A Guardian's Diary 1
6 Capítulo 5 - Mas o que diabos foi isso?!
Notas iniciais
Já era quase meio dia, mas Jack Frost ainda se encontrava deitado em sua cama na oficina de Norte, o rosto virado para a parede já que a luz do dia entrava pelas janelas abertas do quarto; vento entrava por elas, frio como todo o resto do Polo Norte. Mas dentro da mente de Jack o quarto não estava frio, mas sim, muito quente. Sonhava que estava na Toca de Coelhão; os dois conversavam, mas ele não tinha certeza sobre o que, porque o que realmente importava para ele, era como o braço forte e felpudo do outro Guardião envolvia seus ombros, apertando-o contra seu lado.
Puxões leves em seu cabelo o obrigaram a retornar para a realidade. Jack soltou um murmúrio triste, enquanto as imagens sumiam como fumaça. Ele esfregou os olhos com as costas da mão e deu um sorriso ao ouvir um farfalhar muito conhecido.
“Baby Tooth!” A fadinha sorriu quando os olhos azuis finalmente se voltaram para ela e fez sons animados, abraçando o rosto do rapaz. “Que bom te ver, já faz tanto tempo!” Jack riu, sentindo as penas da fada fazendo cócegas em sua bochecha. “Denti também está aqui?”
Baby Tooth assentiu animadamente.
“Muito bem...” Jack estava prestes a se levantar quando lembrou de algo. “Ah... Baby Tooth, você pode se virar? Eu estou sem...” A fadinha corou profundamente e voltou as costas para o garoto, se dirigindo até a jaqueta azul desse que estava jogada no outro canto da cama. Jack pulou das cobertas, colocou suas calças e tomou a jaqueta, mostrando que a fada já podia se virar. “E, antes de tudo...”
O espírito se afastou até o banheiro ao lado do quarto, sabendo que não era bom se encontrar com a Fada dos Dentes sem antes cuidar de seus próprios dentes. Revirando os olhos sob o olhar atento de Baby Tooth, que tomou o momento para mostrar para o espírito o modo correto de escovar os dentes, ele finalmente se sentiu contente com o estado de sua boca.
“Vamos lá, Baby Tooth, não vamos deixar a Denti esperando.”
Os dois desceram pelo corredor vazio, Baby Tooth alegremente voando ao redor de Jack e vez ou outra se sentando na cabeça branca deste e Jack apenas riu, deixando que ela brincasse com seu cabelo. Já fazia um bom tempo que não se viam, principalmente por que a coleta de dentes de Dentiana e suas fadinhas era um trabalho constante, o que lhes dava pouco tempo para parar e se encontrar com amigos.
Mal eles tinham chegado ao fim do corredor, dois braços coloridos envolveram os ombros de Jack e ele se viu apertado contra um corpo pequeno, coberto de penas coloridas.
“Jack!” Uma fada dos dentes muito sorridente se afastou para dar uma olhada melhor no espírito mais novo. “Quanto tempo! Hum... Você emagreceu?”
Jack ergueu uma sobrancelha com aquela pergunta inesperada e deu uma olhada em si mesmo.
“Er... Não...” Murmurou sem jeito com um sorrisinho. “Como vai, Denti?”
“Ah, tudo bem. Só atarefada, você sabe como que é.” Dentiana riu e seu rosto se iluminou. "E eu estou tão animada! Eu tive que vir aqui! Eu tive que mostrar! Olhe!" E ela estendeu suas mãos para o rapaz, apresentando para ele um simples dente.
Jack encarou o dente nas mãos da fada, ele não entendia bem sobre dentes, nem sabia porque aquele dente parecia ter deixado a fada tão animada, mas ele sabia que para ela, dentes eram mais do que uma coisa simples.
"Um dente... De leite...?" Ele tentou adivinhar, sorrindo sem jeito para a outra.
Os olhos de Dentiana brilharam e suas penas se arrepiaram levemente.
"Sim! Oh, Jack! Não acredito que você notou!" Ela exclamou com um sorriso. "Sim! Esse é o último dente de leito do Jamie! Esse demorou a cair, hein?" A Fada dos Dentes riu de modo suave, brincando com o dente como se esse fosse o tesouro mais precioso do mundo, seu olhar era solene. "Normalmente a queda do último dente de leite marca o começo da mudança, quando a criança para de acreditar... Bem, em nós..."
"Não o Jamie." Jack interrompeu. Ele sentiu seu estômago revirar ao pensar na possibilidade de Jamie esquecê-lo. "Ele nunca vai deixar de acreditar."
"Eu gosto de pensar assim também." A Fada assentiu e ficou em silêncio por um momento. "Ah!" Ela exclamou, assustando o espírito do inverno. Ela passou o dente para Baby Tooth, que o segurou com tanto cuidado quanto ela. "Desculpe, eu só estava muito animada em dividir isso com você! Como vai você Jack?”
“Bem, também.” O guardião da diversão deu de ombros simplesmente, ainda se sentindo um pouco desconfortável com o que a fada tinha dito. Dentiana examinou Jack com os olhos, claramente sem acreditar no que ele dizia, e o rapaz suspirou. "Olha, é só que você comentou sobre o Jamie e sobre acreditar e... Você sabe como eu me sinto com isso..."
"Eu sei, eu sei, é claro. Eu sinto muito por fazer você pensar sobre isso..." Dentiana murmurou, descansando uma mão apoiadora no ombro do rapaz. "Mas, em geral? Está tudo bem...?
Jack hesitou por um momento, processando o que estava acontecendo ali. Ela não sabia...? Sabia...? E ele se lembrou do que Coelhão tinha dito, sobre como ele "andava esquisito ultimamente" e que os demais Guardiões tinham notado aquela mudança.
“Jack, sabe que pode contar tudo para mim, não é?” Denti falou com um sorriso, inclinando a cabeça para o lado.
“Norte chamou você aqui, né?” Jack perguntou com um sorriso sem humor. Norte já tinha dito, alto e claro e muitas vezes, que o rapaz não devia mentir e devia sempre falar sobre como se sentia, além de tentar, de algumas formas diferentes e até criativas, fazer o garoto finalmente abrir a boca. Mas Jack educadamente dizia que estava bem e se retirava da presença do outro Guardião, as vezes se fechando em seu quarto ou voando para longe.
“Bem... Sim. Mas viemos porque nos importamos com você.” Baby Tooth se colocou ao lado da fada maior, assentindo. Dentiana sorriu, se inclinando de modo a ficar mais próxima de Jack, mas sem invadir sua bolha pessoal. “Somos uma família, Jack. E uma família cuida um do outro.”
Jack processou aquelas palavras. Mesmo após cinco anos fazendo parte dos Guardiões, Jack ainda não estava acostumado com a ideia de que não estava mais sozinho, e, embora a ideia de ter uma família era como um sonho se tornando realidade, ele nunca tinha esperado ser aceito com tal facilidade. Era estranho pensar que ele era um membro de uma família; sim, uma família estranha, caótica e disfuncional, mas ainda assim uma família.
“Tá bem...” O espírito do inverno deu um suspiro. Ele se afastou da Fada dos Dentes, se sentando no batente de uma das grandes janelas do corredor. “Eu tô bem. Só tenho um monte de coisa na cabeça...”
“Tipo o que?” Denti se sentou frente ao rapaz.
Jack se perguntou se devia realmente falar sobre aquilo, ele sabia que as vezes a Fada dos Dentes dava com a língua nos dentes — ha! — e ele não tinha certeza sobre aquilo. Mas ao mesmo tempo ele pensou sobre como foi descobrir que Sandman sabia sobre seus sentimentos, e como ele tinha se sentido ao finalmente deixar de se preocupar com aquilo quando estava ao lado do Guardião dos Sonhos.
Ele respirou fundo mais uma vez.
“Eu gosto de alguém.” Jack finalmente disse. "Romanticamente." Ele adicionou rapidamente, para que não acontecesse nenhum problema.
“E isso não devia ser algo bom?” A fada virou a cabeça para o lado de modo confuso.
“Heh, acho que sim...” Jack deu uma risada baixa. “Mas o grande problema é quem eu gosto...”
As penas de Dentiana se eriçaram levemente com aquelas palavras e ela se inclinou para frente.
“E quem seria?” Perguntou em um sussurro, como que para manter a conversa apenas entre eles..
“Ora, quem mais?” Jack bufou e sentiu seu rosto ficar mais azul ainda com o modo como Dentiana o observava com aqueles olhos rosados. “Com quem eu passo mais tempo? Com quem eu tenho mais problemas?” Mas uma vez que A Fada dos Dentes se manteve calada, o espírito do inverno suspirou, baixando o olhar. “Eu gosto... Do Coelhão.”
“Oh.”
Jack ergueu uma sobrancelha. ‘Oh’? Era só isso que ela tinha a dizer? Honestamente, Jack não sabia o que esperar vindo dela. Ele não era idiota, ele sabia que Dentiana achava ele atraente, mas não era como se ela tivesse interesse sério nele — ela estava em um relacionamento com Norte afinal — mas ele não sabia como ela iria reagir sabendo que ele gostava de Coelhão ao invés de qualquer outra pessoa. Mas talvez a informação só estivesse demorando para processar.
Ou, pior do que qualquer outra coisa, ela de algum modo já tinha adivinhado, assim como Sandy — se bem que Sandy sabia porque ele podia ver os sonhos do Guardião da Diversão, o que era algo diferente.
“Então..." Ela se pronunciou finalmente e Jack notou a expressão nervosa de Dentiana. "Seria um problema se eu contasse que ele está logo ali no salão querendo falar com você?”
O guardião da diversão pareceu congelar no lugar.
“C-Coelhão está aqui?!” Ele ouviu sua voz quebrar por um momento, seu rosto ficando ainda mais gelado que antes. “Para falar comigo?!”
“Sim.” Denti deu um sorriso e se levantou, voando a poucos centímetros acima do chão. “Você podia aproveitar e contar pra ele o que você sente!”
“NÃO! Não! Claro que não!” Jack ficou de pé rapidamente, até se colocando entre a fada e a porta do corredor, para ter certeza de que ela não ia tentar fazer nada. “Eu nem sei se ele sente o mesmo! Eu nem sei se ele sequer gosta de mim!”
"Ora, é claro que ele gosta de você, Jack!" A Fada dos Dentes balançou a cabeça com uma risadinha. "E você nunca vai saber se ele sente alguma coisa se você não falar com ele!" Ela deu uma piscadinha e Jack hesitou. Por acaso ela estava tramando alguma coisa? Ou talvez aquilo fosse algum plano dela... "Agora vai!" Denti voou até ficar atrás de Jack, o virando com as mãos em seus ombros e o empurrando para seguir para fora do corredor vermelho. “Vá falar com Coelhão. Sabe como paciência não é o forte dele, né?”
Jack respirou fundo e se deixou ser empurrado por entre as portas e na direção do salão, quase sem ouvir o som do bater das asas das fadas à suas costas. Dentiana tinha aceito tudo com facilidade, mas talvez ela tivesse falando com Sandman sobre aquilo, ou talvez com Cupido... Ele não sabia o que o fazia se sentir melhor ou pior.
Mas aqueles pensamentos foram varridos de sua mente quando eles chegaram ao salão do globo e Jack sentiu seu rosto esfriar consideravelmente.
Coelhão estava apoiado contra uma das vigas de madeira do grande salão, os braços cruzados e o olhar longe, com uma expressão emburrada bem típica dele. E havia também uma caixa branca, pequena, descansando no tapete, ao lado de suas patas. E por um momento era como se todo o mundo tivesse sumido e tudo o que existia para Jack, era o Pooka.
Ele caminhou até Coelhão, sentindo como se o mundo ao seu redor ficasse mais quente a cada passo que ele dava.
“E aí, Coelhão?” O Guardião da Esperança se voltou para o garoto, ainda mantendo a expressão fechada. Jack forçou um sorriso torto, se sentindo um pouco desconfortável, mas também praticamente caidinho por aquela cara séria do outro. “Denti disse que você queria falar comigo. O que foi que eu fiz agora?”
“Você não fez nada, Frostbite.” Coelhão bufou e sua expressão finalmente mudou, seus olhos desviando para baixo, de modo quase sem jeito. “Eu só vim aqui para... Te trazer isso aqui.” Ele empurrou a caixa branca com uma das patas até o garoto à sua frente.
Jack olhou da caixa para o Pooka, antes de finalmente tomá-la em mãos. Era de isopor e pelo jeito trazia algo gelado consigo, o que surpreendeu o rapaz.. Jack finalmente abriu a caixa e teve que tomar um momento para processar o que estava vendo. Eram pedaços de gelo, mas entre os pequenos cubos, estava outro, com um formato diferente. Com cuidado o espírito do inverno pegou o pedaço maior em suas mãos.
Era uma escultura de um floco de neve feita em gelo.
Jack, que conhecia bem um floco de neve, pôde perceber que não era perfeito, era apenas a representação de um floco simples, mas mesmo assim ainda era lindo de se ver. Mas o que realmente fazia com que tudo aquilo fosse ainda mais incrível, mais especial, era de quem ele tinha recebido tal presente.
“Coelhão...” Jack levantou o olhar com um largo sorriso, sentindo seu coração gelado batendo mais rápido. “Você fez isso?”
“Sim.” Disse Coelhão simplesmente, seus olhos presos nas mãos que esfregava. “Em troca daquele ovo que você pintou para mim. É bom que tenha gostado porque minhas mãos estão geladas e ardendo até agora!”
Jack não sabia o que dizer, nem como reagir, sabendo que Coelhão tinha feito aquilo para ele.
“Eu... Muito obrigado... Coelhão.” Foi só o que ele foi capaz de dizer, a voz quase presa em sua garganta. Ele sorriu para o outro, encontrando aqueles poderosos olhos verdes focados nele.
Os dois ficaram ali, como que presos no momento, olhos azuis presos em olhos verdes. Até que um pigarreio quebrou o momento.
Jack e Coelhão se voltaram para a origem do som e encontraram Norte e Denti os observando com sorrisos nos rostos. Denti riu levemente, e apontou para algo acima dos dois e finalmente a ficha caiu.
“Ora, vejam só!” Norte disse com uma risada. “Então foi aí que deixei aquele visco de natal!”
Coelhão e Jack se entreolharam ao notar que a pequena planta estava pendurada bem em acima de suas cabeças. Jack pode sentir suas bochechas se tornando azuladas mais uma vez e ele desviou o olhar por um momento, notando o modo como Coelhão estava o encarando, como que examinando seu rosto gelado.
“É melhor irem em frente.” O guardião russo cruzou os braços. “Dá má sorte ficar em baixo do visco e não beijar.”
Mas nenhum deles foi capaz de se mover.
“Nem é natal...” Coelhão quebrou o silêncio entre os dois, dando um passo para trás, e Jack tentou não reagir ao movimento.
“Mesmo assim, Coelhão.” Dentiana entrou no meio com um rolar de ombros. “Você não ficaria chateado caso alguém não ignorasse uma tradição de Páscoa?”
O Pooka parou para pensar por um momento, revirando os olhos, e suspirou. Jack segurou a respiração quando sentiu uma pata pousar em seu ombro. O garoto observou como que hipnotizado enquanto o outro se movia, se abaixando lentamente e então, Jack pode sentir lábios quentes sendo pressionados contra sua testa.
Mas antes mesmo que Jack pudesse sequer registrar o beijo, Coelhão se afastou.
“Pronto.” Disse virando o rosto e se afastando do garoto.
Mas era como se algo tivesse estalado dentro da mente de Jack. Ele ainda conseguia sentir a pressão suave e o calor contra sua pele fria e, uma vez sentindo aquilo, ele não podia se contentar com apenas aquilo. Tudo aconteceu rápido. Com um movimento rápido, ele puxou Coelhão em sua direção pelos ombros felpudos, envolveu seu pescoço com os braços e apertou seus lábios um contra o outro. Ele pode sentir o calor novamente, sentir a forma dos lábios de Coelhão contra os seus e era como se seu corpo inteiro tivesse sido tomado pelo calor do outro.
Mas o calor viveu por pouco tempo.
E Jack se sentindo sendo empurrado para longe, quase cambaleando para trás.
“Mas o que diabos foi isso, seu moleque?!” Coelhão praticamente gritou.
Jack estava congelado no lugar, ainda processando o que tinha acontecido, se sentindo mais frio do que jamais tinha sentido antes.
"E-Eu..." Foi só o que conseguiu escapar sua garganta apertada, e até mesmo isso foi quase impossível de ouvir. Ele pode sentir a conhecida ardência em seus olhos, que indicava que lágrimas estavam por vir. "D-desculpa..." E, quase como que fora de seu próprio controle, ele girou o cajado, voando por uma janela aberta.
Coelhão ficou calado observando o rapaz desaparecer. Ele chegou a murmurar uma coisa e depois outra, como se fosse tão difícil para ele falar do que quanto tinha sido para o garoto. E enfim, com uma batida forte de sua pata contra o chão, ele sumiu por um buraco.
Houve silêncio no salão do globo.
Norte e Dentiana se entreolharam, Baby Tooth fez um som baixo.
“Acho que... Não saiu como o planejado...” Norte murmurou, coçando atrás da cabeça.
Fale com o autor