A Garota Da Capa Vermelha - Continuação.
16 VILAREJO – Capítulo 16
Notas iniciais
POV HENRY
Nenhum sonho, nenhum pensamento, jamais sequer me fez antecipar o que eu estava sentindo naquele momento.
Esta mulher tão linda, que eu sempre amei e desejei, finalmente estava em meus braços. Sinceramente, eu não consegui acompanhar direito o que aconteceu, como as coisas tomaram aquele rumo, eu só sei dizer, que eu não tinha forças para parar, ou para controlar aquilo.
Era um misto de sensações impressionantes. Aquele beijo tinha algo poderoso. A cada gesto, ele evoluía e a cada minuto ia se transformando em algo ainda mais potente.
O simples toque dos nossos lábios, enquanto ela pronunciava suas últimas palavras, que denunciavam, o quanto naquele momento ela queria aquilo, e que estava totalmente consciente de suas ações, fez percorrer um calor intenso, por cada parte do meu corpo, mas, concentrando-se com mais profundidade em meu baixo ventre. Meu Deus, como eu a desejo, e cada vez com mais intensidade.
Quando pedi passagem com minha língua, surpreendentemente, ela não hesitou. Muito pelo contrário, era retribuiu, primeiro com ingenuidade, como se buscando entender o quanto eu estava disposto a aprofundar-me naquilo. No entanto, quando eu intensifiquei o beijo, as carícias e as reações, aquela busca por contato por cada milímetro de nossas bocas ficou feroz, tanto para ela quanto para mim.
E de cada ponto onde nossos corpos se tocavam, irradiava pura eletricidade. Era algo vigoroso, arrebatador, que produzia em meu interior, uma energia com um misto de revigoramento, cura, fazendo-me sentir inteiro, completo, como eu nunca senti antes, e eu não pude deixar de pensar: Se um beijo dela tinha o poder de me fazer sentir aquilo, imagina... imagina o dia que eu puder toma-la por completo para mim, com mais intimidade. Meu Deus, não era possível nem dimensionar.
Assim, que percebi, que rumo os meus pensamentos estavam tomando, reuni todas as minhas forças para me controlar. Eu não poderia de maneira nenhuma ceder aos meus impulsos, daquele instante. Eu já estava recebendo muito mais do que eu esperava, por agora, e deveria me contentar com isto, pelo menos por enquanto. Uma coisa, um passo, de cada vez. O que me fez pensar no que aconteceria após aquele beijo?
Esta percepção me trouxe medo, qual seria a reação dela? O que a motivou a fazer aquilo? Bom, recapitulando as suas últimas palavras, ela disse que... como mesmo? Ah... “— Eu também, eu estava pensando nisto e eu quero, eu vou... beijá-lo”. Bom, ela queria, ela estava consciente. Pelo menos, naquele momento, ela queria tanto quanto eu, mas a pergunta era por quê?
Mas isto me fez lembrar, de que eu precisava ir com calma, para não a pressionar e não a assustar, eu precisava mesmo seguir o conselho de Suzete, precisava não, eu preciso. Eu preciso deixar as minhas marcas e impressões nela, coisas que venham fazê-la pensar em mim, sentir minha falta, mostrar o quanto a minha presença em sua vida pode ser tão necessária.
E eu já estava começando a fazer isto, ficando aqui por ela, cedendo para dormir ao seu lado, mesmo tendo que lidar com todos os meus temores, dizendo a ela que eu quero reformar o chalé para ela. Mas, eu precisava fazer mais, algo que fosse inesquecível, um traço, uma marca, que produzisse um efeito que todas as vezes que ela memorasse aquilo, remetesse-a a mim, a perceber que ela só poderia ter ou sentir aquilo ao meu lado.
Enquanto pensava nisto, algo me ocorreu, eu posso sim, fazer mais, uma coisa, por exemplo, seria preparar o chalé durante o seu tempo fora, o que por si só, seria uma imensa surpresa, e o simples fato de imaginar sua reação quando chegasse me fez ter certeza que sim, este seria um caminho, eu iria fazê-lo.
Contudo, ainda há mais, há algo que de certa forma, eu sei que ela sabe, mas eu nunca tive a oportunidade de dizer desta maneira, e após um contato tão intenso como este, eu não poderia deixar escapar a oportunidade.
Nós já estávamos há algum tempo no beijo, e o ar já faltava para nós dois, então, eu sei que a qualquer momento, iríamos nos separar a procura de ar, e antes de ficar preocupado com o depois, com a sua reação, me concentrei no que eu iria fazer.
E assim, que nos separamos, como que para confirmar o que eu estava planejando, ela me deu um sorriso tão radiante, carregado de uma felicidade que eu não a via sustentar faz muito tempo, o verde de seus olhos, tinham um brilho e uma vida, que pareciam faiscar de alegria. Então, eu simplesmente a retribui, com um sorriso, que demonstrava vitória, júbilo, e amor, não podendo mais me conter, eu disse:
— Eu. Amo. Você. Valerie! – Continuei a abraça-la. E ao me ouvir, ela acariciou meu rosto, com carinho, nos aproximando novamente e novamente me beijou, mas agora, o beijo era calmo, singelo. Como se ela quisesse absorver a intensidade e emoção de minhas palavras, e quando nos afastamos, seu olhar era doce, meigo, e ainda me olhando ela respondeu.
— Eu sei, e quero que você saiba, que, eu fico imensamente feliz por você não ter desistido de mim, porque, agora eu posso ter certeza, que se isto houvesse acontecido, eu iria me arrepender profundamente. Por que, neste momento, eu tenho a plena convicção que, você, exatamente você Henry, como você é, a maneira de você agir, a maneira de você me amar, é exatamente tudo, tudo que eu preciso no mundo neste momento! Eu ainda não posso dizer que eu amo você, você sabe disto, porém, uma coisa eu posso dizer: Você é muito especial para mim, e certamente é uma das pessoas que sem a qual, a partir de hoje, eu não conseguiria viver. Você faz, parte de mim, do que eu sou, do que eu estou me tornando, da minha história Henry Lazar.
Ela me disse cada palavra com tanto carinho, tanto afeto, tanta sinceridade, que aqueceu o meu coração e a minha alma. Como eu amo esta mulher, que agora, eu já poderia contemplar que um dia será minha, sim, minha mulher.
Sorrimos um para o outro. E o sol, começou naquele momento, a nos dar o ar de sua presença naquele jardim, nos tirando daquela redoma de pura felicidade. Trazendo-nos de volta. Foi quando eu falei:
— Vamos, se não iremos nos atrasar, não que eu não queira ficar aqui, eu congelaria este momento para sempre. No entanto, temos deveres a cumprir que nos espera, o que me lembra, lembre-se do desenho, coloque tudo ali para mim, e mais tarde, falaremos a respeito.
Eu estava decidido a fazer a reforma do chalé em sua ausência, fazendo-lhe uma surpresa quando ela voltasse da viajem. Tive o desejo de pergunta-la como seria o nosso comportamento na vila, porém, eu fiquei com receio de ela se sentir pressionada, então, eu resolvi deixar as coisas acontecerem.
Entramos, terminamos de fazer o que restava na casa e também para vestir o meu casaco, e ela, a sua capa, mas, eu notei-a me olhando quando peguei o casaco, e lembrei-me da reação dela ao me ver sem ele com esta camisa justa, ela hiperventilou visivelmente, só que claro, eu jamais a deixaria desconfortável, fiz questão de suavizar o clima agindo com casualidade, tenho que admitir, eu sou muito bom nisto. Talvez por que realmente detesto deixar as pessoas desconfortáveis. Mas, às vezes, acontece, não tem jeito.
Dei-me conta de que ela nunca me viu assim, e talvez eu parecesse “provocante” para ela. E, talvez... fosse a hora de descobrir. E acho que comecei a ter algumas ideias que eu poderia usar para seduzi-la aos poucos, nada muito drástico, mas, que sim, pudesse causar reações, impressões, afinal, esta era a minha estratégia, a minha meta, deixar as minhas impressões, as minhas marcas sobre ela.
Ela estava maravilhosa naquele vestido verde. E seus cabelos, que por sinal eu amava, estavam quase secos, devido ao tempo que ficamos lá fora.
Eu deixei o casaco novamente, aproximei-me dela, observando as suas reações enquanto absorvia o que eu estava disposto a fazer, e quando eu estava a milímetros de distância, eu envolvi a sua cintura com uma mão, enquanto, acariciava seu rosto com a outra, ela não hesitou, apenas fechou os olhos aconchegando seu rosto em minha mão e absorvendo a sensação, enquanto suas mãos pousaram-se sobre o meu peito, acariciando com delicadeza. Era como se os seus dedos, quisessem explorar cada reentrância do meu abdômen, como se estivesse fazendo um mapa mental daquela região. A sensação era maravilhosa. E a reação dela validava o que eu havia acabado de pensar sobre as estratégias de seduzi-la, eram coisas que eu poderia fazer, simples, seguras, mas, que certamente deixariam marcas, impressões.
Sei que ela havia experimentado “intimidade” com o Peter, no entanto, era diferente. Primeiro, por que eles não esperaram, e eu não os julgo por isto, eram outras circunstâncias, outra realidade, mas, a verdade é que, tiveram acesso a isto de uma maneira mais fácil, o que também fazia parte um pouco da personalidade de Peter, de chegar, tomar posse das coisas sem pedir permissão, ele era assim, era o jeito dele, e ele vivia bem com isto. Mas, eu não.
Eu sou diferente. Então, eu sabia que experiência alguma que ela pudesse ter experimentado, seria como comigo, eu era paciente, mais cautelo, tinha herdado alguns princípios de minha mãe, embora tenha vivido tão pouco com ela. Comigo ela poderia experimentar expectativa, espera, e, de certa forma, o meu temperamento era o meu aliado para isto. Eu poderia fazê-la prolongar certas sensações, emoções e expectativas, eu era bom nisto.
Desta forma, eu decidi que seria assim que eu agiria, até alcançar meu objetivo, seduzi-la a mim, e fazê-la me amar, perdidamente. Dar a ela algo bom para experimentar na medida certa, provoca-la, deixa-la curiosa, e em seguida, agir naturalmente, negando sutilmente o restante, deixando-a ávida, desejosa por mais. Sim, esta seria a minha estratégia, isto seria o que eu iria fazer.
Então para começar, gentilmente desci minha mão de seus cabelos ainda a observando, e toquei e acariciei seu rosto, dando um beijo cálido em seus lábios, e instantaneamente, afastei-me. Tirando-a daquele torpor de uma forma brusca, porém, sutil. E como eu previ, ela esboçou reação de frustração mordendo o lábio inferior. O que me enviou uma onda de desejo de voltar a beijá-la intensamente. Me contive, mantive-me casual. Então, falei...
— Me esculpe, eu adoraria passar a eternidade assim com você, mas vamos nos atrasar.
Eu falei com o olhar mais ingênuo que eu podia. E ela visivelmente se esforçou para recuperar o equilíbrio, tomou a minha mão que estava estendida para ela, para conduzi-la para fora da casa, e fomos.
Fora da casa eu fui em direção ao cavalo preparei-o rapidamente.
Vesti o meu casaco. Então a tomei em meus braços colocando-a sobre o cavalo, sentada de lado. Em seguida, eu subi e começamos a cavalgar até a vila.
Percebi que sua cabeça estava erguida e seu rosto estava virado para mim, me contemplando, era como se ela quisesse dizer algo, mas estava relutante. Então, lhe perguntei:
— O que foi? – Depois de mais alguns minutos ela respondeu...
— Como vamos agir... Ao chegarmos à vila?
Eu sabia, sabia que isto a estava preocupando, assim, como a mim, então, simplesmente eu falei...
— Haja como você quiser, e eu te seguirei. – Ela envolveu minha cintura com os braços num abraço aconchegante, afundou o rosto em meu peito, respirando profundamente, enquanto eu tirava uma das mãos das rédeas e a envolvia. Então, ela ergueu de novo a cabeça olhando em meus olhos e disse:
— Não tenho por que esconder, eu não devo nada a ninguém, e de certa forma, eu acho que todos deviam contar com isto de alguma maneira.
— Contar não, você quer dizer, torcer desesperadamente por isto, não é? – Eu sorri por que era verdade, haviam pessoas na vila, que desejam muito que eu me case com Valerie: a mãe dela, a minha vó, Prudence, Rose, Rox, Cedrico, suas famílias e muitas outras pessoas. Tenho certeza que este passo trará alegria a muitas pessoas.
— É verdade, eu tenho que concordar com isto. E no mais, para mim é um prazer enorme estar ao seu lado, então, caso eu sinta a sua falta, nada me impede de poder ir à ferraria te ver. A não ser, que, você não queira. Ou que vá te atrapalhar.
— Claro que não vai me atrapalhar. Nada me deixaria, mas feliz, que poder colocar meus olhos em você durante o dia, para mandar embora, as tensões e desgastes do trabalho, faça isto quando quiser, quando sentir vontade. Ah, e Valerie, mais uma vez, não se esqueça do desenho, tudo bem?
— Claro, eu não vou me esquecer, e assim, que eu tiver uma oportunidade, eu vou trabalhar nele. E a propósito, eu quero te agradecer pelo que vai fazer por mim, e também dizer que fiquei impressionada com seu talento com o desenho, e olha que você disse que é só um esboço.
— Por nada, não agradeça, é de coração, e quanto ao desenho, é uma coisa que eu gosto, eu aprendi com a minha mãe. Assim, como aprendi com o meu pai, a dar forma às coisas. Eu simplesmente adoro fazer isto, criar, do nada. Pegar um papel em branco, dar vida a ele, ou pegar um pedaço de metal inóspito, e dar forma e sentido a ele.
— É eu percebo, e ao que parece você é muito bom mesmo em dar sentido às coisas.
Não pude deixar de notar que ela disse aquilo de maneira bem pensativa, e fiquei pensando no que ela estava se referindo, mas resolvi deixar para perguntar depois, porque, estávamos agora nos portões da vila.
— Valerie?
— Sim...
— Só me esqueci de perguntar a você quanto a qualquer pergunta a respeito de onde tenho dormido, e por que chegamos cedo juntos. Você sabe que as pessoas não vão deixar de perceber isto.
— Bom, eu não ligo para isto, diga o que você quer dizer e eu sigo você.
— Eu me importo por você, porque, não me agrada saber que as pessoas podem sair com comentários desagradáveis a seu respeito, mesmo por que a única coisa que elas farão é julgar. Mas, então, faremos assim, diremos que eu tenho ido a outros vilarejos ajudar alguns amigos, posso até combinar isto com eles para evitar, desencontros, e dormido por lá. E sempre que porventura chegarmos juntos, digo que passei no chalé para ver se você precisava de alguma coisa, ou de uma carona, que tal?
— Para mim está ótimo. Tenho que admitir que você é bom nisto também, aliás, você é bom e maravilhoso em muitas coisas. — E antes de passarmos pelos portões, ela me deu um beijo suave nos lábios.
— Está pronto?
— Pra ser visto com você ao meu lado? Eu sempre estive. É um prazer enorme para mim Sta. Valerie – E sorrimos.
Como era de se esperar, quando cruzamos os portões, apesar de ainda ser cedo, e ter poucas pessoas nas ruas, por onde passávamos, os olhares e sorrisos satisfeitos e calorosos, nos acompanhava, é claro, que haviam cochichos também, mas, na verdade, eu não dei à mínima. Eu estava satisfeito demais para deixar que alguma coisa me perturbasse. A primeira coisa que eu fiz, foi levar Valerie até a casa de sua mãe.
Ao chegar, desci do cavalo, para em seguida descê-la também, então antes de nos despedirmos...
— Valerie, lembre-se do desenho. Compre as coisas para o jantar, mas, peça para entregar na ferraria. – Ela ia começar a contestar, porém, eu a expliquei. – Acostume-se com isto, eu levo para o chalé assim que estiver com um tempo, eu não quero você carregando peso, e no mais, eu já sei o que irá questionar. E a resposta é: sim, eu vou pagar sim. E, por favor, seja uma boa menina e acostume-se com isto.
— Mas, eu não gosto disto Henry, eu me sinto mal. – Ela disse constrangida.
— Eu sei, mas você precisa ir se acostumando, porque, como vai ser... quando você se tornar minha esposa? Pode parecer cedo para isto, eu sei, mas, é sério, tudo que for meu será seu. Não faz sentido relutar, quero mesmo que você aprenda a lidar com isto, afinal, eu tenho me esforçado bastante em vencer as minhas barreiras por você. E, isto não é de jeito nenhum uma cobrança, podemos chamar isto de conciliação ou acordo, algo muito saudável para todo e qualquer relacionamento de sucesso, certo?
— Que outra escolha eu tenho? Se insistir nisto, vamos acabar brigando, e para que?
— Ótima escolha, sábia menina. Bom, eu preciso ir, dê lembranças a Suzete por mim.
Propositadamente, eu envolvi a sua cintura com um braço, acariciei seu rosto com a mão livre, e assim, como no cavalo, ela afundou o rosto em meu peito e respirou. Ao se afastar, ela me fitou nos olhos, e eu a beijei docemente, para em seguida, encostar meus lábios em sua orelha e sussurrar:
— Eu. Te. Amo!
Ela estremeceu em meus braços. Então, como eu fiz pela manhã, de forma faceira e sutil, me afastei, e mais uma vez, eu pude ver a sua expressão de frustração.
Montei o cavalo, e enquanto me afastava dei-lhe um cálido sorriso, que ela retribuiu, enquanto ainda se recuperava das sensações de minha ação.
Eu espero que ela me dê sinais logo, de como ela está absorvendo estas minhas investidas, preciso estar bastante atento, para ir me guiando por suas dicas. Mas, por hora, eu estou bastante satisfeito com o que alcancei até aqui.
Passei em casa, antes de ir à ferraria. E fiquei um pouco surpreso, pois percebi que a minha avó estava a minha espera.
— Bom dia vovó! Está tudo bem? Precisa de alguma coisa?
— Tudo bem sim meu querido. Henry, você tem um minuto para sentar-se comigo?
— Claro. – Ela estava com uma expressão misteriosa.
— Meu filho, eu jamais quero me intrometer em seus assuntos, você já é um homem, e por sinal, extremamente responsável. Então, encare as perguntas que te farei apenas como curiosidade, alimentada por preocupação, coisas de uma velha tola, tudo bem?
— Sim, entendo, e imagino que uma delas é referente a esta noite que fiquei fora?
— Sim, e não. Sim, não pelo fato de ter ficado fora, mas, pelo fato de que após estas duas noites, você estar muito diferente. E não, por que eu já estou acostumada a você está fora tanto em noites de lua cheia quanto em noites comuns, aceito isto perfeitamente, você é homem afinal. Entretanto, você está diferente, ontem te achei apreensivo, mas, de certa forma tranquilo, e hoje eu vejo algo mais, eu vejo um brilho nos teus olhos que eu não via há muito tempo...
Minha avó é muito observadora, muito embora, ela não expresse muita afetividade, mas, não é por mal, é pela vida que ela passou, e eu a entendo. Ela esta hesitante em prosseguir, assim como eu, ela é reservada demais, e odeia ser invasiva.
— Não me leve a mal meu filho, mas, eu posso saber se se trata de... – Eu a interrompi, pois, eu tinha certeza do que ela iria perguntar.
— Amor? Se for isto que quer saber vovó, você está certa, muito certa. – Pude ver os olhos dela brilharem, todavia, ainda havia curiosidade, e vi que ela estava receosa de perguntar, ela sabia o quanto sou reservado. – Pode concluir a sua pergunta vovó.
— Ah meu filho me desculpe, mas eu tenho pedido e torcido por isto há tanto tempo! – Ela exclamou com sinceras lágrimas nos olhos. – Mas.... Esta moça é daqui, da vila?
— Está querendo saber se é a Valerie?
— Não meu querido, não precisa tocar neste assunto, eu sei que o aborrece...
— Bom, lamento dizer que pela primeira vez a senhora está enganada, não me aborrece de jeito nenhum. – Eu disse em tom brincalhão.
— Não vai me dizer que... – E as lágrimas já não se continham em seus olhos.
— Sim, vou te dizer sim, vou te dizer, que um milagre está acontecendo vovó, é a Valerie sim! – Eu disse aproximando-me dela para abraçá-la, e mesmo sorrindo abertamente, lágrimas de emoção não paravam de escorrer de seus olhos.
— Ah, meu Deus! Isto é uma dádiva! Meu filho não sabe o quanto eu estou feliz, não sabe o quanto eu pedia por isto, principalmente depois que perdemos... o seu pai. Ah Henry, meus sinceros parabéns...
E antes que ela continuasse, fui colocando ela a par de que a coisa não era séria ainda como um noivado, mas, que a possibilidade disso, agora era uma realidade.
— Bem vovó, ainda é cedo, para grandes comemorações, deixe-me explicar, não estamos noivos, ela ainda não me ama como eu gostaria, mas, estamos construindo isto, ela abriu seu coração para mim, para que eu possa me aproximar, para que nós possamos na verdade nos conhecermos melhor...
— Bom não pense que vou entender totalmente isto, pois, estes relacionamentos de hoje são muito difíceis para minha cabeça acompanhar, mas, se você está bem, e está certo do que está fazendo, para mim está ótimo, o que eu quero é te ver feliz. Não, o que eu quero, é ver vocês dois felizes.
— Deixa eu te explicar só um pouquinho, vó. Ela está saindo de um momento muito difícil, todos nós sabemos, a perda da Lucy, a perda de sua avó, o desaparecimento de seu pai, o de... Peter, ela realmente o amava. Mas, o que acontece, é que eu resolvi aproveitar este momento, não para me afastar dela, e sim para me aproximar, e mostrar a ela o que eu posso oferecer, apoio, proteção, cuidado, amor, estou na verdade tentando deixar minhas marcas sobre a vida dela, de uma forma que quando ela menos perceber ela vai estar dependendo de mim e possivelmente até me amando, entende? E a grande benção nisto é que ela tem aceitado, tem compreendido, e suas reações até agora tem sido bastante positivas quanto a isto. Eu a amo vovó, e vou lutar por ela, e agora, eu estou confiante que posso verdadeiramente fazê-la me amar. E você não sabe o quanto ela tem me feito bem!
— Ah meu filho... – ela me olhava com olhos transbordantes. – Eu sei, eu posso sentir, o quanto você está radiante, ela realmente tem feito bem a você. E estou certa de que logo, logo, ela te amará profundamente, conte comigo para o que precisar, pode trazê-la aqui quando quiser. Eu já a amo só por ver o poder curador que ela tem exercido sobre você.
— Obrigado vovó. Bom, quanto a ajudar, já que a senhora mencionou, eu estou pretendendo fazer uma surpresa pra ela. Você sabe que ela mora no chalé onde sua avó morava.
— Sim, e acho um perigo aquilo, meu filho.
— Bom, eu também, mas, não vou jamais contestar, pois, na verdade, eu sei os motivos que ela tem, e um deles é que ela não se sente mais à vontade na vila depois de tudo aquilo que aconteceu com ela, aquela história de Padre Solomon, com bruxa. Ela perdoou a vila, porém, voltar para cá é demais para ela. E eu confesso, que este é um dos motivos de eu passar mais noites fora, é para protegê-la. – Quando eu disse isto, ela colocou as mãos na boca assustada.
— Henry...
— Calma vovó, não é nada disto do que você está pensando, a maioria das noites que eu faço isto, ela nem sabe, e você me conhece bem, você sabe que eu jamais faria uma coisa destas, eu quero Valerie como minha esposa. Mas, eu não vou mentir, que sim, de uns dias para cá, às vezes, eu durmo lá sim, em maior parte por que ela teme por minha segurança também, e ela preparou outro quarto para mim. Está bem? E isto vai ser explicação para caso a senhora perceba a falta de algumas peças de roupas minhas, eu vou deixar algumas poucas coisas lá.
— Mas meu filho e a vila e os comentários? – Eu sabia que ela iria me perguntar isto.
— Fique tranquila, nós estamos sendo cautelosos.
— Tudo bem então.
— E no mais, ela fará uma viajem e ficará alguns dias fora. O que nos retorna ao assunto sobre a senhora me ajudar.
— Claro, eu o ajudarei com o que quiser.
— Bom, o chalé lembra demais a avó dela, e eu percebo que isto trás alguma melancolia a ela, às vezes. Então, eu conversei com ela e descobri que ela tem muita vontade de reforma-lo, dar o toque dela no local, porém, sabemos que seu pai não está mais aqui par fazer isto, e Peter também não. Então, depois de muito custo, e insistindo bastante com ela, ela me permitiu fazê-lo. Desde que, seja na condição de que envolvamos os nossos amigos. Ela não é muito de aceitar este tipo de coisa das pessoas. E eu quero vovó, eu quero muito fazer isto, por ela. No entanto, nós combinamos que faremos, assim que ela voltar de viajem. Porém, eu tenho outros planos... – ela completou.
— Você irá fazer enquanto ela estiver fora, como uma surpresa!
— Sim... A senhora me ajuda com algumas coisas?
— Claro, meu filho. Posso costurar o que quiser, cortinas, roupas de cama, banho, tudo, eu posso até mesmo, fazer uns lindos bordados. Ah meu filho! Eu estou tão orgulhosa de você, este é um lindo gesto.
— É, mas, ela não pode saber de nada, se não dará tudo errado. Tenho certeza que se ela estiver aqui acompanhando tudo, ela não permitirá alguns exageros que pretendo fazer, e este é um dos principais motivos por eu querer surpresa.
— Sim, eu entendo, só me preocupo com uma coisa... e se não ficar do gosto dela?
— Fique tranquila vovó, eu pensei em tudo. Eu fiz um esboço da casa e deixei com ela e pedi para que ela colocasse tudo que ela queria, que ela pensava, no desenho. E pedi que ela deixasse comigo antes de viajar, ela deve ter pensado que é pra ver os materiais, não sei, ela é bem discreta. Mas, enfim, assim que ela viajar, colocaremos a mão na massa.
— Ótimo, enfim teremos alguma agitação por aqui, coisas diferentes para fazer.
— Irei pedir ajuda a Suzete também, se importa se caso ela resolver te ajudar?
— Claro que não meu filho, tenho tanta pena dela ficar sozinha naquela casa. Agradeceria muito se você conseguisse estreitar nossos laços, ela seria uma companhia para mim, já que agora, eu posso contar que daqui alguns tempos você terá sua vida.
— Claro, eu posso fazer isto sim. E... Bom, aproveitando o momento, eu gostaria de fazer uma pergunta delicada. Eu posso?
— Sim, mas acho que sei do que se trata.
— É sobre o papai e... – Ela completou.
— E Suzete. Sim, é verdade meu filho, eles se amaram muito, e seu pai nunca foi realmente feliz, por eu não ter permitido que se casasse com ela. Perdoe-me, por falar isto com você. Porém, esse meu erro trouxe tantos outros sofrimentos. – Ela disse, imersa em lágrimas de remorso.
— Não se preocupe vovó, eu entendo, e entendo mais do que a senhora possa imaginar. E posso te dizer, que este é um dos maiores motivos de eu estar sendo paciente em relação à Valerie, não quero passar por isto. Eu não quero me arrepender.
— Faz bem meu filho, é uma sábia escolha. – E assim, terminamos nossa conversa e ela beijou meu rosto e saiu.
Eu mal, tinha chegado à ferraria, e sou surpreendido por um Cedrico bastante eufórico.
— Henry! Cara, parabéns! Você e Valerie, até que enfim. – Não resisti, fui contagiado pela alegria dele, agarrei ele pelo pescoço, abaixei sua cabeça bagunçando seus cabelos, e depois caímos os dois na risada. – Sério, cara, estou muito feliz por vocês. Você nem imagina, e não sou só eu, as meninas também.
— Elas já estão sabendo?
— E você acha que elas perdoariam Valerie se elas fossem às últimas, a saber?
— É, acho que não. E foi muito bom você ter aparecido aqui, vamos ter um jantar hoje lá no chalé, todos nós reunidos.
— Nossa! Que bacana, a que horas?
— Umas 19:30 hs. Hoje, e no sábado. É uma oportunidade de nos despedirmos de Valerie antes de sua viajem.
— Ah... É mesmo, ela vai viajar, e você?
— Bem, ficarei aqui, tenho a ferraria, e também a guarda, e ainda não me casei com ela para viajarmos juntos não é Cedrico?
— Ah... Henry, você e seu conservadorismo, mas, tudo bem, respeito isto, acho que é mais por Valerie mesmo, por causa da falação do povo da Vila, não é?
— Sim, e você também deve se preocupar com isto em relação à Prudence, viu?
— Sim, eu sei cara, obrigado!
— Bom, mas, eu tenho outra coisa para conversar com você Cedrico.
— Pode falar.
— Na verdade eu quero pedir a sua ajuda, não só a sua, a das meninas também. Vou explicar direitinho, mas, preste bem atenção, Valerie não pode saber de nada, é sobre uma surpresa para ela, e é surpresa mesmo, por que se por um acaso, ela sonhar, ela não vai permitir, e tudo vai por água abaixo.
— Pode falar cara, eu prometo que eu não vou abrir a minha boca.
— Minha preocupação não é você. São as meninas, então, por favor, acalme os ânimos delas. Você pode, você consegue fazer isto? Por mim, por Valerie? Isto é muito importante Cedrico.
Percebi que ele já estava ficando impaciente...
— Ah cara, pelo amor de Deus, fala logo! Eu prometo, claro que eu prometo!
— Bem... – comecei a dar a ele uma versão do mesmo diálogo que tive com minha avó, sobre o Chalé. — O chalé que ela mora, lembra demais a avó dela, e eu percebo que isto trás alguma melancolia a ela às vezes, então, eu conversei com ela e descobri que ela tem muita vontade de reforma-lo, dar o toque dela no local, mas sabemos que seu pai não está mais aqui par fazer isto, e Peter também não. Então, depois de muito custo, e insistindo com ela, ela me permitiu fazê-lo, desde que, na condição, de que envolvamos os nossos amigos, vocês, é claro. Só que, vocês todos sabem que, ela não é muito de aceitar este tipo de coisa, das pessoas. E eu quero Cedrico, demais fazer isto por ela, porém, nós combinamos que faremos, assim que ela voltar de viajem. Porém, meus planos são outros...
E assim como a minha avó, ele completou a frase.
— Você, quer dizer que.... Você não, nós, vamos fazer enquanto ela estiver fora, como uma surpresa! Claro, estou dentro, e mesmo ainda não falando com as meninas, eu já posso garantir por elas e por nossas famílias também. Henry, elas vão surtar, de tanta alegria. Eu posso até ver a agitação que será. Mas, espera aí, depois que vocês se casarem, vocês vão... – E antes que ele terminasse já prevendo o que ele estava pensando, eu falei mais que depressa.
— Não Cedrico, não tem nada haver, com isto. E nós não estamos neste pé, não que eu não queira, mas por ela, preciso ir devagar, Valerie passou por muita coisa, estamos construindo aos poucos a nossa relação. É por isto, que eu preciso de segredo mesmo, em relação ao Chalé, não quero perder uma oportunidade tão maravilhosa de agradá-la. Ela já me autorizou fazer, mas se fizer com ela aqui, ela não vai me permitir fazer tudo que posso por ela, você sabe como ela é, ela não gosta deste tipo de coisa. Mas, eu posso e eu quero fazer isto por ela. E para mim, isto é o mínimo.
— Entendo Henry, e você tem todo o meu apoio. Mas, quer saber? Eu acho que você ainda irá se surpreender.
— Obrigado. Por que você diz isto Cedrico?
— Você irá se surpreender com Valerie, Henry. Tenho certeza. Ela é muito cautelosa, e, para ela ter tomado uma decisão desta, de querer estar com você, de até mesmo vocês serem vistos juntos, ela já deve ter algumas certezas, ela pode não saber a dimensão disto, e é normal. As vezes descobre-se estas coisas com o tempo e convivência. Entregue-se meu amigo, desarme-se. Você esperou demais por isto. Há riscos? Claro, mas em que não há? E quando é por quem amamos, vale demais a pena corrê-los.
Aquilo me surpreendeu, primeiro pela maturidade e sensibilidade de Cedrico, depois por ele estar totalmente correto. Mas, eu como tenho muitas dificuldades para dar acesso as pessoas ao que sinto, eu disse somente...
— Hã... Obrigado Cedrico. Hoje, após o jantar, quando estivermos voltando, vamos acertar tudo, todos os detalhes, para assim que ela colocar os pés, fora, nós possamos dar início a reforma logo, então, já vai adiantando com as meninas para rendermos tempo.
— Certo. Até eu estou empolgado.
— Imagina eu.
— Imagino sim. Mas, Henry, você não tem medo de fazer algo que ela não goste?
— Ah, meu caro amigo, eu já pensei em tudo. — E fui explicando a ele qual era o plano. Sobre o desenho.
— Cedrico tem mais alguma coisa que eu desejo falar com você. Sei que você tem planos com Prudence, e sei que está procurando um trabalho melhor. Eu queria propor que você viesse trabalhar aqui, assim, eu te ajudo e você me ajuda. Eu tenho sempre muitas encomendas, e antes, quando eu estava constantemente vivendo minha melancolia sem Valerie, eu não me importava de virar dia e noite trabalhando. Agora, é diferente, eu a tenho, tenho que cuidar dela e ter tempo para ela, o que você acha?
Percebi que ele ficou sem reação, entretanto, pelo brilho dos seus olhos observei que ele estava emocionado.
— Cara, Henry! Não sei o que dizer. É claro que eu quero. Muito obrigado, pode ter certeza, que eu darei o melhor de mim.
— Eu sei, e eu não tenho dúvidas disto. E eu, pretendo te ensinar tudo o que eu sei.
— Muito obrigado Henry! Quando posso começar?
— Assim que terminarmos com a casa de Valerie, por que, durante este período, passaremos mais tempo por lá. E quando eu não puder estar, eu quero que tome a frente para mim, para dar tudo certo.
— Claro Henry, farei com prazer. – Então, ele chegou perto, me abraçou, agradeceu mais uma vez e se foi.
Não demorou muito, e as compras de mantimentos chegaram, então, dei uma passada rápida no chalé, para leva-las, já que Valerie tinha deixado à chave comigo, E voltei logo.
Enquanto fazia o percurso de ida e volta, comecei a montar algumas estratégias para convencer Valerie a ir a outros vilarejos comigo antes de viajar. Primeiro, para escolhermos alguns materiais, e segundo para passearmos um pouco. Tenho me programado a ir a Grewnville, e quero leva-la comigo.
Ocorreu-me que, a partir de agora, eu preciso adquirir uma condução, mais apropriada a uma dama, porque as minhas idas, não serão, sozinho, mais. Eu tenho Valerie agora, e estas viagens apenas a cavalo, são bem desconfortáveis para mulheres. Eu também vou precisar ter um condutor, para que eu possa aproveitar os momentos ao seu lado.
Então, eu decidi que falaria sobre isto com ela hoje, e também a convidaria para ir comigo sábado, eu posso convencê-la, caso ela relute, dizendo que precisamos marcar as suas passagens, e que os materiais para a reforma, deveriam ser escolhidos logo, por que, demoram a chegar. O que é verdade, e eu na realidade, tenho a intenção de usá-los logo.
Por volta da hora do almoço, eu recebi uma grande surpresa, eu estava terminando de preparar as entregas daquele dia, quando senti o seu perfume. E antes que eu pudesse me virar para vê-la, ela me abraçou, pelas costas, envolvendo a minha cintura com seus braços tão lindos.
Mais, que depressa, eu me virei de frente pra ela, enquanto limpava as minhas mãos no avental de trabalho, Peguei-a pela cintura, suspendi-a na altura de meus olhos, de forma que nossos lábios ficaram na mesma altura e a poucos centímetros um do outro.
Eu podia sentir a sua respiração contra a minha, enquanto olhava profundamente em seus olhos, assim como, ela olhava os meus, como que procurando sondar a minha alma.
Eu pude sentir a temperatura entre nós aumentando, enquanto aquela troca de olhares se intensificava, então, dei-lhe um sorriso, o que ela retribuiu, e disse:
— Olá. – Eu senti a sua falta, então resolvi vir te ver, já que você me deu carta branca. Eu estou atrapalhando?
— Olá, meu tesouro mais valioso. – Ela sorriu mais ainda. – Não. Não está atrapalhando, jamais estará, pode me visitar quando você quiser, adoro suas surpresas.
E antes de descê-la a beijei calmamente, sendo gratificantemente retribuído. Seus lábios eram maravilhosos, quentes, macios e sedosos.
— Vim fazer e trazer uma surpresa para você. – Ela disse, indo buscar uma bolsa bem cheia, o que seria?
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