Depois do episódio com o urso o grupo se deparou com um rio cristalino, cercado por um descampado pequeno. Pierre anunciou uma parada para descansar e ninguém protestou, cansados o suficiente para desabarem na grama quente em que se encontravam.

Ao menos foi exatamente isso que Lia fez sentindo a textura sob seu corpo e fechando os olhos para a brisa, que depois de tanto tempo já havia deixado de cumprimentá-la e a atingia silenciosa.

Era estranho ter aquela percepção sobre as coisas que até então não possuíam nada especial. Lia jamais imaginou que poderia controlar a água, respirar debaixo dela ou até mesmo se comunicar com árvores, ursos e tartarugas marinhas.

Encarando a palma de sua mão a ruiva relembrou de seu encontro com sua mãe. Pensou no passado que estava emaranhado nela, no que ela ainda não sabia, no que poderia estar esperando por ela no futuro.

Ela era uma Deusa do mar como Nagisa, isso era um fato. Mas ela ainda era Liana, a garota da ilha Sândis, a mesma que viveu a vida inteira visitando o porto com Nathan e cuidando de Ana.

Aquele pensamento fez seu peito apertar.

Ela ainda era, não era?

— No que está pensando tão dolorosamente?

O corpo de Kevin sentou ao lado da jovem sob a grama quente e ela o olhou de imediato, saindo de seus pensamentos.

— Em nada em particular – murmurou notando o movimento do restante do grupo na beirada do rio enchendo os cantis com água.

— Você não me convenceu, tente melhor da próxima vez.

Lia fez uma careta e o loiro sorriu, entornando seu cantil com água fresca. Em seguida ofereceu a ela.

— Obrigada.

Enquanto bebia lentamente os olhos da jovem correram o lugar e a vegetação, a mesma que os havia recebido na praia, refletida ali, na água corrente e limpa, assim como no farfalhar das folhas. Mas porque aquela mesma paisagem a inquietava?

— É como um sonho estarmos aqui – comentou Kevin juntando as pernas e encarando seu pai logo a frente – faz tanto tempo que estamos atrás disso.

Os olhos do garoto caíram dentro dos de Lia e ela tomou um longo gole de água para acalmar a reação de seu corpo a ele.

— E é tudo por sua causa, Lia. Muito obrigado.

O sorriso de Kevin foi lento e a jovem tomou fôlego, já sem água para afastar seu nervosismo. O loiro se aproximou ainda mais vagarosamente e enquanto pegava o cantil de volta, tocando propositalmente na mão dela no processo, se inclinou para beijá-la.

Lia estava estática, mais presa em fantasia do que na realidade, e a aproximação do garoto agitou cada célula do seu corpo, não a permitindo se mover. Todos os momentos de tensão sexual entre eles passaram por ela. Os sorrisos, o cheiro de Kevin, a sensação do seu corpo perto do dele.

O estômago de Lia revirou-se em expectativa pelo que viria, mas quando ela o sentiu perto o suficiente, seu corpo recuou no automático. Ela piscou aturdida com sua própria reação e a confusão no rosto do loiro foi interrompida pela voz de Pierre, chamando-os para se reagruparem.

Kevin se endireitou e sorriu de lado, meio constrangido, mas piscou para Lia resoluto.

— Que azar.

Ele riu baixinho e a jovem o acompanhou incerta. Era estranho ter pensado tanto sobre estar atraída por Kevin e quando estavam tão próximos de se beijar, recuar daquela forma. O que estava fazendo?

— Vamos? – ele levantou, limpando a calça e estendendo a mão para ela.

Kevin ainda era o mesmo, com seu sorriso, e ela não entendia o que havia acontecido. Tentando retribuir o mais verdadeiramente possível o sorriso ela aceitou sua mão pondo aquela confusão de lado.

Depois de pegarem o coração de volta e estarem salvos no navio ela pensaria sobre isso.

Quando Lia levantou com a ajuda do loiro o colar em seu pescoço esquentou. Ela olhou para os lados, alarmada, mas nada encontrou. Seguindo o grupo que voltava a caminhar a jovem tocou preocupada no búzio.

Desta vez sua inquietação começava a ficar cada vez mais forte.

•••

Depois de algumas horas de marcha pela selva o grupo se deparou com uma caverna na direção que a bússola apontava. Desta vez ao lado de Pierre Lia encarou as pedras que se amontoavam numa bocarra a sua frente e sentiu seus pelos arrepiarem.

Em contrapartida a bússola rodou duas vezes, agitada, e lentamente parou no Norte, com o tom fluorescente cedendo para a sua cor original, deixando apenas a bússola que ela fora antes dos poderes de Lia.

— Eu sinto um mau pressentimento – Lia sussurrou.

Mas Pierre não pareceu ouvi-la em êxtase por estarem tão perto do coração e todos começaram, um por um, a passarem pela entrada da caverna. Encarando-a Lia respirou fundo e deu seus primeiros passos para dentro, tentando pôr de lado a sensação de estar sendo engolida por aquele lugar.

Dentro da caverna, ao invés da escuridão que os recebeu, o grupo encontrou estalactites por todas as paredes e teto que se seguiram. As pedras lançavam luzes incandescentes ao longo do túnel e após alguns segundos seguindo aquele caminho o corredor desembocou em um amplo vão, bem mais alto e muito mais claro que o anterior.

O chão também era iluminado e apesar de desregular parecia liso em partes que Lia anotou mentalmente não se aproximar. Entrando no espaço o trio de marujos se pôs pronto para a luta, mesmo que nada ali incitasse ameaça.

Exceto a existência de um pedestal solitário no centro com uma caixa pequena e preta. Assim que os olhos de Lia caíram nela a jovem sentiu seu corpo inteiro pulsar. Os olhos se arregalaram e a realidade se fez presente. Era o coração.

Pierre cambaleou quando olhou para a caixa, sentindo o mesmo que a jovem, e deu alguns passos débeis na direção dele. Os olhos de Lia, ainda que surpresos, o acompanharam com receio. Algo não estava certo.

Estava sendo fácil demais.

Foram longos anos brincando com o coração de homens por aí, roubando corações e vendo-os sofrer. Era um ótimo passatempo.

O coração de Lia apertou e ela sentiu falta de ar. A mão pairou a frente de seu corpo na direção do capitão.

Então não sei quem é Pierre e não sei de onde tirou que eu atenderia seu pedido, querida.

Fácil demais.

— Pierre, espere, isso...

O chão tremeu e o suporte da caixa explodiu fazendo a mesma cair no chão.

Armadilha.

O capitão olhou assustado para os lados e correu até a caixa, preparado para salvar seu coração. Mas mãos finas o alcançaram antes do homem e elevando a visão para a figura os olhos de Pierre se abriram em choque.

Nagisa primeiro sorriu, cheia de charme, apoiando a caixa em seus braços. Tensão correu o espaço fechado e Lia arquejou de onde estava, alertando o grupo para outras figuras que surgiam logo atrás dela.

Ela estava tão bonita quanto quando ele lhe havia conhecido. O sorriso, os olhos, a forma de olhar para ele. Nagisa ainda era uma Deusa magnífica. Sua Deusa.

— Nagisa.

O sussurro de Pierre ecoou solitário enquanto os soldados da mesma se organizavam ao redor do pequeno grupo, encurralando-os. Todos tinham o mesmo biótipo e exceto por alguns cabelos loiros todos eram morenos e pálidos, como se não vissem o sol por longos períodos de tempo.

Tritões, a percepção ecoou nos pensamentos de Lia. Mas todos estavam com pernas. Inclusive sua mãe.

Então tudo parecia estranhamente plausível. A inquietação fora da caverna, a mudança de lugar do colar, a falta de obstáculos até ali. Era tudo uma forma de fazê-los chegarem exatamente onde Nagisa queria.

E agora ela os tinha na palma da mão.

— Sejam bem-vindos! – ela anunciou com seu melhor sorriso.

Os olhos astutos cruzaram com os da filha e o sorriso se tornou lateral.

— Vejo que estão muito bem acompanhados.

Ela deu de ombros alisando a caixa em suas mãos.

— Mas eu estava preparada – indicou os homens atrás de si.

Lia engoliu em seco e esquadrilhou a guarda da Deusa receosa. Eram por volta de quinze soldados, eles não iriam conseguir lidar com todos. Não todos juntos.

O pensamento sobre o que fazer foi mais rápido do que a ação e logo os dedos dela formigaram em incentivo. Lia agradeceu por já conseguir manipular tão bem seus poderes e começou a tecer suas ideias dentro da caverna de forma invisível.

— Nagisa você... – os olhos de Pierre desceram para a caixa – o meu coração, você o guardou.

A Deusa riu, estridente, e os três homens do capitão indicaram que iriam avançar, mas a mão do capitão se elevou, parando-os. Frente a frente com a Deusa que destruiu sua vida Pierre queria ter certeza do que faria.

Havia desistido da vingança que jurou quando ela foi embora anos atrás, mas vê-la frente a frente, o deixava com ânsia de uma revanche. Ele queria o coração, mas ele também queria reparação. E os olhos de Nagisa liam isso com perfeição em seu rosto.

Ela se deliciava com o debater de um peixe antes da morte.

— Eu acompanhei, querido, seu desespero durante aqueles deliciosos anos em que fui embora com seu coração sim. Provavelmente foram um ótimo passatempo – ela passou preguiçosamente a língua nos lábios – mas não se engane, tive muita dificuldade para achar isso aqui.

A ruiva balançou a caixa em mãos, fazendo soar o choque do coração contra as laterais da madeira.

— Seu nome era o único dos homens que eu não me lembrava, acredita? – sorriu com desdém – Você como sempre sendo miserável, pirata. Desde o dia em que o conheci.

Pierre apertou as mãos em punho e Kevin deu um passo a frente, pronto para agredir aquela mulher venenosa. Mas a mão de seu pai ainda estava levantada e apesar de tudo ele não desobedecia às ordens dele.

Em resposta o loiro grunhiu.

— Oh, Nagisa, como sempre tão delicada com as palavras – o capitão sorriu como sempre fazia – não acreditou que eu cairia no seu joguinho, acreditou?

Os olhos verdes da mulher cintilaram.

— Não tenho coração, minha querida, nada que falar vai me ferir. Você sempre foi tão doce, parece que o tempo não foi gentil com você.

Ele indicou o rosto dela.

— Nem com suas rugas.

Nagisa rosnou, mas continuou sorrindo.

— Que palavras ousadas, capitão. Mas devo parabenizá-lo por chegar tão longe em sua busca – ela olhou diretamente para Lia – e trazer minha criança de volta. Tivemos uma ótima conversa entre mãe e filha, tenho certeza de que fez um ótimo trabalho na mente dela. Ela gosta de você, sabia? Seu coração foi o primeiro pedido em nosso reencontro.

Arranhando audivelmente a madeira da caixa Nagisa sorriu.

— E eu vim aqui especialmente buscá-la.

Ela jogou o coração no chão, aos pés do homem, mas Pierre sequer o olhou fixo na Deusa a sua frente.

— Levem o coração e estarão perdoados. Mas deixem a garota – sorriu mais abertamente – será um ótimo negócio.

Kevin paralisou onde estava e olhou de esgueira para a garota ao seu lado, com a cabeleira ruiva presa sobre a cabeça para evitar o calor da mata. Lia os havia ajudado quando eles mais precisaram, mas eles não conseguiriam lutar contra tantos.

O loiro desejou que a jovem tivesse desistido naquela noite da proposta, que tivesse fugido como tantas outras e ficado viva por aí. Queria vê-la salvo, queria protegê-la. Mas ali face a face com o perigo Kevin não queria morrer.

E o pensamento mais doloroso cruzou sua mente.

Era melhor para todos entregá-la.

A risada de Pierre tirou o filho dos devaneios e, segurando a barriga protuberante, o homem se curvou às gargalhadas. Depois de alguns segundos ele se endireitou, limpando rasas lágrimas que caiam de seus olhos, e encarou a Deusa com toda a determinação que tinha.

Antes mesmo dele falar Nagisa já sabia sua resposta.

— Só por cima do meu cadáver.

Alguns soldados de Nagisa pareceram surpresos com a reação do homem, inclusive a própria Deusa. Olhando para a filha logo atrás do pirata o sangue da mesma ferveu. Lia trazia no rosto o mesmo olhar do homem a sua frente.

— Então boa sorte, capitão – ela lhe deu as costas – homens, ataquem!

O comando ecoou na caverna e alguns dos soldados gritaram em animação. No instante em que eles se moveram Lia fez força e grades feitas de estalactites prenderam metade dos homens de um dos lados da caverna. O barulho foi estridente e todos os olhares caíram sobre o feito, resistente o suficiente para lhes dar tempo.

Pierre abaixou a mão.

— Vamos! – urrou Finn se lançando sobre alguns outros soldados atordoados.

Os dois marujos do capitão o seguiram e logo o som de espada contra espada reverberou nas paredes da caverna. Nagisa ria maravilhada do outro lado do espaço, observando a luta, enquanto Pierre avançava junto com os outros para o combate.

Lia soltou a respiração que prendia por tecer as grades e tomou fôlego em seguida, pegando uma espada reserva que Pierre deixou na bolsa que ela carregava. A jovem sabia que ainda não tinha muito conhecimento com espadas, mas ter como se defender era o mínimo naquele momento.

Kevin, que até então estivera paralisado, voltou-se para Lia, ainda com sua própria ideia ecoando em sua cabeça enchendo-o de culpa. Vê-la empunhar a espada e sorrir para ele, encorajando-o, o fez ficar ainda pior.

Retribuindo o sorriso com dificuldade ele desembainhou sua própria espada e avançou, deixando Lia na retaguarda. Sabendo que poderia usar coisas além da lâmina a jovem ajudou enquanto pôde seus companheiros, com ventos e estalactites nos adversários.

Vez ou outra, quando algum ia para ela, Lia o encarava com a espada, mas sempre usando alguma carta na manga, como água sob os pés deles no piso liso ou areia em seus olhos. Ela atingiu dois, três, quatro homens e só notou que a outra metade estava livre quando os seus passos foram na direção do grupo mais a frente.

Empunhando a espada o melhor que conseguia ela atacou um dos soldados que a rebateu, pronto para atravessá-la com sua lâmina. Não fosse pela areia que ela jogou em seus olhos ela teria sido atingida ao invés dele.

Assim que a espada dela afundou no peito do soldado e ele a olhou desesperado, Lia se sentiu mal. Aqueles eram homens como os de Pierre, como os de seu pai. Seres como quaisquer outros seguindo ordens de um superior maligno. Morrendo por sua Deusa.

Com essa percepção um pensamento ecoou.

Ela não queria ser igual a sua mãe.

Uma discussão à direita de Lia chamou sua atenção. Não eram os seus companheiros de navio, mas dois dos soldados de Nagisa. Um era loiro e forte, com ombreiras grandes e uma espada longa que balançava agitada enquanto falava com o outro.

Este, mais baixo que o companheiro, parecia se defender. Tinha cabelos negros e uma espada menor, assim como sua vestimenta parecia menor do que a do outro soldado. Lia os observou por segundos​ até perceber que não era uma briga, ao menos não uma equilibrada.

— É aqui Tristan – o loiro gritou – que você vai morrer de uma vez por todas! Já chega de me rebaixar a você!

— Você está louco. Somos companheiros! O que raios acha que está fazendo? Estamos em...

Os olhos do moreno se arregalaram quando o companheiro ignorou suas palavras e avançou, pronto para matá-lo. Foi em instantes que tudo aconteceu e a cabeleira ruiva ricocheteou em sua face, interceptando a lâmina do outro soldado.

Lia cruzou sua espada com a do loiro por impulso, mas quando olhou​ no rosto daquele homem uma raiva incomum cresceu dentro de si sem explicação alguma.

— Saia daqui sua vadia, você vem depois – ele se afastou, pronto para avançar de novo – esse assunto é entre nós.

Tristan tinha ficado estático pelo ataque surpresa, mas a chegada da garota o despertou. Apoiando a espada melhor em sua mão ele bradou de volta, ainda com a figura centímetros menor do que ele a sua frente.

— Não vou dar minha posição a você, Rei!

Lia apertou sua própria espada em mãos, ainda entre a dupla, e pela primeira vez o pensamento de no que estava se metendo passou por sua cabeça.

— Por isso vou tomá-la – o loiro sorriu com escárnio – e não​ estou sozinho.

Os sentidos de Lia ouviram a dupla se aproximar antes do garoto atrás de si e ela rosnou irritada, chamando a atenção dos dois soldados que discutiam ao seu lado.

Babaca.

Com um movimento da cabeça ela lançou o loiro para o lado com seu poder e ele caiu de encontro ao chão, derrubando a espada a metros de distância e batendo com a cabeça no piso desregular. Um corte sangrou em sua testa e ele a fuzilou com os olhos.

Logo a frente Nagisa observava curiosa a cena que se desenrolava entre os seus, ainda que o grupo de Lia estivesse em clara vantagem sobre os outros soldados agora já esquecidos.

Virando-se abruptamente para o moreno atrás de si Lia encarou com intensidade os olhos dele e o azul por detrás da franja irregular no rosto pálido a surpreendeu. Ela nunca tinha visto olhos tão intensos.

— Tem um na direita e um na esquerda.

Tristan olhou de volta para ela confuso e em choque. Aquela garota era a mesma que eles haviam​ ido capturar, o que ela estava fazendo o defendo no meio da batalha?

Um ruído próximo o alertou e ele deixou de lado o questionamento. Estava prestes a ser morto, não podia reclamar de ajuda. Rapidamente ele assentiu inclinando sua cabeça para a direita. Com um sorriso de lado a ruiva se lançou para o oposto atingindo o soldado que corria para matá-lo.

Acompanhando-a o moreno avançou contra o da direita, chocando espada contra espada, pronto para defender sua própria vida com tudo que tinha.

Enquanto isso Pierre e Kevin lutavam lado a lado, com arranhões por todo o corpo. Estavam um de costas para o outro, arfando e com o corpo pesado. Há quanto tempo estavam naquela dança de espadas?

— Precisamos fugir.

— Nós vamos – Pierre tomou fôlego – só precisamos de uma brecha.

— Eu vou tentar consegui-la – Kevin encarou os inimigos que se aproximavam e levantou a espada.

O capitão assentiu, sabendo que o filho não o veria, e correu para cima dos soldados que vinham atacá-los. Viu depois de atingir dois no peito que Lia lutava lado a lado com um dos seus próprios inimigos, mas continuou avançando, agradecendo ao menos por ela ainda estar bem.

Lia avançou e recuou diversas vezes enquanto lutava com o soldado mais velho e ele parecia brincar com ela, com um sorriso de presunção que ela adoraria desfazer.

Ela lançou areia, água e ventos, mas nada abalou o oponente e ela grunhiu, cansada e dolorida. Seu estômago doía pelo uso excessivo dos poderes e ela agora já não podia ajudar seus companheiros, focada naquele oponente a sua frente.

As costas de Lia bateram nas de alguém e não precisou de muito para ela saber que era o soldado jurado de morte. Ela não sabia porquê estava ajudando-o e tão pouco tinha tempo para pensar naquilo. Seus companheiros estavam lutando ali por ela e eles precisavam ir embora rápido.

— Quem é você?

A voz do soldado em suas costas reverberou por todo o corpo de Lia e ela sentiu o mesmo agitar-se. Tentando abafar pensamentos que não ajudariam no combate focou no oponente a alguns passos de si.

— E quem é você?

Ele riu e por um segundo Lia se deliciou com o timbre da risada dele.

— Aliás, costuma ser atacado assim sempre?

Lia murmurou e avançou contra o soldado que a atacava, afastando-o. Tristan fez o mesmo e quando suas costas novamente se tocaram ele sorriu à pergunta.

— Só quando venho sequestrar belas Deusas.

Ela soltou um tsc e apesar de saber que o comentário era sobre ela, sorriu.

— Então acho melhor se preocupar com seus companheiros ao invés desse sequestro.

— Vou pensar no seu caso.

Rindo Lia avançou novamente e desta vez, quando os olhos do mais velho foram para a espada ao invés dela, ela usou seus poderes. O vento misturado com areia o cegou e desestabilizou. Antes mesmo do corpo do homem cair no chão ela o atingiu com a espada e puxou a mesma com rapidez, deixando-o grunhindo no chão.

Agora lado a lado com o moreno Lia avaliou o oponente dele.

— Vento e água talvez? – sussurrou para si.

— Somos imunes a ataques aquáticos – Tristan respondeu, em mesmo tom, focado no homem a sua frente – consegue usar fogo?

— Não sei.

— Tente.

Com essas palavras o moreno avançou e chocou sua espada com a do outro soldado. Lia tomou fôlego e tentou conjurar fogo, mas apesar de seu estômago doer e seus dedos formigarem, nada aconteceu.

Ela fez mais força e sua mão tremeu com a intensidade de seu desejo, mas ainda assim nada acontecia. Ela xingou e foi quando viu, logo atrás do soldado que Tristan atacava, um vórtice de chamas.

— Empurra!

Tristan não precisou olhar para saber que era ela e tão logo a ouviu impulsionou o oponente para trás. O soldado foi engolfado pelo vórtice e chamas refletiram nas paredes da caverna, chamando a atenção de todos.

Nesse momento de vitória Lia procurou Pierre com os olhos e o encontrou do outro lado, admirado com as labaredas que ela havia conjurado. Mas além disso Lia viu o inimigo se aproximar, viu ele jogar longe a espada do capitão pronto para matá-lo.

Capitão!

O grito dela ecoou na caverna chamando a atenção dos companheiros dela e de Tristan. O moreno virou-se surpreso e assustado, vendo o exato momento em que ela abriu mão de sua espada a lançando para o pirata do outro lado com seus poderes.

Pierre alcançou a espada de Lia antes de ser atingido e contra-atacou, fazendo a jovem suspirar aliviada. O cenário ao redor era de caos, mas eles ainda estavam em vantagem com todos vivos.

Tudo ainda podia dar certo.

Tristan vacilou onde estava quando viu, depois do lançamento de sua única lâmina, Lia ser atravessada por uma espada longa. Os olhos dela se abriram alarmados e o alívio que cruzava seu rosto se dissipou, caindo para desespero. Rei sorria atrás dela, vitorioso, e olhou para o companheiro provocador.

— Isso é tudo que vocês têm?

Tristan rosnou avançando e empunhando a espada para atacá-lo quando Lia o rebateu com um sorriso sôfrego e avermelhado pelo sangue que começava a sair de sua boca.

Não.

Com a mão pairando sobre a lâmina que a atravessava a garota usou seus poderes para empurrá-la para trás, lançando seu dono junto. Rei novamente se chocou com o chão, mas não durou muito tempo e foi novamente puxado por Lia que o lançou na direção de Tristan.

O moreno aceitou-o de bom grado e agarrou o outro pelo pescoço, apertando. Os olhos de Rei estavam tomados de desespero e pavor e apesar de terem sido tão próximos dentro da guarda, com aquela traição, tudo que Tristan sentiu foi raiva.

Babaca.

Atingir Rey ou até mesmo vê-lo cair morto não foi o suficiente para se vingar pelo complô contra ele, mas nada parecia mais importante para Tristan naquele momento do que a ruiva de joelhos no chão a sua frente com um sorriso débil e sangue caindo em abundância de seu abdômen.

Mandou bem, Tristan— ela tossiu e mais sangue saiu de sua boca – eu...

Os olhos verdes de Lia se reviraram e ela desabou no chão desacordada. O moreno correu e caiu ao seu lado no chão, deixando sua espada abandonada no corpo do ex-companheiro, segurando o corpo dela nos braços, incerto sobre o que fazer. Deveria levá-la para Nagisa e cumprir sua missão? Ou deixá-la morrer? Ou ainda...

Olhando para o campo de batalha o olhar afiado do capitão que lutava por ela foi certeiro, mas olhar para Nagisa orgulhosa do outro lado foi o que lhe disse exatamente o que fazer.

Notas finais
Alguma manifestação? Algum comentário? Alguma crítica? Gritos histéricos me xingando? plmdds, alguma coisa?