A Garotinha: Sherry

8 Alexander Ashford Parte 1


Notas iniciais
"Eis um teste para saber se você terminou sua missão na Terra: se você está vivo, não terminou." - Richard Bach


Pelo menos tudo está claro. Se eu tiver um pouquinho de sorte, eu encontro aquela voz de novo. Me sinto um pouco estranha ao lembrar dessa voz... é tão... Não tenho palavras.

Estou na Jack Street agora e não sei exatamente para onde ir, mas sinto algo mais forte aqui. Olho pro meu medalhão de ouro no pescoço enquanto corro, vendo o bater no meu tórax. Me sinto estranha.

A névoa ainda recobre a cidade, embora a luz do sol tenha aparecido. Sinto que o dono daquela voz está por perto, então preciso encontra-lo o mais rápido possível...

Antes que o papai saia da escola e me encontre!

Começo a correr ainda mais até avistar um bar. Os prédios aparentemente abandonados envolvem a rua. Percebo também uma grande quantidade de carros abandonados, que não deveriam estar ali. Parece até que houve alguma catástrofe com esse lugar que todos tinham que sair às pressas.

Decido entrar no bar após dar alguns passos. Dou uma rápida olhada pelo vidro e vejo sentado um homem que não parece surpreso em me ver, pelo contrário. Ele já esperava por minha chegada. Abro a porta e entro.

–Aléxia... –reconheço imediatamente a voz – que bom que você veio até mim.

Sinto de certa forma uma paz que me gera uma inquietação. Não sei explicar, mas me sinto atraída de alguma forma... sinto como se houvesse uma relação de afeto entre nós, mesmo não sendo a Aléxia que ele citou.

–Eu... me chamo...

–Shhh... Vai ficar tudo bem mocinha. Agora preciso que você se esconda atrás do balcão, ali no meio e não fale uma palavra se quer. Seu pai está vindo aqui, não queremos estragar a surpresa agora, queremos?

Percebo alguma coisa brilhando em seu pescoço... parece alguma forma de pingente... uma pedra preciosa talvez. Eu assinto com a cabeça.

–Boa garota, sempre soube o quanto você é obediente, Aléxia. –Ele me olha como se duvidasse de alguma coisa de mim.

Decido me colocar atrás do balcão. O homem começa a cantar e, aos poucos me sinto leve, me sinto bem. Começo a pegar no sono.

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Continuo correndo. Finalmente entro na rua do bar, acho que a Jack Street. Dou uma olhada para trás, o rádio continua chiando. Vejo dois ou três cães... cães que pareciam estar mortos. Eles estão me perseguindo desde que saí daquela bendita escola. O cheiro de podre ainda está um pouco impregnado em minhas narinas, o cães continuam me perseguindo... Olho para trás novamente e percebo que desistiram. Desacelero o passo. Continuo olhando pra trás, para os cachorros que mais parecem demônios. Vejo o pelo rasgado de um, o focinho em decomposição de outro... acho que não vou suportar.

Vomito no chão, meus olhos lacrimejam. Não consigo conter, estou preocupado com Sherry e ainda por cima me sentindo doente. Essa cidade está acabando comigo, preciso sair daqui logo. Meus ombros ainda doem. O rinoceronte e Varla fizeram um bom trabalho pelo visto. Continuo caminhando entre as cinzas da rua, ainda ofegante. A névoa invade meus olhos, narinas... E as cinzas cobrem meu cabelo.

Espero que Jill esteja me esperando sentada com uma caneca de café. Sinceramente, acho que é tudo que preciso agora. Se não encontra-la, tomarei o energético e vou ter que me virar com as balas. Não vou aguentar muito sem elas.

Começo a me aproximar do J’s Bar. Tudo parece silencioso. O rádio também não chiou mais, então não tem criaturas por aqui. Chego à entrada e vejo através das janelas quebradas alguém sentado de costas para mim. Entro. Imediatamente, ele vira e olha nos meus olhos. Vejo um homem alto fitando-me da cabeça aos pés. Lembra um pouco a mim mesmo. Branco, alto... o cabelo loiro curto ligado a uma barba que parece bem cuidada. Olhos azuis e uma expressão de preocupação. Ele caminha um pouco mais para perto de mim.

–William?

Me sinto desprevenido. Como ele poderia saber meu nome?

–Calma William! Sei o que você veio fazer aqui. Eu sei praticamente de tudo.

Não sei o que pensar. Como ele poderia realmente saber de algo? Claro que, Varla me pareceu muito estranha... Mas como ele pode saber tanta informação assim? Sinto raiva subir à minha cabeça.

–É espertinho? E por acaso você é alguma espécie de bruxo?

Ele me olha, avaliando-me. Se ele souber de alguma coisa a respeito de Sherry, ele vai falar ou aguentar as consequências. Sinto minhas forças sendo reestabelecidas.

–Eu não usaria essa palavra, mas se fica melhor para sua compreensão, eu diria que sim. Me chamo Alexander Ashford. –Ele me estende a mão.

–Dispenso cortesias. –Respondo rispidamente.

–Tudo bem então... –ele recolhe a mão –sei que você veio aqui atrás de uma garotinha.

–Como... sabe?

–Falei que sabia de praticamente tudo. Digamos que pertenço a uma religião característica dessa cidade e que tenha uma provável explicação para o que está acontecendo aqui.

–Pouco me importa para essas explicações! –Cuspo as palavras que surpreendem ele. –Eu quero saber de Sherry!

Ele se recompõe do susto, ajeita a gravata por baixo do terno preto.

–Acho que você deveria agir mais calmamente. Uma vez que posso descobrir o paradeiro de sua garota.

O seu tom de calma repentino me irrita. Eu não costumo ser uma pessoa muito estressada ou violenta, mas a droga dessa cidade está me irritando! Estou cansado disso tudo, preciso logo encontrar Sherry. É bem provável que esse idiota tenha alguma coisa a propor, então creio que o melhor a se fazer é manter realmente a calma e analisar as situações e possibilidades... E pelo visto, Jill nem apareceu ainda. Temo por ela, e se tiver acontecido algo?

–O que você quer? –Pergunto desarmando-me.

–Bem... Creio que você percebeu que as coisas andam um pouco estranhas na cidade, certo?

–Sério? Lógico que estão estr...

–Deixe-me terminar, por favor.

Respiro fundo e tento não interromper.

–Bem, preciso que você me ajude a ajeitar as coisas por aqui. Como disse, faço parte de uma religião aqui. Vejo que tudo isso foi causa de uma obra das trevas, perceba pelo que você encontrou. Nada disso pode ter sido obra de Deus.

–E como eu entro nessa história?

–Deixe-me terminar, sim?

–Ok. –Tranco a cara.

–Então, preciso que você encontre o demônio que está causando isso. Ele está estabelecendo uma marca na cidade. Você precisa para-lo antes que ele complete as marcas e seja tarde demais. Asseguro-te que, nem eu, nem você e tão pouco sua filha resistirão ao que vai acontecer caso ele consiga. Você precisa parar o demônio, William, por amor a Sherry.

Começo a refletir nas palavras dele. Se ele estiver certo, o que já estou me convencendo, não permaneceremos se esse “demônio” fizer o que está para fazer. Eu queria não acreditar nisso, mas por tudo que já passei até agora, talvez ele esteja falando a verdade. Mas... porque que ele não faz isso, já que pertence a uma religião?

–Alexan...

–William, eu preciso contar com você. –Ele tira algum objeto do bolso. –Este é o TriCell. Esse objeto tem força suficiente para parar o demônio e consequentemente as trevas que ele está trazendo. Se você conseguir, te ajudo a encontrar Sherry.

–Tem certeza que não a viu?

–Tenho sim, William. Não conheci ninguém com esse nome ainda.

Eu sinto como se ele estivesse escondendo alguma coisa, mas a esta altura eu já nem sei como procurar, o que fazer... se parar esse “demônio” fará com que eu encontre Sherry e saia logo dessa cidade, então vou fazer logo isso de uma vez.

–Ok, eu aceito fazer isto. Agora me diga, onde posso encontrar esse demônio?

–Você precisa sair agora, se não chegará tarde de mais. Tome o TriCell e vá até o Raccoon Hospital. É o próximo lugar onde ele vai estabelecer a marca. Mas você precisa ir agora mesmo.

–Certo. –Pego o objeto. É composto por três pentágonos prateados interligados. Coloco na mochila.

–Só uma pergunta: você viu alguma policial chegando aqui?

–Não.

–Ok, então.

Ainda com a mochila aberta, tiro o outro frasco de energético e bebo um gole. Estou me sentindo melhor.

–William?

–Sim? –Me viro antes de sair pela porta.

–Tome essas balas, talvez precise.

Estendo a mão e pego a caixa com 18 tiros. Coloco na mochila, pretendendo recarregar logo depois que deixar esse cara. Ficar perto dele me faz sentir mal. Começo a caminhar, puxando o mapa e dando uma rápida olhada. A caminhada parece longa, mais pretendo ser o mais rápido possível. Fico me perguntando quanto tempo um “demônio” leva para se deslocar.

Fecho a mochila. Paro alguns minutos para recarregar a arma, afinal, terei que passar pelos cachorros novamente. Recarrego, e continuo caminhando em direção ao que parece ser um monte de névoa e cinzas.

Notas finais
William volta ao J's Bar procurando por Jill. Ao chegar, ele se depara com uma nova figura: Alexander Ashford que parece conhecer muito sobre os acontecimentos que rondam a cidade. Ao conversar com ele, William descobre que provavelmente a Raccoon City está daquela forma por causa de um "demônio" que pode e precisa ser parado antes que leve toda a cidade e todos que estão nela, inclusive Sherry, à algo pior. Alexander promete ajudar na busca de Sherry, uma vez que William pare o demônio. Ele não vê outra opção a não ser tentar.