A Guardian's Diary 1

3 Capítulo 2 - Você anda esquisito


Jack Frost mordeu o lábio ao perceber onde estava. Ele nem tinha notado que o vento tinha o carregado até ali… ele até se perguntou se talvez Breeze tinha virado as correntes para fazer com quele acabasse na frente de uma das entradas para a Toca do coelho da Páscoa.

Sem querer pensar muito nos motivos do vento do norte, e sem vontade de passar mais tempo na superfície, onde o calor tropical do hemisfério sul estava ainda presente mesmo com a lenta chegada do outono, Jack suspirou e deslizou para dentro da passagem mágica.

Ele tinha ouvido de outros que as passagens para a Toca estavam sempre fechadas para todos os outros seres, sejam eles mortais ou sobrenaturais, com algumas exceções. E Jack tinha sentido seu coração bater um pouco mais forte ao ouvir que ele, por ser um Guardião, tinha sido movido para a lista de exceções.

Ele deslizou pelo túnel com facilidade, mantendo os pés nas paredes de pedra como se ela fosse uma onda e ele estivesse surfando até o fundo; a pedra estava coberta de plantas e musgo que, de algum modo mágico, não grudavam em sua pele, e Jack sorriu ao passar por uma florzinha arroxeada, que ele sabia querer indicar que outro túnel tinha sido aperto ali algum dia.

Logo ele flutuou para fora da entrada principal, para onde todos os túneis mágicos levavam.

Jack respirou fundo, sentindo o perfume das plantas, o cheiro delicioso de chocolate e algo mais, algo mágico que ele não poderia descrever o atingir, junto com a brisa confortavelmente morna dos jardins mágicos; e ele admirou a paisagem verde que se abria diante dele, tudo iluminado por um sol falso, que às vezes o fazia pensar que estava na superfície novamente.

Desde a sua primeira visita, Jack já tinha passado pela Toca algumas vezes, mas ele sempre se maravilhava com a beleza do lugar a cada visita.

Ele desceu até seus pés descalços tocarem a grama esverdeada, congelando, sem querer, algumas das folhas mais finas. Os gigantes ovos sentinelas nem reagiram a ele, reconhecendo que ele não era perigoso, mas Jack viu quando seus rostos sorridentes de pedra viraram levemente em sua direção e ele acenou.

Algo bateu contra seu calcanhar e o rapaz abaixou o olhar, rindo ao ver o que era: um ovo verde e sem detalhes passou por ele com pressa, sendo seguido por mais alguns ovos coloridos. Já que ainda haviam ovos não terminados, aquilo queria dizer que Coelhão ainda estava trabalhando. Jack girou o cajado e seguiu atrás dos ovinhos apressados, pensando naquilo.

Ele continuou entrando mais e mais na Toca, que ele às vezes perguntava se tinha ou não um fim de verdade, até finalmente encontrar o dono do lugar.

Jack pousou sobre uma estátua em forma oval e se inclinou contra o cajado.

Coelhão estava sentado ao lado das correntes coloridas, seu kit bem equipado de pintura ao seu lado, enquanto ele adicionava detalhes em alguns ovos aleatórios com um pincel que parecia minúsculo em sua pata grande. Milhares de outros ovos o cercavam, se lançando no córrego e saindo dele brilhando sobre a luz mágica da Toca.

Por um momento Jack quis chegar por trás e empurrar o outro dentro da tinta mágica, mas ele não era bobo, ele já tinha tentado fazer aquilo nas suas primeiras visitas, sem sucesso. Mas era de se esperar, com aquelas orelhas enormes e o focinho poderoso, o Coelhão sabia que ele estava por perto, mesmo a metros de distância.

Ele se perguntou se o Pooka – aparentemente esse era o nome da espécie do Guardião da Esperança – já tinha notado que ele estava ali…, mas decidiu que, pelo modo como Coelhão estava focado em seu trabalho, ele devia estar meio desconectado do resto do mundo.

Então Jack se permitiu ficar ali por um momento, só observando.

Ele viu como Coelhão pintava vários detalhes delicados com destreza, fazendo linha atrás de linha de modo confiante, criando padrões coloridos e intricados. Era incrível como aquelas patas grandes e felpudas conseguiam fazer algo como aquilo, em ovos tão pequenos e com pinceis tão finos, com aquele nível de destreza.

Jack tinha certeza de que poderia observar Coelhão trabalhando por toda a eternidade e ele ainda ficaria maravilhado.

— O que você quer, Frostbite? — A voz de Coelhão surpreendeu o rapaz.

O garoto parou, notando que tinha dado alguns passos na direção do outro Guardião.

Ele hesitou, sem saber exatamente o que dizer. Por que ele estava ali mesmo? Bem, Jack não podia mentir para si mesmo, ele sabia muito bem por que estava ali, mas também sabia que era melhor não falar sobre aquilo. Suas mãos apertaram o cajado uma vez, duas vezes... por sorte, ele era conhecido como alguém que pensava rápido, e sabia exatamente como sair daquela situação.

— Precisa de alguma ajuda?

O coelho da Páscoa se virou, lançando para o garoto um olhar curioso, com uma sobrancelha erguida. Jack retribuiu a expressão com um sorriso, tentando mostrar um mais genuíno do que seu típico sorriso torto e brincalhão; e também tentando ao máximo impedir que mais gelo subisse até suas bochechas ao encarar aqueles potentes olhos esverdeados.

Houve uma pausa silenciosa entre os Guardiões, os únicos sons sendo o da água colorida do córrego mágico e o leve “pit-pat” dos vários ovinhos enquanto esses corriam para lá e para cá.

Jack começou a se sentir nervoso. Ele já tinha pensado, várias vezes, em oferecer ajuda ao coelho da Páscoa, mas sempre tinha se segurado antes de fazer a pergunta, então aquela era uma situação nova. Ele realmente esperava que, mesmo se ele não aceitasse sua oferta, Coelhão não o chutasse de sua Toca…

Qual é! Jack só tinha tentado fazer nevar naquele lugar uma só vez! E nem foi uma nevasca, ou coisa assim, ele só tinha jogado algumas bolas de neve! O gelo tinha derretido quase imediatamente graças à temperatura constantemente tropical do lugar. Coelhão nem sequer tinha reclamado, tinha só revirado os olhos e sorrido torto quando Jack fez um bico quando seu plano falhou. Ainda assim, o Pooka tinha falado com seriedade sobre como iria fazer o rapaz se arrepender caso realmente congelasse alguma coisa na Toca e Jack, mesmo que fazendo piada e dando de ombros no momento da repreensão, tinha levado aquilo a sério. A Toca era o lar e o lugar especial de Coelhão, ele não iria causar problemas ali tanto quanto não causaria problemas no palácio das fadas, ou na oficina de Norte ou na ilha de Sandman – a não ser que eles deixassem, ou no caso de uma mudançazinha pequena só pra brincar com eles.

— Você tem bastante trabalho pela frente, não tem? — O Guardião da Diversão continuou falando, dando mais credibilidade ao fato de que ele estava sendo honesto e não tinha vindo para causar problemas. Ele sorriu, pegando um ovinho nas mãos com delicadeza. — Você faz tudo sozinho e faltam cinco dias para a Páscoa, então eu pensei que talvez uma ajudinha viria a calhar…

A outra sobrancelha de Coelhão se uniu à primeira e ele deu uma olhada nos ovos que o rodeavam, esperando por sua chance de serem pintados pelo Pooka. Jack sentiu um leve desconforto se unir à ansiedade. Depois de cinco anos ele esperava que Coelhão confiasse nele…

Por fim, Coelhão ergueu aqueles olhos verdes – que pareciam refletir a natureza que o rodeava – mais uma vez, e sua expressão estava séria, mas pensativa. Jack notou que ele tinha enchido o peito um pouco para parecer ainda maior do que era e tentou ignorar o modo como suas pernas tremeram, e não por medo.

— Se estiver tramando alguma coisa, moleque…

— Não estou tramando nada! — Jack se apressou a dizer, interrompendo o outro. Coelhão fez uma careta e Jack tentou não rir, ele sabia que o Pooka não gostava de ser interrompido. — É sério! Eu estou sendo totalmente honesto no momento!

O leve bufar e o olhar que recebeu do Pooka o feriu levemente, embora Jack sentisse que já devia estar acostumado àquilo. Jack flutuou até Coelhão, se sentando em uma pedra ao lado desse, mas ainda mantendo distância, mesmo que tudo dentro dele o pedisse para afundar o rosto naquele pelo cinzento. Jack tossiu e afagou o rosto para tentar afastar o gelo que ele sentiu surgir, e sorriu de novo para o outro.

— Olha, eu sei que eu sou o Guardião da Diversão, mas eu não estou fazendo piada dessa vez, falou? — Ele estendeu o ovinho em suas mãos para o Pooka. — Dessa vez é sério.

Coelhão pegou o ovo com incrível delicadeza e Jack sentiu um arrepio quando sentiu o pelo do outro tocar os seus dedos, mesmo que só por um segundo.

— Por que? — perguntou, seu tom de voz um pouco mais gentil, mas carregando aquele peso que ele às vezes tinha, que fazia o gelo se amontoar com mais facilidade nas bochechas de Jack.

— Porque… — Jack hesitou por um momento. Céus, estava ficando mais quente? Jack estava derretendo finalmente? Ele balançou a cabeça. — Somos Guardiões...? E Guardiões ajudam Guardiões...? — Ele ofereceu com um sorriso.

Mais uma pausa, aqueles olhos poderosos continuavam encarando o rapaz como se conseguissem ver sua alma. Jack os encarou de volta, se perdendo naquele mar esverdeado. Ele se perguntou o que Coelhão estava vendo nele, se de algum modo conseguia ver o que ele escondia; aquele pensamento o assustava, mas ao mesmo tempo o deixava um tanto triste. Por que, se Coelhão conseguia ver e nem sequer reagia, aquilo apenas confirmava o que Jack pensava: seus sentimentos não eram recíprocos…

O Pooka bufou, desviando os olhos, o que tirou Jack Frost de seu transe e seu coração bateu um pouco mais rápido ao ver que o outro sorria torto.

— E você lá sabe pintar, garoto? — perguntou o Pooka enquanto deixava o ovinho em sua mão cair no córrego.

— É claro que sei! — Jack revirou os olhos quando recebeu um olhar do outro. — Tá legal, mais ou menos. Eu não sou lá um grande pintor, mas dou umas pinceladas...

Coelhão assentiu, fazendo um som baixo, antes de esticar um pincel na direção do rapaz.

Jack tomou o pincel como se fosse o objeto mais precioso do mundo e observou enquanto Coelhão movia alguns de seus potes de tinta para o espaço vazio entre os dois.

E ele sorriu, sentindo o coração bater mais forte, quando o Pooka também empurrou um ovinho verde em sua direção.

Um silêncio confortável envolveu os dois Guardiões enquanto se ocupavam com os ovos de páscoa.

Coelhão, embora focado em seu próprio trabalho, manteve seus olhos atentos ao trabalho do rapaz ao se lado, só para ter certeza de que esse não estava fazendo o que não devia. Jack claramente não tinha jeito com o pincel, mas ainda assim Coelhão tinha que admitir que o rapaz parecia saber o que estava fazendo em relação à imagem que criava. Ele parou e pensou que aquilo até que fazia sentido, a julgar pelos designes complexos e detalhados que ele já tinha visto nos flocos de neve que Jack conseguia criar com um simples gesto de sua mão.

Coelhão se encontrou observando Jack trabalhar, o modo como o rapaz se focava, as sobrancelhas apertadas em uma linha firme e a língua as vezes aparecendo entre seus lábios. Fora de momentos em combate, Jack quase sempre tinha uma expressão calma e relaxada, raramente se focando demais nas coisas. Não que Coelhão notasse muito! Ele simplesmente nunca tinha esperado encontrar o espírito do inverno em uma situação tão confortável e silenciosa como aquela!

O Guardião da Esperança balançou a cabeça e o mais novo notou.

— O que? Não estou fazendo um bom trabalho? — O rapaz sorriu torto, embora pudesse sentir seu coração bater mais rápido com a possibilidade de estar fazendo algo errado.

Coelhão inclinou a cabeça levemente, seus bigodes tremendo enquanto ele examinava o ovinho enfeitado. Jack tinha usado a tinta azul clara, fazendo seus desenhos se destacarem na camada de degradê rosa e roxo que já cobria o ovinho. Era totalmente diferente do que o Pooka normalmente criava, algo que praticamente gritava "Jack Frost" tanto quanto os flocos de neve que o garoto criava.

— Tão ruim assim…? — Jack fez piada, um pouco nervoso com o silêncio do outro guardião.

— Nada mau — disse Coelhão e Jack notou como suas orelhas tremeram, abaixando levemente, como se ele estivesse sem jeito, antes de voltar sua atenção para seu trabalho

O coração de Jack bateu mais forte. Um "nada mal" de Coelhão era um dos melhores elogios que ele já tinha recebido do Pooka. E o modo como o outro tinha reagido… Jack sabia que não queria dizer nada mais sério, mas ele se permitiu se segurar àquela reação, marcando-a em sua memória.

— Heh, tem razão! — Ele sorriu, admirando seu trabalho. — Ficou bem legal! Porque eu nunca fiz isso antes?

Aquela pergunta se cravou em sua mente do mesmo modo que a reação adorável de Coelhão. Jack deixou que o ovo pintado se juntasse aos demais, e ergue um outro, que correu até ele, esperando para ser pintado.

Ele já quis ajudar o Guardião da Esperança antes (muitas vezes), mas nunca tinha tomado o primeiro passo. Afinal, por que Coelhão iria aceitar sua ajuda depois daquela bendita nevasca de 68? Jack balançou a cabeça, afastando aqueles pensamentos e se focando no ovinho verde.

— Quantos ovos você ainda tem que pintar, Coelhão? — perguntou, tentando se distrair.

Coelhão parou, contando em silêncio.

— Mais de dois milhões... — disse como se não fosse nada.

Jack sempre tinha admirado o que Coelhão tinha que fazer todos os anos, sem contar o fato de que ele sempre participava do processo de esconder ovos por todos os cantos do mundo em apenas um só dia.

Sim, Norte fazia praticamente o mesmo todo o ano, mas ele tinha os yetis para ajudar e seus portais mágicos, tudo o que Coelhão tinha eram seus longos túneis e ovos que, por sorte, podiam esconder a si mesmos caso o Pooka não pudesse fazer tal coisa.

O Guardião da Diversão momentaneamente esqueceu o ovo que pintava, novamente se focando no grande coelho sentado ao seu lado. Jack gostava de caçar os ovos assim como as crianças faziam, ele gostava de ver as cores que Coelhão usava, os padrões que ele criava, todos eram tão diferentes, nenhum era igual ao outro.

O Coelhão se esforçava tanto em seu trabalho, com uma criatividade que parecia quase infinita…

Era uma das coisas que Jack gostava nele.

Já fazia um bom tempo que Jack estava apaixonado por Coelhão. A princípio ele negou tal coisa, sem poder aceitar que tinha, de algum modo, caído de amores pelo "canguru"; até tentou encontrar desculpas para sua atração, mas depois de um tempo parou de tentar. Ele já mentia para todo mundo sobre seus sentimentos, então de que adiantava mentir para si mesmo?

Ele tinha gostado do Pooka alguns anos depois da primeira vez que tinham se conhecido. Jack gostava do porte de Coelhão, de como esse se carregava de modo confiante; ele gostava da cor cinza-azulada do pelo do outro e das marcas em forma de flor que ele tinha; gostava da voz sexy do outro, daquele sotaque australiano; gostava dos olhos verdes e arrebatadores dele, cheios de vida.

Mas não era só a aparência do Pooka que atraia o rapaz. Jack gostava de ver como, mesmo com aquele ar poderoso e perigoso que ele sempre parecia emanar, Coelhão era doce e gentil. Quantas vezes Jack não tinha o visto com outros animais pequenos, carinhosamente falando com esses, dando-lhes atenção, carinho e comida às vezes. Sem contar aquele momento em que Jack tinha o visto com Sophie, o modo como ele segurou sua mão com delicadeza e a acalentou em seus braços… Jack sentiu como se seu coração fosse derreter naquele mesmo instante.

— Ei, Frostbite. — Jack saiu de seus devaneios, notando que, pela expressão do Guardião ao seu lado, ele esteve encarando o outro em silêncio por um bom tempo. Coelhão parecia desconfortável. — O que foi?

— Ah! Nada! Tá tudo bem! — Jack voltou a atenção para o ovo em que tinha pintado um ou dois riscos cor-de-rosa e nada mais.

— Não vem com essa. — Coelhão soltou um som baixo e Jack quase pulou ao sentir uma pata grande e quente tocar seu ombro. Ele se voltou para o outro guardião de modo tenso. A expressão no rosto de Coelhão era difícil de descrever. — Você anda esquisito, moleque...

— Ando? — Jack sorriu, tentando agir como se o toque não tivesse um efeito nele.

— Anda. — O símbolo da Páscoa cruzou os braços e Jack tentou ignorar como se sentiu saudade do peso sobre seu ombro. — Você tem agido estranho desde que derrotamos Breu. Todos notamos isso.

O garoto sentiu o rosto ficar ainda mais gelado e tentou esconder a face azulada. Ele nem sabia se se sentia melhor sabendo que os outros Guardiões tinham notado aquilo ao invés de ser só o Coelhão.

— Tem certeza que você está bem...? O seu rosto está azul…!

E então Jack congelou quando sentiu dedos felpudos contra sua bochecha. O calor do outro o envolveu totalmente, quase o fazendo se sentir abafado, mas ele não podia reclamar, ele nunca iria reclamar. Quantas vezes ele já tinha se perguntado como aquele toque devia ser contra sua pele, aquele pelo cinza azulado…

Jack levantou o rosto e seus olhos azuis se encontraram com dois grandes olhos verdes mais uma vez, e o mundo desapareceu por um momento.

— Jack?

— A-ah- É o calor! — Jack soltou sem pensar muito. Sua reação tão repentina que Coelhão puxou a mão para longe com rapidez, como se tivesse acabado de notar o que tinha feito. — É… é, o calor da Toca. — O rosto de Jack ficou ainda mais azul com vergonha, e em parte com tristeza, ao ver a expressão do Pooka voltar a ficar desconfortável. Jack abaixou os olhos para a pata de Coelhão que tinha tocado seu rosto. — Isso é só o gelo pra tentar me impedir de derreter…

— Ah. — Coelhão moveu os dedos, os esfregando um contra o outro. — Faz sentido. — Jack ergueu o olhar e notou que as orelhas de Coelhão tinham caído novamente, seus bigodes tremeram levemente, e ele virou os olhos, escondendo o rosto do espírito do inverno. Ele se ajeitou no lugar em que estava, pegando o pincel e voltando a trabalhar. — Você pode ir embora se quiser. Eu posso cuidar disso sozinho.

Jack se surpreendeu com a repentina mudança na voz do outro. Não era o tom de sempre, mas um tom mais suave, quase doce… e Jack dessa vez se sentiu desconfortável, sem saber o que aquilo queria dizer, e se sentindo incomodado com o modo que Coelhão tinha o mandado embora, como se ele fosse uma criancinha que estava incomodando mais que ajudando.

— Eu sei… — Jack se voltou para o que estava fazendo também. — Deixa eu só… terminar esse aqui…

Os dois trabalharam em silêncio, sem sequer olhar um para o outro.

Um misto desconfortável de sentimentos fez a barriga de Jack doer e ele se sentiu irritado consigo mesmo. A última coisa que ele queria era deixar Coelhão desconfortável, ou de algum modo deixar que seus sentimentos arruinassem uma amizade que, claramente, ainda andava na corda bamba. Ele sabia que Coelhão ainda carregava mágoa daquela bendita nevasca, afinal, mas que o Pooka também admitia ter um pouco mais de respeito por ele depois dele se tornar um Guardião e ajudar a derrotar o Bicho Papão.

Tudo o que ele podia esperar, ele sabia, era uma amizade, e ele tentaria tomar todos os cuidados possíveis para impedir que seus sentimentos arruinassem aquilo.

Jack se colocou de pé, após gentilmente deixar que o ovinho que ele tinha terminado de pintar corresse para se juntar aos outros. Coelhão nem se moveu.

— Se precisar de ajuda pode me chamar — disse por fim e tudo o que Coelhão fez foi assentir com um som baixo.

Sentindo o estômago revirar mais uma vez, Jack pegou o cajado do chão, girando-o no ar e voando de volta para o portal principal, sem notar que Coelhão tinha se virado para o observar em seu caminho.