A Herdeira Silenciosa - As Vozes do Diário:
6 As Palavras que Somem:
Amy voltou para o dormitório mais cedo naquela noite.
O dia fora longo — aulas arrastadas, sussurros nos corredores e uma incômoda sensação de que o tempo estava mais lento que o normal. Como se algo pairasse sobre o castelo, entorpecendo os sentidos.
Ela fechou a porta devagar atrás de si, certificando-se de que as colegas já dormiam. A luz fraca de uma vela flutuava próxima à escrivaninha, lançando sombras alongadas sobre a parede de pedra.
Sentou-se com o diário nas mãos.
Desde o sonho com a espiral — e a estranha visão no banheiro — ela não conseguia parar de pensar em Helena Morrigan. No que aquilo significava. Em por que parecia ser a única a lembrar do que nunca viveu.
Com cuidado, abriu o diário.
As primeiras páginas, onde antes estavam os registros nítidos de Helena — linhas intensas, frases repletas de medo e urgência — agora estavam... em branco.
Amy franziu o cenho. Virou a página. Depois outra.
Nada.
O coração começou a bater mais rápido. Ela lembrava do que leu. Tinha certeza. Helena falando de “coisas que não querem ser lembradas”, de “nomes sussurrados em pedras”... de uma espiral que chamava.
Mas tudo havia sumido.
Como se nunca tivesse existido.
— Não pode ser — murmurou, virando mais páginas com dedos trêmulos. — Eu li isso. Estava aqui.
Como um impulso, abriu seu caderno pessoal, onde havia copiado um dos trechos do diário dois dias antes. A letra dela, a caligrafia ligeiramente inclinada para a esquerda, estava ali.
“A espiral sussurra nomes.
E, às vezes, um deles é o seu.”
Ela suspirou de alívio.
Mas então... as palavras começaram a desaparecer bem diante de seus olhos.
Primeiro a tinta ficou mais pálida. Depois se dissolveu, como se tivesse sido escrita com fumaça. Linha por linha. Letra por letra.
Em segundos, a página estava vazia.
Amy largou a pena, o sangue gelado.
Olhou de volta para o diário.
Respirou fundo e escreveu, com a mesma letra calma de sempre:
“Por que as palavras estão sumindo?”
Esperou.
Por um momento, nada aconteceu.
Mas então, como se alguém respondesse com tinta viva, uma frase surgiu, escrita com a mesma letra de Helena — mais apressada agora, menos cuidadosa:
“Nem tudo que é lembrado deve permanecer.”
Amy franziu o cenho. Escreveu de novo:
“Quem está apagando as palavras?”
A resposta veio mais rápida, mais tremida:
“Não é quem. É o que.”
A próxima pergunta escapou antes que ela pudesse filtrar:
“E o que é?”
O diário não respondeu de imediato.
Mas quando respondeu, foi com letras que surgiam e se apagavam ao mesmo tempo, como se a própria página lutasse contra o que estava sendo revelado:
“É a memória protegida. A verdade escondida.
A Cripta Sussurrante.
O reflexo que devora o nome.
A Espi—”
As letras sumiram antes de completar a última palavra.
Amy tentou escrever de novo, mas agora a pena escorregava sobre o papel como se a superfície estivesse encantada contra qualquer marca.
— Vocês não querem que eu descubra… — sussurrou para o diário. — Mas se estão tentando me impedir, é porque estou no caminho certo.
Fechou o diário devagar.
Levou-o de volta ao fundo do baú, escondido sob os livros de Poções e os pergaminhos extras de Runas Antigas. Trancou com um feitiço simples — mais por precaução do que por segurança real.
Deitou-se na cama, sem apagar a vela. O quarto parecia mais escuro do que o habitual. Mais denso.
Olhou para a palma da mão. A espiral ainda estava ali, quase imperceptível à luz tênue.
Mas agora, ela sentia.
Aquilo não era apenas uma marca de nascença.
Era uma porta.
E talvez, ela tivesse acabado de dar os primeiros passos para abri-la.
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