No sexto dia Lia acordou queimando em febre. Sentia tudo rodar e nenhuma posição parecia confortável. Tristan aumentou a quantidade de folhas ao redor da jovem, que afirmava ter frio, e a guardou durante todo o dia sem sair do seu lado um só minuto.

— Isso é uma reação do seu corpo a pasta. O ferimento já está fechando. Vai passar logo e você vai ficar melhor.

Tristan repetiu essas palavras durante todo o tempo em que ficou ao seu lado tentando lhe passar tranquilidade enquanto ele mesmo quase caia em desespero.

Foram longas horas assim até a febre passar.

Já era de noite quando isso aconteceu e Lia estava encolhida no manto de folhas abastecido olhando Tristan abastecer a fogueira. Sua cabeça ainda latejava, mas ela se sentia melhor. E foi ali, depois de todo o sofrimento, que ela só conseguiu pensar na vida que deixou para trás antes de seguir naquela viagem com o capitão.

De início Lia pensou que fosse uma aventura, desbravando o mar como sempre sonhou que faria. Teria aproveitado melhor o tempo no navio com Ana e Cadu se soubesse que não morreria no fundo mar. Se tivesse conhecimento disso teria aproveitado cada momento naquela embarcação e aceitado a proposta.

Aceitaria a proposta e voltaria para casa com Ana e Cadu e ainda teria uma aventura para se lembrar. A água salgada em seus cabelos. O vento forte a abraçando durante o dia e o frio gélido da noite cravando-se em seus ossos. A sensação de estar no mar.

Tudo isso seriam lembranças boas e talvez Pierre ainda...

Os olhos esverdeados focaram nas costas marcadas do garoto a sua frente, com arranhões no tecido fino que ele usara debaixo da armadura, provavelmente abandonada em batalha.

— O que aconteceu lá na caverna?

Tristan parou lentamente o que fazia com a fogueira e olhou para Lia, desolada no chão. Os cabelos ruivos estavam emaranhados e sujos, com pedaços de folhas presos entre eles, e a pele pálida estava suja, assim como a calça de couro e a parte superior da blusa, que havia sido rasgada no abdômen devido ao ferimento.

Lia estava um caco, mas os olhos dela permaneciam fortes e foi focando neles e na força que ele acreditou que ela possuísse, que Tristan se afastou da fogueira e sentou ao seu lado, apoiando as costas na árvore.

— Depois que você desmaiou nossos soldados ficaram em vantagem.

Lia lentamente se sentou ficando ao lado do moreno.

— Seu capitão e o outro homem que estava com ele armaram uma distração e eu consegui fugir com você.

— Então quando disse que eles estavam bem...

Tristan olhou para o chão focando na grama que se enroscava nos seus pés descalços.

— Eles foram capturados por ela. São prisioneiros de Nagisa agora. São iscas para atrair você.

Ele a fitou de soslaio, mas Lia nada expressou o imitando ao olhar para o chão.

— Então sim, eles estão bem. Por enquanto.

Com um murmúrio que indicava que ela havia entendido Lia fechou os olhos lembrando na batalha as palavras de Pierre pronto para lutar por ela.

— Eles foram muito corajosos para proteger você.

O comentário de Tristan fez um sorriso triste surgir no rosto de Lia. Vagarosamente ela assentiu.

— Sim, eles foram.

Balançando a cabeça para afastar a tristeza ela olhou para a fogueira e o crepitar de suas chamas.

— Eu os conheci alguns dias atrás.

O moreno a observou interessado.

— Para falar a verdade eu invadi o navio deles. Eles sequestraram minha irmã – ela lançou um sorriso brincalhão para Tristan – e lá descobri que eles queriam a mim, não a ela.

Lia suspirou.

— Pierre me disse que Nagisa tinha roubado o coração dele e eu não acreditei. Como podiam existir Deuses do mar? Como era possível roubar o coração de alguém? Eu não acreditei no capitão quando ele me contou sua história, mas aceitei ajudá-lo para proteger meus amigos.

Lembrando do jantar com Pierre e o sorriso dele ao fecharem o acordo Lia sorriu sem força.

— Eu não sabia dos meus poderes na época – ela fez uma pausa e riu – é estranho falar época quando não faz muitos dias que descobri.

Tristan a acompanhou com um sorriso.

— E você usa eles muito bem.

— Sim – Lia estendeu a mão para frente deixando-a sob seus olhos enquanto a outra envolvia o búzio em seu pescoço – é como se fosse uma extensão de mim. E talvez tenha sido essa parte de mim que acreditou no capitão antes mesmo de saber que eu tinha poderes.

Ela remexeu a boca.

— Eu queria ajudá-lo antes mesmo de perceber – sussurrou – queria ser a pessoa que ele precisava. Eu queria isso. Ser a protagonista da minha própria vida, sabe?

Mesmo que a pergunta fosse retórica Tristan concordou. Sim, ele sabia. Ele sabia exatamente o que era não ser dono da sua vida. De não ter controle sobre o que fazer ou não fazer.

— Vivi a vida inteira na sombra de uma mulher poderosa e rica. Eu não era nada ali. Não tinha voz, não tinha controle​ sobre o meu próprio corpo.

O moreno olhou sentido para ela.

— Ela me obrigava a usar vestidos ridículos e joias pesadas. Eu nunca quis nada daquilo. Aquela não era eu. Minha vida inteira naquela mansão foi uma mentira.

Quando os olhos esverdeados procuraram os de Tristan Lia quis chorar. O reflexo deles era de compreensão e pela primeira vez ela sentiu que alguém entendia sua angústia. Ana nunca questionou a vida que levava, adorava o dinheiro e a comodidade que ele trazia, e Cadu não parecia se importar com aquelas questões, já que não fazia parte da sua vida.

Mas Lia sofria todas as vezes em que Agatha usava seu poder sobre ela, sua voz, sua posição dentro daquela casa. Lia era um animal numa jaula de diamante que suplicava por liberdade à pessoas mais interessadas nas joias do que nele.

Ana era sua fuga. Era a irmã que ela adotou para si e que mimou o suficiente para conseguir esquecer a dor de seu aprisionamento. Ana a fazia rir e se divertir, a contava sobre seus sonhos e fazia Lia imaginar um futuro onde tudo seria diferente.

Mas nada se tornou diferente e no instante em que Pierre escolheu Lia ao invés de Ana, a superproteção da jovem para com sua irmã se tornou só mais uma desculpa para fugir.

Entretanto Lia não quis fugir quando encarou o capitão naquela cabine, não quis fugir quando Kevin a propôs liberdade e não quis fugir quando descobriu que era realmente filha de Nagisa e uma Deusa do mar.

— Pierre me fez enxergar que eu fugi a minha vida inteira. Ele é um homem bom. Ele me deu a opção de ir embora dois dias depois, sabendo que eu poderia morrer se continuasse com o acordo. E me salvou na caverna quando ir embora era muito mais fácil.

Lágrimas despontaram nos olhos da jovem e ela sentiu a garganta doer. O frio da recente febre a fez se aquecer com as mãos.

— Eu devo tanto a ele agora.

O sussurrou foi baixo, mas Tristan conseguiu ouvir e seu peito apertou com a visão a sua frente. Quando viu Lia na caverna ele pensou que ela era fraca e boba. Tinha sido deixada para trás pelos companheiros e pegava na espada como uma iniciante.

Mas no momento em que os cabelos dela, ruivos como fogo, ficaram entre ele e Rei, sua percepção mudou. Ela era forte, do seu jeito, e a inabilidade com a espada era compensada com uma esperteza e habilidades que o surpreenderam.

E lá estava ele agora sendo mais uma vez surpreendido pela Deusa na sua frente.

Tristan entendia o sentimento de Lia. Abandonado quando pequeno foi criado exclusivamente para ser guarda real. Nunca o deram outras alternativas. Ele nunca teve voz ou poder. Ser general tinha sido uma honraria cedida pelo seu falecido instrutor, que o treinou desde cedo e o alienou o suficiente para só entender a trama em que se encontrava quando ser general já era uma realidade e ele não podia mais escapar.

Ele nunca pôde.

O mar era tão grande e profundo. Por que ele tinha que servir e ser prisioneiro dos caprichos de uma Deusa? Porque era órfão? Por que o destino para desertores era a morte?

Os olhos azulados caíram sobre a imagem de Lia na sua frente iluminada pela fogueira. Salvá-la havia lhe sentenciado à morte. Roubá-la de Nagisa lhe renderia uma morte lenta e dolorosa. Mas apesar disso, Tristan não se arrependia.

Se Lia entendeu que não queria mais fugir quando quis ajudar Pierre salvar Lia foi o divisor de águas para ele. Enquanto saia correndo da caverna com aquela garota nos braços Tristan pensou em tudo que poderia acontecer com ele. Mas não vacilou sequer um segundo.

Lia foi o gatilho para o que ele sempre quis ser a vida inteira: livre.

— Lia, eu...

Tristan tentou segurar o riso, mas acabou guinchando antes de gargalhar à imagem da garota, tão fortes segundos atrás, se debatendo de frio com uma careta ao tentar controlar a sensação térmica.

— Não ria! – ela resmungou, batendo os dentes.

— Eu não consigo, você...

Mais uma vez ele riu e Lia revirou os olhos, rindo em seguida.

— Acho que a febre não passou totalmente – murmurou tocando na própria testa.

— Me deixe ver.

No instante em Tristan se inclinou na sua direção Lia sentiu a respiração se tornar curta e no momento em que ele tocou em sua testa, delicadamente, com um sorriso de lado, seu coração acelerou.

Os olhos dele durante o dia competiam com o céu, mas no escuro da noite, sob a luz da fogueira, aquele azul se tornava único. E o sorriso dele chegava a deixá-la bamba, apesar de estar cravada no chão.

Era como um vendaval de emoções dentro dela ao simples olhar daquele garoto.

— Realmente não passou. Mas não temos muito o que fazer, vamos ter que esperar.

Lia assentiu, ainda muda pelas reações do seu corpo ao tritão a sua frente, e cobriu a boca com as mãos, assoprando e aquecendo-as.

— Você não vai conseguir se esquentar assim – ele riu da tentativa da jovem.

— Dormir hoje vai ser impossível – Lia choramingou.

Uma ideia cruzou os pensamentos de Tristan e ele tirou a camisa do seu conjunto de tecido. Lia arregalou os olhos para a ação dele e o mesmo riu ao ver a expressão de espanto no rosto dela.

— O que você está fazendo?

Ainda rindo Tristan colocou a vestimenta de lado.

— Eu vivo em grande profundidade – explicou calmamente, se aproximando – meu corpo é adaptado para a temperatura mais fria, então...

— O que você está querendo dizer?

Tristan riu ao perceber que estava enrolando.

— Eu sou quente, posso te aquecer.

Os olhos de Lia se abriram ainda mais e o moreno riu ao vê-la enrubescer. Ela começou a balançar negativamente a cabeça, mas ele rastejou até o seu lado, parando perto o suficiente para a jovem sentir o calor do qual falava.

— Eu tenho poderes, consigo me aquecer sozinha.

— Seus poderes estão concentrados na sua cura, Lia.

Tristan ergueu a sobrancelha levantando os braços convidativo. Guinchando Lia se lançou sobre ele, o abraçando desajeitada, e o fazendo rir. Corada ela afundou o rosto no peito do moreno. Ele era realmente quente.

E forte.

Um gemido interno reforçou para sua consciência que ela não devia pensar naquele tipo de coisa.

— Eu não sei se consigo resistir a isso – pensou alto, fazendo Tristan rir.

O garoto rastejou novamente, agora com Lia agarrada a ele, se apoiando no tronco atrás de si.

— O que quer dizer com isso?

Lia arriscou olhar para cima, procurando os olhos azuis do garoto para lhe retrucar, e sentiu-se estremecer​ quando os encontrou tão intensos quanto na primeira vez que o viu.

Não​ era estranho estar atraída fisicamente por Tristan, era até bastante compreensível para Lia. Estranho era a sensação que surgia em seu peito, quente, toda vez que estavam juntos.

Como exatamente naquele momento.

Novamente ela escondeu o rosto no peito do garoto e ele riu, deslizando ritmicamente as mãos sobre a pele desnuda de seus braços. Eriçando-a e esquentando-a.

— Você está realmente com frio. Toda arrepiada.

Lia assentiu vagarosamente.

É por sua causa, ela quase disse, mas segurou a língua. Afundando no calor de Tristan a jovem sentiu o cheiro suave de sândalo que ele trazia.

— O que você ia dizer?

Tristan olhou para os cabelos ruivos e apoiou seu queixo nas madeixas, encaixando ainda mais o corpo de Lia ao seu. Ela prendeu a respiração com o movimento.

— Não era nada.

A jovem soltou um murmúrio de entendimento e seu corpo relaxou com o movimento das mãos dele sobre sua pele. Era tão confortável e gostoso aquele contato.

— Obrigado – Tristan sussurrou o mais baixo que pôde, mas ainda assim Lia o ouviu.

Ela não deu nenhum indicativo de que havia escutado e o moreno tão pouco repetiu. Naquele calor e conforto ambos permaneceram até adormecerem.

•••

Quando Lia acordou, ainda aturdida pela falta de Tristan e seus braços, o sol já estava no céu. O tritão não estava no acampamento improvisado e procurando-o ela percebeu que já conseguia se movimentar sem dor.

Tocando curiosa no curativo ela arriscou, pela primeira vez, olhar a ferida e se surpreendeu quando viu no lugar onde deveria estar o buraco da espada de Rei, um longo corte fino. Depois de alguns segundos avaliando a cicatrização Lia levantou e quase pulou de alegria.

Era a primeira vez que ficava de pé desde o acontecido na caverna e sua bunda já estava dolorida de tanto ficar sentada e deitada. Com uma careta ela se alongou e viu, de esgueira, um movimento dentro da água da cachoeira ao longe.

Primeiro achou que fosse um animal, mas se aproximando lentamente da margem os cabelos negros inconfundíveis lhe disseram exatamente quem era. Sorrindo com a imagem de Tristan completamente molhado se banhando Lia parou a alguns passos da água admirando o corpo que a abraçara no dia anterior.

E que corpo, seus pensamentos saíram no automático.

— Estou sendo espreitado ou é impressão minha?

O sorriso do moreno que virou acusador foi respondido por uma careta de Lia. Ele ainda estava sem camisa, apenas com o calção gasto, mostrando seus músculos e a palidez de uma vida no fundo do mar.

— Você já estaria morto se eu fosse um animal selvagem.

— A aparência é de um – sorriu travesso e a jovem colocou a mão no peito, atuando estar ofendida.

— Você é um...

— Você está de pé!

A percepção de que Lia estava ali, de pé ao lado da água, mostrava que ela já estava melhor. Tristan sorriu com a comprovação, sendo correspondido por ela, mas no instante seguinte a realidade daquela condição o engoliu.

Lia estava melhor e ela iria embora. Eles se separariam e ele seguiria o destino que traçou para si dentro daquela caverna.

O semblante no rosto do garoto alertou Lia que se aproximou da borda. A água caindo da cachoeira começou a ricochetear nela.

— Como está a água?

Tristan acordou de seus pensamentos e olhou da água para a garota. Pensar nela entrando ali nua o fez enrubescer.

— Está péssima, muito ruim. Eu vou sair e a gente vê o café da...

Lia ignorou todo o discurso embolado do mesmo mergulhando de supetão dentro da água límpida da cachoeira. O corpo da jovem agradeceu o contato com a água e internamente ela se sentiu até mais forte.

Voltando a superfície ela inspirou fundo o ar úmido e procurou o tritão com os olhos, sorrindo animada. Ele estava na parte mais próxima da queda d’água e ela teve que fechar os olhos parcialmente para enxergá-lo.

— A água está uma delícia. Seu mentiroso!

Tristan sorriu de lado, tentando esconder o constrangimento, e não se deixou abalar trancafiando a sete chaves os pensamentos que tivera segundos atrás.

Sem esperar resposta Lia novamente mergulhou, indo o mais fundo que conseguiu, e tomou um longo fôlego dentro da água. Viu Tristan procurá-la lá de cima, na superfície, e sorriu consigo.

Tentando usar seus poderes e conseguindo com mais habilidade do que no dia anterior Lia limpou completamente seu corpo, desde terra e folhas a resquícios de sangue e arrumou o cabelo o máximo que pôde.

Repetiu para si que não estava dando uma atenção especial ao seu cabelo porque se sentira ridícula na noite anterior quando Tristan a abraçou toda suja e malcheirosa enquanto ele tinha aquele cheiro tão bom.

A lembrança do cheiro do garoto incitou uma outra lembrança em Lia. A lembrança de um sonho distante, com água salgada e sândalo. E...

De cima Tristan ameaçou descer e a jovem afastou imediatamente quaisquer pensamentos nadando apressada em sua direção. Emergiu bem próxima a ele, fazendo água ir para todo o lado, e riu do susto do garoto. Como revanche Tristan jogou água nela e riu ao vê-la parcialmente se afogar com o elemento que controlava.

— Ei!

Ambos riram e aproveitaram o horário matinal nadando e boiando, rindo e se aventurando embaixo da cortina de água da cachoeira. Com Lia caindo desastrada e o puxando consigo.

Tudo foi bem, ao menos até às pernas de Lia falharem no nado. Tristan a puxou para si antes que ela afundasse dentro da cachoeira e Lia não sabia se ficava preocupada com suas pernas ou com a aceleração de estar mais uma vez tão próxima do peito de Tristan.

Nu.

— O que está acontecendo?

— Efeito colateral de ter ficado tanto tempo sem andar, é normal, não se preocupe – o tritão explicou, a puxando para ainda mais perto.

Lia assentiu e lentamente deslizou os braços para o pescoço do moreno, que a apoiou nos seus. Com os rostos tão próximos foi impossível para Lia não admirar mais um pouco a beleza do garoto, demorando um pouco mais do que deveria na boca dele.

Tristan, por outro lado, evitou o máximo que pôde de contato visual, mas cedeu quando estava prestes a sair da cachoeira, sendo hipnotizado pelos olhos da garota. No exato momento em que o corpo dela deixava a leveza da água para a gravidade da terra e pesava sobre o seu, quente.

Ela sorriu, envergonhada, e o moreno acompanhou o movimento de seus lábios mais do que gostaria.

— Seus cabelos ficam mais baixos quando estão molhados.

O comentário aleatório de Tristan para desviar sua própria atenção da garota a fez rir e tocar nas madeixas ruivas.

— Você acha?

Ele assentiu aprumando-a nos braços e já caminhando até o pequeno acampamento deles.

— Meus cabelos são castanhos na realidade.

Tristan parou e olhou curioso para os cabelos dela. Eram ondulados e de um ruivo aberto, quase próximo da cor de sangue. Não era uma cor comum para humanos, mas para Deuses sim.

E ela era uma Deusa.

A frase fez o coração do mesmo apertar e ele voltou a andar, com Lia enrolando pensativa mechas de seus cabelos entre os dedos.

— Cabelo castanho também fica bonito em você.

Tristan sentou Lia com cuidado na cama improvisada. Ela sorriu brincalhona.

— Quer dizer então que sou bonita?

A expressão no rosto de Tristan foi indecifrável, mas o sorriso que acompanhou sua resposta fez o corpo inteiro de Lia estremecer.

— Sim, você é bonita – rebateu em tom de brincadeira.

Lia buscou um ar que não era dela enquanto o tritão seguia em direção a fogueira logo ao lado. Se abanando a jovem se xingou baixinho enquanto observava os movimentos do moreno.

Talvez aquele pequeno espaço na floresta, só deles, fosse íntimo demais, talvez fosse o jeito dele de sorrir e brincar ou talvez fosse a fragilidade de Lia. Mas ela tinha certeza de que nunca havia se sentido tão bem antes.

Ela sabia que estava numa bolha junto com Tristan e tinha ainda mais consciência de uma hora ela teria que estourar.

Mas que não fosse agora, sua consciência suplicou e sorrindo de volta para o tritão agachado próximo a fogueira ela deixou que aquela certeza cedesse um pouco. Só um pouco mais antes de ter que dizer adeus.

Porque ela iria buscar seus amigos, e o tempo estava passando rápido demais.

Notas finais
[...]