A Guerreira da Deusa
7 06. Terra
Aghata, sentada em uma poltrona confortável na enorme varanda, observava o sol nascer lentamente no horizonte distante. Havia passado a noite em claro devido ao excesso de pensamentos, mas, de alguma forma, não estava cansada. Inspirou longamente e fechou os olhos, tentando colocar toda a bagunça mental em ordem com aquele simples gesto.
Não funcionou.
Estava tudo em completa e total desordem, principalmente seus sentimentos. Tanta coisa estava acontecendo em tão pouco tempo que ela sentia-se como se estivesse em um mar revolto, sendo atingida por uma onda após a outra, repetidamente. Sem tempo para recuperar-se. Sem tempo para alcançar a superfície. Afundando cada vez mais.
Ela estava sufocando com tudo aquilo.
Durga.
Missão.
Liberdade.
Kadam.
Dhiren.
E Kishan.
Sempre Kishan.
Os olhos dourados pareciam estar em todos os lugares e, mesmo quando dormia, não conseguia fugir deles — sonhando com o brilho dourado de tesouros lendários. Estavam sempre espreitando-a, mesmo quando ela os ignorava e fingia não vê-los. Mas, ainda assim, Aghata não era imune aos seus encantos.
Três semanas haviam se passado desde o encontro com Durga e, de alguma forma absurdamente surpreendente, Kishan havia conseguido derrubar todos os muros que havia erguido durante sua vida. Ele estava mais próximo do que qualquer um jamais esteve.
Ren havia se distanciado desde o incidente no carro e, depois daquilo, Aghata não fazia a mínima questão de tê-lo por perto. Se ele não compreendia seus motivos, não deveria ficar ao seu redor. Sendo assim, ela o evitava, permitindo a aproximação dele apenas quando estritamente necessário. E, exceto por alguns olhares levemente irritados, ele parecia não se importar com a distância que ela havia colocado.
Kadam permanecia a maior parte do tempo trancado em sua biblioteca, procurando quase desesperadamente uma forma de continuarem as buscas pelos presentes de Durga. Aghata sabia que deveria ajudá-lo, mas sua mente estava um completo e absoluto caos. Ela simplesmente não conseguia se concentrar em nada de forma satisfatória. Sendo assim, ela imaginou que seria melhor para Kadam trabalhar sozinho, afinal ela apenas o atrapalharia se tentasse se envolver.
Nilima se ocupou em manter as coisas funcionando como deveriam. A guerreira quase não havia encontrado-a nos dias que se passaram.
Soltou um suspiro frustrado e fechou os olhos, deixando que as primeiras luzes do sol radiante tocassem sua pele e iluminasse seus pensamentos, orando internamente por algum milagre que a salvasse de tudo aquilo.
Ela sempre soube que sua missão não seria fácil, mas Durga nunca tinha lhe dito que seria tão difícil.
Aghata precisava respirar.
Deixou seu quarto à passos rápidos e silenciosos, afinal estavam todos dormindo e ela não tinha planos de acordá-los. Alcançou o jardim, entrou na floresta e rumou para o lago que sabia existir ali perto.
=x=x=
Kishan, que dormia na varanda de seu quarto, acordou com o ruído inaudível dos passos de Aghata e riu internamente imaginando o quanto aquela garota subestimava tudo ao seu redor.
Ela agia como se fosse intocável. Como se não existisse algo no mundo que fosse capaz de subjugá-la. Como se fosse invencível e completamente invulnerável.
Estava na hora de ensinar algumas coisas à ela.
Da varanda, ele pôde ver o momento em que ela deixou a casa e adentrou a floresta. Sabia que aquela era a coisa mais estúpida e irresponsável que Aghata poderia ter feito e ficou imensamente grato por todos os sentidos apurados e instintos super desenvolvidos que o tigre lhe fornecia. O enorme tigre negro saltou do segundo andar, aterrissando no gramado macio com um baque surdo, então voltou os passos pesados e majestosos para o mesmo lugar por onde ela havia ido.
Não deixaria que Aghata vagasse pela floresta sozinha.
Que ela resmungasse, gritasse, ofendesse e o repreendesse.
Kishan conseguiria lidar com isso.
Entretanto, o tigre negro não conseguia nem mesmo cogitar a possibilidade de deixá-la sozinha em um ambiente perigoso.
Ele alcançou o lago, entretanto decidiu não se aproximar. Escondeu-se entre as árvores enquanto procurava por Aghata, limitando-se a observar o lugar de longe, para que ela não o visse. Então sentiu. O silêncio. O cheiro dela estava por toda parte, mas Kishan não a via em lugar algum. Aguçou todos os sentidos dos quais dispunha, porém nada poderia prepará-lo para o que aconteceu em seguida.
Aghata surgiu do nada — vinda de lugar nenhum — e saltou sobre ele.
Rolaram pelo gramado com as gargalhadas divertidas dela ecoando por todo o lugar e caíram no lago.
O rugido do tigre negro sacudiu as árvores ao redor.
—Você é muito rabugento! — Aghata riu usando os braços ágeis para jogar água no rosto dele
=x=x=
Deitado ao lado da poltrona de Kadam, Ren mantinha seu olhar fixo através da enorme janela, ignorando completamente o que acontecia ao seu redor. Sua mente conturbada estava concentrada em entender como Aghata e Kishan haviam se tornado tão íntimos de forma tão repentina.
Em sua mente, o príncipe dos olhos cobalto ainda conseguia ver claramente o momento em que os dois adentraram a casa totalmente molhados, naquela manhã — depois de um banho em um lago próximo.
A risada da guerreira parecia ecoar por todos os lugares, mesmo depois de horas.
Voltou seu olhar para observar os outros espalhados pela biblioteca.
—De acordo com minhas pesquisas, — Kadam folheava os livros e anotações sobre a mesa — os presentes de Durga são protegidos por guardiões. E, assim como os presentes, cada guardião tem ligação com um elemento natural.
Recolheu quatro folhas e se aproximou de um quadro branco, colando-as com fita adesiva — uma ao lado da outra. Cada folha exibia um desenho de um animal: um macaco, uma águia, um tubarão e uma ave em chamas.
—Eu ainda preciso investigar sobre água, fogo e ar, entretanto encontrei informações muito interessantes sobre terra. — usou uma régua comprida para indicar o macaco — Hanuman é um deus macaco que, de acordo com escrituras antigas, ficou em dívida com Durga. A deusa o salvou de seu cativeiro em Lanka, incendiando toda a cidade, e construiu Kishkindha para que ele pudesse reinar em segurança. — pegou um enorme livro e o abriu em uma página específica — Porém, ela lhe pediu algo em troca de tamanha generosidade. — exibiu o livro, onde um desenho de uma fruta não identificada dominava toda a página — Que ele protegesse o fruto proibido com a própria vida. Um macaco e um fruto. Ambos tem ligação com o elemento terra.
—Então o fruto proibido é um dos quatro presentes? — Aghata debruçou-se sobre a mesa, apoiando o rosto em uma das mãos
—É o que tudo indica. — confirmou — Sendo assim, podemos concluir que o fruto proibido está em Kishkindha.
—E onde fica Kishkindha? — a guerreira indagou
O tigre branco a observava com cuidado e atenção: a forma como seus lábios se moviam quando ela falava, o modo como seus cabelos caiam despretensiosamente sobre seus ombros e o brilho selvagem que havia em seus olhos verdes. Ela parecia ter sido esculpida delicadamente por algum artista perfeccionista e detalhista.
Aghata era bela e intensa demais para ser real.
—Existe uma grande polêmica sobre sua localização, mas o mais provável é que as ruínas de Hampi estejam sobre Kishkindha. Precisamente, o templo de Durga, que fica em algum lugar da cidade.
—Só descobriremos quando chegarmos lá. — a garota colocou-se em pé — Partiremos ao amanhecer.
—Eu ficarei. — Kadam fechou o livro e se colocou a organizar os inúmeros papéis — Preciso continuar pesquisando sobre os outros elementos.
—Tudo bem. — ela deixou seu olhar cair sobre os dois tigres — Nós três iremos conseguir.
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A guerreira acordou algumas horas antes do amanhecer e usou o tempo que possuía para organizar o que julgou ser necessário para a viagem. Não levaria muita coisa. Depois de um banho rápido, decidiu vestir uma calça cheia de bolsos e uma blusa com mangas longas que eram de um algodão cinza e confortável — ajustando-se à sua silhueta com precisão e libertando seus movimentos. Prendeu os cabelos em uma trança firme que lhe caia sobre o ombro esquerdo e colocou-se a escolher as armas que levaria consigo.
A katana espreitava sobre o ombro direito, duas adagas na base de suas costas, uma lâmina curta em sua bota esquerda, um punhal no quadril direito, duas lâminas longas em suas coxas e duas lâminas pequenas escondidas em seus pulsos.
Pegou a pequena mochila e rumou para a sala, onde a aguardavam.
Kadam estava sentado no enorme sofá, Nilima verificava os suprimentos que havia separado para a viagem e os dois tigres permaneciam deitados sobre o tapete felpudo.
—Vai levar só isso? — Nilima encarou a pequena mochila com curiosidade
—Não preciso de mais do que isso. — deu de ombros com descaso — Prontos?
Alcançaram a garagem rapidamente. Kadam colocou as mochilas enormes e pesadas no porta-malas do belo jeep enquanto os tigres se acomodaram no banco traseiro. Aghata ocupou o banco do motorista, agradecendo pelas aulas intensivas de direção com Kadam alguns dias antes, e abriu um mapa detalhado, colocando-o sobre o banco do passageiro.
Deixaram a casa depois de uma despedida rápida e alcançaram a estrada.
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Chegaram às ruínas de Hampi em poucos dias, entretanto Kishan já estava inquieto e impaciente.
Avançaram com o carro através de uma trilha que levava ao outro lado das colinas e o deixaram escondido entre as árvores, completando o restante do caminho à pé. Depois de algumas horas em silêncio, alcançaram os limites das ruínas.
—Esse lugar é enorme. — Aghata comentou vagamente — E há muitos guardas.
O tigre negro sabia que ela podia senti-los, em função do amuleto que carregava em seu pescoço, assim como ele conseguia farejá-los.
—Usarei o amuleto para criar distrações. — voltou seu olhar para eles — Precisamos ser rápidos.
Os dois assentiram e então avançaram.
Chegaram ao que um dia havia sido o templo de Durga, em poucos minutos.
Kishan lembrava-se daquele lugar e de sua riqueza. Os servos e soldados andando por todos os lados. Nobres passeando pelos jardins sem qualquer preocupação. Naquela época, Hampi parecia viva e, se olhasse com atenção, seria capaz de vê-la respirar. Aquele lugar exalava riqueza e conforto.
Era uma afronta que ele se encontrasse em tais condições.
Saqueado. Corrompido. Parcialmente destruído. Sujo.
Um rugido baixo e discreto atraiu sua atenção. Avançou rapidamente entre as ruínas e encontrou Ren sentado em frente a estátua de Ugra Narasimha. Ao se aproximar, Kishan percebeu o que ele olhava com tanta concentração. Na base da estátua havia um entalhe no formato de uma mão pequena com um coração desenhado em seu centro e, ao lado, escritas antigas e desconhecidas pareciam informar o que significava.
Mas nenhum dos dois tigres conseguia compreender.
Aghata aproximou-se à passos silenciosos e agachou-se ao lado deles, apoiando-se sobre um dos joelhos.
—"Através do sangue de Durga, o coração da deusa mostrará o caminho." — ela leu em um sussurro
Os tigres adotaram a forma humana.
—Onde aprendeu a ler hindi arcaico? — o tigre branco verbalizou a pergunta que os incomodava
—Aprendi muitas coisas no Santuário. — deu de ombros — Mas isso não importa agora. Precisamos abrir a entrada.
As mãos de Kishan e Ren eram grandes demais, porém a mão de Aghata encaixava com perfeição no entalhe. Entretanto, nada aconteceu. Nenhuma porta se abriu.
—Droga. — a guerreira resmungou — Eu sabia que deveria ter arrancado o coração dela quando tive a oportunidade. Teria seu sangue e seu coração para abrir.
—Você está sendo muito literal, Aghata. — Ren replicou — Não acho que seja o caso.
—Durga foi muito literal quando me acorrentou. — ela retorquiu torcendo o nariz levemente
—O que quer dizer? — Kishan indagou com alguma preocupação
—Não importa. — aproximou-se do entalhe, analisando-o cuidadosamente — Tem que haver uma forma de abrir isso.
E ali ela permaneceu.
Kishan e Ren voltaram à forma animal, tensionando não desperdiçar o pouco tempo que dispunham.
E ali ela permaneceu.
Os dois tigres andaram ao seu redor, farejando por qualquer invasor.
E ali ela permaneceu.
O tigre negro procurou entre as gravuras e entalhes espalhados pelas paredes, algo que pudesse ajudá-los.
E ali ela permaneceu.
O tigre branco sentou-se ao seu lado, colocando-se a observar o entalhe com a mesma intensidade que ela fazia.
E finalmente ela se moveu.
—Desgraçada. — a palavra deixou seus lábios com um suspiro cansado — Eu deveria saber.
Os dois voltaram olhares intrigados para ela quando a guerreira sacou o punhal que ficava em seu quadril direito.
—Durga. — sua mão esquerda fechou-se sobre a lâmina e escorregou abrindo um longo corte do qual o sangue verteu com abundância — Ela não perde uma oportunidade de me fazer sangrar.
Colocou a mão sobre o entalhe.
Como se ganhasse vida, a estátua deslizou alguns metros para trás e, sob ela, havia uma longa e escura escadaria.
—Sabe, eu realmente cheguei a acreditar que Durga me chamava de coração por ter alguma afeição por mim. — abriu um dos bolsos de sua pequena mochila, pegou um pequeno pedaço de pano macio e enfaixou a mão de qualquer jeito — Eu deveria saber que estava enganada. Durga só tem algum tipo de sentimento por Damon. Vamos?
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—Na escritura diz "através do sangue de Durga". — Ren comentou enquanto avançavam através da trilha
Quando deixaram o túnel de pedra, perceberam que ele ficava dentro de uma enorme montanha e, mesmo olhando para cima, era impossível ver o seu fim. A floresta era extensa e bela, alcançando os horizontes em qualquer direção que olhassem. O lugar era bem iluminado, como se possuísse algum tipo de luz própria, que emanava de tudo ao redor. Estava quente, mas uma brisa suave lhes acariciava a pele, aplacando a sensação térmica massante, tornando o ambiente agradável.
E no centro da bela floresta, à alguns quilômetros de distância, uma construção majestosa e imponente.
Sua aparência denunciava sua antiguidade.
Kishkindha.
—Sou a guerreira de Durga. — a garota respondeu — O sangue dela é meu sangue.
—Isso não é muito esclarecedor. — replicou — Como uma humana pode compartilhar do mesmo sangue que um deus?
—Pergunte à Durga. — ela devolveu — Talvez ela te responda, afinal você é um príncipe. Acredito que ela não vai ignorar você como ignora a mim.
Seguiram pela trilha iluminada e bem feita, vendo Kishkindha aumentar à medida que avançavam. Ela parecia maior e mais ameaçadora à cada passo.
—Estão em forma humana há mais tempo do que 24 minutos. — ela comentou com desinteresse, enquanto observava o lugar ao redor — Não estão sentindo nada de estranho?
—Não sinto nenhuma necessidade de voltar a ser tigre. — Kishan respondeu dando de ombros
—Tecnicamente, estamos no templo de Durga. — Ren observou — Ela disse que, em seus templos, tudo acontece como ela decide. Talvez isso também seja vontade dela.
—Faz sentido. — ela concordou
Alcançaram a enorme construção e, de alguma forma a iluminação do lugar parecia a mesma — como se em Kishkindha nunca anoitecesse. Ren voltou o olhar para cima, encarando o dossel iluminado. Talvez fosse algum tipo de céu. Talvez eles realmente estivessem em algum lugar entre o mundo deles e outro mundo.
As ruas estavam absurdamente vazias, assim como as pequenas casas ao longo do caminho. Entretanto, haviam inúmeras estátuas de macacos em tamanho natural espalhadas por todos os lados.
Rumaram para a construção principal, que ficava exatamente no centro da cidade. Uma espécie de cúpula gigantesca. Talvez fosse algum templo.
—Algum de vocês tem alguma ideia para o quê devemos nos preparar? — a guerreira perguntou parada diante da porta dupla enorme e pesada
—Você é a sabe tudo aqui. — Kishan sorriu passando por ela, empurrando as portas com facilidade
O rangido ecoou por todo o ambiente.
O lugar era um enorme salão redondo, com inúmeras colunas de sustentação espalhadas. Estranhamente, ele estava vazio. Sem mesas ou bancos ou qualquer tipo de móvel, mas haviam janelas espalhadas ao longo das paredes, permitindo que a luz iluminasse completamente.
—Um salão para comemorações? — Kishan sugeriu
—Não. — Aghata avançou até o centro do salão e encarou fixamente o estrado no outro extremo — Esta é a sala do trono.
Sobre o estrado descansava um trono ricamente adornado, intricado com jóias e pedras preciosas. E ele estava vazio.
—O fruto proibido. — Ren colocou-se ao seu lado e, com um movimento de seu queixo, indicou a mesa loga fixa na parede atrás do trono, sobre a qual estava uma única manga dourada que emanava um brilho único, como se fosse feita de ouro puro
Não havia nada além da fruta sobre a mesa.
—Ora, ora, ora. — uma voz suave preencheu o ambiente, assim como um odor pesado e característico — Finalmente você chegou. Eu já estava entediado.
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Vindo de algum lugar do teto alto e abobadado, a criatura saltou — aterrissando precisamente à frente dela. Mesmo pega de surpresa, Aghata não se moveu. Como guerreira, jamais permitiria ser intimidada.
Observou com cuidado e em silêncio.
A criatura à sua frente exibia o rosto de um babuíno, com olhos escuros e pelos mesclados; o corpo, humano, era bem definido, com músculos enorme e rígidos — demonstrando o guerreiro que era; as mãos e pés eram algo entre o humano e o macaco — e Aghata soube que ambos lhe permitiriam saltar e se pendurar por aí, exatamente como o animal. Ele usava uma saia tufada — uma vestimenta estranhamente egípcia — e tinha diversas jóias valiosas e preciosas espalhadas ao longo do corpo, sem qualquer padrão.
—Hanuman. — seu corpo enrijeceu ao constatar o óbvio
Ela esperava muitas coisas quando chegou a Kishkindha.
Encontrar o rei macaco não estava entre elas.
—Seus olhos. — a criatura aproximou-se perigosamente e ela sentiu o hálito pesado contra seu rosto — Porque são verdes?
—Hum? — inclinou a cabeça levemente, surpresa pela pergunta repentina e sem sentido
—Seus olhos. — repetiu lentamente, como se ela tivesse algum tipo de retardo mental — Cor errada.
—Cor errada? — indagou novamente tentando compreender a linha de raciocínio de Hanuman
—Também não é tão bonita. — afastou-se dois passos, avaliando-a por completo
—Desculpe, mas o que exatamente está insinuando? — mordeu a língua, contendo os inúmeros insultos que ansiavam por deixar seus lábios
—Ao que parece, também não é muito inteligente. — coçou o queixo e em seguida fez um gesto displicente com as mãos — Ah, esqueça! — lhe deu as costas, dirigindo-se ao estrado com uma postura elegante — O que querem aqui?
—Viemos em nome de Durga. — Ren se adiantou
—Perguntei o que querem, não quero saber quem os mandou. — a criatura retrucou, sentando-se no enorme trono de forma ereta
—O fruto proibido. — Kishan tocou o ombro do irmão ao perceber a irritação o dominar diante da resposta grosseira — Durga nos mandou buscá-lo.
—Ela disse que viria pessoalmente. — os dedos estranhos tamborilavam sobre o trono
—Ela é uma deusa. — Aghata replicou — Tem coisas mais importantes para fazer, então nos mandou. Seria gentil de sua parte colaborar.
—Infelizmente não posso. — Hanuman respondeu — Prometi que entregaria o fruto apenas à ela. E ela não está aqui.
—Nó-
—Entretanto, — ele a interrompeu, olhando-a de cima, com superioridade — sinto o cheiro dela em você. Isso significa que dizem a verdade. Realmente vieram em nome de Durga. — juntou as mãos sob o queixo — Sendo assim, estou disposto à lhes dar uma chance.
—Agradeceríamos se falasse com clareza. — Kishan apurou todos os sentidos que dispunha, preparando-se para o que quer que acontecesse
—Um sacrifício pelo fruto. — esclareceu com um sorriso — Justo, não?
—E de que tipo de sacrifício estamos falando? — Aghata perguntou com cuidado
—Ah, nada muito radical. — balançou as mãos em um gesto displicente e riu com algum humor — Não se preocupe, criança! Não haverá sangue ou morte. Eu apenas escolherei um de vocês e decidirei se é digno. Se o escolhido for digno, vocês poderão levar o fruto. Se o escolhido não for, vocês deverão deixar meu reino de mãos vazias.
—Sua decisão será baseada em quê? — a garota tornou a perguntar
—Em tudo o que o escolhido viveu até agora. — deu de ombros
Houve uma troca de olhar entre os três, carregada de significados. Mas Aghata sabia que não existia outro jeito.
Seis sacrifícios.
As palavras de Durga pareciam vivas em sua mente.
Cinco sacrifícios deverão ser feitos por você, minha guerreira. Não há outro modo.
—Feito. — a voz macia e delicada ecoou pelo ambiente
Ren e Kishan lançaram-lhe olhares preocupados.
Aquilo era perigoso.
Mas era necessário.
—Excelente! — Hanuman sorriu de forma radiante — Bem, eu prometi que entregaria o fruto à Durga, mas como ela não está aqui, acredito que sua guerreira deve representá-la.
—Porque não escolhe um de nós dois? — Kishan sugeriu repentinamente
—Porque eu deveria escolher um de vocês quando a própria Durga não o fez? — Hanuman retrucou de forma sarcástica, lançando-lhe um olhar desdenhoso — Ah, entendi. Você não acredita que a garota seja digna. — riu com desaforo — Sabe, menina. — voltou seu olhar para a guerreira — No seu lugar, eu escolheria melhor os aliados. Não é sábio viajar com aqueles que não confiam em você.
—Como guerreira de Durga e representante da deusa, — Aghata pronunciou, ignorando as provocações — eu aceito.
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Ela era digna.
Kishan sabia disso.
Mas, por algum motivo, ele tinha certeza que aquilo não seria tão simples quanto Hanuman deu a entender. Desde que conhecera Aghata e Durga, o tigre negro percebeu que não deveria confiar em deuses.
Eles sempre estavam escondendo alguma coisa.
—Certo, guerreira. — o humanoide abriu os abraços — Se aproxime.
E Aghata se aproximou. Colocou-se no centro do enorme salão, em frente ao trono. Dos pilares que ficavam ao fundo do salão, surgiram corretes grossas que se enrolaram nas pernas e braços dos príncipes, os prendendo.
—Hey! — Ren bradou — Isso não estava no acordo!
Os dois forçaram as correntes, mas, de alguma forma, elas simplesmente não cederam.
—Desculpe, não quero intromissões. — Hanuman lhes sorriu com ironia — Sinto o fedor de Damon em vocês e aquele maldito tem um costume terrível de se intrometer em tudo o que diz respeito à Durga. Que garantias eu tenho de que não tentarão fazer o mesmo?
—Não tem esse direito! — Kishan rosnou
—Prometa. — a voz de Aghata cortou a tensão com a frieza característica — Me dê sua palavra que, independente do que aconteça nessa sala, os dois não serão machucados.
—Preocupa-se com eles e deixa de lado sua própria integridade. — a criatura a observou com curiosidade — Entendo porque Durga escolheu você. — assentiu levemente — Certo, tudo bem. Eu prometo. Independente do que acontecer aqui, não tocarei e nem permitirei que os dois sejam machucados. Tem a minha palavra, guerreira.
—Obrigada. — inclinou a cabeça levemente em uma pequena reverência
=x=x=
—Você teve uma vida bem interessante.
Ren percebeu a garota enrijecer diante das palavras da criatura. Ela estava tão tensa quanto ele e Kishan.
Aquilo era um absurdo!
—Entretanto, vamos avaliar seus feitos dignos. — inclinou-se, apoiando o rosto em uma das mãos — Se você tiver algum.
Areia entrou através das janelas abertas e, como se tivesse vida própria, dançou ao redor deles, formando figuras que aos poucos se tornaram compreensíveis.
—Seu treinamento foi muito... — parou procurando por uma palavra que julgasse adequada — Intenso. Quando encontrar Heram, diga à ele que o Grande Rei Macaco aprova seus métodos.
E riu.
A criatura riu e Ren podia jurar ter escutado Aghata trincar os dentes.
—Enfim. — com um mover de suas mãos as areias se acalmaram e assentaram formando duas silhuetas arenosas, sem feições: uma figura pequena e esguia enquanto a outra ultrapassava facilmente dois metros de altura e absurdamente musculosa — Enquanto vivia no Santuário, você precisou enfrentar aquele que chamavam de Minotauro. Um saqueador e assassino impiedoso que aterrorizava os vilarejos e cidades pequenas. — as duas silhuetas começaram a movimentar no que pareceu uma luta e o tigre branco entendeu que aquilo era uma representação do que já havia acontecido: a figura pequena era Aghata e a outra era seu inimigo — E foi subjugada.
A silhueta monstruosa segurou a pequena pelo pescoço e pelas pernas, erguendo-a sobre a cabeça. Ele fazia força para quebrá-la ao meio, entretanto a pequena silhueta ainda resistia com bravura.
—E eu o venci. — ela respondeu simplesmente, limitando-se a assistir o que acontecia diante de seus olhos
A pequena silhueta usou uma das mãos para apertar um ponto específico no pescoço arenoso do maior — que a soltou imediatamente. Ela rolou pelo chão e se colocou em pé com dificuldade. A figura monstruosa avançou sobre a pequena com fúria, ela abaixou-se deslizando por entre as pernas dele. Levou as mãos à base das costas e sacou o que se mostrou duas adagas. Então saltou sobre as costas do maior, cravou as duas lâminas em seu pescoço e, com alguma dificuldade, as torceu separando a cabeça do corpo. A cabeça que rolou até os pés dos príncipes.
Então, as figuras se desmancharam.
—Você precisou enfrentar um invasor. — Hanuman prosseguiu indiferente — Ele matou metade de seus irmãos antes de ser descoberto. — duas figuras tornaram a se formar e Ren identificou a que representava Aghata facilmente, enquanto a outra era baixa, gordinha e ágil — Esse invasor também a subjugou.
As duas silhuetas arenosas se enfrentavam com intensidade. Usavam lâminas. Então, em um golpe rápido, a figura gordinha arrancou as lâminas das mãos da silhueta que representava Aghata. Em um movimento preciso, colocou-se atrás da silhueta da guerreira e deslizou uma das lâminas por suas pernas. A silhueta que a representava caiu de joelhos. A gordinha fincou as duas lâminas na cintura da guerreira e a figura arenosa de Aghata arqueou o corpo e inclinou a cabeça para trás, soltando um grito agonizante — que ecoou por todo o salão.
—E eu também o venci. — ela se limitou a responder
Em um movimento inesperado, sua silhueta arenosa segurou a figura gordinha e a puxou por sobre seus ombros — derrubando-a em sua frente. Então puxou as duas lâminas que estavam enterradas em sua cintura — fincando-as no pescoço do outro.
E as figuras se desmancharam.
—E, é claro, eu não poderia esquecer de quando foi pega em uma armadilha completamente estúpida e cercada por seus inimigos. — a criatura se pronunciou novamente, ignorando suas palavras — Ficou vulnerável e foi subjugada outra vez.
A areia criou vida novamente e à frente deles surgiu a silhueta arenosa de Aghata, suspensa pelos pés entre outras quinze silhuetas enormes e intimidantes.
—E eu os venci outra vez. — falou com segurança
Em um movimento ágil, a figura de areia que a representava se impulsionou para cima e — sacando uma pequena lâmina de seu pulso — cortou a corda que a mantinha suspensa, atingindo o chão com um baque surdo e dolorido.
Colocou-se em pé e, com precisão, lançou a pequena lâmina no pescoço de uma das outras silhuetas — que caiu de joelhos no mesmo instante. O que se seguiu foi uma bagunça de golpes e silhuetas se desfazendo em pó. Ao final, apenas a silhueta que representava Aghata permaneceu em pé, com uma espada em punho. Ela apertava o braço com força, como se tentasse estancar algum sangramento, e caminhava com dificuldade.
Então ela também se desmanchou.
—Devo declarar, em minha defesa, que eu me deixei ser presa naquela armadilha completamente estúpida. — ela empinou o nariz levemente com uma arrogância típica de sua personalidade — Heram me deu dois dias para eliminar os inimigos e eu estava com preguiça de caçá-los um de cada vez. — deu de ombros — Como pôde ver, minha tática foi rápida e eficiente.
—E irresponsável. — Hanuman completou com descaso — De qualquer forma, eu já tenho a sentença.
A tensão que dominou o ambiente era palpável.
O tigre branco podia senti-la.
E então a tensão se tornou fúria quando as palavras finalmente vieram.
—Lamento, jovem guerreira. — sorriu com deboche — Você foi considerada indigna. O fruto permanece aqui. Vocês devem partir imediatamente pa-
As palavras de Hanuman foram interrompidas pela adaga que se enterrou no trono, poucos centímetros de seu rosto.
—O que pensa que está fazendo, criança tola? — ele proferiu por entre os dentes em um assovio irritado
—Desde que Durga me escolheu como sua guerreira, eu enfrentei muita coisa. — ela caminhava com passos fluidos e graciosos em direção ao trono, sua expressão era sombria e perigosa — Derrotei inimigos mais cruéis do os citados aqui e sobrevivi à mais perigos que você é capaz de imaginar. Eu fiz coisas importantes. Eu sou importante. — sibilou — Ser guerreira de Durga já me torna digna. — subiu no estrado e se inclinou sobre o trono, puxando a adaga com um movimento suave — Deveria saber disso, macaco imundo. Sua opinião sobre mim, não muda quem eu sou.
—Profana! — ele bradou colocando-se em pé
Com um único movimento, o humanoide a laçou para o outro lado do salão. Aghata atingiu um dos pilares e caiu no chão.
—Aghata! — Kishan e Ren forçaram as correntes outras vez, mas elas simplesmente não cederam
Tornaram-se tigres, mas, ainda assim, nada mudou. Rugidos preencheram o salão enquanto eles lutavam violentamente contra as correntes que os prendiam.
—Como se atreve? Eu exijo respeito! — Hanuman gritou deixando o estrado com passos pesados
—Eu exijo respeito. Estou aqui em nome de Durga. A deusa que fez de você o rei imundo que é!— a guerreira retrucou colocando-se em pé — Você me afrontou desde o momento em que passei pela porta. — prosseguiu adotando uma postura de defesa — Eu escolhi minhas palavras com cuidado, Hanuman. Você deveria ter feito o mesmo.
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Ela sentia o mundo ao redor com uma precisão incrível.
Aghata podia sentir os dois tigres lutando contra as correntes. Podia sentir a fúria ao redor do rei macaco. Podia sentir a brisa suave que dominava Kishkindha. Podia sentir a terra sob seus pés. Podia sentir o calor emanando das paredes ao redor.
E ela não sentiu medo.
Ela sentiu adrenalina dominar cada partícula de seu corpo.
Avançou permitindo-se dominar pela sensação.
Hanuman empunhava uma espada longa e pesada, que segurava com as duas mãos. O primeiro golpe veio de cima. A guerreira o bloqueou com a lâmina longa e, em um giro ágil, levou uma adaga de encontro à barriga do humanoide — abrindo um longo e profundo corte. Afastou-se em seguida, assistindo o sangue dourado verter com certa satisfação.
—Maldita!
Ele bradou.
Ela riu.
—Acredita mesmo que pode me vencer? — a criatura fixou nela os olhos injetados pela fúria
—Estou disposta à descobrir.
Ele guinchou e saltou com a espada erguida em um ataque firme e devastador. Aghata sacou a pequena adaga de seu pulso e lançou nas mãos de Hanuman — a dor aguda o obrigou a soltar a espada. A guerreira usou o amuleto para impulsionar seu salto e alcançou a espada enorme e pesada, empunhando-a com as duas mãos. Ainda no ar, seu pé encontrou o rosto da criatura, forçando para baixo. Hanuman atingiu o chão de bruços e Aghata pousou sobre suas costas, usando o impulso para enterrar a espada longa e ornamentada em sua espinha.
O rei gritou.
Ele tentou se levantar, entretanto percebeu que a espada havia o atravessado, prendendo-o ao chão — tamanha a força que a guerreira usou. Percebeu que Aghata usava a magia do amuleto para segurar a espada na terra.
—Eu venci. — ela riu — Espero que possa conviver com isso, Grande Rei Macaco. — completou, sua voz transbordando sarcasmo
—Você..! — o humanoide se debatia furiosamente, tentando soltar-se a qualquer custo — Como pode? Não é ela! Você não é ela! Não tem força para isso! Não pode!
Aghata voltou os passos para o estrado e pegou o fruto. Surpreendentemente era uma manga normal — exceto pelo brilho dourado que emanava. Sua textura era exatamente como a da fruta convencional. Com extremo cuidado, ela envolveu o fruto em uma toalha felpuda e macia, guardando-a dentro de sua mochila.
Pendurou a mochila sobre um dos ombros, ignorando os protestos irritados de Hanuman, e aproximou-se dos tigres. Argila envolveu as correntes, endureceu e se partiu, libertando-os. Os dois adotaram a forma humana.
—Aghata! — Kishan se adiantou, envolvendo-a em seus braços
—Eu estou bem. — afastou-se dele com gentileza e urgência — Precisamos sair daqui agora.
=x=x=
As inúmeras estátuas de macacos ganhavam vida conforme os três avançavam. Kishan sabia que estavam atrás deles. Na verdade, estavam atrás do fruto que eles carregavam.
Entretanto, os macacos atacavam apenas Aghata, mantendo distância dos dois príncipes, e ele deduziu que isso estivesse acontecendo em função da promessa que Hanuman havia feito. Os tigres flanqueavam a guerreira, tensionando protegê-la dos ataques insistentes, mas não conseguiam protegê-la totalmente.
Então, ao atingirem os limites da enorme floresta, a guerreira parou subitamente e entregou a mochila ao tigre negro.
—O fruto está dentro da mochila. — sacou as duas adagas — Continuem e não parem por nada. Encontrarei vocês na saída.
—Não vou à lugar nenhum sem você. — os olhos dourados faiscaram — Não vou deixá-la para trás.
—Os macacos não vão machucá-los. Hanuman fez uma promessa. — ela replicou — Precisam manter o fruto à salvo.
—Não importa. — o tigre branco colocou-se ao lado do irmão — Viemos juntos e voltaremos juntos. Sua vida vale mais do que essa missão.
Os gritos dos macacos estavam por toda a parte, denunciando sua aproximação.
—Não há tempo para discussões estúpidas. — lhes deu as costas — Precisam tirar o fruto daqui.
O tigre negro segurou seu pulso e puxou-a para si, envolvendo-a em seus braços com firmeza, sustentando seu olhar.
—Tem duas opções: virá conosco até a saída de boa vontade ou eu a carregarei por todo a caminho.
As palavras de Kishan soaram sérias e ele viu nos olhos da guerreira que ela entendeu — o tigre negro não estava blefando. Resignada, ela assentiu, guardou as adagas e se colocou a correr, acompanhando-os. A garota usou o amuleto para atrasar os macacos, mesmo assim alguns os alcançaram e certos embates foram inevitáveis. Aquelas criaturas possuíam garras afiadas.
Alcançaram a saída rapidamente — muito mais rápido do que o caminho inverso, quando rumavam em direção à Kishkindha. Subiram as escadas deixando para trás os guinchos estridentes e os gritos desesperados dos inúmeros macacos.
Os três poderiam jurar ter escutado os gritos indignados de Hanuman.
Haviam conseguido.
—Precisamos ver Durga. — Aghata soltou um suspiro baixo observando a estátua deslizar e fechar a abertura para a cidade perdida
—Tem uma estátua dela, na sala ao lado. — Ren comentou indicando com um movimento de sua cabeça
Estavam no templo da deusa, logicamente haviam estátuas dela por toda a parte. Mas o que incomodava Kishan era o insistente odor do sangue de Aghata que parecia dominar tudo ao redor.
—Está machucada? — o tigre negro se colocou ao lado da guerreira, observando com cuidado e atenção
—Estou bem. — ela respondeu simplesmente
—Sinto o cheiro de seu sangue. — ele replicou
—E está bem forte. — o tigre branco acrescentou
A guerreira não respondeu. Apenas ergueu a mão cortada e enfaixada a exibindo em um dar de ombros — dando a entender que aquele era o responsável.
O tigre negro não acreditou e viu igual desconfiança nos olhos de seu irmão.
Alcançaram a estátua de Durga e ela depositou a katana aos seus pés. Pegou um pequeno sino que se encontrava ao lado, o tocou e então a katana foi envolvida pelas chamas enquanto a deusa e Damon ganhavam vida diante de seus olhos.
—Meus príncipes. Minha guerreira. — ela sorriu radiante — Vocês conseguiram.
—Não graças à você. — a garota retrucou friamente — Disse a Hanuman que buscaria o fruto pessoalmente. Ele não ficou feliz quando eu apareci em seu lugar.
—Detalhes. — fez um gesto displicente com uma das mãos enquanto outra acariciava os pelos macios e reluzentes de Damon — Ele irá superar essa decepção.
—Entretanto, eu duvido que ele supere a humilhação de ser derrotado por uma mortal. — Kishan lançou um sorriso discreto de orgulho na direção da guerreira
—Certo, certo. — as mãos de Durga se agitaram ao seu redor — Vocês trouxeram o primeiro presente e merecem recompensas. A partir de agora, poderão assumir a forma humana durante seis horas por dia.
Silêncio.
Ren e Kishan estavam atordoados o suficiente para não conseguirem formular algo adequado. Durga se limitava a contemplar a alegria genuína nas feições nos príncipes. Aghata manteve-se quieta — ela não queria estragar aquele momento precioso para os dois com algum comentário inadequado.
—Seis horas? — Ren balbuciou incerto
—E isso não é tudo. — seus braços se agitaram ao redor, exibindo diversas armas e ela escolheu a gada — Isso é para você, meu príncipe de marfim. — a deusa estendeu a arma para o tigre branco que a pegou, fazendo uma reverência de agradecimento em seguida. — E isso é para você, meu príncipe de ébano. — estendeu o disco para Kishan e o tigre negro espelhou a atitude do irmão
Então Durga se voltou para Aghata.
—Aproxime-se, minha guerreira. — a deusa lhe estendeu a mão e sorriu gentil — Tenho algo para você.
O tigre negro observou-a avançar cautelosamente.
A bela deusa analisou as inúmeras armas com atenção e então pegou um arco e uma aljava abarrotada de flechas. Entregou-as à Aghata. A garota limitou-se a receber o presente. Sem reverência. Sem agradecimento. Sem nada.
—Estou tão orgulhosa, Coração. — Durga tocou o rosto dela com cuidado — Mas devo lhe pedir que seja mais cuidadosa.
Os olhos da guerreira se estreitaram.
—Eu sou cuidadosa. — replicou friamente, limitando-se nas palavras
—Deve prezar por sua integridade também, Coração. — a deusa tornou a falar — Sua vida é tão importante quanto as vidas dos tigres. De nada adianta você salvá-los e morrer.
Houve uma troca de olhar intensa entre as duas, que os príncipes não compreenderam. Então a deusa voltou à sua posição sobre o altar com Damon enroscado aos seus pés.
—Eu não sou o monstro que pareço, Aghata. — Durga lhe lançou um sorriso triste — Um dia entenderá tudo o que fiz. Um dia entenderá que, caso estivesse em meu lugar, teria feito o mesmo.
—Eu jamais machucaria inocentes, como você faz. — proferiu em resposta — Independente das circunstâncias ou consequências.
A enorme e suntuosa estátua tomou o lugar de Durga e o fogo que envolvia a katana se extinguiu. A guerreira se aproximou do altar e embainhou sua espada. Seu olhar se demorou sobre a estátua de Durga.
Então suas mãos se apoiaram sobre o altar e ela curvou-se para frente, com os olhos apertados. Um gemido inaudível escapou por entre seus lábios.
Kishan adiantou-se ao seu lado, tomado pela preocupação — o tigre branco em seu encalço.
—Aghata! — segurou o rosto dela entre suas mãos firmes e obrigou-a olhá-lo nos olhos — O que houve?
Ela não respondeu, encolhendo-se levemente.
Os olhos dourados estudaram o rosto dela e então se colocaram a avaliar seu corpo. Foi quando ele viu. A blusa dela exibia uma pequena mancha de sangue, na altura da barriga. O tigre negro, mesmo sob os protestos da garota, levantou sua blusa levemente. Havia um longo e profundo corte que exibia sinais de envenenamento avançado — que ele deduziu ser obra de algum dos inúmeros macacos que os haviam seguido durante a fuga de Kishkindha.
—Merda. — Ren resmungou ao seu lado — Isso está horrível.
—Pegue a mochila e a chave do carro. — Kishan pegou a garota no colo e encarou o irmão — Estarei bem atrás de você.
E, em algum momento entre Hampi e o carro, a guerreira desmaiou nos braços do tigre negro.
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