A Herdeira Da Máfia
20 XX. Father and Daughter.

Era isso. Toda aquela vontade de encontrar meu pai biológico retornou como um jato, abrindo espaço e se instalando aos poucos em minha mente. Conduzo Stella até a sala e antes mesmo de dizer algo, a mesma se senta no largo sofá, depois de retirar o salto alto e apoiar os pés na mesa de centro. Pego uma cadeira qualquer, me sentando na frente dela e depositando a arma próximo aos seus pés. Ela pareceu captar meu recado, se ajeitando rapidamente no sofá e respirando fundo. Me encosto no assento e cruzo os braços.
— Quando sua mãe foi até o bordel procurar o emprego, ela já estava grávida e fez um acordo com Charlie para que ele aceitasse a filha que ela carregava ali também. Na época, a mãe de Allan ainda estava viva, mas debilitada. Isso não impediu que ela ajudasse a convencer Charlie. Eu e Chloe nos tornamos muito amigas, não demorou muito para passarmos a confiar uma na outra... – Aquilo me fez revirar os olhos. A confiança teria sido desmoronada se minha mãe soubesse o que ela fez. – Um dia eu contei a ela sobre quem era o pai de Carl e talvez a própria tenha notado que eu precisava confiar demais em alguém para contar sobre aquilo. Então, ela também contou sobre a vida dela... Sua mãe foi feliz Hannah, sua avó a vendeu para um mafioso famoso...
— Christian Gavin Brian. – As palavras saem como um sussurro ao me lembrar da foto onde minha mãe realmente parecia mais feliz do que jamais foi.
— Ela era a prostituta da casa e aos poucos, foi tendo um espaço exclusivo na mansão, até ser a única prostituta com quem Christian dormia. Até eles notarem que estavam gostando um do outro. Me lembro como se fosse ontem de Chloe me contando o quanto ele se preocupava com ela, e por isso, jamais pensaram em levar aquele relacionamento para algo mais sério. A máfia é perigosa e atinge as pessoas mais próximas. – Engulo em seco, e a imagem de Logan deixando isso bem claro a mim até alguns meses atrás aparece em meu consciente, que ligava uma coisa a outra aos poucos.
— Então é ele? Christian é meu pai?
— Hannah, eu não acho que eu seja a melhor pessoa para te contar essa história... Ninguém seria melhor para contar isso a você, além de sua própria mãe. – Stella me entrega uma chave pequena e eu a pego, observando com cuidado. – Antes de morrer, ela escrevia diários sobre tudo que já aconteceu com ela. E por fim, escreveu também uma carta, resumindo tudo para você entender de onde veio. Ela me entregou isso quando eu fiquei grávida de Carl e me passou o endereço do local onde essa chave leva, dizendo que era para eu entregar a você caso algo com ela acontecesse.
— Faz quase um ano que ela morreu, Stella. – Murmuro.
— Eu sei que eu devia ter feito isso antes, mas a proposta que Charlie me fez em vender você foi a primeira coisa que aconteceu quando Chloe morreu e tudo aconteceu muito rápido.
— Eu que o diga. – Minha voz era amarga, demonstrando toda a mágoa que eu ainda tinha em relação a tudo que ela me fez.
Stella coloca um papel enrolado na mesa de centro com o endereço onde essa chave levava. Encaro ela por mais tempo do que eu imaginava esperando algum vestígio de mentira em seu olhar, ou até mesmo em sua voz. Mas não vejo nada além da mais pura sinceridade. Pego a arma me levantando e a fazendo engolir em seco, era incrível como, até pouco tempo atrás, era eu que temia o cano de sua arma.
“– Sua avó apareceu e com muito dinheiro e vários contratos, ela deu a guarda para Charlie. Mas ela deu a guarda com o mesmo propósito que deu a guarda de sua mãe para um cafetão qualquer: Venda ilegal. – Diz baixinho e eu me levanto.
— Não. – Grito. – Você quer dizer que...? Oh meu Deus, Stella. Você não pode deixar que ele faça isso! Você não pode... Você não... — Corro até a porta para abri-la e a chave da mesma não estava na fechadura. Encaro Stella perplexa e noto que ela segurava uma arma. Engulo em seco.”
Seguro seus braços com força e a arrasto para fora da casa, a jogando no chão e a fazendo gritar por piedade. Respiro fundo antes de puxar seus cabelos e mirar a arma em sua cabeça. Lágrimas e mais lágrimas espalhavam em seu rosto e seus olhos agora mostravam o mais puro medo. Me sinto mal em admitir isso, mas parecia música para meus ouvidos ouvi-la gritar daquela forma, tão impotente agora, depois de tudo que passei em suas mãos.
— Você tem dois minutos para sair da minha vista, do contrário, eu atiro em você e eu te prometo que não será o respeito que tenho por Carl que irá me impedir de fazer isso. – Balbucio a vendo estremecer. – E se você estiver mentindo Stella, eu vou até o outro lado do oceano a sua procura, e você não vai querer saber o que eu sou capaz de fazer.
— Estou falando a verdade, Hannah. Juro por tudo que é mais sagrado... – Vocifera aos soluços.
— Corre. – Solto ela, e não demora muito para que ela se levante com dificuldade e apressasse o passo em direção a estrada de terra.
Entro em casa e pego a pequena folha que Stella colocou sobre a mesinha. Por sorte, o local era nessa cidade a poucas quadras daqui. Guardo a arma na cristaleira e deito no sofá ainda observando aquela folha e a pequena chave que eu segurava. Fiquei muitas horas me perguntando se eu queria mesmo saber quem era meu pai.
Tinha medo. Esse tempo todo querendo saber sobre ele, trouxe consequências. Me fez criar, acima de tudo, expectativas. E já tomei muitas doses de realidade que me fizeram ver que nada é da maneira que imaginamos. Talvez aquilo se aplicava ao meu pai também. Aliás...
Como era ter um pai? Qual era a sensação de estar nos braços do homem que ajudou a me colocar no mundo? Como era ter a sensação de estar segura o tempo todo só por tê-lo perto? Como era ouvir um eu te amo de uma figura tão importante? Me levanto andando em círculos, deixando a emoção falar mais alto que a razão. Pego as chaves do carro de Logan e piso fundo no acelerador.
Eu já tinha passado por aquela rua quando Taylor e eu fomos fazer algumas compras para decorar meu antigo quarto. Estaciono próximo ao local e fico alguns minutos no carro observando a movimentação. Quase ninguém entrava muito no local e por via das dúvidas, já deixei meu celular com o número de Logan discado na tela. Saio do carro indo em direção aquele estabelecimento desconhecido. Empurro as portas escuras dando de cara com um local luxuoso. Parecia mais a entrada de um hotel. Me aproximo do homem que estava atrás do balcão digitando algo em seu computador.
— Boa tarde. – Diz o homem em alto e bom som, de forma educada, sem deixar de sorrir. – Veio alugar um arquivo, já tem um ou veio buscar algo?
— Desculpe, mas... Que lugar é esse? – Pergunto e o homem me encara como se eu fosse uma idiota.
— Está no acervo da cidade, senhorita. Guardamos arquivos, importantes ou não, para a população. – Balbucia e eu assenti, entendendo.
— Acho que vim buscar algo, então. – Respondo me apoiando sobre o balcão. – Deve estar no nome de Chloe Thierry.
Ele digita alguns minutos em seu computador.
— Você é a Hannah Thierry? – Pergunta.
— Sim, por quê?
— Chloe foi bem clara conosco sobre quem poderia abrir tal arquivo. Pois bem... Sala três, arquivo 1947. – Murmurou sorridente e eu agradeço.
Caminho em direção as escadas e quando dou por mim, estou em frente à porta de madeira com o número três destacado. Meu coração se acelerava a cada passo que eu dava. Abro a porta dando de cara com uma parede repleta de armários pequenos como os do colégio, só que em leve tom dourado. Um sofá claro no canto e uma mesinha de centro com uma garrafa de água.
Todos os armários estavam marcados por um numeral e me aproximo daquele cujo os números 1947 estava entalhado. Pego a chave que Stella me entregara e coincidentemente, a chave abria aquele armário. Retiro dali uma grande caixa amadeirada e vou até o sofá me sentando. A curiosidade se aumentando cada vez mais...
Abro a mesma dando de cara com vários cadernos, provavelmente os diários que Stella havia mencionado. Uma foto de Chloe e eu grudada sobre a caixa e uma carta sobre os vários diários ali. Engulo em seco, segurando o choro que estava por vir enquanto abria a carta, reconhecendo a letra de minha mãe quase que imediatamente.
Querida Hannah,
Nunca parei para pensar em como começar a lhe contar tudo isso e antes que comece a me odiar, saiba que, tentei. Tentei muito. E mesmo com todas as oportunidades do mundo que tive para fazê-lo, não consegui. Peço que me perdoe, mas abrir essa ferida que demorou anos para se cicatrizar é mais difícil do que parece. Talvez um dia entenda. Cada dia que passei ao seu lado, querida, valeu a pena. Não me arrependo de nada do que eu fiz quando acordo e vejo você dormir calmamente na cama ao lado. Por muito tempo, você pensou que minha vida toda foi aquele inferno, sendo obrigada a dormir com homens desconhecidos por dinheiro. Mas está enganada, minha pequena.
Houve um homem, que me fez feliz como ninguém havia conseguido fazer antes. Esse homem se chama Christian Gavin Brian. Ele era um grande mafioso que queria parecer durão, mas eu o conhecia. Eu vi a bondade que ele tanto quis esconder. Fui vendida para ele muito nova, e não demorou muito para que eu me apaixonasse por ele e sentisse ciúmes de todas as putas da casa. Até que um dia, fui convocada para dormir com Christian. Eu era virgem, e tive que admitir aquilo a ele vergonhosamente.
Mas foi incrível. Me senti amada, algo que passou a ser raro. Tínhamos planos juntos, mas a máfia é algo perigoso, e alguns desses planos tinham que continuar sendo apenas aquilo. Planos. Entretanto, isso nunca nos impediu de sonhar. Durante uma guerra entre máfias, ele morreu. Mas foi eu quem saiu mais ferida.
Ele tinha tanto poder, que parte de mim passou a imaginar que ele sempre voltaria quando saia de casa. Aquele dia, ele não voltou. Mas um homem, tão parecido com ele, voltou em seu lugar. Seu filho, Anthony, assumiu a máfia rapidamente e foi bondoso ao me deixar um tempo na casa, apesar de ter despedido as outras putas. Sabia que não podia ficar ali para sempre, afinal, a esposa dele não era minha fã.
Um dia eles brigaram e Anthony bebeu muito. Sinceramente, não sei o que passou pela cabeça dele, mas o mesmo apareceu em meu quarto no meio da noite. Querendo ou não, ainda era a puta da casa e acatei seu pedido. Não houve um minuto daquela noite em que não imaginei Christian ali, me tocando. Está aí, algo do qual me arrependi muito, até descobrir que estava grávida. Adorava ter a sensação de que eu carregava parte de Christian, porque querendo ou não era verdade. Quando soube, procurei o bordel mais próximo e fiz um acordo com o dono.
Era tão lindo ver você crescer e seu jeito me lembrava ele. Foi como se o próprio tivesse me dado você de presente através do próprio filho. Sempre dependi de Christian, então tudo que me restou foi a prostituição, mas acredite, eu queria ter te dado uma vida melhor. Porém, mesmo se eu quisesse, não poderia.
Você é a herdeira da máfia de Anthony Gavin Brian, descendente de Christian Gavin Brian... Sendo assim, sofria perigo constante. Espero que um dia tenha a chance de conhecê-lo, afinal, ele é um homem bom. Me acolheu quando eu mais precisava e sempre notei sua bondade quando conversávamos sobre seu pai, ele sentia falta da figura paterna, pois se afastou do Christian muito cedo. Me pergunto se já sentiu falta dessa figura tão importante um dia.
Se está lendo isso agora, eu provavelmente estou morta e Stella foi uma grande amiga deixando isso a você. Quero que saiba, que te amo, muito. E você é a única coisa da qual não me arrependo desde a morte de Christian. Não importa aonde esteja agora, nunca é tarde para uma lição de mãe, então: Seja feliz, minha garota. Viva intensamente como se o amanhã não importasse porque se tem algo que aprendi amando Christian é que nada dura para sempre.
Com amor,
Chloe Thierry.
Estaciono o carro às pressas e desço... Tudo agora parecia tão claro em minha cabeça e eu não sabia se sentia raiva ou mágoa. Anthony tinha me ajudado com a procura de meu pai, me enganando mesmo sabendo tudo o que eu sentia em relação aquilo. Queria gritar, gritar muito e extravasar todos esses sentimentos que se enrolaram com um forte nó em minha garganta. Eu me sentia engasgada. Abro a porta sem bater e um dos funcionários tenta me parar, mas eu continuo andando em direção ao escritório de Anthony. O mesmo se levanta confuso ao ver meu rosto encharcado de lágrimas. Ele se aproxima, mas eu o paro.
— Como você pôde mentir para mim? Por que não disse que era meu pai? – Eu o empurro uma, duas, três vezes, sempre que o mesmo tentava se aproximar mais. O rosto confuso se perguntando como eu descobrira aquilo enquanto eu chorava de soluçar. – Me responda Anthony.
— Hannah, eu...
— O que está acontecendo aqui? – A mulher dele, Blair, aparece assustando tanto a mim quanto a ele e eu observo a expressão de confusão de Anthony dando lugar ao desespero, então tirei a conclusão mais óbvia.
Ela. Não. Sabia. E eu não tinha sido a única enganada.
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