Notas iniciais
Bom, espero que gostem. Logo avisando que essa historia vai ser bem clichê.

Existe tragédias que fazem as pessoas crescer, aquelas pessoas que são acostumadas com uma rotina de vida e fechadas em mundo só delas. Minha tragédia aconteceu quando eu tinha 18 anos, eu estava no primeiro ano de faculdade em pedagogia e lembro muito bem do telefonema da companhia aérea, da dor que eu senti.

Meus pais estavam em avião indo para Seattle, tudo indicava que iriamos nos mudar para lá, minha mãe estava com câncer de mama e apenas no Hospital de Seattle tinha o tratamento adequado para ela até que houve uma complicação no motor e o avião caiu.

Eu iria continuar no Brasil, para terminar a faculdade e tudo mais, e o fiz. A companhia aérea pagou uma indenização para as famílias das vitimas e como meus pais só tinham a mim, eu tive que lidar com tudo, o dinheiro da indenização ficou guardado no banco para que eu tivesse um pé de meia para caso houvesse uma emergência, eu arrumei um emprego em uma loja de roupas no shopping e terminei a faculdade. Eu tinha dois amigos próximos, Carina e João, eles haviam se mudado para a maldita Seattle onde iriam montar uma escola para crianças brasileiras e americanas com interesses na nossa língua, eles haviam me chamado para ir e entrar na sociedade com eles, porém eu não queria pensar tão cedo em viajar e muito menos viajar para Seattle.

Hoje, eu tenho 24 anos e faz três anos que terminei a faculdade, trabalho em uma escola aqui na minha cidade, Fortaleza, e confesso que eu sou acomodada com minha vida.

Eu estava guardando o material da aula e iria apagar o quadro, quando a diretora da escola entrou na minha sala.

- Ana, você pode vir na minha sala um instante? – Miranda era baixinha, tinha um corte de cabelo até a metade da orelha e olhava pra gente como se fosse nos cortar em pedaços.

- Claro, irei em um minuto. – falei colocando o apagador na mesa e a acompanhando até a sala da diretoria. Ela se sentou e fez menção para que eu me sentasse também.

- Ana, você sabe que estamos passando por uma situação complicada, onde perdemos várias crianças e isso reduziu muito a parte financeira da escola. É muito triste ter que falar isso pra você, uma professora excelente e qualificada, mas não temos mais condições de arcar com seu salário. – ela disse olhando pra mim e mexendo na caneta, um grande nó se formou na minha garganta e obriguei-me a engolir o caroço. Dei um leve pigarro e olhei pra Miranda.

- Eu entendo perfeitamente, Miranda e eu só tenho agradecer pela oportunidade que a senhora me deu na sua escola. – Graças a ela eu sai do shopping e reconstruí minha vida.

- Eu sinto muito Ana. – ela esticou a mão para segurar a minha – Nós vamos pagar tudo o que você tem direito, não se preocupe. Você é ótima professora e irá conseguir algo melhor.

Sorri de volta e me levantei, indo até a sala dos professores recolher minhas coisas. Hoje havia sido o ultimo dia de aula, as férias havias começado e ali estava eu, desempregada. Eu era uma mulher órfã e desempregada, eu não estava ali pelo dinheiro, obvio que o dinheiro era importante, mas eu gostava de dá aula para as crianças.

Peguei minha bolsa e algumas coisas que havia deixado no armário e saí, pensei em ir a praia e caminhar, mas eu estava com dor de cabeça o suficiente para apenas me jogar na cama e dormir um mês inteiro. Entrei no carro e dei partida, o transito estava infernalmente engarrafado e eu já não conseguia mais ouvir meus pensamentos devido a tanta buzina. Olhei pelo retrovisor a imensidão de carros atrás de mim e parecia um mar inteiro deles, quando eu pensei que morreria ali, a fila de carros começou a andar.

Cheguei em casa e fui direto ao banheiro tomar um banho, me olhei no espelho, praticamente não reconhecendo a garota do reflexo. Meu cabelo estava opaco, não parecia o castanho avermelhado de uns anos atrás, meus olhos estavam escondidos pelas olheiras e eu estava pálida que parecia um cadáver. Eu era um cadáver havia seis anos.

Ao sair do banheiro, tomei um advil para a dor de cabeça, liguei pra pedir um sanduiche com refrigerante e abri o computador para da a boa nova para Carina que para minha surpresa, já havia uma mensagem da mesma a minha espera.

Oi Ana,

Sinto muito dizer isso por e-mail, mas eu não tinha como ligar, o João sofreu um avc e não resistiu. Me liga.

Sinto muito.

Carina.

Acho que se tivesse um buraco no qual eu pudesse cair dentro, eu não cairia, pois eu já estava dentro do buraco. Não hesitei e procurei passagens para os Estados Unidos, iria imediatamente para Seattle, depois de passagens compradas, enviei a resposta para Carina.

Eu estou a caminho.

Ana.

Eu embarcaria no dia seguinte ao meio dia, então eu tinha pouco tempo pra fazer a mala. Coloquei algumas roupas de frio, de calor e decidi em levar logo todas as roupas que eu tinha, em algum lugar da minha mente eu não queria voltar e finalmente eu ia viver a minha tão planejada vida em Seattle. Coloquei um anuncio de aluguel do meu apartamento, mandei um e-mail para Miranda enviar meu pagamento na minha conta e expliquei o motivo da partida. Talvez eu estive sendo precipitada demais, mas eu não podia deixar Carina sozinha lá e não iria continuar sozinha aqui.

No dia seguinte, antes de ir para o aeroporto, falei com minha vizinha Luiza, ela morava sozinha e as vezes saiamos juntas pra comer ou conversar, pedi que apresentasse o apartamento para as pessoas que quisessem visitar e qualquer coisa poderia me ligar. Eu mal havia dormido fazendo as malas, resolvendo assuntos financeiros e esperando a resposta da Carina, o advil tinha aliviado a dor de cabeça e foi o motivo de eu ter feito toda a burocracia em uma noite só.

Dormi durante todo o voo, estava cansada e acordava apenas para comer e ir ao banheiro. Cheguei de tardezinha do dia seguinte a viagem e Carina estava lá me esperando. O cabelo preto estava preso em um rabo de cavalo e ela usava um vestido preto, a pele morena estava quase opaca, não parecia a Carina que eu conhecia.

- Obrigada por ter vindo. – ela disse e me abraçou. – É muito importante você está aqui.

- Eu sei, vai ficar tudo bem.

Fomos pra casa e conversamos por todo trajeto, ela estava triste porem ainda era a mesma falante de sempre, contei pra ela da demissão e que havia finalmente dado uma chance para Seattle.

- Eu sinto muito e fico feliz ao mesmo tempo, Ana. – ela sorriu.

- É, acho que o destino quer que eu fique por aqui mesmo, sabe quantas vezes cogitei em morar aqui depois do... – abaixei a cabeça e respirei forte – Não importa, eu vim pra ficar com você.

- Você vai gostar daqui, chove muito e é algo que você adora, sem contar os pub’s aconchegantes que tem. Ah, Ana, eu tô me sentindo muito melhor agora.

Sorri pra ela e me olhei à chuva caindo pela janela do carro, o céu estava cinza e parecia que não ia parar de chover tão cedo. Seattle estava representando minha vida. Cinza.

Notas finais
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Beijosss