo que vamos achar um lago para tomarmos banho.
– Se você diz – dou de ombros e me levanto, guardando a bacia dele e recolhendo os gravetos. Pego minha mochila e o arco, coloco eles nas costas e vou atrás dele.
Scott dessa vez andava do meu lado, talvez indeciso se eu brigasse com ele se quebrasse algum galho. E eu realmente brigaria.
Depois de algum tempo de caminhada pesada, comecei a ouvir o barulho de correnteza, pela direita. Parei no caminho e Scott seguiu reto, talvez se esquecendo de minha presença.
– Scott.
Ele se virou e se assustou, olhou para o lado e depois para mim. Depois voltou em minha direção.
– O que foi? Você está cansada? – ele parecia confuso.
– Não, é por ali que devemos ir – aponto para a direita. – estou ouvindo barulho de água corrente.
– Vou confiar em você.
Sigo para a direita por entre as árvores e aspiro. O cheiro de terra molhada é evidente. Ando alguns trezentos metros e percebo a mudança de clima. A umidade do ar aumentou relativamente. Corro um pouco e chego até o rio.
Era de correnteza e sua água era totalmente azul, beirava entre o transparente e o azul ciano. Em sua volta algumas pedras lisas. Observei em volta e vi. Do outro lado do rio, uma onça bebia água e descansava sobre a sombra de uma árvore. Inclinei a cabeça para o lado.
Scott chegou correndo e transpirando, sua cara foi de surpresa para adoração. Eu o entendia, o lugar era muito bonito.
– Não sei como, mas você ouviu o som a quase quatrocentos metros de distância. – ele se sentou na sombra de uma árvore grande. – Estou grato por você.
– Não a viu, não é? – digo me referindo a onça. Ele segue meu olhar.
– Vamos mata-la?
– O que? Não, vamos deixar ela em paz.
Sento-me ao seu lado e tiro minhas botas.
– Você vai tomar banho primeiro? – ele pergunta.
– Sim.
– Vou descansar, prometo não olhar.
– Acho bom.
Tirei minha mochila dos ombros e caminhei até o rio com um short marrom e uma blusa de mesma cor, mas com a tonalidade mais escura em mãos. Tirei o vestido de coro que estava usando sem nada por baixo me sento nas rochas às margens do rio. Lavo as roupas sujas calmamente, e sinto o olhar dele queimar em mim.
Na tribo não me importava de me verem nua, eles realmente me adoravam e respeitavam. Mas não sabia o que ele fazia. Terminei de lavar as roupas e comecei a lavar as unhas, depois as raspei numa pedra áspera, as lixando.
Mergulhei no rio e senti as dores da caminhada irem embora do meu corpo. Lavei meu rosto sujo de terra e depois meus cabelos. A água do rio realmente fez bem para eles, que ficaram macios e lisos. Esfreguei a sujeira do meu corpo e fiquei nadando por algum tempo. Depois de completamente relaxada, inspirei o cheiro de terra molhada e sai do rio.
Scott me observava enquanto caminhava até ele e pegava uma toalha. Senti seus olhos me analisando de cima a baixo nua, antes de ele pegar suas coisas e pular no rio de roupa e tudo. Sequei-me e vesti as roupas intimas, depois coloquei o short e a blusa separados. Enrolei meu cabelo na toalha e deixei secar. Peguei uma bota nova na mochila e a calcei, colocando a adaga lá dentro. Fui até as margens do rio e peguei as roupas que havia separado, já estavam secas. As guardei dentro da mochila.
Scott saiu do rio e depois trocou de roupa, saiu para buscar lenha enquanto eu desembaraçava meu cabelo. Ele acendeu a fogueira quando já estava escurecendo.
– Você... Não tem vergonha? – ele parecia curioso enquanto comia suas frutas.
– Do que?
– De tomar banho, na minha frente, e depois se trocar na minha frente... – ele mordeu os lábios inferiores.
– Não, eu não sinto. – digo e prendo meu cabelo em um coque.
– Não sabe o efeito que faz – ele murmura. Depois sorri. – Você é linda.
Escondo meu rosto, receber elogios não é meu forte.
– Eu estava muito suja. Mas, obrigada.
Ele sorri e volta a comer, faço o mesmo. Cada dia que passava sentia que estava mais próxima de Atlanta, mais próxima de chegar do meu pai. Aquele que eu não via desde os cincos anos de idade. Afastei as lembranças e pedi para Scott contar sobre como era morar num palácio. Tentei prestar o máximo de atenção.
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