A Herdeira Das Fadas
1 Capítulo 1 - A senhora
Minha avó dizia que a natureza é sabia e generosa, que sempre nos da sinais do que esta por vir. Eu deveria ter prestado mais atenção nos sinais que ela me dava, talvez eu não tivesse saído de casa naquele dia, teria terminado a faculdade, encontrado um bom emprego, me apaixonado, casado, poderia ser uma mulher bem resolvida e completamente normal. Não vou negar que quando criança tinha o sonho de viver uma aventura com reis e rainhas em um mundo de contos de fadas, mas agora sei que ser normal é muito mais vantajoso e seguro.
Tudo começou quando eu estava no ultimo ano da faculdade, estava chovendo forte e eu estava atrasada para a aula, lembro de sair correndo de casa com um guarda-chuva enorme, o que foi um grande erro já que em pouco tempo o vento forte conseguiu tira-lo da minha mão, eu não sei o que deu na minha cabeça, mas ao invés de seguir meu caminho até a faculdade fui tentar recuperar meu guarda-chuva, não dava pra enxergar direito eu sentia que aquilo era uma má ideia, eu já estava quase conseguindo pega-lo quando tropecei em algo e cai de cara no chão.
Demorei um pouco para me levantar, eu já estava completamente encharcada, aquele realmente não era meu dia. Me conformei e estava me levantando quando percebi que eu havia tropeçado em alguém e não em algo. A chuva não me deixava enxergar direito, mas percebi que era uma senhora, parecia bem doente e pobre, não podia deixar ela ali, perguntei o que havia acontecido, mas ela só me olhou, parecia tão fraca, eu sabia que o correto seria ligar para a emergência, mas meu celular não iria aguentar um minuo naquela chuva e meu apartamento estava bem próximo, então eu ajulei ela a se levantar e praticamente a carreguei até em casa, lá eu poderia aquece-la e ligar para a emergência.
Assim que entramos em casa ela pediu baixinho para que eu não chamasse e nem contasse a ninguém que ela estava ali, parecia preocupada e com medo, um milhão de coisas passaram pela minha cabeça, ela poderia ser uma criminosa fugindo da polícia, mas mesmo assim era uma senhora idosa, molhada e com frio, então resolvi arriscar e atender seu pedido.
Eu a ajudei a se secar e dei roupas secas para se trocar, ela apenas me olhava, parecia não entender o que estava acontecendo. Enquanto eu me trocava ela adormeceu no sofá, preparei uma sopa para nós e a chamei para jantar, assim que se sentou na mesa e provou a sopa algumas lagrimas escorreram de seus olhos, devia estar faminta pois perdi a conta de quantas vezes repetiu a sopa. Quando terminou de comer me olhou nos olhos e sorriu, me encarou por uns segundo e começou a conversar:
— Você salvou minha vida, eu iria morrer e você me salvou. Por que fez isso?
Eu não soube responder à pergunta, apenas dei de ombros enquanto recolhia os pratos. O semblante dela era de confusão, mas ao mesmo tempo era o mais terno que eu já vi.
Após o jantar ela me contou algumas histórias sobre elfos e fadas, me disse inclusive que era uma fada muito poderosa, obviamente sua lucidez era tão escassa quanto sua saúde, apesar de ter se alimentado e se aquecido parecia cada vez pior. Eu insisti em levá-la ao médico, mas cada vez que eu falava sobre isso ela parecia se assustar com a ideia e implorava para deixar para lá. Eu não queria contrariá-la, mas ao mesmo tempo não poderia deixar que ela continuasse naquele estado, eu disse que ela poderia ficar em casa aquela noite, mas que no outro dia iria levá-la para o hospital ou chamaria a emergência, ela relutou um pouco mas acabou aceitando.
No outro dia ela parecia um pouco melhor então acabei concordando em levá-la ao hospital ao anoitecer. Passamos o dia conversando, ela era encanadora, tinha um espírito jovem apesar de aparentar ter uns 90 anos, era gentil e muito sabia, facilmente poderíamos ser grandes amigas, no final do dia eu já sentia um grande apego a ela, seria difícil me despedir.
Apesar da relutância decidi que a levaria ao hospital naquela noite, eu me arrumava em meu quarto quando uma luz se esgueirou pela porta, de inicio imaginei ser a televisão, mas em seguida um forte vento abriu minha porta por completo deixando aquela luz que parecia fraca e inocente invadir por completo meu quarto e quase me cegar. Parecia uma tempestade dentro de casa, precisei me esforçar para chegar até a sala, tudo estava um caos, as coisas voavam ao meu redor, eu não fazia ideia do que eu estava presenciando.
Procurei pela senhora, mas quem encontrei não aparentava ter mais de 30 anos, estava parada ao centro da sala, toda a luz, vento e energia que inundavam minha sala pareciam emanar dela, sua pele era clara como neve e seu vestido cor de mel, olhava fixamente para suas mãos que estavam tremulas e de alguma forma pareciam translúcidas. Eu tentei falar, gritar, mas meus lábios não se mexiam, meu corpo não me obedecia, eu estava apavorada e encantada ao mesmo tempo.
Ao perceber que eu a encarava completamente paralisada seu olhos azuis cor do mar me encararam fixamente, aos poucos seu semblante passou de pavor para ternura, sua mão se estendeu me chamando para mais perto, naquela hora tudo em mim me mandava correr, mas eu segui e me aproximei. De perto pude perceber que sua beleza era algo incomum, eu jamais poderia desenhar traços tão únicos e perfeitos, seus longos cabelos loiros caiam por seu ombro como ondas do mar, seu rosto me lembrava uma escultura que vi uma vez, uma mistura de doçura e confiança, me lembro até do cheiro que senti, era como ir a um jardim botânico na primavera.
Eu a olhava tentando entender o que estava acontecendo e quem era aquela mulher, quando ela retirou um colar do pescoço, era uma fina corrente com um pingente prata em formato de folha pendurado. Ela respirou fundo como que se preparasse para algo importante e seus delicados lábios começaram a se mover:
— Cuide bem disso, pode parecer delicado e frágil, mas é um fardo que muitos não conseguiriam carregar. – Sua voz era suave e firme. – Você reacendeu a esperança que há muito tempo havia se apagado em mim. Minha adorável jovem, sei que é difícil de entender o porquê das coisas, mas saiba que o destino de cada um já esta traçado e não há como fugir dele.
Enquanto dizia isso passava a corrente pelo meu pescoço e a prendia na parte de trás, seu olhar terno agora parecia preocupado, continuou:
— Não fui capaz de cumprir com meu dever, meu tempo chegou ao fim. Não cometa os erros que cometi, lembre-se que é mais valioso um amigo fiel do que toda a magia desse mundo. – Ao dizer isso, por mais que lutasse contra, uma lagrima escorreu pela sua bochecha. – Seja forte e tenha coragem, não será fácil.
Eu realmente estava confusa nessa parte, nada daquilo poderia ser real, mas cada palavra que eu ouvia parecia entrar em mim, era como uma hipnose, eu não podia evitar.
Ela então ficou em silencio por um estante, parecia conformada e sorriu. Eu demorei para perceber que agora seu corpo todo estava translucido, tive medo que fosse uma miragem se esvaindo, busquei seus olhos e os encontrei me olhando. O que senti naquele momento é difícil explicar, era como se nossas almas se entrelaçassem, eu senti por um instante como se fossemos uma. Em um ultimo esforço ela beijou minha testa, um gesto tão terno que me fez sentir que aquilo era uma despedida, meus olhos se encheram de lagrimas, não conseguia enxergar mais. Me lembro com perfeita exatidão daquelas ultimas palavras:
— Que a magia que foi em mim agora seja em você. Agora estou em paz, obrigada.
Um clarão tomou conta de tudo, o tempo parou e quando voltou tudo era como antes, estava tudo em seu lugar, era como se nada tivesse acontecido, só restava aquele colar em meu pescoço e o doce cheiro da primavera.
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