A Guerra Dos Tronos: Ascenção
3 Ortos
odia ouvir cerca de cinquenta homens marchando à porta de seu Grande Salão. A neve não caía naquele dia. Talvez fosse porque os próprios flocos tivessem medo do que estava para entrar por aquelas portas. Ortos tinha, embora soubesse o que fosse. Quando os passos da marcha começaram a ficar mais graves, e podiam-se ouvir os guardas reverenciando o nome do irmão, Ortos começou a se revirar em seu trono. O meistre e o mestre de armas se entreolhavam com preocupação. Ortos não tinha ninguém para olhar, não podia demonstrar preocupação.
Quando o irmão entrou, tinha os braços abertos, um usado para empurrar cada parte do imenso portão de madeira que agora se abria como se quebrasse. Atrás de si vinha um exército. Durante o percurso de Artos pelo Grande Salão até o irmão, ninguém deixou sequer uma palavra escapar da boca. Artos usava uma capa, e sua espada parecia mais limpa e brilhante. Os camponeses reverenciavam conforme Artos avançava. Quando chegou perto o suficiente, o meistre e o mestre de armas também o fizeram. Ortos começou a respirar mais profundamente conforme o irmão se aproximava, e quando ele aproximou-se o máximo que podia, Ortos se levantou e o envolveu num abraço longo e apertado. Olhava para a multidão, e o irmão olhava para o trono que devia ser ele a ocupar. O irmão respirava com raiva, ódio e rancor. Ortos colocou uma mão em cada ombro dele e analisou seu rosto com cuidado. Artos olhou para ele determinado.
— Eu a quero de volta — ele disse, e voltou a olhar para o manto de Ortos. Engoliu uma lágrima que estava para cair. Não de saudades de sua esposa, de ódio.
— Ora, é claro que você quer — Ortos suspirou, oferecendo a Artos um olhar bondoso e generoso, seguido de um sorriso confortador, como o pai costumava oferecê-los. — Ela é uma mulher linda.
— Eu a quero de volta para matá-la com minhas próprias mãos — corrigiu Artos como se o irmão não o tivesse entendido. Ortos soltou um sorriso como se já soubesse que aquilo era algo do tipo que o irmão diria. — Não descansarei até que Árvore da Lua tenha o último pilar queimado e levado ao chão.
— Achei que o objetivo da aliança que fizemos com os Darkwood fosse a paz entre nossas terras, e não a discórdia — o irmão lembrou-lhe, provocante. Ortos queria tomar Árvore da Lua. Artos pensou que aquela fosse uma decisão estúpida.
— Eu deveria ter lhe ouvido — ele suspirou, arrependido. — Os Darkwood devem morrer.
— A paz é para os fracos, meu irmão — Ortos sorriu, tirando-lhe as mãos dos ombros e embalando as mãos de Artos com as suas. — Um reino é construído pela guerra. Aegon não tomou este reino com paz. Tomou-o com fogo e sangue!
— Eu lhe peço que me auxilie numa guerra contra os Darkwood, irmão — Artos estava determinado. — Eu já lhe neguei ajuda? Eu já reclamei de qualquer coelho que você me pediu para matar por você?
— Nunca — Ortos lhe soltou as mãos e voltou a sentar-se em seu trono. Isso o fazia lembrar que agora era ele quem tomava as decisões naquelas terras, e não o seu falecido pai. A decisão cabia somente a ele, Ortos de Poleiro de Corvo. — Você é um homem de honra.
— Você iria a guerra comigo, irmão? — pressionou os lábios. Sabia que o que estava fazendo podia ser exagero. Mas não era. Não para ele.
Ortos nada disse. Sua mão estava coberta pelo manto negro com pequenos desenhos detalhados de corvos que voavam pelo manto inteiro. De lá retirou suas largas mãos, brancas como a neve do inverno e a estendeu frente a sua face. Artos estendeu a sua, e uniram as mãos como dois irmãos, como dois aliados, como dois homens comprometendo ambas as suas honras, ambos os seus sangues, títulos e a própria vida. Estavam jurando-se um com o outro, jurando-se de se defender e atacar os inimigos em comum. Ortos aceitara uma guerra contra os Darkwood, e se eles vencessem, teriam Árvore da Lua e Poleiro do Corvo. Isso seria o suficiente para tomar Porto Real.
O irmão foi embora com o passar dos tempos e alguns goles de vinho para acalmar a ambição, o ódio e o infindável desejo de vingança. Quando a noite caiu, Ortos sabia que o mais inteligente a fazer seria questionar aquele homem que aconselhou o senhor seu pai durante toda a sua vida, e antes disso aconselhara o pai de seu pai. Meistre Pate era velho, um homem barbado e de olhos quase cegos. Mas a mente era treinada para tudo. Fosse para a guerra ou para paz, Pate saberia o que fazer.
— Eu sempre soube que a esposa de meu irmão era uma mulher tola, meistre — Ortos caminhava inquietamente por seus aposentos, e Pate se sentava numa mesa, ofegando profundamente, como costumava fazer. — O que pode me ser muito, muito útil... — e então parou, e então começou a rir e gargalhar, enquanto o meistre o observava surpreendido.
— Os Darkwood nunca perderam uma batalha. Não são poucos os que almejam Árvore da Lua, e outros já tentaram penetrar suas muralhas — Ortos virou-se para o mestre, prestando atenção às suas palavras. — Eles não podem ser derrotados.
— O velho Mikelyn Darkwood acha que é intocável por trás de suas grandes muralhas? Ele acha que os velhos deuses irão protegê-lo? Mas os deuses protegem apenas — apertou forte o martelo que segurava e bateu-o contra a mesa, não quebrando-a, mas provocando um enorme estrondo que assustou o velho meistre — os fortes. Se Árvore da Lua cair, eu controlo.
— Keltyn Darkwood controla um dos melhores exércitos do Sul — o meistre tentou argumentar.
— E nós temos as forças mais brutais que esse mundo já viu. Que os Outros levem Keltyn Darkwood e todos que carregam este sobrenome — enfureceu-se. — Eu controlo todos os vassalos dos Stark e seus exércitos. Os navios partem pela manhã — e encaminhou-se para fora de seus aposentos.
— Uma última coisa, milorde — Pate não tirou os olhos de onde Ortos estava. — Você precisará de Caerys e seus homens.
— Caerys... — disse Ortos, relutante. Caerys era provavelmente o homem mais sanguinário que Westeros já havia visto. Dizia-se que era filho do Guerreiro com a Donzela, de belo e forte que era. Caerys tivera a lâmina enfiada em mais de mil corações, e matara por degolamento o dobro disso. Junto dele seguia o seu exército, um grupo de sete homens que o seguiam tão fielmente quanto seguiam os deuses. Ortos sabia que ele poderia ser um fator muito especial nesta guerra. Caerys havia provado sua força durante a guerra contra os Manderly. Ajudara-os brevemente, derrotando uma frota de trezentos Manderly apenas com os seus sete homens. Seria um tolo se não considerasse ao menos por um minuto contatá-lo. — Ele não pode ser controlado. Ele pode matar tanto a todos nós quanto pode matar a todos os sulistas nas terras dos Darkwood.
— Nós não precisamos controlá-lo — Pate virou-se para Ortos, aprofundando sua voz. — Nós precisamos liberar sua raiva. Aquele homem nasceu para destruir vidas.
— Sim — Ortos voltou a andar à direção de Pate, preocupado e inquieto novamente, como mais cedo. — Ele é um assassino talentoso, mas ameaça tudo o que eu construí. Antes de mim, o Norte não era nada. Eddard Stark pende morto agora porque não pôde controlar o Norte. Só se preocupava com Winterfell, e agora seu filho marcha para uma batalha invencível, sozinho. Todos os seus vassalos voltarão para suas casas com o rabo entre as pernas assim que o primeiro fio da juba do leão aparecer. Antes de mim, o Norte era totalmente separado. Eu criei uma nação de homens fiéis aos ideais frios dos velhos deuses e comedores de cobras. Eu criei o futuro, Pate! Eu! Caerys é o passado! O homem que não carrega estandartes ao lutar. O homem que não luta por nenhuma Casa.
— Quantas batalhas ganhamos pela lâmina da espada dele, meu lorde? — Pate abaixou o pescoço, dando um sorriso insinuante à Ortos. — Essa será a maior batalha que o senhor já lutou, milorde. Precisa do maior guerreiro.
Ortos andou de volta para a imensa porta de seus aposentos. Apoiou suas mãos para empurrar e sair de lá, mas antes se virou para Pate com um olhar relutante e preocupado. Olhou para baixo e disse as palavras que aceitariam Caerys em seu exército.
— Ele ouvirá somente a um homem...
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