A Herdeira Da Máfia

26 XXVI. Old Ghosts


BLAIR

Havia algo nas corridas que simplesmente me encantava, e sempre que eu podia, estava lá, ao longe, apenas observando mesmo desejando estar ali entre os competidores. Sonhava com o dia em que eu tivesse a chance de estar ali. Qualquer um serviria como adversário, ou até mesmo correr por aquela pista sozinha. Seria o suficiente para mim.

Fazia dois anos que eu namorava Andrew Porter e no começo ele era carinhoso, do jeito dele, mas era. Até finalmente se revelar e aos poucos, se tornar o homem agressivo de hoje. Se eu pudesse, terminaria com ele na primeira oportunidade, mas o medo e a dependência fazia de mim sua submissa, odiando isso ou não.

Um dos melhores competidores era Anthony Gavin Brian, o homem que coincidentemente era muito odiado por Andrew. Ele era lindo, mas nunca prestava muita atenção nele. Por falta de tempo, lógico, porque se tivesse a chance, ficaria por horas ali só o observando. Sou proibida de sair da casa do meu namorado possessivo, mas aproveitava a chance quando ele ia resolver seus próprios negócios.

Entretanto, em menos de uma hora, lá estava ele de volta. Nunca vi uma corrida por completo, mas passei tempo o suficiente ali para ter certeza que Anthony era um dos melhores. Ele e seu melhor amigo e também fundador da corrida, Christopher Hamswere. Olho o horário me certificando mais uma vez de que não estava na hora de ir embora, e volto a observar as corridas que finalmente estavam prestes a começar.

— Por que não participa? – Ouço uma voz grossa atrás de mim e quase pulo, temendo com todas as forças que seja Andrew. Para meu total espanto, Anthony estava ali, encostado no tronco da árvore e com as mãos no bolso exibindo um sorriso lindo no rosto. Seus olhos possuíam um tom cinza misterioso e respiro fundo tentando me concentrar na sua pergunta. – Você não fala?

— Eu... Não sei... Correr. – Gaguejo e seu sorriso se aumenta ainda mais. De perto, ele era ainda mais belo, com os cabelos bagunçados completamente negros, a barba por fazer e a pele mais branca que já vi na vida.

— Por acaso já tentou?

— Como me descobriu aqui? – Sou rápida, virando a tornando a meu favor. Ele me fazia perguntas como um verdadeiro policial ao investigar um assassinato.

— Você não é tão boa em se esconder. – Diz simplesmente, dando de ombros e praguejo baixinho. – Espero que não esteja se escondendo de nós. Sou Anthony.

— Blair. – Murmuro pegando a mão que ele estendera para mim. E ao sentir seu olhar preso ao meu de modo carinhoso, me permiti sorrir.

Sempre tive uma dificuldade imensa de confiar nas pessoas desde que vi o verdadeiro lado de Andrew. Mas com ele, foi tão... Natural. Quando dei por mim, já havia o deixado entrar aos poucos em minha vida e em minha rotina. Veio a confiança. Crescendo até um ponto onde eu confiava quase que cegamente em Anthony.

Então veio o amor.

Esse sim chegou de mansinho e me pegou completamente desprevenida. Pensei em fugir e fingir que tudo aquilo não passava de um sonho bom, mas já era tarde demais. Com certeza era tarde demais porque aquele homem de olhos cinzas já fazia parte da minha rotina, da minha vida e eu não tinha ideia de como ela seria sem a presença dele. Sem conversar ou beijá-lo com intensidade.

Graças a ele, tive a coragem de terminar com Andrew. E provavelmente eu estaria morta por isso, mas a vontade que eu tinha de ficar ao lado de quem eu amava sempre foi maior que o medo.

Amar era algo incrível que te dava um milhão de motivos para você acordar sorrindo. E cada dia parecia a primeira vez. Até que eu fiquei grávida. A sensação de carregar parte de Anthony era maravilhoso. Um fruto do que tínhamos. Ethan era a cópia fiel do pai e me orgulho disso. A alegria seria multiplicada quando ele tivesse a oportunidade que eu tive de me apaixonar. Mas se apaixonar de verdade.

E ele conseguiu.

De uma maneira que eu também achava ter conseguido. Mas como sempre, fui uma tola em acreditar em clichês com finais felizes e príncipes encantados. Era muito difícil processar que Anthony havia me traído. Por um tempo senti ódio, raiva e vontade de gritar apenas para saber se parte daquele sentimento desaparecesse com aquele ato. Entretanto, esse sentimento passou, mas restou um pior que ele: a mágoa. Era como se meu porto seguro desmoronasse e uma grande ferida que eu pensava estar curada, retornasse a abrir com todas as forças e talvez, sem chances de se curar novamente. Fui uma das primeiras a sair da sala depois de Anthony ter contado toda a verdade e fecho a porta do quarto esperando que o próprio entendesse meu recado, mas não demora muito para que ele também entrasse.

— Blair, sei que não deve nada a mim e que está magoada. Eu entendo, de verdade. Eu também estaria. Mas se quer descontar isso em alguém, que seja em mim. Hannah não merece ouvir ironias da sua parte. – Murmura tentando ser cuidadoso com as palavras. Aquela garota era tão parecida com a mãe. Não consigo acreditar que acolhi a mulher, mesmo com o receio de que acontecesse justamente aquilo que aconteceu.

— Quando eu vou poder ir embora? – Pergunto friamente.

— Preciso que fique, porque se sair vão usar você contra mim e pode não acreditar nisso, mas eu...

— Cala a boca. – Grito antes que ele completasse a frase. – Para de dizer isso o tempo todo. Você não me ama. Talvez nunca tenha amado.

— Blair...

— Quem ama não trai. – Sussurro tentando me acalmar para que Ethan e Sophie não ouvissem tudo. Me magoava ainda mais saber que eles sentiam por tudo aquilo que estava acontecendo.

— Estávamos brigados, você disse que queria um tempo.

— E na primeira oportunidade ficou com a primeira que viu enquanto a idiota aqui realmente usou o tempo para pensar em nós. Andrew fazia isso o tempo todo... Me traia com um milhão de garotas e me tratava como lixo. Você não está muito diferente dele. – Digo indo em direção ao banheiro, mas Anthony me segura, puxando meu corpo para perto do seu.

— Não me compare a ele, nunca te tratei mal. Foi uma noite e se você soubesse o quanto me arrependo, teria ao menos se acalmado. Acredite em mim! – Pede ele e vejo seus olhos brilhando em função das lágrimas que segurava.

— Eu queria Anthony. De verdade. Mas não consigo. Não mais. – Balbucio.

— Conheço você. Se está aqui ainda, é porque me ama também.

— Nunca neguei isso. Mas estou aqui por Ethan. Por Sophie e pela máfia. Me comprometi com ela naquela droga de ritual.

— Se comprometeu comigo em um casamento também! – Foi a vez dele de gritar.

— Engraçado jogar isso na minha cara quando foi você que quebrou a promessa de me amar, respeitar...

— Eu amo você, porra. – Anthony me força a encará-lo e vejo dor em seus olhos, mas o meu orgulho falava mais alto. Quando dou por mim, as lágrimas já escorriam pelo meu rosto e eu me afasto, finalmente tendo a chance de entrar no banheiro. – Me desculpa, por favor. Eu sou um idiota. Me perdoa, Blair.

Tranco a porta me escorando sobre ela e agarrando minhas próprias pernas deixando as lágrimas derramarem com facilidade. O choro era quase um alívio. Os gritos de Anthony do lado de fora me deixavam contra a parede me perguntando se eu realmente deveria dar uma chance. Mesmo que ele tenha... Dormido... Com outra garota.

Não.

Eu precisava ser forte.

E precisava tirar Anthony Gavin Brian da cabeça.

HANNAH

Nunca dormi tão bem em toda minha vida. A cidade de Nova York era agitada, por isso, meu sono nunca era longo e profundo como costumava ser. Meus olhos continuavam fechados, desejando voltar a dormir. Estava enrolada no cobertor e agarrada ao travesseiro macio. Apesar da implicância de alguns ali – vulgo Blair e Ethan, estava feliz por estar ali. Me espreguiço, soltando um gemido insatisfatório quando os primeiros raios de luz atingem meu rosto. Havia deixado a porta da sacada aberta em função do calor.

Droga.

Me levanto de imediato ao me lembrar do combinado com Logan, e dou um pulo ao dar de cara com o próprio, sentado em uma poltrona em frente a minha cama. Eu usava uma camisola preta rendada minúscula e sinto minhas bochechas arderem. Ele estava sério, agindo como se aquilo fosse natural – e em parte era.

— Quando se combina algo com alguém, o mínimo que a pessoa espera é que a outra cumpra. – Murmura ele em um tom brincalhão e ouso sorrir.

— Me desculpe, não pensei que dormiria tanto. – Digo cruzando os braços e o encarando com intensidade.

— Podemos treinar agora, se quiser. – Ele dá de ombros e é notável que estava tentando se aproximar. Talvez, só talvez, ele tenha se arrependido por ter me mandado embora. Afasto esses pensamentos quase que de imediato.

— Claro, eu só vou trocar de roupa. – Balbucio, já entrando no banheiro arrastando uma das minhas malas comigo.

Tomo um banho relaxante e demorado, me ensaboando com calma e passando alguns hidratantes. Havia me acostumado com banhos assim, entretanto, houve um tempo em que eu achava que era frescura. Abro minhas malas, decidindo por fim usar algo mais simples e confortável: uma legging preta, uma blusa com detalhes nas costas, colada ao corpo, um tênis e por fim, amarro uma jaqueta em minha cintura. Me olho no espelho feito uma idiota fazendo aquelas perguntas que toda adolescente faz quando fica insegura em relação a algum encontro com o garoto dos sonhos. Saio do banheiro e Logan ainda estava no quarto, sentado na poltrona despreocupado.

— O que acha de comermos algo? Estou morrendo de fome. – Murmuro pegando uma mochila de couro marrom sobre as costas.

— Eu te espero aqui. – Sussurra observando a paisagem que a sacada do quarto proporcionava.

— Logan... – Um sorriso brincalhão aparece em meu rosto.

— O quê?

— Não estou te convidando para um encontro, só quero ir comer. Você pode me acompanhar, por favor? – Peço seguido de uma risada tentando quebrar o clima constrangedor que queria surgir ali.

Caminhamos em silêncio para fora da mansão, em direção ao seu carro. Não trocamos uma palavra durante todo o trajeto e aquilo era torturante. Queria que ele fosse mais aberto em relação aos seus sentimentos e principalmente, que a saudade que senti por ele fosse recíproco. Ele prestava atenção no trânsito e nunca o vi dirigir tão devagar. Seus olhos verdes pareciam indecisos e eu os sentia me observando quando eu desviava o olhar. Saio do carro assim que Logan estaciona, dando de cara com o Nanny’s, uma confeitaria no centro da cidade e que vendia a melhor torta do mundo. Nem mesmo as tortas vendidas em Nova York superavam. Nunca tinha vindo até aqui. Era “perigoso” sair da casa de campo então ele trazia um pedaço sempre que podia. Senti meus olhos brilharem diante daquela imagem. Ele se lembrava. Sorri o encarando como uma menina de seis anos entrando pela primeira vez no parque de diversões.O lugar era maravilhoso por dentro, com um estilo rústico e alguns detalhes em floral nas paredes.

— Eu posso pedir alguma coisa? – Pergunto animada me virando para ele que assentiu sorrindo de lado diante da pergunta mais idiota que já ouviu de mim. – Não consigo acreditar que se lembra.

— Como me esquecer? Você quase me matava quando eu não levava um pedaço da torta daqui. – Sussurra e seu sorriso se aumenta ainda mais como se lembrasse do ocorrido.

Era bom me lembrar de momentos como aquele. Me faziam ver todos os dias que por baixo daquele casco grosso havia um homem pelo qual valia a pena lutar. Mas então eu deixava claro que aquela era uma batalha perdida. Ele não me pediu para ficar. Caminho até o caixa onde uma garota loira conversava com outro funcionário de costas para o balcão. Pigarreio baixinho chamando a atenção da garota que se vira rapidamente com um sorriso amigável no rosto.

— Bem-vinda ao Nanny’s, o que deseja pe...? – A voz da garota trava assim como todo o meu corpo.

A melhor coisa em finalmente ter saído do Ensino Médio era ter a certeza de que jamais veria aquele rosto de novo. Estudava com Elisa desde que me entendo por gente e o passatempo dela sempre foi me humilhar. O olhar dela comprovava que ela estava pronta para fazer alguma provocação e eu já estava pronta para me encolher diante de qualquer vergonha que fosse passar na frente do Logan. Ele me encarava confuso e era normal considerando a minha cara de quem acaba de ver um fantasma.

E de fato, Elisa era. Um fantasma do meu passado que nunca pensei que fosse retornar. Respiro fundo fechando os olhos para rapidamente abri-los em uma tentativa de permanecer calma. Então ela observa as roupas que eu usava. Era estranho vê-la com um uniforme de confeitaria porque sua família era milionária, o que fazia eu me perguntar o que havia acontecido. Elisa sabia reconhecer roupas caras e apesar de estar usando algo simples, não havia sido nem um pouco barato. Seu olhar muda de maléfico para desesperador. Aquele talvez tenha sido seu maior pesadelo. Eu, Hannah Thierry, estava muito acima dela. Isso, na sua visão imatura de sempre. Ouso me aproveitar da situação, fazendo algo que provavelmente a surpreenderia.

O que eu fiz?

Bem...

— Olá, Elisa. – Estendo minhas mãos em um gesto educado para cumprimentá-la com um sorriso gigante no rosto. Por mais que houve uma época em que esperava esse grande dia, em que eu pudesse ter a chance de humilhá-la, não ousei fazer isso. Sabia como era a sensação. E aquela fase da minha vida exigia que eu deixasse tudo aquilo para trás. Minha mãe havia morrido e eu estava com meu pai agora.

Por mais que tenhamos nos reencontrado há pouco tempo, aprendi algo com ele de uma maneira que jamais aprenderia em nenhum lugar, nem mesmo na prática...

Perdão.