A Herdeira Da Máfia

28 XXVIII. Civil War.


Logan era muito bom sobre quatro rodas, por isso não demora muito para chegarmos na mansão de Anthony. Saio do carro quase desesperada correndo até lá e abrindo a porta com cuidado. Todos estavam reunidos na sala de estar observando um telefone sobre a mesa de centro e o silêncio daquele aparelho era torturante. Nos sentamos o mais afastado possível dos outros ali, afinal, o que eu menos queria era começar alguma briga em um momento como aquele. Meu coração doía ao ver a irmã e a mãe de Sophie chorando desesperadas acompanhadas de Blair.

Todos demonstravam sua preocupação a sua maneira, mas os sentimentos de Ethan naquele momento eram quase indecifráveis. Ele era quem estava mais próximo do telefone, os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos em frente aos seus lábios, parecendo fazer uma prece em silêncio. Os olhos cinza sem nenhuma expressão, completamente vazios. Era mais do que óbvio sua aflição. Benjamim estava afastado de todos ali também, trabalhando em um grande computador moderno, digitando com rapidez. Provavelmente procurando alguma coisa que os levasse até ela.

— Descobriu alguma coisa? – Pergunta Anthony se aproximando dele e atraindo a atenção de todos ali que encaram o homem sentado em frente ao computador com os olhos arregalados esperando por alguma notícia dos céus.

— Augustos é esperto e sabe que há pessoas querendo você no lugar dele. Provavelmente levou consigo poucos mafiosos e seguranças. Os mais confiáveis, certamente. – Sussurra Benjamim parando de digitar e se virando para encarar todos nós.

— Talvez aquele hacker que esteja bloqueando algo. Mark, é o seu nome, se não me engano. – Supôs Harry, meu tio, dando de ombros e indo em direção ao computador para ver se conseguiria descobrir algo mesmo não tendo muita noção do que estava na tela daquele computador. Eram códigos demais e um milhão de senhas que Benjamim descobrira para entrar no sistema da Cosa Nostra sem que o tal Mark notasse.

— Eu saberia. – Resmunga ele em resposta, convencido sobre o dom que tem em relação a toda aquela tecnologia.

— Meu irmão está certo... – Concorda Anthony e Benjamim o encara fazendo uma careta.

— Vocês me magoam assim. Eu já tirei vocês de muita fria. – Diz ele cruzando os braços e bufando.

— Já chega, eu vou atrás dela! – Anuncia Ethan se levantando, pegando sua jaqueta preta de couro e as chaves do carro. Nosso pai se põe em sua frente quase que imediatamente.

— Não mesmo. Entendo seu desespero filho, mas o melhor é esperar. – Aconselha ele, sustentando o olhar ameaçador de Ethan.

— Quer que eu espere o quê? Ela morrer?Se Augustos encostar um dedo nela, eu juro que... Seja lá onde ela estiver, não deve ter muitos. Tenho chance.

— Não temos ideia de onde a Sophie está. O que é pior, não sabemos por onde começar.

— Que se foda. Eu procuro até do outro lado do mundo, reviro essa cidade de cabeça para baixo... – Grita ele bravo com a calmaria do pai.

— Ela disse que iria fazer um favor para uma amiga e Sophie não tem muitos amigos então... – Murmura Camille, tentando transmitir confiança ao cunhado e a mãe.

— Já liguei para a Olívia e ela não tem notícias da minha filha, que outra amiga poderia ser? – Pergunta a mulher aflita enxugando algumas lágrimas enquanto várias outras insistiam em cair.

Cruzo os braços, assustada demais para me manifestar diante daquela situação. Sophie fora a única que me acolhera bem além de meu pai e Logan, então devia mais a ela do que eu imaginava. De uma maneira ou outra, se tornou uma grande amiga e me preocupava seu estado agora. Sinto meu coração se apertar e um desespero enorme de sair dessa casa e começar a procurar algo mesmo sem ter ideia de como fazer isso sem ter nenhuma ideia ou pista. Então as palavras de Maria, sua mãe, destravam partes de meu cérebro que eu desconhecia.

Oh não.

Todos se levantam de seus devidos lugares e os que ainda não moravam aqui, iam em direção aos quartos de hóspedes. As palavras de Anthony ecoavam em minha cabeça sobre nossos pontos fracos. E aquilo era um problema, porque se esse Augustos não tinha piedade e se quisesse me atingir mais uma vez, arrancando de mim aquilo que me restava... Tudo que passou pela minha cabeça foi Carl. Allan. Taylor. Lola. Logan, mesmo que ele possa cuidar do próprio nariz. Qual é o problema desse homem? Já não bastava tirar minha mãe de mim. Corro até Sophie que já ia subir às escadas acompanhada de Ethan.

— Será que eu posso falar com você? – Pergunto baixinho e vejo meu querido irmão revirar os olhos. Ela sorri educada me puxando para um lugar mais resevado.

— Está tudo bem? Não repare na Blair, ela está...

— Brava, eu sei. – Digo a cortando e engolindo em seco. Falar sobre aquele assunto me incomodava. – Espero que não seja pedir muito, mas queria que vigiasse uns amigos por mim. Quando Anthony falou sobre pontos fracos, eu... Não posso deixar que se machuquem por minha causa.

— Entendo. Cuidarei disso amanhã mesmo, deixa um bilhete com o endereço no escritório. De preferência em baixo de um livro de capa dura azul. – Sussurra. – Assim ninguém desconfia.

— Claro. Obrigada, Sophie. Por tudo.

— Pode não parecer agora, mas é muito bem-vinda aqui. – Ela sorri amigavelmente.

Sinto a culpa cair pesadamente sobre minhas costas, rasgando minha pele e se infiltrando por todo o meu corpo com facilidade. Respiro tão fundo que quase sugo todo o oxigênio daquele cômodo enquanto a imagem de Ethan e Blair me atacando com sete pedras na mão aparece nitidamente em minha cabeça. Não podia ser verdade... Quando finalmente penso que as cosias podem melhorar, aparece essa bomba relógio sobre minhas mãos e só eu tenho o poder de pará-la. Entrelaço meus dedos nos de Logan, apertando com força e me segurando para ser o mais cuidadosa possível com as palavras.

— Pai. – Chamo a atenção de Anthony quase que automaticamente. – Será que podemos conversar a sós?

— Fala sério, garota! Sophie está desaparecida e não sabemos onde começar a procurar, e você vem com essa de conversar a sós com...

— Eu sei onde começar a procurar porque Sophie foi fazer um favor para mim. – As palavras saem quase atropeladas dos meus lábios cortando Blair antes que ela me insultasse e meus olhos pousam em Ethan que me encara pela primeira vez desde que cheguei ali. Seguro lágrimas que imploravam para escorrer pelo meu rosto, mas meu olhar continuava focado no dele. Os seus olhos continuavam sem demonstrar nenhum sentimento e aquilo me deixava ainda mais nervosa.

— Você... – Ele aponta para mim ousando se aproximar e Logan se coloca em minha frente quase que imediatamente, mas Ethan não pareceu se importar, quebrando toda a distância entre nós. – Qual é o seu problema? Não basta ter aparecido e acabado com a felicidade da minha mãe, destruir aos poucos o relacionamento dos meus pais... Pediu para minha esposa te fazer um favor? Quando o alerta era que todos ficássemos aqui... Você pediu para ela sair? Eu vou atrás dela.

— Não vai não. – Avisa Anthony em frente a porta.

— Tenta me impedir então. – Vocifera ele, empurrando o pai sem muita dificuldade para longe da porta e assim que o mesmo abre a porta para sair eu o chamo, deixando os vinte segundos de coragem tomarem conta de mim.

— Eu vou com você. – Aviso pegando minha jaqueta sobre o sofá e indo até ele, que me encara com um sorriso cínico.

— Você fica aí com seu querido pai e namorado, como uma boa família feliz que Anthony tenta fazer parecer. – Murmura se virando novamente.

— Não. – Grito cruzando os braços e todos observavam nossa conversa. – A minha vida toda eu fui humilhada por homens machistas e nojentos. Garotas que acham que o colegial é a última fase de suas vidas e um rosto bonito é a coisa mais importante do mundo. Fui obrigada e ficar nua em frente de uma mulher que confiava e logo em seguida em frente a vários homens que só pensavam em mim como objeto. Vi a minha mãe sofrer a vida toda os preconceitos que uma prostituta recebe e logo em seguida, a vi morrer. Passei semanas imaginando que não tinha mais chances de ser feliz quando encontro meu pai e ele me trata de uma maneira que nunca imaginei que faria. Todos os dias, tenho que engolir calada tudo o que passei e tudo o que me falam, seus olhares tortos e seu cinismo. Eu não traí a sua mãe. Nem mesmo a minha tem culpa, pois não era ela que estava envolvida em um compromisso. Não pensem nem por um segundo que o que vocês dizem vão voltar a me atingir porque eu não vou permitir. E se acha que consegue me impedir de ir atrás de Sophie que, aliás, é a única que realmente soube raciocinar sobre toda essa questão familiar e me tratar como gente, vai sonhando Ethan Gavin Brian, porque você pode estar com ela há séculos, mas eu também me preocupo com ela e quero ajudar. Agora, será que dá para engolir esse orgulho bobo e esquecer essa rixa por dois míseros segundos?

Um silêncio se instala por toda a sala de estar e Anthony nos encara boquiaberto enquanto Blair se levanta ficando de braços cruzados me observando como uma águia e até mesmo Camille e Maria pararam de chorar para observar a cena. Ethan sustenta meu olhar e suas mãos vão em direção ao cós de sua calça, retirando um revólver com cuidado e vejo Logan se aproximar de mim.

— Sabe atirar? – Pergunta seriamente.

— Um pouco. – Sussurro e ele assentiu estendendo a arma para mim. Ouso encarar aquilo como um gesto de trégua, e sorri de lado agradecida pegando ela.

— Precisamos ir logo. Sugiro que o resto fique aqui. Augustos pode estar criando apenas uma emboscada para nos pegar desprevenidos. Logan, Anthony e Harry, peguem todas as armas que conseguirem do porão. Benjamim, continue procurando alguma informação pelo sistema da Cosa Nostra. Hannah e eu iremos atrás de Sophie. – Diz ele de modo autoritário agindo como um verdadeiro chefe de máfia, saindo dali após sussurrar que me esperaria no carro.

— Hannah... – Logan me chama já segurando uma arma e me empurrando para o centro da sala. – Você fica, eu vou com ele.

— Não mesmo.

— Por favor. – Pede ele quase que em desespero e eu seguro seu rosto com as mãos, beijando seus lábios carinhosamente.

— Vai ficar tudo bem. – Sussurro. – Eu prometo.

Saio do casarão antes que ele me impedisse e encaro Anthony confiante antes de me virar em direção ao carro de Ethan que me esperava apressadamente encostado no carro. Entramos quase que automaticamente e ele pisa fundo no acelerador enquanto eu ligava o GPS e colocava o endereço do bordel para não ter que ficar explicando em detalhes. Aperto o cinto de segurança ao vê-lo pisar fundo no acelerador sem intenção nenhuma de tirar o pé dali. Logan era bom sobre quatro rodas, mas essa viagem de poucos minutos que fiz ao lado de Ethan me fez passar mal. Não demora literalmente nada para chegarmos até a cidade onde eu morava e pararmos em frente ao bordel.

— Sophie com certeza estacionou algumas quadras antes do bordel para observar ao longe. – Murmura caminhando para longe dali e o acompanho rapidamente o alcançando.

— Mafiosos deixam pistas de onde possam ter levado alguém? – Pergunto curiosa aproveitando a calma que o atingiu desde que eu abri a boca e disse coisas até demais.

— Nesse caso sim. Augustos quer que nós encontremos Sophie. – Sussurra e eu o encaro ainda mais confusa. É a primeira vez que o vejo lançar um sorriso de lado educado. – O que ele está fazendo é somente um alerta. Para Anthony. Ele quer a cabeça do nosso pai em uma bandeja de prata.

— Nosso pai? – Sorri abertamente ao ouvir aquele som dos lábios do meu... Como posso dizer... Irmão.

— É o que ele é, não? – Mordo o lábio inferior temendo se eu deveria confiar nesse comportamento novo de Ethan, quando de repente noto um cartaz colado em uma das paredes do bordel.

— Ei, está vendo aquilo ali? – Pergunto correndo até o cartaz e vejo ele me seguir de relance. – Charlie proibiu pessoas de colarem qualquer coisa nessas paredes e os únicos anúncios que sobraram estão velhos já, grande parte rasgados. Esse aqui é novo e a cola ainda está fresca.

— É a propaganda de uma fábrica em Chicago. – Murmura observando aquilo com cuidado. – A data é de 1998.

— Provavelmente aquela que foi abandonada em 2004. – Digo e corremos apressadamente até o carro. – Acha que tem alguma chance de Sophie estar lá?

— Ainda duvida disso? – Pergunta e eu nego com a cabeça enquanto aperto o cinto de seguranças e Ethan pisa fundo naquele acelerador mais uma vez. Talvez eu não volte para a casa viva com o carro nessa velocidade.

SOPHIE

Sou jogada com brutalidade no chão e sinto uma forte pontada na barriga. Quando Augustos se retira do cômodo me deixando a sós com um homem grande e que carregava em seu peito esquerdo o símbolo da Cosa Nostra, noto o que estava prestes a acontecer. Queria poder fugir, ao menos tentar. Mas eu tinha que me preocupar além do meu bem estar e era isso que piorava toda a situação. Eu não podia perder esse bebê. Respiro fundo levando um chute na costela e gemi de dor quase que imediatamente.

— Jogo rápido mocinha... Onde está seu sogro? – Pergunta o homem se abaixando e ficando cara a cara comigo. – Eu te fiz uma pergunta, vadia.

Sinto um tapa forte no rosto que arde violentamente e não ouso encarar aquele homem de novo.

— Não conto nem morta. – Digo alto e claro. Ele se levanta e quando vejo que seu chute vinha em direção a minha barriga, coloco meu braço sobre ela impedindo que aquilo atingisse o meu ponto mais fraco agora.

Me levanto ao notar que deixaram um punhal no canto do chão e corro até ele rapidamente mirando no homem a minha frente. Ele corre até mim e em um movimento rápido, enfio o punhal afiado em seu quadril e quando penso que ele iria se afastar ou recuar, ele permite que o objeto afiado atravesse ainda mais sua pele, me puxando pelos cabelos e jogando meus braços para trás. Se não entendesse um pouco de medicina, juraria que ele tinha quebrado meu braço e então sinto um murro forte na minha clavícula, que me faz cair mole no chão. Rastejo o mais longe possível dele, que agora estava bravo demais para raciocinar e levo outro chute quando tento ficar ao menos de pé.

Protejo minha barriga mais uma vez ao vê-lo se aproximar e fecho os olhos implorando em silêncio para meu organismo aguentar aquilo. Não podia desmaiar agora. Sinto meu útero doer e a preocupação com meu filho se aumenta ainda mais. Precisava aguentar tudo aquilo e tentar me defender sempre que achar estar perdendo as forças. Então ouço barulhos de homens se aproximando e foco minha visão em Augustos e outro que, supus ser um médico pelas vestimentas, resmungar algo para ele.

— Olhe para ela senhor Baldocchi. O modo como ela protege sua barriga de modo afetivo. Isso não te lembra alguém? Essa garota está grávida. E nem precisei consultá-la para saber disso. – Informa o homem me encarando.

— Droga! Tirem ela daqui. – Grita ele e dois capangas se aproximam de mim me arrastando para fora do cômodo e engulo em seco imaginando somente o pior. Sinto meus olhos pesados.

Agora não, Sophie. Agora não. Aos poucos perco o foco e a última coisa que vejo antes de desmaiar é o rosto de Augustos me encarando com ódio nos olhos.