A Heart's Hole
1 Visitas inesperadas.
Notas iniciais
O capítulo pode ser bem pequeno, mas só porque eu fiquei meio ansiosa. Hoho.
Vênese. A cidade conhecida pelos seus dias de inverno que acontecem 365 dias por ano. Onde a injustiça prevalece, mas apesar disso, parte dela parecia ser um lugar calmo e silencioso; sendo que, é claro, a população de classe média – e alta, mesmo que esteja quase “extinta” – Agora permanecem dentro de suas casas pela maior parte do tempo. Uma pequena quantidade de pessoas aparentemente sem lar, doentes, e outros que chegam à loucura, se encolhem entre os becos e os cantos das residências ou lojas. Tudo isso desde a tragédia do Século das Luzes, que lhes causou uma terrível crise.
Na escola um dos cenários mais comuns se repetia. Um casaco de couro preto fora jogado na lama, junto de uma mochila cujos pertences estavam espalhados pela terra. Uma briga de crianças, que há alguns anos atrás, não costumava ir tão longe.
– A-AGH! – A garota gritou no momento em que lhe fora desferido outro soco no estômago. Os garotos um pouco mais velhos que a seguravam deixaram que ela caísse no chão, passando a agredi-la com chutes.
– Chega. Já chega. – Disse aquela que aparentava ter a mesma idade, cruzando seus braços e suspirando de forma mimada. Agindo como uma adulta ignorante. Estava bem-agasalhada em vestes brancas.
– Mas... Senhorita...
Ela encarou aquela que aparentava ser uma de suas “melhores amigas” com um ar desafiador, fazendo-a se calar. Em seguida, virou-se para aquela que mal devia ter forças para se levantar, e lhe puxou pelos seus curtos cabelos negros. – Eu avisei a você. Disse que poderia viver melhor se aceitasse, mas você é mesmo estranha! Quando há uma oportunidade na sua frente... você ainda ousa me ignorar.
Apesar da insistência, não obteve resposta alguma. Mal direcionou os olhos aos da líder, que são escuros e sem vida.
– Faça como quiser. – Soltou a mecha da garota, que caiu para cobrir o resto de seu rosto. – Vamos embora. Nunca mais cruze com meu caminho... Eris.
Espiando entre o pequeno espaço nos cabelos que cobriam parte de sua visão, se destacou um de seus profundos olhos esverdeados. Esperou que eles fossem embora, e então, arrastou-se até sua mochila, que estava ensopada. Assim que a retirou da lama, colocou tudo de volta no lugar, afinal, não tinha mais onde colocar suas coisas.
– Certo. – Espremeu o casaco e o guardou também, então colocou a mochila do ombro, levantando-se com um pouco de dificuldade. – É hora de ir para casa e cuidar disso... Ah, não. Está se transformando em uma rotina. Que estupidez. – Já resmungava consigo mesma enquanto caminhava em direção às ruas mais estreitas.
Ia para casa.
A porta da hospedaria foi aberta, seu sino tilintou alertando um suposto cliente. Eris foi ao balcão do bar deserto, que ficava no primeiro andar. Podia ouvir o som dos roncos daquele velho que ela tanto admirava.
– Martin? – Chamou o nome dele, ficando na ponta dos pés para que pudesse vê-lo através do móvel. Uma bolha em seu nariz aumentava e diminuía de tamanho de acordo com sua respiração. A menina deu a volta para que pudesse passar para aquela área de funcionários, cutucando-o. – Martin!
– O-O quê? – A bolha se estourou, e ele quase cai da cadeira com o susto. Mas não via ninguém à sua frente.
– Aqui embaixo, velho caduco.
– Oh, sim. É você, sua pivetinha. – Apesar de reconhecer à voz, pôde enxergar apenas um tufo de cabelos ambulante ao olhar para baixo, coçando sua barba. Ao colocar seus pequenos óculos redondos, aparentou estar surpreso. – Pelos deuses! Andou brigando com seus colegas de novo? Quantas vezes eu falei para tomar cuidado? E está imunda... Sente-se na cadeira ali.
A pequena foi até uma das mesas e se sentou. – Mas Martin... Eles são tão...! – Antes que pudesse falar mais alguma coisa, ele já havia subido as escadas do segundo andar. Pouco depois, voltou com uma pequena caixa de medicamentos, um pano e um balde de água.
– Tão rudes? Ignorantes? Todos “iguais”? – Apesar da idade, possuía, Martin tinha ótimos ouvidos. Suspirou, molhando o pano no balde e então o espremeu em cima dele para acabar com o excesso de umidade. Eris estendeu o braço e ele se pôs a limpá-lo, e em seguida, o outro.
– Não está choramingando dessa vez. Está bancando a durona, ou andou amadurecendo mesmo? – Passou o pano por cima dos ferimentos nos joelhos, e então, começou a limpar o rosto. – Sinto muito. Gostaria que não tivesse nascido nessa época terrível... – A tristeza tomou conta de sua face. A pequenina riu.
– Faz cócegas. – Quando ela falou, um pequeno sorriso se formara no rosto do humilde ancião, que começava a enfaixar seus braços e pernas com bandagens.
– Eris... Não mude. Nunca. – O seu sorriso se estendeu só de imaginar como ela seria no futuro, após superar todas essas dificuldades. Enquanto isso, ele já lhe colocava um curativo em sua bochecha e testa.
– Mudar? Com quem você pensa que está falando? Heh. – Levantou-se em um salto animado. – Nossa! E já me sinto nova em folha! Obrigada, Martin.
– Vai a algum lugar? – Começou a guardar suas coisas, levando-as para o balcão. – Acho que já sei pra onde. E notei que seu casaco se foi, ou deve estar em um péssimo estado... Deixe sua mochila aí e vá pegar outro lá em cima, está fazendo muito frio lá fora.
– Certo. – Subiu as escadas com pressa, diminuindo a velocidade a cada vez mais que se aproximava. Entrou no primeiro quarto do pequeno corredor, que era o seu. Pinturas e desenhos estavam espalhados pelo chão e pelas paredes, alguns jarros de plantas ficavam nos cantos do lugar. Perto da cama, estava o guarda-roupa iluminado pela luz do sol, que passava pela janela. O abriu.
Estava lotado de roupas antigas, muitas eram remendadas ou grandes demais para seu tamanho. Assim que encontrou outro casaco marrom, o vestiu. Possuía um tamanho que lhe cobria até os joelhos quando o fechara. Pôs longas e confortáveis meias pretas e calçou seus sapatos novamente. Foi então que quando se levantou, se distraiu com algo.
–... Hah? – Eris repentinamente se correu para a janela e a abriu. Dali, podia ver que havia fumaça vinda de um lugar conhecido. Era seu esconderijo, o lugar aonde sempre ia, todos os dias. Um espaço especial, apenas para ela, deixado pela sua família. Mal podia pensar na probabilidade de que alguém da escola tivesse descoberto, e que o lugar estivesse em chamas.
Saiu em disparada pelas escadas e passou por Martin feito um furacão, que, por sorte não caiu de tão surpreso.
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