A Gárgula
3 Capítulo 3
Notas iniciais
O despertador irritante do celular toca, o auto-falante do aparelho é velho e os sons que dele saem mais parecem chiados do que outra coisa...tateia e consegue desligar a sucata que no seu dicionário se chama "celular". Tenta mas não consegue abrir os olhos, as pálpebras parecem protestar pelas poucas horas de sono...se revira na cama, a luz da janela quase a deixa cega quando finalmente abre os olhos, pisca descontroladamente, o prédio da frente toma forma, Isabel observa a gárgula e lembra com assombro da noite anterior, a memória vaga só permite que ela se lembre de algumas coisas, alguns detalhes sinistros de uma madrugada quente e úmida no quarto embolorado, detalhes como uma sombra crescente em forma de gárgula surgindo em sua parede, detalhes como som de pedra rachando, detalhes como cheiro de cimento seco e poeira de obra vindo de sua janela...mas é claro que são pesadelos causados pelo estresse que as incríveis tardes com Rúdolf causam...
Mais banho frio que é para o dia começar bem, para o cardápio de café da manhã tem apenas cereal murcho com açúcar em excesso, pensou em adicionar leite para amenizar o sabor do cereal mas não teve tempo para fazer compras e o leite que tinha já havia passado da validade, por fim o jeito foi beber muita água depois do dejejum, Adamastor que está sempre animado, adentra a cozinha miúda com cara de "Lula Molusco", Isabel oferece alguns restos do café para o felino, ele vira de costas e saí de perto.
-Claro...bom dia pra você também Adamastor. Bem, hora de ir para o campo de concentração, Hitler...quer dizer....Rúdolf, me espera.
O porteiro da manhã estava em um debate acirrado com sua vizinha de baixo, Dona Lorna, mulher muito simpática e simples, lembrava Dona Florinda da série mexicana "Chavez". A conversa estava tão acalorada que os dois nem notaram a passagem rápida de Isabel.
Chegando ao trabalho, começou a orar..."Senhor, defenda o Rúdolf de mim, não me controlarei se estiver com uma tesoura perto dele. Amém."
-Bom dia.- o som lembrava quando água goteja no queimador do fogão depois de quente.
-Bom dia, Senhor Ropkins...
E assim teve início mais um dia ao lado do Senhor feudal. Hora de trabalhar como uma condenada.
Ao fim da tarde, Isabel já não aguentava mais, quando deu a hora de ir embora, não se conteve, guardou as coisas na velocidade da luz e tratou de se afastar da Ropkins o mais rápido que pode. O táxi já estava á sua espera, portanto chegou mais cedo em casa. Entrou no apartamento, Adamastor rosnou para ela e foi se deitar no tapete.
-Olá Adamastor, é bom te ver também.
E que a rotina tivesse continuidade! banho, chá, cama. Notou que a janela estava aberta sendo que ela se lembrava de ter fechado antes de sair...mas é claro que podia estar se confundindo. Por instinto olhou a gárgula e para sua surpresa ela não estava em seu pedestal! A gárgula não estava lá! Isabel confusa, se levantou e foi até a janela, apurou a visão, esfregou os olhos mas era verdade....a gárgula havia sumido. Isabel franziu o cenho...estranho, ela estava lá de manhã quando saiu para o trabalho, tinha certeza que estava. Vai ver que mandaram tirar, óbvio que ela não saiu de lá sozinha. Só por precaução fechou a janela. Não sabia o porquê mas não ver a gárgula a amedrontava mais do que vê-la. Foi se deitar.
Sonhou que tinha algo a observando pela janela e acordou no susto. Se levantou e foi apanhar um copo d'água na cozinha. Abriu a geladeira e caçou um litro que contivesse água gelada...não deu sorte, a geladeira não estava gelando direito. Bebeu e quando estava a meio caminho do quarto ouviu o som de asas batendo, o som parecia vir do quarto! Pegou uma faca e foi...ao entrar a primeira coisa que notou foi que não havia ninguém, a segunda foi a janela que estava novamente aberta. Foi até lá, segurando o cabo da faca com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos...decidiu que pela primeira vez em muito tempo iria abrir a porta que dava para a varanda de seu quarto, destrancou sem fazer som algum, o que era um verdadeiro milagre num apartamento em que até andar fazia a tábua corrida gemer de dor, espiou pela fresta da porta semi-aberta, aparentemente nada, avançou para a varanda e foi assaltada por uma chicotada de vento frio, sentiu todos os pelos de seu corpo se eriçarem, seu olhos fitaram de repente a parte da mureta que ficava de frente para a sua janela, estava amassada, como se fosse feita de massinha e algo pesado tivesse sido posto em cima, se aproximou para ver melhor, as marcas pareciam de pés de uma galinha que toma hormônios de cavalo...Seus olhos se elevaram como que atraídos para o alto do prédio vizinho...A gárgula estava de volta. Isabel correu de volta para dentro, trancou a porta, a janela e pela primeira vez em muito tempo, nem o cansaço do trabalho conseguiu fazer com que ela dormisse rápido.
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