No quarto Cadu e Ana já dormiam quando Lia voltou de um banho quente, preparado para aquecê-la, devido ao choque na água fria da madrugada. Mas a água não estava fria, Lia lembrou. Não tão fria quanto sua mãe.

Deslizando a mão no dossel antigo Lia refletiu, silenciosa, sobre as últimas horas, sobre seus poderes, sobre sua mãe. Olhando de lado para o casal na cama ela suspirou, sabendo o que iria fazer, agora mais do que nunca.

•••

Quando a porta do escritório de Pierre bateu ele achou que fosse qualquer outra pessoa, menos Lia. Mas a figura da garota se sobressaiu na soleira, altiva e determinada. Ainda era madrugada e ela deveria estar descansando, como ele lhe dissera para fazer.

— O que faz aqui?

— Preciso conversar com você – ela o olhou no fundo dos olhos – e fazer um pedido.

O homem alisou a barba sem perceber e ponderou sobre as palavras dela, dando-a espaço para entrar em seguida.

Lia entrou cuidadosa no escritório observando a decoração rústica que aquele cômodo possuía, quase parecido demais com o navio do capitão. Pierre fechou a porta atrás de si e indicou a poltrona de frente a escrivaninha velha, sentando logo atrás dela.

A jovem se sentou.

— Pode começar.

— Antes de cair no mar – Lia repetiu o que os garotos haviam dito, apesar de saber que havia sido arrastada para a água – Kevin me fez uma proposta.

Os olhos castanhos do capitão perderam o foco.

— Sim.

— E eu queria conversar com você sobre isso.

O capitão se encostou à cadeira de couro em que estava sentado e assentiu lentamente, absorvendo a realidade que caia naquela sala. Ela iria embora. Como todas as outras.

— Eu vou organizar um navio que possa levá-los de volta até o porto de Elizabeth​ Sândis. Não vai demorar mais que um dia, o percurso é mais rápido indo pela baía.

— Eu não vou embora, capitão.

— Tudo bem, nós já esperávamos...

Pierre a olhou confuso.

— O que?

Lia riu se apoiando na mesa.

— Eu não vou embora, capitão.

— Não? Como não? Nós vamos jogar você num vórtice! Você vai se afogar e afundar e morrer! Vai ser pior do que cair numa das pedras aqui! Você não vai conseguir sobreviver!

— Então porquê me trouxe até aqui?

O capitão ficou sem palavras, com as mãos abertas e levantadas ao lado do corpo.

— Eu não... Não sei – admitiu, abaixando os braços.

— Você precisa de ajuda, mas não mataria inocentes por isso, não é?

O rosto impassível de Pierre reforçou as palavras da jovem.

— Não precisa de um coração para ser um homem bom, capitão. Você continuou, ano após ano, buscando alguém que pudesse devolver seu coração, mas não agiu como se não tivesse um com nenhuma das outras garotas.

O homem, ainda em estado de torpor, olhou nos olhos de Lia, vendo neles um fio de esperança que ele mesmo perdera há anos.

— Eu sou a filha de Nagisa, Pierre. Eu posso ajudar você.

Ele balançou a cabeça.

— Você caiu na água e bateu a cabeça, não está pensando direito. Você não deve se sacrificar por mim, senhorita Lia. Pensei que dar a oportunidade para que você fugisse fosse ser o suficiente, mas...

Lia levantou a mão calando o homem. Pedindo silenciosa para que o colar mostrasse sua verdadeira forma ao capitão ela sentiu sua pele esquentar. Antes de seus cabelos, que haviam voltado a ser castanhos, ganhassem o tom avermelhado os olhos verdes da jovem brilharam incandescentes.

A boca do capitão se abriu em surpresa e ele arquejou quando lentamente os cabelos castanhos se tornaram ruivos. Quando Lia fechou os olhos, cessando o pedido, e voltou a olhar para o homem a sua frente pensou ter visto lágrimas em seus olhos.

— Você é igual a ela...

— Na aparência apenas, capitão – Lia sorriu – posso dizer com toda certeza que nossas personalidades são diferentes.

Tomando fôlego o homem assentiu, saindo do choque e da negação para uma aceitação parcial da verdade que sempre havia buscado. Alguém que pudesse ajudá-lo a restaurar sua vida.

— Claro, então... quando...

— Eu não caí hoje. Eu fui puxada.

Os olhos de Pierre mostraram interesse e Lia lhe contou parcialmente sobre seus poderes, sobre sua mãe e sobre as palavras dela. O homem não pareceu se abalar com o relato, mas a mão que apertava a poltrona o denunciava.

Quando ela acabou e se recostou na poltrona, Pierre suspirou apoiando os braços sobre a escrivaninha.

— Você passou por tudo isso lá embaixo?

Lia sorriu de lado.

— Difícil de acreditar?

— Na verdade não – ele olhou para ela – sinto muito.

— Não, você não sente – Lia o imitou na posição sobre a escrivaninha – mas em breve você vai.

— O que quer dizer com isso?

— Eu tenho poderes, capitão. Poderes reais. — ela deslizou a mão nas madeixas vermelhas e macias – Eu posso ajudá-lo na busca pelo coração. Eu quero fazer isso. Eu faria isso mesmo antes de descobrir que posso. Jamais o abandonaria.

O silêncio do homem fez uma inquietação ainda maior surgir dentro da jovem. Ela já havia decidido ajudá-lo, mas as reviravoltas pareciam nunca acabar. E se ele ainda assim não aceitasse?

— Qual é o seu pedido, senhorita Lia?

— Eu quero que Ana e Cadu permaneçam aqui quando nós formos em busca do coração. Não quero colocá-los em perigo.

— Você está confiando demais em piratas, senhorita – Pierre sorriu e Lia sentiu um grande peso em seu peito diminuir. Ele estava brincando com ela.

Sorrindo em resposta ela se apoiou na superfície entre eles.

— Não se engane capitão. Não estou confiando em piratas, estou confiando em você.

O sorriso do homem se alargou.

— Estou confiando no meu próprio coração.

— E ele não vai decepcionar você. Claro que eles podem ficar.

O pirata sorriu e se ainda tivesse um coração teria demonstrado algo com ele. Pierre admitiu para si, vendo aquela jovem ali bravamente defendendo os seus, que libertaria seus amigos se ela pedisse.

Lia havia o conquistado naquela noite no navio, quando negociou seus poderes, os mesmos que ela até então não sabia possuir, pelos seus amigos. Pela vida deles.

Ela era uma garota forte e ele apreciava isso.

— Pedirei à Anthony que cuide bem deles até nossa volta.

Lia sorriu radiante. Pulando da poltrona ela ficou de pé apoiando a palma das mãos na escrivaninha.

— Quando poderemos partir?

— A qualquer momento.

— Ótimo, vamos juntar os homens. Sairemos ainda de madrugada.

Pierre riu com desdém fingido.

— Está achando que é o capitão?

O sorriso da jovem desarmou o sarcasmo dele.

— O capitão me deu propriedade para isso. Ou prefere adiar ainda mais nossa jornada?

Na verdade, era ela quem não queria encarar Ana depois daquele seu pedido.

O pirata, apoiado na poltrona, riu novamente. Desta vez o riso foi sonoro e ele assentiu.

— Você está certa, vamos partir. Esteja pronta quando eu mandar chamarem-na em seu quarto.

Lia assentiu, afastando-se da poltrona.

— E mais uma coisa. Use couro, vai ajudar com o frio.

Concordando ela rumou a porta e a abriu, sorrindo para o capitão do outro lado.

— Nós vamos encontrar seu coração, Pierre. Eu prometo.

Antes que o homem pudesse lhe responder ela fechou a porta e saiu correndo, com passos audíveis no corredor. Sozinho no escritório o pirata riu novamente e acariciou a madeira da escrivaninha.

— Nós vamos – repetiu sozinho – obrigado.

•••

Sentada na cama do seu quarto provisório Lia encarou a bandeja onde estivera a comida e os remédios para quando ela chegou da praia. Foi estranho perceber que depois de comer sua força estava de volta, assim como seus poderes.

Sozinha no quarto silencioso, enquanto seus amigos dormiam, ela rememorou todo o seu percurso até ali, desde a invasão e o barril em que se escondeu, o acordo com o capitão, a festa e as leituras com Kevin. Seu encontro com sua mãe e a certeza de que podia fazer alguma coisa.

Ela fechou a mão em punho.

Algo dentro dela lhe dizia que o que estava por vir seria ainda mais desafiador, que a jornada lhe traria perigos e obstáculos. Mas algo em seu âmago ansiava por aquilo. Havia alguma coisa lá que ela precisava encontrar. Não somente o coração.

Dando um pulo da cama ela pegou um papel em branco e se pôs a escrever para Ana. Tiveram uma conversa franca naquela manhã, Lia não queria faltar com eles. Mas não podia levar Ana. Não a colocaria em perigo.

Na carta ela se desculpou e contou parte da história, afirmando que era filha da Deusa e que poderia ajudar o capitão. Alertou-os sobre o pedido feito à Pierre, de que ficassem na mansão, e que morreria de saudade deles durante o tempo que ficaria longe, mas que eles deviam ser fortes. Cuidariam bem deles ali e eles não seriam arrastados para perigos desnecessários.

Cadu, por favor, tome conta de minha irmã. E Ana, olhe ele por mim. Sejam fortes e fiquem juntos. Eu volto logo, não vou demorar.

Com amor, Liana.

•••

A embarcação parada no caís era menor que a do capitão, mas ainda assim era imponente e de um tom de madeira claro que contrastava nas lamparinas acesas em boa parte de suas extremidades. Subindo por uma escada de cordas ela encontrou, no convés amplo e limpo, alguns marujos que já conhecia visualmente, porém em uma quantidade menor.

— Por que tão poucos? – sussurrou para si, pensando alto.

— Porque só os mais bem treinados e de confiança estão aqui – respondeu Kevin, surgindo de trás de um mastro próximo – é uma surpresa ver você aqui. Kyler apostou que você fugiria assim que se recuperasse.

Lia sorriu e fez uma careta em seguida. Sob a luz das lâmpadas e de uma lua resplandecente Kevin brilhava, com as madeixas douradas e os olhos verdes iluminados pelo seu sorriso.

— Não gostei muito dele. Você achou que eu fugiria?

— Esperei um pouco por isso – ele admitiu, ficando ao lado dela – queria tê-la protegido.

Aquela palavra, proteção, soou como um alarme na cabeça de Lia.

— Mas eu não preciso ser protegida, Kevin.

— Você mostrou isso muito bem – deu de ombros.

Lia sorriu e bateu seu ombro no dele.

— Porque não está de vestido?

O olhar de Lia acompanhou o do garoto para sua roupa: uma calça de couro e uma camisa de linho grossa, um conjunto perfeito para atravessar o frio gélido da madrugada. E era extremamente confortável.

— Me sinto mais flexível assim – ela rodou sorrindo – e couro ajuda com frio.

Kevin a avaliou, de cima a baixo, e sorriu concordando. Couro realmente aquecia contra as rajadas de vento, mas apesar de tudo ele sentiria falta de ver Lia de vestido. Combinava tanto com ela.

— Marujos, à postos!

A dupla olhou surpresa para o capitão apoiado no timão.

— Hora de trabalhar – Kevin maneou com a cabeça – a vejo em breve.

Lia o correspondeu e enquanto Kevin corria para ajudar os poucos homens ela seguiu até o capitão, subindo as escadas até ele, estas bem menores que a do navio que a levou até ali. Parando ao lado dele Lia sentiu-se da mesma forma que naquela noite em que saíra para o convés de madrugada.

Tudo ao redor era breu, exceto a água próxima, iluminada pelas lamparinas. Os homens, desta vez acordados, iam de um lado para o outro, puxando e amarrando cordas, descendo as velas e impulsionando o barco para longe do caís.

Olhando para a ilha uma última vez Lia desejou que tudo desse certo. Tocando inconscientemente no búzio a jovem pediu para que todos voltassem a salvo, mas nenhum calor envolveu seu corpo e ela soube que aquele desejo era demais até mesmo para seus poderes.

— Talvez tenha sido prepotente demais da minha parte querer navegar a essa hora – comentou e Pierre sorriu, ainda que não tivesse tirado os olhos da frente.

— Você estava fugindo deles.

— Sim.

— Vai ficar tudo bem, logo vai amanhecer.

— Espero que sim – ela sussurrou e aqueceu os braços esfregando-o com as mãos.

Em silêncio a jovem acompanhou o movimento do navio de pequeno porte se afastando do único pedaço de terra em quilômetros. Suspirando ela encarou à frente e desejou enxergar.

Como se a escuridão se dissipasse de uma só vez ela pôde ver o mar que se estendia a frente. Viu mais do que pediu, como alguns animais marinhos que saltavam acima da água e o esguicho de baleias.

Sorrindo Lia sentiu-se agitada. Ela agora não era apenas a filha adotada de uma família rica de sua ilha. Era filha de uma Deusa, tinha poderes e uma história ainda parcialmente desconhecida. E era o que a garota queria descobrir.

Lia estava ansiosa para descobrir mais sobre a garota escondida dentro de si. Sobre o desconhecido que se abria a sua frente. Ela estava diferente, havia percebido. Sentia isso nas pontas de seus dedos.

Mas acima de tudo se sentia corajosa e forte. E com essa sensação ela fechou os olhos aproveitando a brisa fria da madrugada, aceitando o que quer que estivesse a frente.

Ela estaria preparada.

•••

O som das espadas de madeira se chocando ecoou em mar aberto e Lia se esquivou, roubando um sorriso satisfeito de Kevin. A dupla estivera treinando formas da garota se defender durante os dois dias desde que saíram da ilha.

Lia era rápida em aprender os movimentos, o loiro havia percebido, mas se perdia muito tentando imitá-los ao invés de usar a própria força no movimento. Então parecia muito mais uma dança do que uma luta.

Apertando o cabo na mão Kevin avançou na direção dela e Lia usou o mastro, no centro do convés, para desviar dele e de sua espada. Sorrindo travessa ela fez com que ficassem indo de um lado para o outro, ele tentando atacar e ela se esquivar, até conseguir uma brecha e atingir o ombro dele numa distância segura.

Soltando a espada de madeira no chão, como um sinal de derrota, Kevin limpou o suor em sua testa com a manga da roupa. Alguns marujos ao redor aplaudiram a jovem que sorriu animada.

— Você está indo bem – o loiro se aproximou – só precisa de mais força no ataque.

— Assim? – ela avançou​ contra ele tocando com a ponta da espada em sua barriga.

— Sim – Kevin agarrou a parte onde ficaria a lâmina e a empurrou mais contra si – exatamente assim.

Lia vacilou seus passos na direção dele e sentiu o corpo agitar. Havia esquecido, com os acontecimentos na mansão e no fundo do mar, do efeito sedutor que aquele garoto tinha sobre ela.

Com um sorriso de lado Kevin percebeu os olhos dela caírem sobre si e soltou a espada.

— Está com fome?

— Muita! – ela suspirou pondo a espada de lado e ficando numa distância segura do loiro.

— Tem treinado bem esses dias, merece um descanso.

A garota encenou um sorriso de satisfação, mas a lembrança dos olhos de Nagisa e das palavras dela fizeram o mesmo esvanecer. Sua mãe queria matá-la e ela não só precisava aprender a se defender como a lutar. Não podia descansar, tinha que estar preparada.

O estômago dela roncou.

Mas alguns minutos para comer não seriam ruins.

— Vamos?

Kevin estava a alguns passos de distância, na direção da pequena cabine que usavam como local de descanso. Sorrindo a jovem o seguiu tocando inconscientemente no colar.

— Acredito que vá chover em breve – comentou um dos marujos pelos quais ela passou.

O comentário fez os olhos de Lia descerem sobre o céu e as nuvens escuras das quais eles falavam se aproximavam sorrateiras. Pierre tinha dito que em mais dois dias estariam chegando no redemoinho que seria a localização do coração dele. Segundo lendas o lugar seria o depósito no qual a deusa guardava seus tesouros e pertences. Era o lugar perfeito para jogar o coração do pirata.

Inspirando fundo Lia se apressou e alcançou o loiro antes de entrar na cabine. Lá dentro Pierre os esperava sentado numa grande mesa com comida suficiente para os três e um sorriso animado.

•••

Primeiro Lia sentiu frio e em seguida a chuva começou forte. Os homens no convés não se intimidaram, mas Pierre não a deixou sair da cabine, dizendo-lhe que não deveria adoecer antes de chegarem ao ponto. Mas a tempestade não trouxe só água e ventos.

Quando a chuva afinou e o céu pareceu se tornar um pouco menos escuro, com os fracos raios de sol da tarde, a nevoa espessa tomou conta de tudo. Era difícil enxergar até mesmo o próprio o navio, suas velas e mastros. Lia saiu sorrateira quando notou que a chuva havia passado, mas não viu nada além de neblina.

— Capitão?

O grito dela ecoou e, aguçando os sentidos, notou o movimento no convés. Os marujos ainda iam de um lado para o outro, sustentando as velas e apertando cordas.

— Não saia da cabine, senhorita Lia – Pierre respondeu ao seu grito – essa névoa é traiçoeira, ela...

Alguns sons de gritos, externos ao navio, soaram como alarmes. Os piratas mais próximos de Lia puxaram as espadas de um alforje próximo e ela sentiu os pelos do braço se arrepiarem. Era como se fantasmas estivessem passando bem ao lado deles.

Lembrando de sua capacidade de visão Lia tocou no colar. Não demorou muito para sentir o calor característico e poder enxergar através da névoa. O que viu quase a paralisou. Em meio às nuvens e o breu se aproximava um navio velho e podre, com tripulantes mais mortos do que vivos. Diretamente na direção deles.

— Navio à direita, capitão! – Lia gritou, correndo pelo convés na direção das escadas – Estão com uma grande quantidade de homens e não parecem amigáveis!

Quando ela subiu os degraus e se colocou ao lado dele no timão viu o olhar de surpresa de Pierre lhe encher ainda mais de medo.

— Não são homens, senhorita. São fantasmas.

O grito de Pierre em seguida alertou todos do navio e Lia pôde ver e ouvir todos, ainda desorientados, desembainharem suas espadas. Outros sons externos se aproximaram e gritos de batalha começaram. Num instante o navio que estivera distante se encontrava bem ao lado deles​, grande e lotado de homens, que pulavam na água em direção a embarcação sem hesitar.

Pierre entregou o timão a um dos piratas ao seu lado e puxou uma espada da cintura, preparando-se para entrar na luta.

— É melhor voltar à cabine, senhorita Liana.

Com suas habilidades com a espada ela sequer pestanejou, assentindo e correndo escada a baixo. Não estava pronta para lutar contra alguém que não fosse Kevin, que às vezes perdia de propósito. Não tinha técnica nem coordenação. Era um desastre.

Antes que chegasse à cabine ouviu grunhidos ao seu redor se tornarem quase ensurdecedores. Espada contra espada, gemidos e sons de batalha ecoavam no ar. O navio inimigo estava praticamente vazio e os seus tripulantes agora subiam como cobras no dela.

Ela se esquivou de uma mão traiçoeira que tentou agarrar seu pé, mas mesmo que Lia pudesse vê-los os outros ainda estavam aturdidos pela neblina. Lia viu um dos marujos ser mordido pelo fantasma.

O grito dele a deixou em choque e surda. Todos seriam atacados e morreriam daquele jeito. Ela tinha que fazer alguma coisa. Ela podia fazer alguma coisa. Segurando no colar Lia desejou dissipar a neblina e no instante em que seu desejo fez arder sua pele uma bolha envolveu o navio de Pierre.

A névoa foi afastada e pairou ao redor da embarcação, como se uma força invisível a tivesse expulsado, mas a mesma estivesse ávida a voltar. A compreensão disso fez Lia recuar alguns passos observando o fenômeno. Não era uma neblina qualquer trazida pela chuva. Havia magia ali.

Ela sempre fora muito cética em relação a fantasmas, mas se ela tinha poderes submarinos eles agora mais do que nunca eram possíveis. E aqueles homens que subiam no navio, decrépitos e com um cheiro podre, só confirmavam ainda mais a realidade que surgia.

Lia não sabia manusear uma espada como aqueles homens, mas podia fazer uma coisa que ninguém mais podia. Nem mesmo o navio fantasma e seus tripulantes. Usar poderes.

Quando a batalha ao redor se tornou vantajosa para os piratas de Pierre, agora que enxergavam seus inimigos, Lia se trancou na cabine. Tomou fôlego, água e vasculhou as lâminas que o capitão mantinha ali dentro. Agarrou a menor espada e se preparou para a loucura que pretendia fazer.

Abriu a porta com tudo e correu no convés, desviando e atingindo, com algum sucesso, mãos e inimigos indesejados. Ao lado do leme ela pôde ver com clareza a situação no navio e percebeu que cada vez mais intrusos se esgueiravam sem ser vistos para dentro da embarcação.

Tocando no colar Lia desejou. Desejou tirá-los do navio, lançá-los ao mar, desejou dar força aos piratas. O calor foi mais intenso do que antes, ela percebeu, mas quando abriu os olhos, estes incandescentes, viu os inimigos sendo afastados do navio por ventos mais fortes do que eles.

Pierre e Kevin, no meio do caos, olharam imediatamente para ela e a surpresa e o pavor no rosto deles quase a fez vacilar. Mas o navio fantasma não desistiu tão fácil e a jovem viu eles se prepararem para atacar de outras formas.

A palavra soou num grito de alerta dentro e fora da cabeça de Lia.

Canhões!

O navio de Pierre estava de costas para o atacante e o homem no timão começou a girá-lo freneticamente, tentando alcançar uma posição mais estratégica. Mas não havia vento e o navio estava praticamente preso. Exceto pelo movimento das ondas.

A ideia foi rápida e Lia não pensou em mais nada quando ergueu as mãos e desejou controlar as águas embaixo do navio. Seu estômago chiou quando o calor preencheu sua pele, anunciando que ela estava perto de esgotar seus poderes, mas a jovem conseguiu mover o navio.

Os marujos, já próximo aos canhões internos, entenderam o recado e prepararam o ataque. Assim que a embarcação conseguiu uma boa posição foi atingida pelos canhões inimigos. Foi uma chuva de bolas que atravessaram as partes de cima, arrancando muretas e lançando longe barris.

O navio deles era muito alto, Lia percebeu, e eles não conseguiam atingir o casco. Não ainda, pelo menos, e ela aproveitou a trégua dos​ tiros para contra-atacar.

— Lancem os canhões – ela canalizou poder nas bolas – agora!

Quando a fumaça dos canhões subiu no ar Lia as direcionou com seu poder para os cascos do navio ao lado. Os marujos comemoraram os acertos enquanto gritos soavam do outro lado. Pierre saiu do convés e correu até Lia, que ainda mantinha as mãos elevadas com os olhos focados no navio ao lado.

Os olhos verdes ainda brilhavam fluorescentes assustando alguns piratas próximos.

— Senhorita Liana, o que está fazendo?

O capitão se apoiou no mastro ao lado dela.

— O que podemos fazer para ajudar? – continuou Kevin, alcançando o pai.

— Avisar que talvez encontrássemos navios fantasmas teria sido um bom começo – ela resmungou sem tirar os olhos do navio – mais um ataque vindo!

Numa manobra arriscada ela estapeou o ar, com a adrenalina correndo incansável por todo seu corpo. Os poderes estavam livres na ponta de suas mãos e foi com eles que ela lançou longe algumas bolas inimigas que se aproximavam. Outras, não atingidas por ela, passaram raspando em mastros e velas.

O sorriso de Pierre ao comentário dela havia desaparecido para fascínio ao ver o que ela fazia, Kevin estava surpreso e abismado, porém mais lúcido que o pai.

— Vou ajudar no preparo dos canhões – anunciou, recebendo um aceno positivo da jovem.

O loiro desceu correndo as escadas até o primeiro nível, gritando ordens para os homens enquanto carregava com os outros munição. Pierre pareceu despertar de sua admiração quando as bolas de canhões deles atingiram em cheio o navio inimigo, que vacilou em direção a afundar.

— Mais uma vez!

O grito dela fez o capitão se mover para também ajudar os homens, mas ela o deteve com o olhar. Aqueles olhos luminosos não o intimidaram, como fazia com todos os outros, e ele estancou no primeiro degrau da escada.

— Precisamos fugir assim que eles afundarem, capitão. Assuma o leme rápido, vou lançar ventos que nos mande para longe.

Pierre olhou para o caos de homens e bolas de canhão abaixo e dispensou o homem no timão que correu a todo vapor convés abaixo. Se posicionando com as mãos no leme Pierre olhou para Lia. Ela havia voltado a encarar o navio fantasma e ele sentiu a intensidade do poder dela reverberar, lançando um formigamento sobre a pele dele.

Canhões agora!

Quando a fumaça se mesclou a neblina atingindo o navio inimigo tudo aconteceu exatamente como Lia pensou que o seria e a névoa se dissipou lentamente mostrando de forma mais clara o navio que os atacava afundar. Seus tripulantes, entretanto, ainda estavam ávidos por luta e deslizaram pela água na direção deles.

A jovem tomou um último fôlego e um último desejo, sentindo os joelhos fraquejarem. O vento havia voltado e as velas açoitaram acima de suas cabeças. Com os poderes Lia os lançou rapidamente para frente e para longe dos inimigos, o suficiente para andarem alguns bons quilômetros em questões de segundos.

Assim que o espaço em que eles estiveram presos, numa neblina amaldiçoada, se fez ser visto ao longe dissolvendo e desaparecendo, Lia caiu de joelhos no chão. Os ventos diminuíram e passaram por ela, lhe bagunçando os cabelos, antes de desaparecer.

As madeixas castanhas se tornaram ruivas no mesmo instante que foi atingida pelos ventos, mas os olhos de Lia se tornaram normais e ela encarou, atordoada, o capitão apoiado no timão sorrir para ela.

— Nós conseguimos, senhorita Liana.

A jovem sorriu aliviada e satisfeita.

— Lia!

O grito de Kevin, enquanto subia as escadas, foi tudo que ela ouviu antes de desmaiar no chão molhado do navio.

Notas finais
Sentiram saudades? Porque eu senti!