A Herdeira

5 Capítulo Quatro: Mãe e Filha


Notas iniciais
Olá novamente! Aqui está o capítulo quatro e dessa vez pretendi mostrar um pouco da relação mãe e filha. E no começo teremos vislumbres dos pensamentos de Alfonso depois de sua doença. Então amantes da história, não enlouqueçam ao verem discrepâncias em fatos históricos. Com carinho, Mandie Cruz.

Capítulo Quatro: Mãe e Filha

Na altura do natal de 1840, o rei Alfonso já tinha se recuperado por completo e participado tanto da missa quanto da festa que ocorreu a noite para celebrar o nascimento do menino Jesus. A saúde do rei pode ter sido restaurada, mas, o cérebro dele ainda trabalhava e se torturava com o pensamento de sua possível morte. Se tivesse morrido, ele teria deixado seu país nas mãos de Maria Beatrice, uma menina adorável de dezesseis anos, que estava cheia de boas intenções e nenhuma experiência ou conhecimento de como desempenhar as funções de um monarca. Alfonso tinha certeza de que sua prima seria uma rainha reinante maravilhosa um dia, porém, por agora ela ainda era uma criança que precisará de conselheiros confiáveis e capazes de oferecer bons conselhos e talvez até um regente adequado que governaria em seu nome durante sua minoridade se ele viesse a falecer mais cedo do que o esperado. Então, o rei começou a fazer os preparativos necessários para arranjar um bom regente, conversou com o Primeiro-ministro, com sua esposa e com a mãe de Maria Beatrice, e no final, todos chegaram a um consenso e escolheram Maria Luísa para ocupar a posição de liderança se houvesse uma necessidade de uma regência, pois as experiências anteriores da rainha a fez a candidata mais competente. O rei também se aproximou do Primeiro-ministro para confabular sobre uma introdução gradual de Maria Beatrice em alguns assuntos de Estado – coisas simples, é claro – e Don Alessandro concordou e o rei até percebeu que o mesmo parecia contente o suficiente com a sugestão dele.

Após a recuperação milagrosa do rei, Maria Beatrice conseguiu retornar para uma rotina relativamente mais saudável. Ela falou com algumas moças próximas de sua idade que frequentavam a corte e serviam a rainha como damas de companhia, e fez uma amiga na forma de Donna Cecília Valentine, a única filha do Marquês de Brandi – um político proeminente do Partido Conservador e marido da sobrinha do Primeiro-ministro. Cecília e Maria Beatrice discutiram sobre suas opiniões pessoais e gostos sobre peças teatrais clássicas, Cecília fez questão de lhe apresentar para os membros de seu círculo interno de amigos íntimos.

Maria Beatrice também saiu com sua mãe assim como faziam antes dela ser proclamada herdeira. Elas saíram do palácio a noite usando suas melhores roupas e partiram para assistir ao balé no Teatro Reale (1) de Sole (2). Amália e sua filha se instalaram nos assentos do camarote separado especialmente para a família real e seus convidados, e então aproveitaram uma boa noite de paz e diversão. Foi uma noite ótima em que finalmente mãe e filha puderam passar algum tempo de qualidade juntas sem as preocupações que envolviam aqueles que estavam muito próximos da Coroa. Elas não tiveram muitas oportunidades de desfrutarem da companhia uma da outra nos últimos dias, já que Amália estava ocupada com suas próprias composições enquanto Maria Beatrice estava ansiosamente estudando para se tornar uma boa monarca e também para mostrar para homens como Don Alessandro, que embora ela fosse uma mulher, ela era tão capacitada quanto qualquer pessoa do sexo masculino.

A princesa Maria Beatrice e sua mãe assistiram o famoso balé, Giselle (3), e quando retornavam para casa em sua carruagem, elas compartilhavam seus pontos de vista sobre o balé, ambas admitiram que gostaram do enredo e de como o amor era um dos pontos focais e que de certa forma poderia transcender a morte, no entanto, a princesa acrescentou que não gostou muito da morte causada pela desilusão sofrida pela pobre Giselle de trágica demais. Ela achou interessante o conceito das lendas das Willis (4), que eram moças que morreram antes do casamento e virgens que voltavam ao mundo dos vivos em buscas de pares para as acompanhar em suas danças.

Quando enfim chegaram ao Palazzo Reale – aonde estavam vivendo desde o susto causado pela doença do rei –, elas se aconchegaram no sofá da sala de estar que separavam os quartos em que dormiam. Maria Beatrice não podia viver em quartos distantes de sua mãe, porque seria inadequado para uma jovem mulher solteira viver sozinha. A filha dos Duques Artistas retirou suas luvas e as colocou na mesinha de centro que se encontrava a sua frente.

— Senti saudades do tempo que passamos juntas. – Maria Beatrice comentou e soltou um suspiro. – Nós costumávamos ser mais unidas antigamente, principalmente porque não estávamos tão atarefadas.

— Eu também senti saudades. – Amália sussurrou ao se sentar ao lado de sua filha. – Antigamente só éramos nós duas e nós frequentemente víamos ao balé, a ópera ou a peças de teatro. Tínhamos uma vida bastante agitada, não é mesmo? E você nem era mesmo a herdeira do trono! – Ela gracejou em um leve tom de divertimento.

— Sim, é verdade. – Maria Beatrice confirmou solenemente. – Sinto falta daquela época pacífica. Tudo costumava ser mais simples, o pai estava vivo assim como tio Amadeus (5), meu padrinho, o primo Francisco (6) e Maria Ana. Eu não era a herdeira e ninguém esperava grandes feitos de mim. – Ela se obrigou a segurar as lágrimas e soltou uma risada nervosa antes de continuar: – Talvez Don Alessandro esteja certo, pois, apesar de estudar tanto, eu me sinto como uma incompetente e incapaz de fazer qualquer coisa.

— Shiu! Não diga tais baboseiras! – A mãe de Maria Beatrice exclamou. – E não permita que as palavras daquele homem velho afetem você, meu Schätzchen (7), você é filha de seu pai e igual a ele, você é perfeita em tudo que faz quando se dedica.

Maria Beatrice queria acreditar nela e pensar em Don Alessandro como um homem velho e maldoso, contudo, essa noite ela se encontrava exausta demais para forçar sua mente em crer em qualquer outra coisa que não seja pessimista.

Amália parou de falar e puxou sua filha para seus braços, ela apertou firmemente sua filha contra seu peito. Maria Beatrice desabou nos braços de sua mãe e chorou como todas as lágrimas que ela tinha guardado para si mesma nos últimos meses. Ela sentia como se estivesse sustentando um grande peso em seus minúsculos ombros e ela não podia se autorizar a mostrar fraqueza, porque Maria Beatrice se encontra em uma posição que deve sempre demostrar força e confiança, mesmo quando há momentos em que ela quer se encolher debaixo de suas cobertas e se esconder do mundo lá fora, no entanto, e pelo bem de sua nação ela deve ser forte e corajosa, mais forte e corajosa do que ela já tinha sido a vida inteira. E a falha não é uma opção em seu caso.

— Tudo ficará bem, meu Schätzchen. – Amália quase nunca usava termos em alemão ao falar com Maria Beatrice, mas, quando o fazia era sempre em uma entonação carinhosa. – Agora vá dormir, nós tivemos uma longa noite e uma boa noite de sona fará milagres para nós.

— Você está certa. – Maria Beatrice secou suas lágrimas antes de se levantar do sofá onde tinha sentado e caminhou até a porta de seu quarto. – Gute nacht (8), mama!

Gute nacht, Schätzchen!

Notas finais
1 – Significa Teatro Real em italiano. 2 – Sole é a capital da Aurânia e significa “sol” em italiano. Como o sol e o ouro são normalmente associados, então pensei que Sole seria a melhor escolha para capital de um país como a Aurânia, o “reino do ouro”. 3 – Giselle é um balé que teve sua estreia em 1840 na França. Sem contar muitos spoilers vou resumir nas seguintes quatro características: uma jovem inocente, um nobre disfarçado, um cara ciumento e uma desilusão amorosa. Uma mistura que já nos faz pensar que nada de bom vai sair da ai, não é mesmo? 4 – A lenda das Willis faz parte do enredo de Giselle. Elas são moças que morreram antes de se casarem, virgens e foram desiludidas de alguma maneira, que retornam a vida a noite para buscar parceiros de dança do sexo oposto como forma de vingança. 5 – Amadeus era o Duque de Allegro. 6 – Francisco era o primo de Maria Beatrice e filho único filho do padrinho dela. 7 – Schätzchen significa tesouro ou mel em alemão e normalmente é utilizado pelos pais para se referir aos seus filhos. 8 – Gute nacht significa boa noite em alemão.