A Herdeira
3 Capítulo Dois: Subestimada.
Notas iniciais
Capítulo Dois: Subestimada.
No início do ano de 1840, exatamente logo após as festividades de natal e de ano novo terminarem, tanto a princesa Maria Beatrice quanto sua mãe, que anteriormente estavam vivendo na corte, retornaram para suas antigas dependências no Palazzo della Fiori (1). Infelizmente para Maria Beatrice, o retorno para o Palazzo della Fiori não significou o retorno para a rotina confortável que ela estava acostumada a seguir antes da morte de Maria Ana, porque como a atual herdeira da Coroa, ela teve que começar suas lições sobre a história envolvendo a criação da Constituição da Aurânia e a própria Constituição em si. O rei Alfonso contratou um professor particular, o Sr. Alberto Dino (2), que também lecionava na universidade mais prestigiada da Aurânia, a Universidade de Santa Catarina. Maria Beatrice pessoalmente gostou muito do Sr. Dino, um homem idoso baixinho e gordinho que normalmente conduzia suas aulas com bastante bom humor. Além das aulas, Maria Beatrice começou a receber visitantes realmente inesperados e verdadeiramente interessantes, que antes nunca se importaram em conhecê-la e um bom exemplo foi o atual primeiro-ministro, Don (3) Alessandro Carlone – o Partido Liberal tinha perdido a última eleição e os conservadores subiram ao poder no final do ano passado. Maria Beatrice não conhecia muito bem Don Alessandro, embora ela já o tenha vista em algumas ocasiões quando visitava seu primo, o rei, no entanto, Maria Beatrice fez questão de recebê-lo bem, mesmo que ela tenha o conhecimento que ele tinha apoiado Vítor Ferdinando como herdeiro acima dela no que ficou conhecido com Crise do Herdeiro (4).
— Don Alessandro, é prazer vê-lo! – Maria Beatrice o cumprimentou e levantou a mão para que o primeiro-ministro pudesse beijá-la. – Embora, o senhor tenha chegado em um péssimo momento, eu estava prestes a iniciar minha aula com o Sr. Dino.
— Desculpe-me pela minha intromissão, mas, tenho certeza que o Sr. Dino não se importará em adiar sua aula por mais uma hora. Veja bem, madame, eu realmente tenho que falar com a senhora. – Don Alessandro retorquiu, sua entonação firme.
Maria Beatrice estreitou os olhos e analisou o primeiro-ministro com intensidade. Don Alessandro não é mais o homem relativamente jovem que tinha lutado e comandado as forças da Aurânia na Batalha de Waterloo (5) contra o exército francês comandado por Napoleão Bonaparte, seu rosto estava marcado por rugas profundas, seu cabelo e barba estavam brancos e seus olhos castanhos inteligentes mostravam cansaço. Maria Beatrice não conseguia lê-lo, contudo, ela tem certeza de que qualquer coisa que ele tenha a dizer não será do agrado dela.
— Donna Cristina, por favor, avise ao Sr. Dino que me atrasarei e depois peça a alguém para preparar e enviar o chá para três para o Solar Norte. – Maria Beatrice anunciou para sua dama de companhia. – Agora, Don Alessandro, queria nos acompanhar até o Solar Norte.
Eles se instalaram no Solar Norte do Palazzo della Fiori, Don Alessandro se sentou na frente de Maria Beatrice, que tinha como sua acompanhante sua governanta, Donna Margarida, que também servia com uma de suas damas de companhia. Don Alessandro permaneceu em silêncio até a chegada do chá.
— Permita-me ser sincero com a senhora e ir direto ao ponto, madame. – Don Alessandro se pronunciou. – Meus colegas de partido e eu temos receio sobre sua futura atuação como soberana.
— Em outras palavras, o senhor está me dizendo que me acha incapaz de ser rainha. – Maria Beatrice comentou abaixando sua xícara de chá e sorrindo amavelmente. Donna Margarida se remexeu nervosamente ao lado de Maria Beatrice, que soube intervir antes que a mesma fizesse alguma coisa. – Mas, diga-me, Don Alessandro, sua opinião e de seus companheiros de partido mudariam se eu fosse um homem e não uma “menininha fraca e tola”? – Maria Beatrice deliberadamente utilizou um dos comentários mais usados no ano passado para descrevê-la como incapaz de liderar a nação na Crise do Herdeiro. Sua pergunta também foi uma armadilha para saber se ele mentiria descaradamente em sua cara ou diria a verdade brutal.
A resposta que ela obteve não foi aquela que ela esperava. Don Alessandro soltou uma gargalhada seca balançando a cabeça. Maria Beatrice não compreendeu qual parte de sua pergunta foi tão engraçada para arrancar tal reação dele.
— Don Alessandro! – Donna Margarida exclamou horrorizada.
— Acalme-se Guida. – Maria Beatrice pediu ao erguer a mão de forma pacificadora. – Don Alessandro, por favor, também se acalme e nos explique a motivação de sua explosão.
— Perdoe-me madame, eu fique realmente surpreso com sua indagação direta ao ponto. Portanto, deixe-me responder francamente: é provável que nossa opinião mudasse se a senhora fosse um homem, entretanto, seu gênero não é a única fonte de preocupação. Meu partido e eu estamos receosos principalmente com sua educação e inexperiência. – Don Alessandro esclareceu e Maria Beatrice se obrigou a respirar profundamente para conter sua raiva.
— Minha educação? – Maria questionou atordoada. – O que há de errado com minha educação?
— Não quero ser rude, madame, mas, sua educação lhe conferiu boas qualidades para uma consorte e não para uma monarca. A senhora não detém nenhum conhecimento sobre a situação econômica ou sociopolítica do país e muito menos sobre as relações da Aurânia com outras nações ou sobre as condições de nossas colônias. – O primeiro-ministro constatou ousadamente.
É um fato que Maria Beatrice tem consciência das limitações de sua própria educação agora que ela se tornou herdeira do trono, porém, uma coisa é ela ter ciência de suas próprias restrições e a outra é ter um desconhecido apontando esse fato. Foi doloroso escutar aquela verdade sendo dita em voz alta, seu orgulhou sofreu, todavia, Maria Beatrice resistiu a vontade de chorar na frente dele – ou de qualquer outra pessoa que se mostrasse um rival. Geralmente, ela se vangloriaria de sua educação privilegiada, afinal de contas, seus pais tinham contratado os melhores tutores para lhe ensinar: Donna Margarida, que é reconhecidamente uma erudita, lhe instruiu a ler e escrever em sua língua materna, além de lhe ensinar sobre matemática, história, latim, geografia, literatura, etiqueta, decoro e a costurar e bordar; professores estrangeiros foram trazidos para a educarem em outras línguas e seu repertório foi composto de inglês, francês, espanhol, italiano e alemão; o padre Ricardo, um bom amigo de seu falecido pai, lecionou sobre religião; graças a sua mãe, Maria Beatrice aprendeu com os melhores sobre música e como tocar vários instrumentos, e Maria Beatrice era especialmente talentosa nesse quesito; ela também sabe dançar e montar a cavalo. Tais conhecimentos eram bons suficientes para uma consorte como disse o primeiro-ministro, entretanto, não eram bons o suficiente para futura rainha reinante da Aurânia.
— Talvez o senhor esteja certo, no entanto, isso não significa que ainda não possa aprender todas essas coisas. O rei está vivo e assim permanecerá até que seja a vontade de Deus o levar para o céu, e por isso ainda tenho tempo bastante para me tornar proficiente em tais assuntos. – Maria Beatrice proferiu com toda sua coragem. – Então, tranquilize seus companheiros de partido e garanta-os que quando eu ascender ao trono, estarei totalmente preparada para grande responsabilidade de ser um monarca.
— Fico contente em ouvir isso. – Don Alessandro anunciou e ele foi embora quando terminou de beber sua xícara de chá.
Quando Maria Beatrice se encontrou com Sr. Dino mais tarde para dar continuidade as suas aulas, ela perguntou se ele conhecia pessoas que poderiam lhe ensinar sobre as condições atuais do país e também sobre relações internacionais, o Sr. Dino diz que sim e Maria Beatrice pediu que ele entrasse em contato com eles em seu nome. Mais tarde quando sua mãe voltou para casa depois de visitar uma amiga que vivia nas redondezas, ela descobriu sobre o encontro de Maria Beatrice com o primeiro-ministro. Amália não gostou do que foi dito por Don Alessandro, entretanto, ela concordou em ajudar sua filha a contratar novos professores para lhe instruírem.
O mês de maio chega assim como o aniversário de Maria Beatrice, que é convidada junto com sua mãe para comparecer a corte no Palazzo Reale. A pedido do rei, a rainha Maria Luísa, preparou para Maria Beatrice uma festa de aniversário apropriada para a herdeira da Coroa. Ela teve o prazer de dançar muito e com parceiros adequados, comer uma boa refeição e receber presentes dignatários estrangeiros – ela aproveitou aqueles momentos para esquecer os comentários de Don Alessandro e de suas próprias falhas. Aquela foi uma boa noite e um aniversário muito melhor em comparação com o do ano passado e retrasado quando o rei e a rainha estavam imersos em sua tristeza e pouco se importavam em comemorar a data de nascimento da atual herdeira. Maria Beatrice compreendeu os motivos dele – ela sinceramente entendeu –, contudo, ela não pode de deixar de se sentir ofendida. No final da noite, Maria Beatrice esperou por não somente mais aniversários, mas, também por anos melhores daqui por diante e que sua família já pequena não se torne ainda menor.
Fale com o autor