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\"\"orde Ortos Black recebia os diversos visitantes enquanto o sol ainda pairava do lado de fora das imensas propriedades da Casa Black, o Poleiro do Corvo. Chegavam cavalos de todos os lados, todos com estandartes diferentes. Alguns estandartes eram tão longos que quase tocavam o chão. Os Fairchild traziam o seu, por exemplo, não como uma bandeira, mas como um tapete amarrado atrás da charrete onde estavam o senhor e a senhora Fairchild. Já os Martyr usavam suas usuais capas, mas desta vez todos traziam broches do estandarte da Casa, e uma espada juramentada segurava um enorme bastão, e o estandarte da Casa Martyr pendia acima dele.

Ortos conhecia quase todos por ali. Ajudaram-lhe na batalha que havia finalmente terminado. A Casa Black estivera em conflito com os Manderly há muitos anos, um conflito iniciado pelo falecido Lorde Black, pai de Ortos, senhor de Poleiro de Corvo. Era uma guerra por ambição e poder, uma guerra que o pai de Ortos não pôde administrar. Morrera e deixara seus problemas para os herdeiros. Para a felicidade do novo senhor daquelas terras, a batalha havia terminado. Os Manderly não perderam muito, é claro, tendo o glorioso soldado Roderick Manderly, mas uma batalha não é carregada por um homem só. Sor Roderick fez um tratado de paz e os Black venceram. Perderiam, se não fossem as quinze alianças que lhes auxiliaram no campo de batalha. E como Ortos Black era grato a essas alianças... Lhes devia a vida, a fortuna e as terras. Não poderia, segundo as regras dos homens e da cortesia, lhes pagar com menos do que um glorioso festim, e o festim estava para começar. O irmão, Artos Black, um homem com o dobro da idade de Ortos, recebia os convidados do outro lado do portão. Artos era um herói de guerra, coberto por cicatrizes, e com uma barriga do tamanho de um tonel de vinho. Sua espada pendia em sua cintura, embainhada como há muito tempo. Seu rosto era coberta por uma barba negra, cuja ponta já estava começando a ficar esbranquiçada. Seus cabelos penteados para trás não eram cortados por puro desleixo: era assim que ele preferia. Um soldado não deve se preocupar com a estética. Quinze anos antes, quando tinham cavalgado ao lado do pai para ajudar Robert Baratheon a conquistar um trono, Artos era exatamente como Ortos estava naquele festim. Um jovem esbelto, com os olhos esbugalhados pelo poder e recompensa. Sempre foi alto e seus cabelos sempre foram tão negros e grossos que chegavam a brilhar. Fora sempre forte, e já cortara cavalos e crianças ao meio. Era algo de que se orgulhava.

Hoje bebia e bebia. Não para esquecer de nenhum remorso, afinal não tinha remorso algum, somente orgulhos e histórias a contar. Bebia porque era um viciado. Bebia, fornicava e comia. Ajudara o irmão na batalha contra os Manderly, e prometeu a si mesmo que seria a última vez que pegaria numa espada, embora todo dia quando acorda use a maldita espada em sua bainha. Mas Ortos não podia ter tempo para relembrar os tempos nos quais o irmão ainda tinha qualquer ligação fraternal com ele. Tinha outras ligações para lidar. Ligações econômicas, e então se deu início ao festim dos corvos.

O ar estava quente. Isso não era comum em Poleiro do Corvo. Lá o ar era sempre gélido, e conforme as pessoas respiravam ou falavam, uma pequena quantidade de vapor saía de suas bocas, fazendo fumaça no ar. Mas aquilo estava um calor bom. Os Martyr haviam retirado suas capas e estavam dançando meio às dançarinas contratadas. O ar cheirava a pão quente e a porco assado. Também cheirava a álcool e mau-hálito. Os nobres começavam a entrar.

Lorde Ortos veio à frente, acompanhando a Senhora Fairchild pelo braço. Ela era tão bela quanto os homens descreviam, e um pouco menos bela que a sua filha, Tessa Fairchild. A condição da ajuda dos Fairchild era o casamento de sua filha com o mais velho dos Black. Artos saíra com algumas cicatrizes da guerra e com um prêmio e tanto. Uma tiara cravejada de joias brilhava entre os longos cabelos de Lady Fairchild, que lhe combinavam perfeitamente com o verde dos olhos.

Em seguida, veio o próprio Lorde Martyr, trazendo Tessa Fairchild pelo braço. Lorde Martyr foi uma surpresa para Ortos. Sua participação na batalha havia sido meramente econômica. Conhecia sua letra e o cheiro de seus corvos. Conhecia a forma de seus dedos pela tinta borrada que selava as cartas, mas ainda não havia lhe visto o rosto. Era um homem alto, de vestes nobres e muito bem planejadas. Era o senhor de Skyfall, uma terra no norte, vassala dos Stark. Fornecera seus navios aos Black, e fora assim que os Manderly foram surpreendidos na baía.

Ortos fornecia aquele festim para três casas: os Fairchild, senhores de Rivendell, herdeiros de uma beleza inumana pela parte feminina, possuidores de muita riqueza e de uma arquitetura excepcional e lendária; os Martyr, uma casa tão dura como o frio norte em que habitavam e os Darkwood. Os Darkwood foram uma força decisiva na batalha contra os Manderly. Mikelyn Darkwood, Senhor de Árvore da Lua, a mais vasta das terras de Westeros, possuidora de uma quantia de solos férteis para a mineração de ouro e ferro, ajudou os Black a dominar a economia dos Manderly. Roderick Manderly viu sua família quase caindo na ruína, e como poderia isso ocorrer, se essa era uma das maiores forças da Casa Manderly? Pois se rendeu, e agora os Darkwood lá comemoravam junto dos Black. O Blackwood, na verdade.

Mikelyn não pôde comparecer, e quem foi em seu lugar foi o jovem lorde Thyrim Darkwood, herdeiro de Árvore da Lua. Thyrim era conhecido entre as jovens que ali estavam. Era um rapaz alto e magro, de dedos nervosos e feições galantes. O mais bonito dos homens, diziam as moças, tão galante que até mesmo a Donzela seria capaz de vir ao nosso mundo só para possuí-lo. Thyrim era conhecido por sua lendária habilidade na conquista feminina. Não era um jovem de beleza tão grande, como diziam as moças, mas tinha as palavras maneiradas e ditas com jeito, e não havia dama que conseguisse resistir às suas palavras. Thyrim sentava-se entre os outros jovens, num banco bem perto da plataforma elevada onde o Lorde Black estava sentado, e Ortos se preocupava cada vez mais com o jovem. Não parecia satisfeito com o lugar onde estava.

— Você o vê, irmão? Vê? — Ortos inclinou-se para o lado, elevando a boca ao ouvido de Artos, segredando-lhe. — O herdeiro de Árvore da Lua. Você o vê?

— Vejo — Artos abaixou-se, para que as palavras de Ortos lhe alcançassem os ouvidos com mais facilidade. — O que tem ele? Thyrim Darkwood é seu nome, não é?

— Chamará-o Lorde Darkwood quando for-lhe convidar para tomar vinho conosco e discutir a participação de seu pai na batalha. Então eu lhes deixarei a sós e você elogiará cada veado de prata que recebemos de Mikelyn Darkwood, você me entendeu?

— Toma-me por um vassalo, meu irmão? — Artos riu ao rosto de Lorde Ortos. Abrira mão das terras de seu pai para que Ortos se tornasse um lorde e era assim que lhe tratava. — Não me importa a migalha de pão que Mikelyn Darkwood lhe deu. Não me importa o filho de Mikelyn Darkwood e não me importa sua política.

— Tomo-o pelo meu principal ajudante. A minha mão direita, e as pernas com as quais eu caminho. Meus olhos, meu escudo e minha espada. Fora o ajudante do nosso pai, não fora?

— O homem ao qual eu devia respeito pelas regras dos homens e dos deuses. Quando eu tiver desejo por lhe usurpar o título de senhor dessas terras, basta-me cortar-lhe a garganta durante o sono. Não é meu pai, não é meu tio e não é meu mestre, muito menos o meu rei. Não lhe devo respostas educadas, não lhe devo reverências e não lhe devo favores com filhos de lordes ricos.

A ira flamejou nos olhos negros de Ortos.

— Sou seu lorde, verme imundo! — falou, pressionando os lábios como se estivesse gritando silenciosamente. — Vai me respeitar ou não terá faca com qual cortar o pescoço de ninguém. Será exilado de minhas terras, nu se preciso. Sem a sua magnífica espada nem sua armadura. Só terá suas cicatrizes e sua barriga de velho bêbado.

Artos calou-se. Não havia porque argumentar, uma vez que Ortos estava certo. Era seu irmão mais novo, mas que fosse. Artos desistiu de ser um lorde para ser um bravo cavaleiro de seu irmão. Mestre de armas de suas terras: fazer o que sabia fazer. E se tivesse que adular pequenos lordes para pagar por essa decisão, que fosse. Mas não o faria. Que passasse por cima de seu orgulho ali, naquela hora, de cabeça quente. Mas Ortos Black não veria aquele homem jogando conversa fora com o menino Darkwood. Dava os passos pesados por aquele salão até chegar a sua esposa. Tessa Fairchild tricotava com suas irmãs, que há tempos não via, desde quando saíra de Rivendell.

— Mulher! — berrou Artos quando se aproximou da casa de artesanato que ficava um pouco depois da saída do Grande Salão. — Venha! Preciso que me faça um favor.

Tessa se despediu das irmãs carinhosamente com beijos nas bochechas. Abaixou a cabeça para chegar perto do marido, como a septã a havia ensinado. Artos a pegou pela cintura com força. Aquilo faria marca depois. A pele de Tessa era frágil como a porcelana desde que nascera.

— Sim, meu senhor? — segurou-lhe as mãos e as embalou, retirando-as de seu quadril. — Em que lhe posso ser útil?

— Ah, minha pequena folha de árvore... tão dócil... — soltou uma gargalhada que exalou seu hálito de álcool. — Sempre me é útil, e me será mais tarde. Mas agora preciso que me ajude com um determinado rapaz. Lorde Darkwood. Um aliado de meu irmão. Nos ajudou na guerra e não parece estar entretido com a estadia que estamos lhe oferecendo. Mas nunca se pode reclamar da bela Fairchild, pode? Vá até lá e o anime. Embebede-o e ponha-o para dormir. Só o acorde pela noite, quando o festim acabar. Se ele estiver bêbado o suficiente, diga que esqueceu de pagar pela entrada no festim, e lhe deve pagar vinte dragões de ouro. Apresse-se!

Tessa o olhou com um sorriso. Poderia fazer aquilo e agradar o senhor seu marido.

— Será feito, sor — Lady Tessa abaixou a cabeça e partiu para o Grande Salão, deixando Artos pela casa de artesanato. Artos não se deu ao trabalho de voltar para o Grande Salão mais tarde. Foi dormir nos estábulos, se embebedando com vinho.

Quando Tessa Fairchild adentrou o Grande Salão, fora recebida com diversas reverências de vários membros da corte. Lady Black, diziam. Que os Outros levassem o nome Black. Para ela era um nome feio, vazio. Fairchild. A pura criança. Quisera manter o nome de sua Casa, mas Artos não permitiu. Bastava que Tessa pedisse algo para que Artos negasse. Mas ai dela, pobre Fairchild. O que seria dela se negasse um pedido de Sor Artos Black? E o que seria dela se não realizasse com capricho seus pedidos? Por isso encontrara Thyrim Darkwood rapidamente. Era um jovem esguio e escuro de dezessete anos que achava quase tudo divertido e ligava toda palavra que uma moça dizia a desejo por ele.

— Lorde Darkwood? — surpreendeu-o ela, tocando seu ombro protegido por couro. Ele se virou num instante, focando seus olhos cinzentos nos olhos verdes dela.

— Chegou o momento de minha morte? Bebi demais, foi isso? — brincou. — Parece-me, meus colegas, — e olhou ao redor da mesa com um sorriso zombeteiro — que meu anjo enfim chegou para me levar ao julgamento dos deuses.

Tessa riu, encantada. As outras jovens lhe olharam como se ela estivesse com sorte. Puxou seu vestido para sentar-se ao lado de Thyrim no banco dos jovens. Thyrim segurou sua mão e a impediu, levantando-se e posicionando-se frente a ela.

— O que pensa que está fazendo, milady?

— Sentando-me, meu lorde. Sentando-se ao lado do senhor.

— Ah, de modo algum! — ele riu, levando as mãos aos braços dela, e descendo para os quadris. Isso fez ela se preocupar e olhar ao redor, para checar se Ortos ou Artos estavam olhando. — Estaremos mais confortáveis nos aposentos dos lordes, não acha? Anseio por conhecer mais de Poleiro do Corvo. O que acha de levar-me aos seus aposentos?

As meninas trocaram risadinhas e os meninos gargalharam em malícia. Se Tessa aceitasse, estaria sendo infiel ao seu marido, e todos aqueles jovens estariam lá para provar. Pagaria o preço mais tarde. Se recusasse, estaria desobedecendo o marido. Pagaria o preço mais tarde. Mas podia ao menos dizer o marido a verdade. Dizer-lhe que não houve nada, e somente mostrou ao Lorde Darkwood seus bordados.

— Será uma honra, milorde.

Quando chegaram lá em cima, aos aposentos de Lady Tessa, Thyrim podia sentir o calor. Era um aposento aquecido. Era o único lugar onde o falecido Lorde Black não havia feito buracos no teto para a ventilação. Não era aquecido, era abafado. Não era o sol que batia à janela como acontecia em Árvore da Lua. Era o insuportável calor dentro do frio. Não agradava a Lorde Thyrim, mas estava disposto a suportar aquilo por Tessa Fairchild. Era um desafio para ele. A esposa de um grande lorde, dita a mais bela do Norte, e era um desafio para ela, entreter o dito mais belo do Sul.

— Sor Artos é o dono desses aposentos, não é? — comentou ele, mexendo em uma das bonecas de porcelana de Tessa.

— Sim, milorde. O senhor meu esposo.

— E está satisfeita com o senhor seu esposo, Lady Fairchild? Ele lhe trata adequadamente? — Tessa sabia o que ele estava fazendo, mas fingiu não saber. — Ele é — aproximou-se dela, segurando-lhe as mãos. — Ele é carinhoso com a senhorita?

— Ele é dominante, milorde — ela assentiu, abaixando a cabeça. — Como um cavaleiro deve ser. Quando me casei com ele, estava sujeita a tudo isso. Não é culpa dele.

— Um casamento não deve sujeitar dor ou mágoa, minha princesa — disse ele, levantando a cabeça dela com um dedo no queixo. — Deve ser selado por amor ou por concordância mútua do casal. Ele tem o dobro do seu tamanho, e o dobro de sua idade. Deve ter sido doloroso quando...

— Ainda sou donzela, milorde — quase se ofendeu, mas enrubesceu e olhou ele nos olhos cinzentos. — Tenho sorte. Mas sei que não durará muito tempo... E será...

— Dá-me pena, Lady Fairchild.

— É o único que me chama assim. Para os outros, sou Lady Black, Senhora de Poleiro do Corvo.

— Isso implica o domínio de Sor Artos, não implica? Já lhe vi antes, Lady Fairchild. Em seu casamento. Fui enviado por meu pai para prestar os cumprimentos da Casa Darkwood. Eu vi como o olhava. E vi como ele te olhava. E desde então dá-me pena. E dá-me... — parou.

— Dou-lhe...?

— Dá-me paixão. Os olhos verdes de sua face incendeiam as labaredas das esmeraldas de meu coração, e me faz palpitar o coração sempre que lhe vejo.

— Milorde... — sabia que aconteceria. Thyrim Darkwood era um moço estudado e poético. E decidiu que cederia. Não ouviu muito do resto que lhe disse, somente concordou, mas teve de prestar atenção à parte que ele a convidou para fugir consigo. Tessa estaria traindo a sua Casa e traindo os costumes dos deuses. Casara-se sobre a testemunha dos Sete e estava agora renegando os deuses.

Quando terminaram, Thyrim pulou para fora da cama, suspirando. Atravessou os aposentos de Lady Tessa, afastou as pesadas tapeçarias e abriu as altas e estreitas janelas uma a uma, deixando entrar o ar da noite.

O vento rodopiou à sua volta quando parou para olhar a escuridão, nu e de mãos vazias. Tessa puxou as peles até o queixo e o observou, nua na cama, com as pernas apertadas e com as maçãs do rosto vermelhas. Parecia menor e mais vulnerável do que estava no Grande Salão. Os rins de Tessa ainda doíam da urgência do amor. Era uma dor boa. Conseguia sentir a semente dele dentro de si. Rezou para que ali brotassem, e se fossem pêgos durante sua fuga tivessem uma desculpa para que não executassem o menino Darkwood — e ela.

Só foi pensar nas consequências durante a madrugada, num barco com o Lorde Darkwood para Árvore da Lua.