A Guardiã Do Bem E Do Mal
1 Capítulo 1
Notas iniciais
OLHEI PARA TODOS OS LADOS, mas não conseguia encontra-la em lugar algum. Pelo contrário, tudo o que eu via era uma única coisa:
Fogo. E só.
Eu estava apavorada, e tudo o que eu queria era sair correndo daquele lugar, o máximo que eu pudesse.
Mas eu não podia. Não sem ela. E ela tinha tanto direito de viver quanto eu.
Subi para o segundo andar. Onde ela está?
Por mais que a situação estivesse desesperadora, havia pensamentos que eu simplesmente não conseguia ignorar, por mais inúteis que sejam. Como:
“A essa hora eu podia estar em casa, provavelmente ajudando a Malena com a lição de matemática. Ou então estaria terminando a sopa de ervilha que eu já estava planejando fazer hoje de manhã. É, provavelmente seria isso.”
Ou então:
“Como é que eu vim parar aqui mesmo? Ah é, o Mike me arrastou aqui contra a minha vontade. Mas eu deveria ter negado. Eu, sei lá, podia ter batido o pé no chão e dito ‘não’, mas como sempre eu não con...”
E então, antes que eu pudesse concluir o pensamento nada útil, eu ouvi um estrondo enorme logo atrás de mim.
“O que diabos foi isso??!?” – pensei, assustada – “Isso aqui ta desmoronando! Eu tenho que sair daqui!”
Acelerei o passo. Estava cada vez mais difícil respirar. Fui de sala em sala gritando por ela, até que finalmente não aguentei e cai abruptamente no chão.
-Eu não... consigo respirar... – murmurei.
“Será o meu fim?” – pensei – “Eu tinha planejado tantas coisas na minha vida... queria estudar para finalmente ser a fisioterapeuta que sempre sonhei. E então eu iria me casar, me mudar para um apartamento ou uma casinha humilde. Teria dois filhos: um menino chamado Jonathan e uma menina chamada Zoey... ou Samantha. É, eu realmente gosto dos dois nomes. E então eu faria de Jonathan um grande engenheiro, ou quem sabe um...”
Antes que eu pudesse concluir esse pensamento (adoram me interromper!), eu escutei um barulho do qual eu tanto desejava escutar... uma voz.
-So... corro... – uma menina gemeu.
A voz vinha a duas salas de distância, aparentemente. Com muito esforço eu me levantei e fui cambaleando até lá. Quando eu cheguei finalmente a encontrei; ela estava lá, deitada debaixo de uma mesa, com o corpo em formato de “conchinha”. Estava coberta de fuligem, e algumas partes de sua roupa estavam queimadas. Olhei para suas mãos; estavam queimadas também, o que me fez pensar que foi com elas que ela conseguiu apagar o fogo da roupa.
-Aguente firme – murmurei – nós vamos sair dessa... juntas... – tossi. Eu realmente não estava conseguindo respirar.
Peguei-a pelos braços e a joguei nas costas – o que foi uma péssima ideia, pois quase caímos as duas no chão; a sorte é que eu me segurei a tempo na mesa, mas ainda assim a minha visão escureceu um pouco devido ao esforço. Ignorei e, cambaleando, tentei leva-la a saída do andar.
Escutei um barulho ao fundo – devia ser os bombeiros.
“Vamos viver! Nós vamos viver!” – pensei, esperançosa. Continuei levando-a nas minhas costas – ela não estava acordada, mas eu ainda conseguia escutar seu coração batendo através da minha blusa. A minha sorte é que ela era apenas uma criança, portanto não era muito pesada. Continuei andando.
Onde estavam os bombeiros?
Minhas pernas estavam dobrando, mas eu rangi os dentes e continuei... sabe-se lá de qual forças. Mas estava perto. Estava muito perto.
E então eu finalmente cheguei na saída do andar... só pra cair de joelhos e encarar o que estava a minha frente.
Entulhos. Havia milhares de entulhos tampando a passagem. Eu conseguia escutar os bombeiros do outro lado, provavelmente impossibilitados de passar por causa disso.
“Então foi isso aquele estrondo de antes” – pensei. Era o fim. Realmente era o fim.
Deixei o resto do meu corpo cair, junto com a garota. Tudo o que eu podia fazer era ficar olhando para frente. Conseguia ver debaixo das cadeiras, do sofá, o buraco no chão, por debaixo das mesas...
Peraí. O buraco.
Peguei a garota pelas costas da blusa e a arrastei comigo até onde estava o buraco. Olhei por ele... e percebi que ele dava direto no primeiro andar. Eu conseguia até ver os bombeiros tentando retirar os entulhos.
Mas havia um problema. Ele era pequeno demais para que eu pudesse passar.
Olhei para menina e percebi que para ela não.
-A... qui... – murmurei. Minha voz não saia, e ninguém lá embaixo me escutou.
E então um pedaço do teto em chamas caiu sobre a minha perna, me fazendo gritar de dor. Um cara lá embaixo deve ter escutado, pois olhou para cima e arregalou os olhos quando nos viu.
-ALI! –gritou ele, apontando para nós – elas estão ali!
-Onde?
-Ali em cima!
-AH MEU DEUS, vocês estão bem? VÃO PEGAR A PORCARIA DA ESCADA!
-SIM SENHOR!
-PEGUEM MÁSCARA DE GÁS TAMBÉM PARA DAR A ELAS! Você está bem? Você é a Clare, não é? E Samantha? Ela está com você?
Samantha. Esse era o nome da garota que eu quis tanto salvar.
Incrível.
Fiz fracamente um sinal positivo com a cabeça.
-Ótimo! Ela está bem também? Fiquem calmas, nós já... – antes que ele pudesse terminar de falar houve um estrondo e uma das vigas de ferro que fica no teto caiu a alguns centímetros de distância de Samantha. Ela escutou o bombeiro xingar.
-VÃO LOGO, O LUGAR TA DESABANDO! CADÊ ESSA BENDITA ESCADA??!?
-AQUI! — gritou alguém ao fundo. Então apareceu dois bombeiros carregando a escada com eles.
-COLOQUEM LOGO ALI! – então ele se virou para mim – você acha que consegue passar Samantha pelo buraco?
“Não”, eu quis dizer. “Não consigo”.
Mas ao invés disso eu fiz um “sim” com a cabeça e me virei para pegá-la. Puxei ela pela blusa e a arrastei até o buraco. Eu ia conseguir, ia conseguir.
Mas só consegui passar metade do seu corpo, e então eu desabei. Minha visão escureceu. Não enxergava mais nada, só conseguia escutar:
-Droga! Você está bem? EI, CLARE, ME RESPONDA! Droga! Já passou metade do corpo da menina, agora subam na escada e a peguem!
Ouve um barulho no fundo e então o corpo da Samantha saiu pelo buraco.
-Ótimo! EI CLARE, VOCÊ ESTÁ BEM? Ela não deve estar mais consciente, nós temos que... – foi interrompido novamente por outra viga de ferro, que caiu exatamente onde Samantha estava a um segundo.
-RÁPIDO COM ISSO, TA DESABANDO! CLARE, SE VOCÊ ESTIVER CONSCIENTE, ENTÃO FICA TRANQUILA, NÓS VAMOS TE SALVAR! VOCÊ VAI VIVER, VOCÊ VAI VIVER!
-Senhor, ela não passa pelo buraco! – disse alguém que estava tentando me puxar até uns instantes atrás.
-Então coloque só a máscara nela, estamos quase conseguindo retirar o entulho da passagem!
-Porque não tentamos aumentar o buraco?
-Você está doido??!? Isso só iria fazer as coisas desabarem mais rápido! – e, como que para enfatizar o que ele dizia, caiu outro pedaço do teto, dessa vez um pouco mais distante de onde eu estava.
-RÁPIDO!
Mas então eu escutei – e não só eu, mas como também todos os bombeiros – uma viga de ferro, que estava bem acima de mim, ranger. O bombeiro que estava colocando a máscara em mim congelou.
E então aconteceu – ela se soltou.
-NÃO, NÃO!
O bombeiro que estava sobre mim jogou os seus braços de volta pro buraco, e então a viga me alcançou.
E tudo ficou escuro.
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