A Herdeira de Gotan
2 Um
Capítulo I
- Lara, vai a festa na casa nova da Ana hoje à noite?
Que coisa mais desagradável. Um nerd qualquer lhe perguntando se ia a uma festa a qual ele nem devia ser convidado. Qual teria sido o motivo para o convidarem? A família dele devia ser muito rica para que as pessoas daquela escola tivessem lhe dado um convite. Provavelmente estava tão acostumado a passar as noites em frente ao computador mexendo em seu blog que nem sabia o que fazer diante de um convite para festa.
- Claro que vou, você sabe que eu não perco uma festa ou uma boa oportunidade para dançar. — respondeu-lhe com seu melhor sorriso, o que ensaiava tantas vezes em frente ao espelho.
Com os lábios molhados de gloss curvados sem exagero num sorriso maquilado era fácil seduzir qualquer um, ainda mais quando dizia palavras gentis e adulava o ego de alguém, fazendo-o sentir-se parte de um mundo ao qual não pertencia realmente.
Ele disse alguma outra coisa, uma promessa de dançar com ela, mas Lara não escutou e mesmo alguns minutos após o rapaz, cujo nome não sabia, ter se afastado, não pôde deixar de pensar nele e achar graça.
Enquanto mordia uma nova trufa tirada da caixa vermelha e cuspia o chocolate, chupando apenas o licor, pensou se ele agüentaria uma noite inteira na festa. Se ele teria coragem para dançar, no mínimo e se seria atrevido o suficiente para beber. Se fosse, beberia champagne, o que era uma pena, pois apenas dúzias de garrafas de champagne eram capazes de deixá-la no ponto.
Deixou a caixa de trufas de lado para ajeitar as meias ¾ brancas, puxando a liga para cima. Que droga, teria de ir ao shopping mais cedo do que imaginava. As botas do uniforme apesar de bem lustradas, já haviam saído de moda fazia tempo e para manter a imagem e seu lugar naquele mundo de glamour, tinha de interpretar seu papel por completo.
- Lara, vai a festa da Ana?
Finalmente alguém interessante. Olhou para cima, mudando o foco de sua atenção das botas para o rapaz de olhos verdes que por um momento se perderamem sua cinta-liga. Jogou a saia quadriculada do uniforme por cima da faixa de renda na perna esquerda e trocou, cruzando a perna direita sobre a esquerda.
- Vou.
Não valia a pena. Por mais bonito que ele fosse não valia a pena ficar com alguém daquele círculo de amigos. Preferia que fosse um desconhecido, alguém que não fosse ver na manhã seguinte.
Ele sorriu e então se afastou. Os iniciados na vida glamurosa de Gotan sabiam o que dizer e sabiam dizer pouco. Num mundo como aquele, ações valiam mais do que frases românticas e atitudes galantes. Quem segurava a garrafa de vinho tinha a chave para a felicidade de todos e podia ser popular por quantas taças pudesse encher.
A escola era chata, mas já era parte de sua rotina, assim como chegar a casa depois da escola e não encontrar nada além da mansão vazia, cheia de quartos e paredes inúteis, com quadros e jarros de flores adornando o que não havia para adornar e com alguns poucos empregados. Não dava a mínima para nenhum deles, cada um mais inútil do que o outro em sua própria existência, seu próprio mundinho pobre e fechado. Ela não ligava.
Subiu as longas escadas com degraus de marfim, andou pelos corredores do andar de cima até entrar no quarto que em tese pertencia a ela, mas ao qual nunca se sentiu realmente pertencer. De um mundo vazio e superficial entendia, fora treinada desde cedo a entender.
Jogou a mochila em cima da cama, sentou-se de frente para o computador e checou os e-mails. Nada interessante, como sempre. Na página de notícias, pessoas morriam em atentados, em assaltos, acidentes de trânsito, nada fora do comum. Nunca.
Desligou e fez os trabalhos de casa do dia, resolveu contas inúteis e sem sentido. Podia saber fazer um milhão delas e ser boa em todas as matérias da escola e ainda não se sentir habilidosa. Matemática, Física, Literatura, eram apenas coisas para fazer as pessoas normais, sem poderes, sentirem-se superiores às outras normais, também sem poderes.
Quando olhou para o relógio já passara da hora marcada para a festa. O nerdizinho já devia estar na festa, sendo como um bocó olhando para o jardim vazio. Riu enquanto apertava o botão Desligar do computador e tirava uma por uma as peças de roupa e as jogava no chão.
Tomou um banho e colocou um vestido verde. Penteou os cabelos escuros e longos e calçou sandálias de salto alto com tiras até antes do joelho. Pegou o celular, enfiou numa bolsa junto com algumas notas de dinheiro e saiu. Entrou na limusine e pensou no quanto a noite poderia ser divertida.
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