Notas iniciais
Foi uma história feita com muito carinho e foi desenvolvida por longos anos até chegar esse momento. Ela está completa e será postada aos poucos aqui no Nyah, então espero que se divirtam e gostem desses personagens tanto quanto eu os amo ♥️

Junto com o cantar dos pássaros, que vinham misturados do som familiar de ondas ao fundo, Liana acordou em seu quarto. Tudo estava escuro, mas feixes intrusos de luz atravessavam o quarto de um lado a outro, esgueirando-se pelas janelas de madeira. Esparramada na enorme cama de casal a jovem se remexeu inquieta.

Um sonho, bastante comum, se repetia em suas noites havia uma semana e apesar da sensação boa que ele lhe trazia, Liana já estava incomodada. Era uma imensidão esverdeada que ela via, se estendendo por quilômetros a fio, sumindo no horizonte. Uma mistura de água salgada e sândalo ricocheteavam em seu rosto e ela ria, maravilhada.

Mas aquelas águas eram totalmente diferentes daquelas que rodeavam sua ilha. Eram mais límpidas e raivosas, enquanto Elisabeth Sândis tinha suas praias e água parcialmente atingidas pelos homens.

Esse claro contraste a inquietava.

Com um bocejo ruidoso Liana sentou-se a cama, envolta no mais fino linho, e se arrastou até a janela, abrindo-a vagarosamente. Lá fora, acompanhada do calor ameno do sol da manhã, a cidade flutuante começava a ficar agitada. As ruas e passarelas, amontoadas umas sobre as coisas já estavam cheias de pessoas, e o porto, próximo à casa da jovem, iniciava a todo vapor com grandes navios descarregando mercadorias que logo estariam nas lojas do centro.

Sincronizada com o apito de um dos navios Liana se afastou da janela e tomou um longo banho naquela manhã. Vestiu-se rapidamente, um conjunto qualquer de blusa e short, e saiu do quarto deixando para trás a paisagem tão colorida de sua ilha.

De um lado casas e passarelas pintadas das mais diversas cores, ladeadas por uma floresta espaçada e de um tom de verde oliva vivo. Ao longe bandeiras ricocheteavam com o vento, uma com o símbolo da ilha e outra com a insígnia do porto.

Enquanto caminhava no imenso corredor da mansão onde morava, Liana percorreu as imensas pinturas das paredes com os olhos. As mesmas que ela vira desde menina e que nunca pareciam cessar sua beleza.

Havia uma longa linha de quadro pequenos, sustentando os antepassados da família, e ao final do corredor leste um enorme quadro retratando uma intensa guerra decoração o lugar.

Se havia uma coisa que Liana podia dizer sobre seus hobbies era que ao menos um deles era passear pelos corredores largos da casa, parando a cada quadro e pintura para gastar um longo tempo a admirando. Nathan, seu pai, de certa forma a incentivou a isso.

Passos rápidos ecoaram no vão e a jovem pôde ver, do outro lado do corredor, a cabeleira negra do homem surgir de uma das grandes portas, enquanto seus óculos e a complexa roupa social pareciam lutar contra ele. Um sorriso surgiu no rosto de Liana e apressando-se ela o interceptou, finalmente fechando os botões da camisa.

— Oh – ele admirou o trabalho rápido dela – muito obrigada minha filha, você é realmente incrível.

Com um beijo estalado em seus cabelos castanhos e agitados Nathan a cumprimentou.

— Estou a disposição – ela lhe sorriu de volta – já está indo ao porto, pai?

O homem pareceu acordar subitamente encarando o relógio reluzente em seu pulso.

— Sim, e já estou atrasado – suspirou – que tipo de patrão eu sou dando tão mal exemplo?

Liana soltou uma risadinha enquanto ajeitava a gola da camisa do homem.

— Às vezes temos dias ruins mesmo – a finalizou a arrumação – agora se apresse ou os meninos vão acabar surtando sem ter quem guiá-los.

Com o comentário Nathan sorriu.

— Você vem hoje? Ouvi dizer que vão chegar novos produtos para as lojas.

Liana olhou do pai para a grande janela próxima a si onde a cidade se estendia frenética logo pela manhã. Ela adoraria ir com seu pai ao porto, como sempre fazia quando não havia nada para lhe entreter durante os longos dias naquela imensa mansão.

Mas ela já tinha um compromisso.

— Hoje não pai, deixemos para a próxima.

Nathan concordou.

— Claro, tenha um bom dia meu doce.

Dando um beijo na testa da jovem ele se enveredou pela escadaria larga e desceu rapidamente, sumindo em mais um dos corredores do andar de baixo. Liana sorriu quando o acompanhou sair e cruzou o corredor, deixando para trás a escada.

Nathan era seu pai adotivo, a havia reivindicado como filha após ser deixada abandonada no cais, e desde então lhe incluía ao máximo nos negócios da família, como o porto de navios, de onde ele controlava a entrada e saída de mercadorias da ilha, ou mesmo nas contas monstruosas que ela lhe ajudava a fazer acerca dos gastos da casa e dos navios.

E ela gostava de se sentir incluída, ainda que outros não gostassem tanto da ideia.

Foram três batidas na porta antes da jovem entrar no quarto da irmã que estava dormindo toda desajeitada na cama. Observando-a Liana não conseguiu evitar sorrir: Ana realmente não tinha jeito.

Ela estava metade dentro e metade fora da cama com os pés no chão gelado enquanto se acomodava preguiçosamente com a outra metade nos lençóis finos, deixando apenas os cabelos negros para fora das cobertas.

Abrindo as janelas Liana começou mais uma batalha para acordá-la.

— Bom dia – abriu uma das grossas cortinas – já é hora de acordar – cantarolou abrindo mais uma – ou o bicho vai te pegar!

Ana murmurou alguma coisa sem nexo e em seguida se jogou completamente no chão. O barulho alertou Liana, mas ela riu da imagem se pondo a ajudar a irmã.

— Está muito cedo – resmungou ainda no chão.

— Você verá que não está cedo quando chegarmos no centro – Liana se agachou na frente dela – o tempo voa quando você se empolga nas compras.

Um sorriso de lado surgiu no rosto sonolento da jovem ao chão, que ainda mantinha os olhos fechados, e ela resmungou em concordância aceitando a ajuda da irmã para levantar.

— Certo, certo, você me venceu.

— Vou agora em busca de Cadu – Liana a pôs de pé – nos encontramos na sala de jantar, sim?

A menção do nome do garoto despertou Ana em questão de segundos e Liana riu vendo-a correr para se arrumar, a enxotando do quarto em seguida. Era notável para a jovem que sua irmã estava apaixonada por seu vizinho e filho da cozinheira. Ana sempre foi muito transparente e doce, e talvez por isso Liana sempre cuidou dela.

Quando Ana se machucava, quando Ana entrava em problemas, quando a mãe delas procurava um culpado para algo, Liana sempre se colocava a frente, protegendo sua irmã mais nova. E criadas juntas, além da diferença de aparência, quem poderia dizer que não eram irmãs quando eram tão inseparáveis?

Descendo as escadas Liana pensou sobre tudo que fizera por Ana durante anos de sua vida. Nas aulas particulares, na montaria, nas aulas de música. Ela sempre ajudou a irmã em tudo, até mesmo no amor.

Já no térreo e seguindo para a parte traseira da mansão Liana trombou com sua mãe. Uma mulher alta e esguia, com os olhos duros e acinzentados. A postura de Agatha era impecável e o olhar que a mesma lançou à jovem foi cortante.

— Bom dia – Liana parou ao vê-la surgir, se inclinando levemente no cumprimento.

A mulher sequer a respondeu, passando reto para o corredor lateral, e na sua saída Liana suspirou, cansada, e se apressou para a cozinha. Lá, sob os vapores das panelas e o chiar das comidas contra o óleo, Liana encontrou Carmen.

Ela era uma mulher magrinha, enrolada em um avental gasto, que escondia os cabelos castanhos atrás de uma apertada touca. A mesma sorriu ao ver a jovem se aproximar a saudando de longe pelo suor e cheiro de fritura.

— Bom dia minha querida, acordou cedo hoje.

Liana sentou preguiçosa na superfície da mesa grande do lado oposto do pequeno vão, revirando sem pressa a cesta cheia de frutas.

— Ana marcou de sairmos hoje para o centro – ela pegou uma carambola – e tive que acordá-la.

Carmen sorriu mexendo a panela cheia de caldo.

— Vocês são boas irmãs – pensou alto, de costas para a castanha.

Liana mordeu a fruta enquanto observava as costas da cozinheira e deu de ombros, ainda que ela não pudesse ver. Elas eram realmente boas irmãs, mais do que isso até.

— Cadu está em casa?

A mulher virou de lado para poder olhar para a garota.

— Acredito que sim, ele vai com vocês?

— Sim – Liana se impulsionou para fora da mesa – quem iria carregar as compras?

Carmen riu roubando um sorriso dela. Ela era uma mulher simpática e gentil, sempre olhando pelas garotas ao longo dos anos, assim como cuidando em demasiado de sua alimentação.

Se Agatha era uma mãe fria e distante para Lia, Carmen era uma mãe calorosa e amorosa. Era um dos fatores por ela não se sentir tão sozinha naquela imensidão. A jovem agradecia imensamente à mulher.

Antes de sair da cozinha Lia deu um abraço rápido em Carmen, sob seus protestos de que estava suja, e correu para fora da mansão.
Do lado externo, sob o sol e com a fina areia da praia preenchendo seu quintal, Lia caminhou até uma das casas próximas, abandonando a areia pela grama fina e chegando, sem pressa, até a construção de primeiro andar onde morava o garoto.

Ela hesitou antes de bater a porta, sem saber porquê, mas no momento em que sua mão se aproximou da madeira e ela abriu antes que seu toque alertasse alguém dentro da casa, seu coração acelerou.

Cadu sorriu ao ver a amiga a sua frente sendo retribuído tão logo Liana se recompôs, tentando encobrir o rubor em seu rosto. O garoto parado a sua frente ainda vestindo a camisa e com os cabelos castanhos molhados, havia sido, algum tempo atrás, seu primeiro amor.

Mas ela abdicou dele e apesar de sentir seu corpo reagir sempre que o via, Liana fazia o máximo para esconder essas sensações.

Como começou a fazer assim que ele terminou de vestir-se.

— O que é isso? Um show de stripper?

Cadu riu fechando a porta atrás de si.

— Não seja tão chata – ele apertou a ponta do nariz da mesma – mas me admira você já estar acordada. Caiu da cama?

Ela lançou uma careta para ele.

— E me admira você ter tomado banho – ela inspirou com força – o que é isso? Tomou banho de perfume para encobrir essa uma semana sem banho?

Cadu soltou mais uma risada.

— Não sou mais criança Lia, essas acusações não são mais verdadeiras.

Inconscientemente eles começaram a rumar à mansão.

— Você é um chato – cantarolou a castanha – como está se saindo no trabalho?

Cadu olhou de lado para a amiga.

— Bem, muito bem. Não imaginei que fosse gostar de ficar encarregado do controle de carga, mas até que não é ruim.

Lia sorriu.

— Fiquei muito feliz quando soube que nosso pai chamou você. Pode acreditar que listei todas as suas qualidades para ele durante a semana inteira.

Cadu riu caminhando mais lentamente.

— E quais qualidades eu tenho?

Liana piscou para ele.

— É confidencial.

O garoto sorriu e balançou a cabeça, soltando um “você é impossível” e Liana escondeu o orgulho ao ouvir aquelas palavras. Ela realmente listou para o pai as qualidades de Cadu durante os poucos encontros que tivera com ele na sala de jantar ou escritório. Liana sabia que Cadu era esforçado e responsável, além de ser de confiança.

Ele era o aprendiz perfeito para Nathan e Liana se certificou de mostrar a ele tudo que Cadu podia lhe oferecer. Além de desejar, internamente, que o amigo conseguisse algo melhor do que um emprego medíocre naquela ilha esquecida do mundo.

— Obrigado – Cadu a despertou dos pensamentos – pelo apoio.

Liana sorriu abertamente e bateu seu ombro com o do garoto, fazendo-o trotar em desequilíbrio.

— Pode contar comigo.

Com uma troca de olhares eles adentraram na mansão, encontrando, assim que dobraram o corredor para a cozinha, Ana sentada à mesa de frutas comendo apressada um prato pequeno de café da manhã.

— Bom dia – cantarolou Cadu, sentando ao lado da mesma.

Lia, por outro lado, sorriu ao ver a alegria no rosto da irmã, que correspondeu ao bom dia do garoto com um grunhido por estar de boca cheia fazendo ele rir. A castanha se escorou preguiçosamente no umbral da cozinha e observou a dupla.

Aquele era apenas mais um café da manhã comum, com Ana e Cadu rindo ao redor da mesa, Carmen cantarolando alguma música da sua época na boca do fogão e o vapor de especiarias preenchendo o ar. Era só mais uma manhã comum.

Mas porque seu coração estava apertado?

•••

— Às vezes eu me pego pensando – Cadu aprumou a bacia em seus braços – se sou apenas um par de braços para as mulheres dessa família.

Liana riu e quase tropeçou no cascalho que cobria a estrada que levava ao centro da cidade. Carmen havia pedido à ambos que levassem algumas roupas à lavanderia da cidade e Ana se recusou a sair antes de terminar o café da manhã, deixando a missão para a dupla.

Cadu levava a bacia maior, apoiando os dois braços ao redor da mesma para não a deixar cair, enquanto Lia carregava uma sacola no ombro, porém tão pesada quanto. Sempre se perguntou a quantidade de roupas que os Witherson conseguiam gastar durante um dia inteiro. Com aquela sacola ela teve sua resposta.

O farfalhar de árvores próximas chamou a atenção de Lia e a nuvem espessa que ameaçava chegar na ilha deram-na um presságio do que estava por vir. Mas Cadu foi mais rápido em verbalizá-lo.

— Parece que vai chover.

A jovem assentiu, dobrando numa viela estreita junto com ele.

— Sabe o que dizem no porto quando o tempo está assim?

— O que?

— Que piratas aparecem!

Liana riu do amigo, mas seus olhos a traíram descendo sobre o mar calmo ao longe.

— Faz mais de um século que não se houve falar de piratas em Elizabeth Sândis. Os cargueiros são supersticiosos demais.

Cadu deu de ombros.

— Além do mais – Lia sorriu desafiadora – não tenho medo de piratas.

O garoto retribuiu seu sorriso.

— E é? Quem te salvava deles quando você era pequena?

— Nas brincadeiras isso não conta, éramos crianças.

Ela levantou um dos braços para mostrar os músculos.

— E venho treinando desde então.

Cadu fingiu-se admirado e Lia lhe deu um tapa no braço, rindo em seguida.

— Caso algum deles chegue também vou estar preparado – tentou imitá-la e a bacia quase caiu fazendo-os rir ainda mais.

— É ótimo saber que vai ter alguém para proteger Ana.

Os olhos negros do garoto desceram sobre ela.

— E quem vai proteger você?

Com um sorriso de lado, o mesmo que sempre o desarmara quando eram crianças, ela lhe respondeu:

— Sei me defender sozinha.

Mas não precisa ser assim, ele quis gritar. Liana sempre foi forte e destemida, corajosa e leal, mas não podia carregar o mundo nas costas. Como fazia dia após dia suportando todos os horrores daquela casa e daquela família.

Entretanto Cadu permaneceu calado, como sempre fazia, e riu com desdém, atuando incredulidade, e recebendo mais tapas e risos em troca.

Poucos minutos depois eles chegaram ao centro, um espaço apertado e recheado de lojas. Restaurantes anunciavam seu melhor café da manhã enquanto mais ao centro, em bancas diversas, mercadores negociavam frutas, peixes e joias.

Eles logos alcançaram a lavanderia e deixaram as roupas. Ficaram conversando distraídos próximos a um terraço, vazio pelo horário, onde o mar se estendia logo abaixo até o horizonte. Ana chegou com poucos minutos e eles rodaram as lojas acompanhando a jovem.

Ela comprou blusas, shorts, vestidos e sapatos. Um em cada loja diferente. Quando o dia começou a esquentar e eles decidiram almoçar algo atraiu os olhos de Lia.

No mesmo terraço amplo que estivera horas antes com Cadu se encontrava uma banca solitária. Ela era repleta de colares exóticos e pulseiras das mais diversas pedras, algumas até mesmo desconhecidas. Havia colchas, cálices e muitas outras bugigangas. Mas o que mais inquietou a jovem foi a velha vendedora.

Era uma senhora idosa, usando roupas sujas e gastas. Haviam buracos em suas vestimentas e algo negro lhe manchava as mãos enrugadas. O rosto era um mar de rugas e os olhos, cinzas pela idade, pareciam orbes mortas.

Um calafrio correu a espinha da castanha que apressou o passo e entrou junto com os amigos no restaurante favorito de Ana. Comeram e beberam a vontade, descansando mais um pouco até voltarem às compras.

E quando finalmente saíram do estabelecimento o corpo de Lia a impulsionou até a estranha banca. Algo ali lhe chamava, a inquietando. Fosse a aparência decrépita da velha ou o brilho suave de seus produtos. A brisa marinha soprou nos cabelos castanhos da garota e memórias de seus sonhos piscaram em sua consciência.

Sonhos com mar, sol, vento e um cheiro adocicado de sândalo.

Antes que ela pudesse dar meia volta a banca já havia chegado e a mulher sorria para ela, mostrando dentes podres e faltosos.

— Bem-vinda, jovem.

A voz da mulher era sôfrega e arrastada. Lia sentiu novamente um arrepio na espinha e notou que seus amigos haviam desaparecido entre o fluxo de pessoas que começava a surgir. Sozinha ela sorriu tentando parecer simpática e os olhos mortos da vendedora varreram-na como uma onda feroz.

Incomodada com tanta atenção sobre si ela começou a dedilhar os colares e pulseiras sobre a banca.

— Esses colares são muito bonitos.

A velha piscou e olhou para onde Lia tocava.

— Sim, todos eles – ela passou a mão sobre eles – tem uma história.

— Uma história?

O sorriso podre não pareceu mais tão bizarro quanto a primeira vez.

— Sim, querida. E eu tenho o colar perfeito para você.

Lia pensou em negar e ir embora. O que raios estava pensando indo até ali? Ela mau usava joias e coisas do tipo, deixando os frufrus para Ana e sua mãe. Então porque foi até aquela banca? Por que aquela estranha mulher parecia lhe inquietar tanto?

Quando a vendedora revirou a banca abriu uma das caixas aveludadas. No instante em que o colar surgiu Lia sentiu-se tonta. Era envolto por uma linha fina, quase transparente, com um búzio esverdeado tendo destaque em seu centro.

A jovem não soube o que mais lhe encantou, mas no instante em que a vendedora depositou a caixa sobre sua mão ela se fechou ao redor do colar possessivamente.

— Quanto é?

A velha sorriu.

— Não é nada. Cada um desses itens tem suas histórias. Esse – ela apontou para o colar – ainda precisa contar a sua.

Lia olhou ainda tomada de uma estranha agitação para a mulher. Ela mesma não usava colares ou brincos, nem pulseiras. Mas aquele objeto parecia tão verdadeiramente dela que nem sua razão se fez ouvir sobre as batidas aceleradas de seu coração.

— Obrigada – sussurrou, quase sem voz.

A velha, com seus olhos cinzas, fez uma reverência à ela e sorriu quase sem dentes. Lia permaneceu parada por alguns minutos antes de retomar o senso de direção e começar a se afastar da banca.

Mas um dobro de vento salgado lhe alcançou os cabelos, fazendo-os entrarem em boca. Praguejando Lia prendeu os cabelos grossos num rabo de cavalo e enquanto o fazia um sussurro, baixo e quase inaudível, chegou aos seus ouvidos.

Use-o com sabedoria Liana.

Assustada ela virou-se, pronta para rebater o dono da voz, mas não havia ninguém atrás dela. Nem mesmo no terraço, onde a banca de bugigangas se encontrava, havia sequer um resquício da velha e do seu sorriso.

Notas finais
Estou ansiosa pra postar essa história (e a quarentena que o diga!), então deixem qualquer feedback, prfvr. É um projeto desenvolvido pra vocês com muuuito carinho!