A Guerra do Alvorecer

27 Nenhum lugar é seguro


A luta foi tão intensa que eu havia me esquecido de tudo que acontecia em volta. Depois que Jude se levantou praticamente cem por cento curado minha atenção se expandiu. Centenas de semideuses falavam alto, comentavam e tentavam recriar suas partes favoritas da luta. Martinato voltou para perto de nós e agora estava discutindo com Dan sobre a luta, assim como todo o resto do acampamento.

— Re, você tem certeza que vai participar disso? — Perguntou Agatha. Ao seu lado Bianca sustentou a preocupação da filha de Atena.

— Porque você está preocupada só comigo e não está com os outros dois? — Rebati a pergunta realmente muito curioso pela resposta.

— Olhe para eles. — Falou Agatha, e todos olhamos: eles estavam inquietos e seus olhos brilhavam de ansiedade. — Não há no mundo argumentos que eu possa usar para fazer que eles desistam. — Ela estava certa — Mas com você é o contrário, você é sensato e por mais que eu saiba que você tem capacidade de derrotar qualquer um aqui, você pode sair machucado de verdade e acabar atrasando nossa missão. — Ela estava certa novamente.

Parei um momento para pensar sobre isso.

The next fight is between Gabriel, son of Poseidon, one of our guests. And Mike, son of Hades. (A próxima luta é entre Gabriel, um de nossos convidados e Mike, filho de Hades.) — Anunciou Jude e meu coração falhou uma batida. De repente minhas pernas começaram a me levar em direção ao centro da roda. O conselho de Agatha se repetia na minha cabeça mas meu corpo estava trabalhando por conta própria. De canto de olho eu vi Dan e Marti gritando coisas que eu não conseguia entender, mas também eu não me esforçava.

Me lembrei dos meus campeonatos de Judô e Kung-fu quando o juiz chamava meu nome e eu sentia que o mundo desaparecia e tudo que existia era eu, o tatame e meu oponente.

Por um momento eu pensei que meu oponente foi escolhido a dedo no necrotério municipal de Nova Iorque. O garoto era um pouco mais baixo que eu, magérrimo, cabelos pretos que cobriam seus olhos, tão pálido que eu podia jurar que ele era cinza. Ele desembainhou sua lâmina negra de mais ou menos sessenta centímetros e eu não conseguia mais enxergar nenhuma arma com ele.

Jude falava alguma coisa que devia ser as regras e recomendações da luta, mas eu não conseguia focar, eu só queria que a luta começasse. Minha mão segurou na empunhadura de Storm e eu pude senti-la pulsando ao mesmo tempo que um arrepio subiu pelo meu corpo alertando e aguçando todos meus sentidos.

— You may start. (Podem começar.) — Anunciou o filho de Zeus.

Dei o primeiro passo em direção ao meu oponente com o objetivo de tocarmos nossas espadas, mas percebi que Mike estava correndo, e correndo bem rápido. Me preparei para o ataque, levantei storm na altura do meu rosto. Em seguida a lâmina do filho de Hades encontrou na minha. Faíscas saltaram e eu pude olhar nos olhos dele. Eram negros e inexpressivos, mas um meio sorriso estava estampado no seu rosto. Aquilo não era um golpe e sim o tocar de espadas no estile próprio dele. Ao mesmo tempo nós dois empurramos nossas armas e saltamos para trás.

Imóveis nos encaramos por alguns momentos até ele avançar novamente. Eu não iria dar saltos olímpicos e atacar de lugares no ar como Jude, esse não era meu estilo. Defendi o primeiro golpe dele com meus escudo, rapidamente ele atacou novamente mas eu defendi com storm. E nesse jogo de ataque e defesa ficamos por alguns segundos. Ali eu pude fazer algo que não é muito comum de eu fazer: me exibir. E Mike parecia estar fazendo o mesmo, ou melhor, ele estava se divertindo. Até que eu cansei, eu poderia acabar com ele ali mesmo. Nossas armas se encontraram novamente, mas dessa vez eu deslizei storm pela arma dele e girei meu punho com força e fiz a espada negra voar das mãos do filho de Hades. O garoto ficou parado. Era minha chance. Girei storm para a parte chata e mirei no rosto do garoto.

Não sei o que aconteceu mas antes que meu golpe fosse concluído eu senti uma dor muito forte no meu peito no lado esquerdo. Minha respiração se tornou quase impossível e eu sentia um medo inexplicável. Larguei minha espada e levei minha mão direita ao meu coração. A dor me deixou de joelhos. Ao nosso redor as pessoas não entendiam nada do que acontecia e permaneciam paralisadas. Eu não conseguia pensar tamanha era a dor.

De algum lugar uma pancada acertou meu rosto e me lançou de costas no chão e fez meu escudo voar para longe. Senti o sangue descer pelo meu nariz e uma parte da minha consciência se distraiu com a dor que eu sentia no rosto e fez a dor no peito diminuir ou receber menos atenção. Mike estava parado olhando para mim. ERA ELE.

Algo gritava na minha cabeça que era ele que estava fazendo eu sentir aquela dor. Mas eu sabia que ninguém pararia aquela luta então eu devia fazer algo. Recebi um chute nas costelas. A dor foi insuportável mas de algum modo fez a dor no peito e o medo diminuir. Fechei os olhos e me concentrei. A dor no peito diminuía assim como o medo, e a respiração normalizava. Mike deve ter percebido que o que quer que ele estivesse fazendo comigo estava perdendo o efeito, então ele começou a me chutar mais rápido e forte. Recebi em torno de dez chutes. Jude estava esperando que eu me rendesse e Agatha estava pronta pra interromper a luta.

No décimo primeiro chute, eu segurei o pé do garoto. Como toda a força que eu tinha eu puxei Mike pelo pé e o lancei no chão. Me levantei com um pulo. Ele já estava em pé empunhando sua espada. Storm estava ao meu lado. Me lembrei das aulas no Kung-fu com o professor Gê, das aulas no Judô com a sensei Tisa, o tanto que eu apanhei, mas o quanto eu fiquei forte. Decidi por testar o que eu ainda podia fazer apenas com meus braços e minhas pernas.

Levantei a guarda e aguardei meu oponente que logo avançou. Seu primeiro golpe mirava minhas costelas, ele fez um corte na horizontal. Mas tudo que ele acertou foi o ar. Virei a ponte para trás e já voltei o atacando. Ele desviou do meu primeiro soco e tentou me socar de volta. Foi esquivando de seu soco que eu percebi que ele era péssimo com os punhos. Então resolvi me divertir um pouco.

Comecei atacá-lo rapidamente. Socos, chutes, cotovelas, joelhadas uma atrás da outra e ele mal conseguia me atacar com sua espada. Seu rosto já estava todo inchado quando ele me atacou com sua espada de cima para baixo. Grudando meu corpo no dele e saindo do caminho da espada consegui encaixar um golpe perfeito de Judô e o lancei ao chão. Ali eu havia usado bastante força e quando ele atingiu o chão eu percebi que ele perdeu o ar. Mesmo assim ele tentou se levantar, mas a luta havia acabado. Pulei e girei ao mesmo tempo e acertei o rosto do garoto com o chute mais forte que eu conseguiria dar. Ele voou alguns metros para trás e caiu no chão desacordado e com o nariz sangrando e torto assim como ele deixou o meu.

— The winner is Gabriel. (O ganhador é Gabriel.) — Anunciou Jude levantando meu braço esquerdo. Acho que ninguém esperava que eu venceria o filho de Hades, todos ali estavam com a boca aberta. Apenas Dan e Marti gritavam e chingavam a família de Mike inteira, sorte que em português. Agatha estava com um olhar de "eu te avisei" e Bianca parecia que ia chorar.

Peguei storm e meu escudo com centenas de olhares me seguindo. Quando cheguei perto dos meus amigos fui surpreendido por um tapa da cara de Bianca. Ela virou as costas e saiu correndo. Agatha foi atrás dela. Por um tempo parecia que Marti e Dan tinham apanhado na cara também, mas logo voltaram sua atenção e me abraçaram ao mesmo tempo gritando e pulando.

— Esse viado luta de verdade! — Gritou Dan.

— Se vocês perdesse eu ia te surrar, seu gordo. — Gritou Marti do outro lado.

Quando os dois finalmente me largaram Marti foi o primeiro a fazer a pergunta que eu já esperava:

— Mas o que foi aquilo que aconteceu? Porque você estava com a mão no peito e não conseguia respirar?

— Eu tenho certeza que era algum dos poderes dele. Não sei como, mas sei. — Respondi — Eu estava sentindo um medo desesperador também.

— Mas o que você fez para parar? Não é contra as regras usar esse tipo de poder? — Perguntou Dan.

— Por mais estranho que pareça, os golpes dele estavam diminuindo a dor e o medo. Mas precisei me concentrar enquanto apanhava para voltar completamente. E sim, é contra as regras, mas não falarei nada para Jude. Vou resolver isso do meu jeito mais tarde. — Falei.

— Enfim... O importante é que você deu uma surra naquele zumbi. — Falou Dan voltando com sua animação.

— Senta ai no chão pra eu olhar esse nariz e essas costelas. — Mandou Marti.

Agora que ele falou que eu senti a dor. Minhas costelas davam pontadas no lado direito e meu nariz doia pra caralho.

Eu não fazia ideia de como aquelas lutas haviam sido escolhidas. Mas se Jude colocou o mais fraco pra me enfrentar primeiro... O próximo eu precisaria de muito cuidado, pois não vou confiar na honestidade de mais ninguém aqui.

Enquanto Marti cuidava dos meus ferimentos eu me perguntava o que havia acontecido para Bianca ter me dado aquele tapa. Muitas coisas passavam pela minha cabeça, mas nada fazia sentido, então resolvi voltar minha atenção para o campeonato, pois Jude estava prestes a anunciar a próxima luta.

— The third fight is between other of our guests, Danilo, son of Poseidon. And Alyssa, daughter of Atena.- Anunciou Jude. Não vou negar que fiquei receoso pelo Dan. Eu não queria ter que lutar com uma filha de Atena.

Depois de ter seu nome chamado, Dan praticamente correu para o centro da roda. Inquieto ele balançava sua lança e golpeava o ar como se estivesse se preparando para a guerra. Sua oponente saiu do meio da multidão. Ela tinha cabelos castanhos e cacheados presos num rabo de cavalo. Sua pele era branca, olhar intimidador e um corpo lindo. Sua armadura brilhava tanto que eu pensei que uma de suas estratégias era cegar o oponente. Ela estava armada com uma espada curta e um escudo pequeno. Na sua cintura havia duas adagas.

Jude permitiu que a luta começasse. Dan se movimentava com a postura curvada se fechando com seu escudo e sua lança a frente. Já Alyssa andava em círculos com a guarda baixa e a postura ereta, mas seus olhos se moviam rapidamente na direção de Dan. Ele precisava atacar. Eu tinha a forte impressão que essa garota já havia planejado toda a luta e como ela venceria seu oponente.

Subitamente ela parou de se mover e de estudar seu oponente com seus olhos frenéticos. Dan correu em sua direção como um touro. A garota continuava parada. Meu coração gelou porque eu pude ver a lança atravessá-la quando pisquei. A batida de olhos foi o suficiente para a garota aparecer nas costas de Danilo como se tivesse desaparatado. Dan se virou rapidamente na direção dela. Ela continuava com a guarda baixa e a postura ereta esperando pelo próximo ataque. Ela era surpreendentemente rápida e Dan era lento por causa do peso de suas armas. Ele atacou novamente, mas não chegou nem perto da velocidade necessária para acertá-la.

Eu não aguentava de tanta agonia, então resolvi gritar o que ele parecia não ter entendido. Mas antes que eu pudesse emitir qualquer som o garoto largou a lança e o escudo, os empurrou na nossa direção e pegou sua espada. Agora vai, pensei.

A atitude de Dan teve efeito imediato. Agora a garota estava preparada para a luta. Dan a atacou novamente, só que dessa vez correndo em zigue-zague. A garota o acompanhava com os olhos e aposto que estava esperando um golpe de espada, mas Dan a surpreendeu quando apoiou as duas mãos do chão e acertou o escudo da garota com os dois pés. Ela podia ser muito mais rápida e inteligente, mas Dan era mais forte e parecia ter percebido que ele não podia ser nem um pouco previsível se quisesse ganhar aquela luta.

A garota foi a chão mas se levantou novamente para defender o golpe de espada de Dan com seu escudo. Ali começou um embate de esgrimistas. Pareciam estar páreo a páreo.

Dentre uma grande variedade de golpes de espada e corporais também, os dois já estavam machucados e cansados. Ambos sabiam que dali não sairia nada. Foi quando Dan tentou inventar um salto para atacá-la de outro angulo, mas a garota previu isso e conseguiu acertar um chute certeiro na orelha esquerda de Dan enquanto ele tentava o novo golpe. Ele caiu no chão e rolou algumas vezes. Tentou se levantar rapidamente, mas caiu novamente. Alyssa aproveitou e avançou mirando um chute em seu rosto. Num salto inesperado Dan de alguma forma agarrou a perna direita da garota com suas próprias pernas. Minha mente levou um nó, pois eu não consegui entender como ele fez aquilo. Foi quando eu me lembrei que ele era um lutador de Jiu Jitsu. Depois de ter fingido muito bem ter sido nocauteado e depois de ter encaixado uma chave na garota, tudo que ele precisava fazer era se esforçar para que ela se rendesse.

Mas parece que nem tudo é tão fácil assim, certo? Certo.

Alyssa escapou do golpe e voltou para sua posição de ataque. Dan incrédulo logo se levantou também e aposto que se perguntava o que ele deveria fazer para vencê-la. A resposta pareceu vir rápido. Ele atacou. Os ataques de espada ele defendia todos, mas os socos não. Que merda que ele está fazendo? Me perguntei.

Depois de vários golpes no rosto, ele girou depois de receber o próximo. Pensei que ele cair, mas ele continuou o giro e acertou a cabeça da garota com a parte traseira de seu punho protegida pela armadura. A garota desabou no chão. Ainda tentou se levantar, mas não conseguiu, então Jude encerrou a luta.

Enganar uma filha de Atena não era nada fácil. Pra isso acontecer havia um preço a ser pago e Dan o pagou. Seu rosto estava completamente inchado. O garoto aguentou as pancadas no momento em que precisava aguentar, mas quando a luta acabou ele desabou no chão. Eu e Marti corremos ao mesmo em tempo em sua direção. Ele não estava completamente desmaiado, mas estava muito tonto e cansado, afinal foi uma luta e tanto.

— Dan, você ta bem? — Óbvio que ele não estava, mas foi a única coisa que saiu da minha boca.

— Eu ainda vou casar com essa garota. — Dentre tanta coisa que ele podia falar, foi isso que saiu da boca dele.

— Você acha mesmo!? — Falou Marti enquanto aplicava seu poder de cura em Dan — Você mal conseguiu derrotá-la e você acha mesmo que vai ter bolas o suficiente pra conquistar uma mina geniosa dessas!? — Ele tinha razão.

A garota já estava consciente e não parecia estar muito machucada. Enquanto ela saia do centro da roda Dan a seguia com os olhos. Logo em seguida ele já conseguia se levantar e andar sozinho, então saímos da roda.

Jude anunciou a próxima luta. Seria entre uma filha de Afrodite e uma filha de Deméter. A luta durou bastante, as duas eram ótimas esgrimistas. Mas no fim quem ganhou foi a filha de Deméter com um soco no queixo muito bem encaixado.

Já a próxima luta não foi nem um pouco equilibrada. Um meio irmão de Jude contra um filho de Dionísio. Enquanto o filho de Zeus estava concentrado e determinado a ganhar, o filho de Dionísio estava subestimando o filho do rei do Olimpo. Aquilo só podia fazer parte de sua estratégia para desequilibrar seu oponente, mas percebi que não era isso quando no primeiro golpe do filho de Zeus a espada de seu oponente se partiu em duas. O próximo golpe decidiu a luta. Um chute bem encaixado no rosto do filho de Dionísio o levou ao chão desmaiado. Jude encerrou a luta e parabenizou seu meio irmão, mas o garoto parecia muito irritado com a facilidade da luta.

Um grupo de jovens ao nosso lado me chamou atenção por estarem rindo muito alto. Logo percebi que eles estavam bêbados e rindo do filho de Dionísio. Um cheiro forte exalava deles; vinho. Só podiam ser filhos de Dionísio também. Muitos deles estavam maquiados e tinham jeitos muito teatrais. Quando eles finalmente pararam de gargalhar pude ouvir um deles falando algo sobre um desafio. Claro... O garoto foi desafiado a perder a luta, só não entendi o motivo.

Me dei conta que Agatha e Bianca ainda não tinham voltado. Mas não me preocupei pois estavam juntas.

Jude anunciou a próxima luta. Martinato já estava sem paciência, pois sua vez não chegava. Dessa vez a luta era entre um filho de Hermes e outro de Ares. Pensei que a luta seria rápida, pois Ares era o deus da guerra, seus filhos eram ótimos guerreiros. Mas o filho de Hermes se mostrou muito perspicaz e rápido, seu estilo de luta se parecia com o de Alyssa, a filha de Atena que deu uma bela de uma surra no Dan.

Mesmo a luta estando bem equilibrada, eu esperava que o filho de Ares ganhasse do mesmo jeito, mas a surpresa veio quando o filho de Hermes desarmou seu oponente, o derrubou e encaixou uma chave de braço. O filho de Ares não desistia e seu oponente continuava a apertar chave. Todos já estavam aflitos quando um estalo foi ouvido seguido por um grito bem controlado. O garoto de Ares teve seu braço quebrado. O garoto largou a chave e deixou que o filho de Ares se levantasse com a dor estampada no rosto. E mesmo com o braço direito quebrado o garoto pegou sua espada com a mão esquerda e atacou, porém muito lento. O filho de Hermes demonstrou hesitação, mas finalizou seu oponente com soco muito forte no rosto do filho de Ares lançando o ao chão nocauteado.

Jude voltou para o centro da roda e finalmente anunciou o nome de Martinato. Ele enfrentaria outro filho de Apolo. Isso o deixou mais animado ainda. Ele andou em direção ao centro da roda e logo a luta teve inicio. Quando Marti desferiu o primeiro golpe meu coração apertou e com toda minha alma eu sabia que alguma coisa aconteceria. Dan e eu nos olhamos ao mesmo tempo. Assim como eu, ele sabia que tinha algo de errado.

— Não deve ser nada demais. — Falei para Dan — Assista a luta dele que eu vou atrás delas.

Dan apenas assentiu com a cabeça. Virei as costas com meu escudo no braço esquerdo e storm na mão direita. A espada brilhava intensamente e vibrava na minha mão, era quase como se ela estivesse tentando se comunicar comigo.

Eu nem cogitei ir aos chalés procurar por elas lá. Meu pressentimento me levava para o bosque, então o segui. Adentrei o emaranhado de árvores. Depois de mais ou menos dois minutos me esgueirando pelas árvores, tomei um susto quando quase pisei no corpo de um sátiro. Ele era jovem, seus chifres mal apareciam. Seu porrete estava quebrado ao lado dele. Ele sangrava muito no canto direito do abdômen. Cheguei mais perto e vi que ele ainda respirava, sua pulsação era fraca mas o ferimento não parecia ter acertado nenhum orgão vital. Tirei minha camiseta e a rasguei do lado para estancar o sangue.

Quando dei o nó, ouvi um galho quebrar atrás de mim. Num pulo me levantei com storm pronto para me defender ou golpear. Mas na minha frente estava uma ninfa da mata.

What did you do to him? (O que você fez com ele? — Perguntou a ninfa aflita.

It wasn't me. I just found him here and I'm trying to stop the bleed. (Não foi eu. Eu acabei de encontrar ele aqui e estou tentando parar a hemorragia.) — Ela viu a camiseta ao redor do sátiro e eu nu da cintura pra cima e pareceu se convencer

— Pay attention. I don't know what happened here, but I have to keep looking the one who did it. So, I need you to go where the championship is happening. My friend can cure him. He may be fighting right now, so you must talk to the son of Poseidon called Danilo, he is black and taller than me. Bring both here. Now. (Preste atenção. Eu não sei o que aconteceu aqui, mas eu preciso continuar procurando quem fez isso. Então, eu preciso que você vá até onde está acontecendo o campeonato. Meu amigo pode curá-lo. Talvez ele esteja lutando agora, então você deve falar com o filho de Poseidon chamado Danilo, ele é negro e mais alto que eu. Traga eles aqui. Agora — Ela apenas acenou com a cabeça e desapareceu.

Olhei para o sátiro aos meu pés e sussurei "hang on" (aguente firme) e segui meu caminho, só que dessa vez mais rápido. Eu já podia sentir que eu estava chegando perto de uma grande quantidade de água doce.

Poucos metros antes de avistar o que eu sentia ser um grande rio, pude ouvir gritos. Era Bianca. Logo em seguida ouvi outro grito de um homem mandando que ela calasse a boca.

Cuidadosamente fui me aproximando mais até que consegui ter uma boa visão do que estava acontecendo: haviam três garotos e duas garotas, todos armados. Dois deles tinham Agatha e Bianca sob suas lâminas e uma garota armada com um arco e flecha estava com as armas das duas garotas.

Eles pareciam estar discutindo entre si, mas não alto o suficiente para que eu entendesse o que eles estavam falando. Eu estava pensando em maneiras de tirar as duas das mãos deles para que eu pudesse os atacar mesmo sem saber se eu conseguiria derrotar os cinco sozinho. Eu podia criar uma grande onda, mas poderia machucar as duas. Poderia atacá-los com chicotes d'água, mas talvez não fosse rápido suficiente para evitar que eles as machucassem.

E então num piscar de olhos eu pude ver uma massa de escuridão intensa engolindo-os. Comecei a correr em direção a eles sem saber muito bem o que eu iria fazer. Antes que eu alcançasse a massa de escuridão, duas pessoas foram lançadas para fora de lá. Era Bianca e Agatha.

— Vocês estão bem? — Perguntei-as quase sussurrando quando as alcancei.

— Estou. — Respondendo Agatha assustada.

— Sim. — Respondeu Bianca com o medo estampado no seu rosto.

— O que... — Começou Bianca, mas tive que interrompe-la.

— Levantem e fiquei atrás de mim. — Mandei e logo elas pularam para trás de mim.

Levantei a guarda e me concentrei no rio me preparando para usá-lo a qualquer momento.

A escuridão foi dispersando aos poucos. Logo consegui enxergar as cincos pessoas no chão e apenas uma em pé. Logo consegui reconhecer a pessoa em pé mesmo estando de costas. Ele foi virando aos poucos e logo estava de frente para nós Leonardo Veronezi, filho de Hades, ou apenas Lelo, você que decide.

— Que po... — Abri a boca mas fui interrompido por um grito atrás de mim.

— LELO!!! — Era Dan. Ele vinha correndo e logo alcançou nosso amigo e o abraçou.

Eu ainda estava muito surpreso. Parado onde eu estava, fiquei. Ele que veio até mim.

— Você não me escolheu, então tive que dar meu jeito de vir. — Falou ele e logo em seguida me abraçou. Larguei meu escudo e minha espada e retribui o abraço.

— Agora me conta como você chegou aqui. — Falei me soltando de seu abraço.

— Deixa a conversa de comadre pra mais tarde. Precisamos cuidar do que aconteceu aqui. — Ele tinha razão.

— Precisamos matar... Ops, amarrar esses pau no cu. — Falei.

— Deixa comigo. — Falou Martinato. O garoto correu para perto das árvores e depois de alguns minutos voltou com cinco cordas de palha trançada. Engenhoso!

Amarramos os cinco e os demos alguns tapas na cara deles para acordá-los.

— O que vamos fazer com eles? — Perguntou Marti.

— Vamos interrogá-los do nosso jeito. — Respondi.

Pelo olhar que Agatha me lançou, ela estava com medo que eu fosse torturá-los. Não era esse o plano, mas se fosse preciso, um porquinho de dor não iria matá-los.

O primeiro deles acordou assustado e dizendo que estava cego, mas logo foi se acalmando e voltando a enxergar.

— Efeitos colaterais desse poder que eu descobri. — Falou Lelo atrás de mim.

Who are you? (Quem são vocês?) — Perguntei ao que já tinha acordado.

Ele permaneceu calado me olhando nos olhos.

What do you want here? How have you entered in the camp? (O que vocês querem aqui? Como entraram no acampamento?) — Ele riu, o que me fez ficar nervoso. Eu não iria matá-los, mas sabia que se eu quisesse arrancar alguma coisa deles, eu precisaria ser um pouco mais bruto, então me levantei, desembainhei storm e a apontei para o pescoço dele. O sorriso em seu rosto desmanchou e sua pele ficou pálida.

Kill me! (Me mate!) — Falou o garoto — If I tell you anything, I'll die anyway. (Se eu te disser alguma coisa morrerei de qualquer jeito.)

What does it mean? (O que isso significa?) — Perguntei ainda com a espada apontada para o pescoço do garoto.

Me and the others swore loyalty for the estige river. (Eu e os outros juramos lealdade pelo rio estige.) — Falou o garoto.

O rio estige é um rio do submundo onde Aquiles se banhou para se tornar invulnerável. Jurar pelo rio estige é a promessas mais poderosa que algum deus ou semideus pode fazer. E quem quebra essa promessa tem sua alma perdida no rio.

Olhei pra meus amigos que tentavam acordar os outros. Não há nada que poderíamos fazer.

— Vamos levá-los para Jeremiah. — Informei-os.

Seguimos em direção ao acampamento. Cada um estava responsável por um dos garotos. Com exceção de Dan que ficou encarregado de levar o sátiro que ainda estava desacordado aos cuidados da ninfa que enviei para trazer ele e Marti. O ferimento havia sido fechado e como eu desconfiei, por sorte não havia atingido nenhum orgão, mas o sátiro tinha perdido muito sangue e precisava descansar de acordo com o filho de Apolo.

Enquanto caminhávamos por entre as árvores que separavam as construções do acampamento do rio, não me saia da cabeça o tamanho do risco que Bianca passava a cada minuto que esse mundo ainda estivesse em perigo. Mas porquê? Qual o papel dela nessa guerra? Eu não fazia ideia. Ainda nem sabíamos quem havia sequestrado a deusa Hécate. Varri esse pensamento da minha cabeça, agora eu só queria saber como esses garotos entraram no acampamento, incluindo Leonardo Veronezi.