A frente daquela tela de computador tudo que Lizandra conseguia pensar é no tanto de coisas que seu pai poderia estar sofrendo, a cada segundo precioso de vida que ele não compartilhava na companhia dela, Pepper, Happy ou qualquer pessoa, a cada segundo ela se sentia mais impotente que no segundo seguinte, cada lágrima derramada por ela era mais complexa do que a anterior, a dor latente no estômago, o engasgo na garganta e o gosto de que algo poderia ser jogado para fora a qualquer momento em forma de vômito, isso se houvesse algo a ser vomitado, já que ela nãos e alimentava a um tempo.

Por fim deu-se por vencida, ela não era boa o suficiente, a pouca idade, a inexperiência e a impossibilidade de confiar em outrem, Lila tinha tudo para dar errado, a não ser a vontade de encontrar Tony. Por mais que ela fosse inteligente tinha que dar-se por vencida, ela não era como ele, mesmo que chegasse aos 21 anos, assim como foi quando seus avó partiram, ela não seria um décimo do que Tony é, não seria boa o suficiente ou capaz a ponto de acha-lo, Lila não tinha prestado a atenção devida quando nas várias vezes ele tentou ensinar-lhe algo, ela quase sempre ignorava ou se achava inteligente demais para ler por si só, ele lhe tutorara pouco em compensação ao tanto que sabia.

— Isso não vai dar certo! — Ela passou as mãos sobre as folhas da bancada as jogando no chão, cálculos sim, mas cálculos medianos e fracos. — Eu nunca vou encontrar meu pai desse jeito.

— Relatório pronto. — Uma voz robótica chamou a atenção dela. — Relatório pronto!

— Que se dane o relatório, Jarvis. — Lila fungou olhando a tela, a imagem de Howard era a que aparecia. — Eu não pedi nada sobre o meu avô.

— Esse é o relatório de emergência, Srta. Stark. — O sistema e sua voz robótica anunciou. — Foi solicitado pelo Sr. Stark na última vez que um relatório foi pedido.

— Sobre o que se trata? — Lila ainda olhava para a imagem de Howard na tela, agora ela mudava para uma foto dele com Maria.

— É sobre a morte do seu avô, Srta. Stark. — A resposta veio logo em seguida. — E sobre a Srta, Samantha Blaine.

— Blaine? — Lila olhava para a tela ainda um pouco atônita, ela conhecia esse sobrenome, era o seu sobrenome do meio, Lizandra Charlotte Blaine Stark, mas pouco se falava sobre seu lado materno. — Quem é Samantha Blaine?

— Sua mãe, senhorita. — Jarvis respondeu e deixou Lila chocada e parada no lugar ao mesmo tempo. — Quer conferir o relatório?

— Sim. — Ela falou se aproximando do teclado, a garganta estava seca. — Passe o que tiver sobre Samantha.

Lila se sentou em uma cadeira a frente da grande tela, não entendeu o que Tony queria ao montar aquele relatório, mas prestou a atenção em cada palavra dita por Jarvis, nem mesmo piscou enquanto ele começou falando do Coronel Gregory Blaine e sua amizade com Howard Stark, a forma como Sam e Tony haviam se conhecido na academia, ela sorria de lado vendo uma foto da mulher na tela, ela muito bonita, Lila conseguia perceber muita coisa sobre sua mãe ouvindo a voz robótica de Jarvis.

Samantha Christine Blaine era a filha caçula de um coronel e uma diplomata, Gregory e Silvia Blaine, ela cresceu em Austin, no Texas boa parte da infância e início da sua adolescência, ela tinha uma irmã mais velha chamada Angélica, que era três anos mais velha que Sam e é uma musicista, Lila se preguntava porque eles nunca vieram atrás dela ou porque ela não pode viver com eles. Ela sorriu ao ver que apesar das notas boas, Sam também era uma garota problemática e vivia brigando, aquele traço parecia ser algo comum em mãe e filha.

A jovem perdeu-se na explicação enquanto vislumbrava a foto da família junta, Greogry, Silvia e suas filhas Samantha e Angelica, os três mais velhos se pareciam muito, mas Sam pelo contrário não tanto, Lila não precisou ouvir a voz de Jarvis contar que a mulher era filha adotiva do casal para constatar o óbvio, eles tinham a pele muito clara e cabelos loiros, como se tivessem vivido longe do sol por anos, Sam tinha a face rosada e cabelos escuros, além dos olhos quase castanhos, diferente dos pais e da irmã. Quando Jarvis começou a falar sobre a vida de Sam pós escola Lila se ergueu, ela viu uma foto de Howard com Samantha e fora o próprio Stark que recrutou Samantha para SHIELD, indicando-a uma amiga pessoal, Peggy Carter.

— Minha mãe era uma agente da SHIELD? — Lila encarava a tela interessada. — Então meus pais já se conheciam? Porque ele nunca fala dela? Ou como se não se lembrasse, porque ele sempre a tratou como uma mulher de uma noite só!

— Acalme-se, senhorita Stark. — A voz robótica pediu e Lila voltou a ocupar a cadeira de antes.

— Jarvis ... — Lila encarava o chão. — Porque meu pai solicitou esse relatório? Ele sabia que estava em perigo?

— Não, senhorita. — A voz robótica fez um suspense. — Ele pretendia lhe contar sua história, pelo menos parte dela.

— Parte? Como assim Jarvis? — Lila novamente se encontrava de pé. — Meu pai ainda pretendia esconder coisas de mim?

— O Senhor Stark também não sabe como a Srta. Blaine faleceu. — Jarvis respondeu de imediato. — Ele estava procurando respostas, pelo menos ia começar a procurar.

— Isso nos ajuda a encontra-lo de alguma forma?

— Infelizmente não, senhorita. — O sistema robótico respondeu e aquilo só frustrou mais ainda a jovem Stark.

A conversa com Jarvis no laboratório ainda ficava na mente, sobre Samantha e tudo sobre seu passado, ela trancou-se no quarto e só abria para ir comer ou ir ao laboratório, nada mais, tinha tudo que precisava ali. Havia folhas meticulosamente espalhadas por tudo o quarto, Lila não tinha paciência para o computador e sua mente tramava mil chances dele estar errado então tentava prestar a atenção no que seu cérebro pudesse ajuda-la, mas até mesmo ela sabia que não sabia o suficiente, o que a irritava em suma, desejava ser mais velha, almejava mais conhecimento e saber o que seu pai sabia, mas até mesmo ela sabia que não era possível, era uma garota esperta, mas longe de ser um gênio ou algo do tipo.

Happy era o responsável por ela, com Phil tentando usar outras maneiras de encontrar Tony, era o segurança e as vezes Pepper que deveriam zelar pelo bem estar da jovem, os dois se revezavam em vigiá-la e sempre tinha um ou outro segurança pela casa, um deles era uma mulher ruiva, seu nome era Natalie Rushman, ela parecia estar sempre perto de Lila quando ela precisava, nem que fosse para um conselho, ela servia muito mais como uma secretária a mais das Industrias Stark do que como uma segurança pessoal, mas deixava Lila confortável.

— Lila? — A voz masculina de Happy chamava da porta do quarto. — Não acha que está meio tarde?

— Tarde? — Lila tirou o óculo do rosto e encarou o segurança. — Nem vi o tempo passar.

— Já são 3:42 da manhã, logo amanhece. — Happy encostara no beiral da porta. — Você precisa dormir, não acha?

— O meu pai também precisa ser encontrado, Happy. — Ela ponderou com a cabeça. — Eu não vou descansar, o Jarvis e eu ...

— O Jarvis e você nada! — Ele ligou a luz do quarto que antes era iluminado apenas pelo abajur de Lila. — Você está ficando obcecada com isso, amanhã uma pessoa vem ver você, alguém que você vai gostar de conhecer, pelo menos o Phil garantiu isso.

— Eu não quero ver ninguém, quero terminar isso aqui! — A voz dela saiu alterada.

— Você é menor de idade e eu sou seu tutor na ausência do seu pai. — Ele não gostava de ter que agir assim com ela, mas as vezes era preciso. — Na segunda você volta para a escola, já perdeu muito tempo, desligue a luz e vá dormir, isso é uma ordem.

— Você não manda em mim, Harold! — Ela gritou jogando o seu caderno rumo a ele. — Você não é meu pai, nem nada meu!

— Eu sou o seu responsável, então você deve obediência sim. Não me obrigue fazer coisas piores, é para sua segurança. — Happy se sentia péssimo, mas ela precisava ouvir aquilo. — Boa Noite.

O barulho da porta batendo foi ouvido, Lila ainda jogou o abajur contra a porta do quarto, ele se quebrou em vários pedaços, como Happy havia desligado a luz, havia apenas o breu e a luz da lua que entrava pela janela, Lila ainda gritou alto, um grito agudo que assustaria quem estivesse dormindo, mas Pepper já havia acordado bem antes disso, ela conseguia ouvir a gritaria entre Lila e Happy do seu quarto, aliás ... Ela tinha sono muito leve, quando Happy saiu do seu quarto ela já tinha acordado com o barulho da chuva lá fora.

Lila não demorou a dormir, ela também estava cansada, físico e mentalmente, tudo pedia por um banho, uma cama. Quando ela acordou na manhã seguinte, algo perto das 10h de uma quarta feira fresca, tudo no seu quarto estava impecavelmente arrumado, a não ser sua cama, ela tinha o sono pesado, então não vira os criados entrando, limpando e saindo, sempre fora assim. Quando a água do chuveiro tocou suas costas ela sentira uma dor, a dor do cansaço, suas pálpebras ainda doíam, sua cabeça latejava e ela estava fazendo o uso dos óculos de leitura muito mais do que gostava. Aos transpor a porta havia uma pessoa lá, Phil.

— Tio? — Ela deu um pulo de susto o vendo observar as fotos na parede. — O que faz aqui?

— Vim ver você. — Ele se virou já tapando o rosto. — Pode ... Er ... Vestir roupa?

— Pode ir falando, estou no banheiro te ouvindo. — Ela pegou a roupa que havia deixado sob a cama. — Veio conferir sobre meu progresso?

— Também, mas não apenas isso. — Phil suspirou. — Happy está preocupado com você e isso também me deixa preocupado.

— Tio ... O Happy exagera. — Ela revirou os olhos saindo do banheiro. — Só estou focada.

— Ele disse que você quase não dorme, não come ou interage com as pessoas, isso não é saudável. — Phil se virou para ela. — A quanto tempo você não vai a escola? Ou vê o Connor?

— Tudo bem, mas o Connor está focado em ajudar o pai dele, coisas de política, ele quer entrar numa boa faculdade. — Lila ajeitou os óculos no rosto e suspirou. — Ele está bem ocupado.

— Você também deveria estar focada em entrar em uma faculdade. — Ele cruzou os braços.

— Tipo minha mãe? — Ela falou aquilo e Phil arregalou os olhos. — Soube que ela estudou Música Clássica na Julliard.

— Quem te contou da Sam? — Phil ainda estava paralisado.

Uma das maiores preocupações de Phil era manter tudo sob Sam fora do alcance dela, deixou isso bem claro para Tony, quando o Stark soube de todas as coisas ele realmente concordou que mantivessem Lila o mais leiga possível sobre esse assunto, era mais para a segurança dela, Sam tinha sido uma boa agente, não queria que ninguém do passado dela viesse atrás da menina, principalmente quem tinha matado os Stark, esse era o maior medo de Phil.

Por mais que a vida de Sam fosse interessante, ele resolvia que não contaria nada, pelo menos tentava, parte de si não queria deixar a imagem de Sam se apagar totalmente, por isso tinha chamado Angelica até ali, como a irmã Angelica era apaixonada pela música, as Blaine entraram juntas na Julliard, mas Sam saiu algum tempo depois, a praia dela era totalmente outra. Até mesmo Angelica estava instruída a falar o mínimo possível de Sam, passar a imagem de uma mulher sem um passado tão abarrotado como realmente era, mas a ideia de Phil tinha ido agua a baixo ali mesmo, ao ver Lila citar Samantha.

— Por qual motivo vocês nunca me falam dela? — Lila tinha o olhar em Phil.

— É para sua segurança. — Ele suspirou abaixando o rosto. — Como descobriu?

— Meu pai tinha feito um relatório sobre ela e a morte dos meus avós. — Lila desviava o olhar para o que havia além da sua janela. — Ela estava investigando a morte dos meus avós não era? Ela é uma agente da SHIELD, como você e o Nick são, eu sou sua missão, Phil?

— Lila é uma história complicada que eu vou te contar na hora certa, claramente não é agora. — Ele se aproximou dela, abraçando-a. — Quero realmente poder te contar a verdade, mas ainda é cedo, peço que fique longe da Sam, pode fazer isso por mim?

— Promete que vai me contar toda a verdade? — Ela ergueu o queixo encarando o tio.

— Só se você prometer se comportar. — Ele sorriu a soltando. — Você gritou com o Happy, ele me contou.

— Bem X9. —Lila revirou os olhos. — Ele também disse que você ia trazer alguém para me ver, não diga que é uma psicóloga ou alguém do tipo, já me basta a senhorita Rushman.

— Não. — Ele sorriu balançando a cabeça de forma negativa. — É Angélica Blaine, irmã da Samantha, sua tia.

Lila ficou um tempo pensando no que Phil havia dito, sobre quem estava lá para vê-la, ela vestiu até mesmo outra roupa, um vestido, queria estar apresentável, só não passou perfume, pois achou exagerado. Parte dela estava nervosa, muito nervosa na verdade, ela nunca tinha conhecido nenhum dos parentes do lado de sua mãe, Sam ainda era uma incógnita para ela, uma mulher a ser decifrada aos poucos e ela estava disposta a isso, mas era algo para depois.

Quando os olhos de Lila encontraram Angelica em pé no meio da sala, Lila ainda processava as informações, ela tinha longos cabelos castanhos, era bem magra e quando seus olhos se encontraram ela notou que Angelica tinha maçãs do rosto rosadas, lábios pintados de um vermelho vivo, ela sabia que era batom. Angelica analisou Lila de cima a baixo, mas tinha um enorme sorriso nos lábios, alguém de que tentava acreditar mesmo que a menina a sua frente era filha da sua falecida irmã, ainda processava essa informação.

— Meu Deus! — Angelica tinha as mãos a frente dos lábios. — Ela parece muito com a Sam quando nova, só os ...

— Os olhos. — Phil que estava logo atrás de Lila cortou a mulher. — Ela tem os olhos do Howard Stark.

— Justamente. — Angelica sorria olhando-a ainda estática. — Meu pai amaria conhece-la, uma pena ele ter partido a alguns anos, ele sempre quis uma neta, eu só tenho dois filhos.

— Tio Phil, pode me deixar a sós com ela? — Lila ainda desviava o seu olhar dos olhos da tia. — O mesmo vale para vocês, Pepper e Happy.

Happy olhou para Phil no mesmo momento, pedindo para ele fazer algo, mas o agente apenas passou para perto do segurança e puxou Happy consigo para a cozinha pela gravata, Pepper ainda ficou em pé alguns segundos, o barulho dos seus saltos foi ouvido algum tempo depois indo atrás deles. Lila apontou para um sofá e Angelica sentou-se, enquanto a jovem Stark ocupava uma poltrona, Lila até cruzou as pernas, o que quase nunca fazia, mas queria impressionar ela.

— Eu tenho tantas perguntas para te fazer. — Lila torcia os lábios, a ponta dos seus dedos formigavam. — A ideia sobre quem é minha mãe ainda é vaga na minha cabeça, na verdade eu só descobri sobre seu nome e seu rosto a poucos dias, pois meu pai pediu um relatório e o Jarvis me entregou.

— Sobre o seu pai ... — Angelica sabia do desaparecimento de Tony, todos sabiam. — Sinto muito por ele, queria poder ajudar.

— Não precisa sentir, ele não está morto. — Lila desviou o olhar encarando onde Phil, Pepper e Happy tinham ido e depois voltando a olhá-la. — Talvez você possa ajudar, está disposta a me acobertar em uma fuga?

— Onde você quer ir, querida? — Angelica sorria, a garota falava como Sam, ela sentia falta da sua irmã.

— Gostei de você, titia. — Lila piscou com meio sorriso, ela só precisava conseguir falar com Connor.