A Herdeira

2 Vida Simples


Notas iniciais
Desculpem a demora. Espero que gostem.

Rose amaça o pão enquanto canta baixinho. O sol brilha do lado de fora da janela e ouve-se os pássaros cantar transmitindo alegria.

- Que felicidade. – Comenta Renée saindo de um dos quartos.

- Bom-dia, mãe. – Rose larga a massa do pão para dar um beijo no rosto da mãe. – Está um dia bonito.

- Pois está. – Concorda Renée. – E vejo que estais a adiantar trabalho.

- Alguém tem de fazer o pão nesta casa.

- O vosso pai?

- Foi para o campo. – Diz Rose distraidamente.

- Pois, ele disse-me que ia com uns vizinhos apanhar o trigo. Tenho que ir lá ajuda-lo daqui a pouco. Fazeis o almoço?

- Claro, mãezinha, não vos preocupeis.

- E o Jacob?

- Está com as vacas.

- Então até logo.

- Xau.

Renée sai deixando a filha na cozinha.

Jacob entra uns minutos depois com dois baldes de leite.

- Espero que não tenham dado só isso. – Comenta Rose olhando para os baldes.

- Seis baldes. – diz o irmão com um sorriso. – Mas só consigo trazer dois de cada vez. A mãe?

- Foi ajudar o pai.

Jacob poisa os baldes em cima da mesa.

- Tira isso daqui que estou a amaçar o pão! – protesta Rose.

- E estorva-vos?

- Por acaso.

Jacob deita-lhe a língua de fora como fazia quando eram mais pequenos.

- Tenho uma novidade. – senta-se num banco e apoia os braços na mesa.

- Levantai-vos seu preguiçoso, tendes de ir buscar o resto do leite. – reclama Rose.

Ele encolhe os ombros.

- Tenho tempo.

- Não tendes não. Suponho que o pai queira que o ajudeis com o trigo.

- Já lá vou. Deixai-me contar a novidade.

- Contai então.

- Amanhã, dia do vosso aniversário, o rei e a rainha vêm para o palácio ali do cimo da colina. – aponta para a janela.

Rose faz um enorme sorriso. Sempre desejou ver o rei, a rainha, os nobres e as damas da corte todos bonitos e aperaltados com os seus vestidos e as suas jóias. Quando era mais pequena imaginava que era uma princesa e que casaria com um belo príncipe. Agora sabe que não será assim. É uma camponesa e casará com um dos filhos dos vizinhos daqui a um ou dois anos.

- Melhor ainda. – continua o irmão. – Eles passarão aqui pela aldeia com grande aparato como é costume da família real. E nós vamos poder vê-los.

- Isso será maravilhoso. – Rose coloca o pão no tabuleiro e pega nas mãos do irmão rodopiando pela cozinha.

Jacob ri-se e levanta-a no ar.

- Sempre desejei vê-los. – diz Rose quando ele a poisa no chão.

- Eu sei. E ainda por cima no dia do vosso aniversário.

- É um grande presente.

- É. – Jacob pega no tabuleiro e coloca-o no forno. – Os reis já não vêm a este palácio há dezoito anos.

- Porquê? – pergunta Rose.

Jacob encolhe os ombros.

- Não sei. Talvez porque têm sempre coisas para fazer na capital e não têm tempo de vir para o campo.

- Hum. O melhor é irmos buscar o leite. Eu ajudo-vos.

- Certo, maninha.

Saem os dois para irem buscar os baldes de leite, a rir e a conversar.

Nessa noite Rose e a mãe servem a sopa ao jantar.

- Cheira bem. – diz Charlie enquanto leva uma colher à boca. – E sabe ainda melhor.

Rose ri.

- Foi a nossa filha que fez. – diz Renée sentando-se.

Rose senta-se e o pai passa-lhe a mão nos cabelos.

- Estais a tornar-vos uma grande cozinheira. – elogia.

- Qualquer dia cozinha no palácio real. – brinca Jacob.

Ninguém se ri ou faz qualquer comentário. Renée fica silenciosa e baixa os olhos para a sopa. Charlie tira um pedaço de pão e leva-o à boca em silêncio. Jacob e Rose entreolham-se sem saberem o porquê dos pais terem ficado tão estranhos.

Jacob decide quebrar o silêncio.

- Amanhã a corte passa pela aldeia. – diz. – Vão passar o verão no palácio daqui.

Os pais entreolham-se sem dizerem nada.

- Eu e a Rose queríamos ver a passagem da família real. – diz Jacob.

- Nem pensar! – diz logo a mãe fazendo com que os dois filhos fiquem a olhar para ela espantados.

- Porquê? – perguntam em simultâneo.

Clara cala-se. Não tem nenhuma justificação.

- Porque há muito trabalho para fazer amanhã. – diz Charlie.

- Pai, são só cinco minutos. – protesta Jacob.

- Sim, paizinho, e eu sempre quis ver os vestidos bonitos das damas. – lembra Rose. – Ainda por cima é o meu aniversário. Seria uma espécie de presente.

- Não vão e não se fala mais nisso. – diz a mãe.

- Temos muito que fazer amanhã e não vamos perder tempo com essas futilidades. – acrescenta o pai.

- Mas são só uns minutos. – continua Rose. – E o mano disse que os reis já não vêm cá há dezoito anos. Esta pode ser a minha única oportunidade de vê-los. A Leah já foi à capital e disse-me que os reis ainda são jovens e bonitos e se vestem com roupas lindas. Ela diz que a rainha é a mulher mais bonita…

- Já chega! – a mãe levanta-se. – Não vão ver a passagem da família real e acabou-se.

As lágrimas aparecem nos olhos de Rose. Levanta-se e vai para o quarto que partilha com o irmão fechando a porta com estrondo.

Quando acabam de jantar Jacob levanta-se e vai ter com a irmã que está deitada na cama com os olhos cheios de lágrimas.

— Todos vão menos eu. – murmura.

O irmão senta-se ao pé dela.

- Deixai. Amanhã quando os pais estiverem no campo vamos ver os reis passar. O Sept diz que eles têm uns homens que tocam trombetas e que se ouve a longa distância. Quando os ouvirmos vamos à estrada principal vê-los passar.

Rose anima-se um pouco.

- E não achais que a mãe vai ficar chateada?

- Só se descobrir. – pisca-lhe o olho. – E isso não vai acontecer.

Na cozinha Renée lava a loiça. Charlie está sentado à mesa a observa-la.

- Acho que não o devíamos ter feito. – diz.

Renée vira-se para ele.

- Quereis que a nossa filha fosse ver a passagem dos reis? – pergunta Renée irritada. – Quereis que a rainha a veja? Não a quero perto da família real. E também não sei o que lhes deu para virem agora para aqui ao fim de tantos anos.

Charlie levanta-se.

- Renée, toda a aldeia os vai ver passar. Achais que eles vão ter tempo de olhar para todas as caras?

Renée abana a cabeça.

- Não sei. Mas não quero que ela veja a minha menina.

- A nossa menina estará no meio de muita gente. Ninguém lhe prestará atenção.

Renée assente.

- Eu não a quero triste. – murmura.

- Amanhã a gente leva-a e ides ver que ela irá adorar e ficará muito feliz.

Renée volta a assentir.

Charlie abraça-a.

- Não vos preocupeis. Já ninguém se lembra.

Mas Renée sabe que pelo menos os reis se devem lembrar. Uma mãe nunca se esquece de um filho.

Notas finais
Comentem!