A Garota Da Capa Vermelha - Continuação.
55 VIAGEM A LIVERGOORN – DIAS SOMBRIOS - Capítulo 52
Notas iniciais
PLANO SUPERIOR
POV PETER
Desde que Miguel, enfim comunicou a mim e a Laura, qual seria a provação que Henry e Valerie passariam, nós dois ficamos ainda mais apreensivos. Eu por que tinha a exata noção de como seria para Valerie vivenciar estar novamente nas mãos de Mildrad, e Laura, por que sabia o preço que seria para Henry, ter Valerie no estado de coma.
Eu sabia que Henry poderia sentir, se algo viesse acontecer a ela, pois, a conexão dos dois é incrível. Porém, eu não arriscaria a possibilidade de isto não ocorrer, ou ocorrer quando não houvesse mais tempo.
Assim, eu comecei a passar horas pensando e pensando em alguma forma de alertá-lo, porém, se eu o fizesse por incursão em sonho, outros aqui saberiam. Mas, eu sabia que eu poderia aparecer pessoalmente e uma fração de segundos que seria imperceptível, porém, para isto, um anjo precisaria saber, pois, ele seria meu canal de acesso.
Ai morava o problema. Miguel seria sem chance. No entanto e Seth...
Porém, o medo de eu conversar com ele e ele me delatar foi enorme. Assim, comecei a colocar meus planos diante do Criador, para se caso Ele aprovasse e se visse a verdadeira intenção do meu coração e o agradasse, Ele poderia me enviar um sinal, enviando-me Seth para perguntar o que tenho e o que preciso para afastar as preocupações.
Assim aconteceu, exatamente. Seth me procurou em um dia em que Laura estava no Observatório Humano enquanto eu passeava pelo jardim e perguntou:
— O que você tem Peter? O que precisa?
Não acredito... Este era o meu sinal, o Criador me atendeu!
— Seth, eu estou apreensivo só isto. Eu estou com receio de Henry não chegar rápido ou a tempo, pois, só eu sei, o quanto é penoso para Valerie estar em posse de Mildrad, e ela ter que passar por isto de novo, é doloroso para mim. Eu queria que houvesse pelo menos uma maneira de garantir que Henry saiba, para que ele não demore em agir. Sei que não posso evitar o que irá acontecer, mas, se eu pudesse abreviar o sofrimento dela, eu gostaria, pois, o trauma pelo abuso que ela sofreu nas mãos dele foi terrível. Temo que ela não consiga suportar. Desculpe.
Seth me olhava, pensativo. E seu olhar expressava compaixão...
Assim ele diz:
— Peter, você seria capaz de assumir as consequências de algo em relação a isto sozinho?
— Claro, para ver Valerie mais segura? Certamente!
Respondo imediatamente e ele ainda me olha.
— Bem, eu posso te ajudar. Veja bem, eu nunca, jamais em minha eternidade desobedeci a uma ordem ou um princípio. E, não estou interessado em fazê-lo Peter. Porém, como eu tenho escutado muito você e Laura falar sobre emoções e sentimentos humanos, isto tem mexido um pouco comigo e me incomodado, justamente quando penso no que Valerie vai sentir quanto mais tempo ela ficar as mãos de Mildrad. Assim, eu tenho exposto esta angústia ao Criador. E, resolvi fazer algo, porém, não quero me expor, pois, se caso eu for descoberto, passarei por um tribunal de julgamento em uma assembleia de Anjos e eu sei que nem todos pensam como eu penso ou sentem o que sinto, assim, poderão interpretar minha atitude de forma equivocada. Porém, o Criador não, portanto se eu for julgado unicamente por Ele, sei que ele conhece o meu íntimo e julgará segundo o que está realmente me movendo que é compaixão e amor pelos humanos, isto eu posso arriscar, pois há pureza em mim quanto a isto. Assim primeiro eu pergunto... Você guardaria segredo até as últimas consequências?
— Sim, é Claro Seth!
— Então, faremos assim, você fica de olho no Observatório Humano, e quando estiver perto, você dará um jeito de me colocar em alerta. E no momento exato, eu virei até você. E eu abrirei uma brecha que será de segundos no tempo cronos, na velocidade da luz. Você terá de ser objetivo e rápido, não sei o que fará, mas tem de ser algo objetivo e que Henry entenda. Porém, Peter, você deve se preparar, pois, isto tomara muita energia de seu corpo imortal, e você pode demorar a se recuperar, e eu não poderei te assistir depois, pois, não poderemos dar bandeira. E ai o que acha?
— Acho ótimo, e já sei o que farei, e quanto aos cuidados deixe comigo, eu pedirei a Laura, porém sem contar o que está havendo a ela. Alegando que é para a proteção de Valerie e Henry e para sua proteção e ela não contestará.
— Tudo bem então, eu fico na expectativa.
E assim, ocorre. Aviso Laura que faria algo que poderia precisar dela, porém, como é muito arriscado, ela não poderia saber de nada. Assim, ela me auxilia o tempo todo.
No dia do ocorrido, ao notar pelo Observatório que, estava na hora. Percebo que o mais viável seria aparecer a Henry, mostrando que Valerie estava em perigo, para que ele voltasse. Assim, ela seria sim pega, como era necessário ela passar por aquela provação, para vencer seu medo, porém, ela seria resgatada logo.
E desta maneira eu o faço, Seth vem no horário combinado, e assim que o dou o sinal, ele abre a brecha, e num piscar de olhos eu estou dentro da carruagem com Henry e digo no momento em que ele abre os olhos:
— Henry, Valerie está em perigo, volte!
E de repente não estou mais lá e sim de volta ao Observatório.
Porém, ao retornar, entendo o que Seth disse, foi extremamente rápido, mas, minhas energias foram quase todas sugadas e não consigo ficar em pé.
Então, surpreendentemente Seth sai rapidamente, mas em questão de segundos, Laura aparece, e me vê jogado ao chão, e cuida rapidamente de mim, para que ninguém perceba.
Passo o resto daquele dia muito enfraquecido, mas, à medida que o tempo passa, torno-me forte novamente. Mais tarde, enquanto Laura sai do acampamento, e vai ao Observatório, Seth aparece e diz:
— Como você está?
— Bem. Na medida do possível.
— Que bom. Mais uma vez Peter, pelo Criador se algo acontecer eu nunca soube disto e nem o vi neste estado.
— Tudo bem Seth, eu irei cumprir minha palavra. Obrigado!
— Por nada, eu peço que o Criador nos perdoe!
Dou-lhe um sorriso e ele sai rapidamente.
No exato momento em que Laura volta...
NO PLANO TERRENO...
POV AQUILES
Os prognósticos não são os melhores. Valerie pode demorar horas, dias, ou até meses, para acordar. E o pior, é que, ela pode apresentar sequelas quando o fizer.
Isto deixa Henry desesperado, abatido e desanimado, já não come e nem dorme direito.
Não fala com ninguém direito, volta a se trancafiar em si mesmo, provocando tristeza e angústia a todos que o amam.
A esta altura, a tristeza e a solidariedade já envolve a todos nós. Os Lancelot's já vieram prestar apoio várias vezes, eles sempre vêm, são muito presentes, Ananda também veio.
Se Mildrad houvesse, sido capturado e permanecido vivo, ele seria julgado e condenado à reclusão perpetua, pois, além deste crime, ele cometeu vários outros. Ananda, foi como prometeu, a procura daqueles que foram prejudicados por Mildrad, e os incentivou a denuncia-lo.
Na verdade, sua pena poderia ser ir direto para Guilhotina, mas, por consideração aos Oxford's, eu creio que, apesar de toda a raiva, Henry não o permitiria e ele seria julgado e condenado a reclusão.
Araon está firme com Made, e Sophie, está com Marverick, porém esses dois se veem pouco, pois, tio Heitor não dá folga. Até Érion e Elise aos poucos tem se acertado. Agora surpreendente mesmo, é ver o quanto Camelot tem mudado, depois que se acertou com Ananda.
Sei que dói muito em Henry, saber que sua amada Valerie proporcionou aos seus amigos tamanha alegria e não esta aqui para compartilha-la. Pois, se hoje cada um deles pode desfrutar do amor, é graças às investidas de “cupido” de Valerie, é impressionante, o quanto aquela pequena criatura é boa, e se preocupa e cuida dos que estão ao seu redor. O que não é muito diferente de Henry, que o faz também, porém de forma muito distinta. Realmente aqueles dois nasceram um para o outro, eu espero que todo este caos só fortaleça o amor deles, creio nisto.
O pior, é saber que, Valerie não está aqui para viver o seu próprio amor.Em um determinado período em que Henry esteve em profundo desespero e agonia, Suzette conversou com ele dizendo que ele precisava estar forte por Valerie. Para que, quando ela vier a acordar, ele possa estar bem, por ela, pois assim, ele a ajudaria. E em todo caso, ela não ficaria feliz de vê-lo naquele estado deplorável em que tem estado agora, Valerei sofreria de vê-lo assim.
Então, em uma das noites em que Henry revezou dormir com Valerie, para cuidar dela, foi possível notar que o coração dele estava em plena agonia e desespero, isto era visível em seus olhos...
A princípio só ele queria estar ali, não querendo ceder a ninguém, mas com o tempo ele abriu mão, depois de tanta insistência se Suzette, sua avó, Made e Sophie. Valerie é tão amada, que todos queriam cuidar dela.
Como é doloroso observar o sofrimento de Henry. Pois, eu sei exatamente o que ele está sentindo, cada sensação, cada tristeza, o sentimento de impotência diante de algo tão grande e tão complexo. Vejo nele, um reflexo exato do meu martírio quando perdi Irina, minha esposa.
Porém, no caso de Valerie e Henry, ainda é mais triste, pois, além dele ter esperado muito pela retribuição de seu amor por ela. Agora que ele estava tão perto de alcançar o que traria sua alegria completa, que seria o casamento com ela, acontece esta tragédia. Fico pensando, como ela irá acordar? Porventura, estará normal? Se não, será que o amor de Henry por ela resistirá?
Nessas divagações me perco em pensamentos...
***
POV HENRY
Eu já vivi inúmeras sensações de desespero, mas nunca algo tão grande e tão intenso.
No início do processo de Valerie, eu tentei ao máximo me manter inteiro e firme, porém, por dentro eu estava um caos. E isto se refletia em minha falta de apetite, de sono e por fim de ânimo.
Pouco a pouco, com o passar dos dias, eu fui definhando. Havia dias que eu estava bem e confiante, mas, na medida em que o tempo passava, ficava mais difícil manter a esperança. A falta de fé e certeza de uma melhora no quadro de Valerie começou a me abater e me assolar constantemente. Meus maiores companheiros nestes dias tem sido o medo e a angústia. E a apatia e o torpor, me assombram a todo o momento.
Lembro-me muito, das Palavras de Valerie onde ela me disse no dia em que fizemos amor pela primeira vez...
— ... E eu tenho medo amor, de decepcionar você e você desistir de mim. Ou de algo acontecer, que nos afaste, e você não tenha forças para lutar por mim. Já falei para você sobre isto, que tudo que nós estamos vivendo é maravilhoso demais para eu acreditar que nós não tenhamos de pagar um preço por isto.
... E se algo acontecer que nos afaste, e que você perca a fé e esperança no nosso amor, no que nós construímos juntos? No que você lutou para conseguir e conseguiu que é me fazer te amar como eu te amo?— Tudo isto, ela me diz...
E no final, o nosso acordo...
— ... Faremos assim, não podemos antecipar as coisas, se caso algum dia acontecer e se realmente por algum motivo um se afastar do outro, o que tiver certeza do amor que nos uniu vai lutar até conseguir reverter o quadro, certo?— Sou eu quem diz a ela.
— Claro amor. Concordo plenamente. — Ela me responde.
E sempre que me lembro destas coisas, eu penso: Eu preciso ser forte, por ela, aconteça o que acontecer, eu não posso desistir. E aí tomo mais um fôlego por mais algum tempo.
Mas, não é algo simples, tenho que lutar contra tudo que me oprime, pois, o medo da perda é tão grande, que chega a ter domínio sobre mim.
***
Esta noite, eu fiquei responsável por tomar conta de Valerie. Mas, minha alma estava em plena agonia e desespero. Passei a noite em claro ao seu lado, e comecei a conversar com ela acariciando seus cabelos seu rosto, admirando-a. Ela tem estado tão serena e tranquila, naquele sono sem previsão para acordar.
Ligo baixinho o som que coloquei em seu quarto. Coloco umas músicas que tenho ouvido que refletem o que sinto.
Assim olhando para ela ali tão linda, mesmo naquele estado, eu falo com o coração partido:
— Amor, nem assim você consegue deixar de ser linda não é? Sinto tanto a sua falta princesa, tanto. Falta das nossas conversas, falta do seu sorriso, da sua teimosia, dos seus questionamentos. Sinto falta do seu olhar, da sua voz, de tudo em você...
Neste momento a voz me falta...
— Eu não posso viver sem você amor. De maneira alguma isto é possível, a vida não tem mais sentido algum pra mim. Toda minha vida se resume em você Valerie...
E o choro se abate sobre mim profundamente...
— Sinto falta dos seus cuidados, de ter você para compartilhar meus medos, minhas dores. Pois, só você amor, consegue entender o que eu sou. Como eu sou. Sem você aqui até aquele Henry que você resgatou foi embora.
E mais choro... A dor no peito é excruciante.
— Não existe ninguém capaz de trazer vida para mim como você amor. Ninguém... Eu amo você demais Valerie, eu disse para você que você é a minha vida, meu coração...
Sento-me na cadeira de leitura, que já deixo constantemente ao lado de sua cama e começo a acariciar seu rosto com uma mão e tomo sua outra mão com a minha livre.
— Valerie você não pode ir, e nem muito menos ficar aí. Você prometeu não me deixar. Você prometeu não desistir de mim, volta para mim amor, onde você estiver, seja em qual mundo for, que você tiver aprisionada em sua mente pelo medo, volta para mim...
E mais um choro compulsivo. E agora a histeria também me abate...
— Amor me perdoe por não ter protegido você, por não ter te livrado daquele... Eu sei que eu te prometi que ele não iria encostar-se a você... Eu sei que prometi, e eu... – Era difícil admitir... – Eu falhei Valerie... Eu falhei, mas me perdoa, me perdoa Valerie...
Resolvo contar-lhe sobre a surpresa...
— Linda eu havia preparado uma surpresa para quando você voltasse, sabia? Ah... minha noiva, linda! Este tempo todo em que você achava que o Chalé só seria reformado depois que você voltasse... Na verdade, ele já está pronto, só aguardando seu retorno amor. E está lindo, nem dá para chama-lo por chalé mais, a não ser que fique como referência afetiva e eu não me importo. Mas ele se tornou uma linda casa, nossa casa. E eu já tinha preparado tudo para o seu retorno amor, até antecipado nosso casamento como nós queríamos e ansiávamos...
E lembrar-me do casamento me faz chorar mais...
POV VALERIE
É estranho o estado em que me encontro, é como se eu estivesse em um estado de letargia. No entanto, parcialmente consciente. Mas, também, há momentos de inconsciência, que já identifiquei que é quando estou realmente dormindo. E nesta letargia, a única coisa que não consigo é dar ordens ao meu corpo, como se ele estivesse desconectado da mente. Portanto, não posso ver nada... Mas, agora já consigo ouvir.
Por algum tempo eu nem ouvia, só sentia a escuridão...
Ouço várias vozes diferentes, e a maioria é desconhecida, mas, em alguns momentos, algumas conhecidas, a de minha mãe, a de Henry, que são as que mais falam comigo, talvez por que, são as pessoas que passam mais tempo aqui.
Agora mesmo, Henry está aqui e eu ouço tudo o que ele fala para mim, minha mente assimila aquilo, e durante toda a sua fala, o meu coração reage e meu corpo também com familiaridade àquelas palavras, mas há um bloqueio em minha mente, que não me deixa reagir nem ligar o que sinto a tudo o que ele fala, em forma de lembrança.
Assim, eu não consigo compreender a maioria das coisas que ele diz, como: chamar-me de meu amor, minha princesa.
Não me lembro de Henry me tratar assim.
Não me lembro de nada do que ele me diz sobre nós, mas, ao mesmo tempo, para o meu coração esta proximidade que ele fala é tão familiar e reconfortante.
Percebo que ele está em grande sofrimento, muito embora eu não possa ver o seu rosto. Mas, o sinto em seu choro, em sua voz. E de uma forma estranha, me sinto desconfortável e triste com o seu sofrimento. Ao que parece, o sofrimento dele reflete em mim, em minhas emoções, mas, racionalmente, eu não consigo entender por que.
Porém, nem sempre consigo ouvir tudo, pois, alguém sempre vem e me aplica algo e em seguida vou para a inconsciência.
Só sei que sinto falta, quando não é Henry que cuida de mim. Pois, ele o faz com tanto carinho, me pega no colo, ele vira o meu corpo na cama, por várias vezes em um mesmo dia, sem contar o tanto que conversa comigo e canta para mim. Estes gestos me trazem muito conforto, mas, é de uma forma estranha.
***
POV HENRY
Fico ansioso esperando cada dia passar, passo a maior parte do meu tempo ao lado de Valerie, porém, com o decorrer de alguns dias, eu ocupo-me de algumas atividades para não enlouquecer, de tanta preocupação e angústia.
Passam-se três dias desde a última vez que passei a noite com ela. E muito ansioso me preparo, pois, hoje é o meu dia de revezar para passar a noite com a minha princesa novamente. Interessante, que nestas duas últimas noites, nas poucas horas que consegui dormir, eu tive sonhos...
O primeiro foi com o nosso casamento. Acordei chorando, pois, vi Valerie tão linda, e tudo era exatamente como combinamos, ao ar livre, num imenso jardim, que foi preparado no terreno da nossa casa na vila. E realmente os jardins estavam lindos mesmo quando deixei Daggorhorn.
A cerimônia foi pela manhã, e nós dois estávamos radiantes, e o choro em que despertei era o choro de alegria do sonho, pois, fui contagiado por ele.
Na mesma noite, eu dormi mais um pouco, e tive outro sonho, onde agora, eu já nos via casados, e felizes, morando no Chalé. Eu a via cuidando de mim como sempre fez, nós nos amando... Interessante que não acordei tão excitado, como sempre acontece, mas sim, com o coração mais fortalecido de esperança.
Na segunda noite, os sonhos já me trouxeram mais uma perspectiva de futuro. Sim sonhos, pois, mais uma noite que eu não dormia initerruptamente e tive um na primeira etapa do sono e o outro na segunda etapa.
No primeiro sonho, eu nos via morando no Grande Reino. E estávamos muito, mas muito felizes, já mais velhos, nossos filhos já maiores, e eram quatro, e não três como pensamos antes, três meninos e uma menina. E nós tínhamos mais uma ferraria ali no Grande Reino, outra em Grewnville e outra em Daggorhorn. E havia sido uma escolha nossa morar no Grande Reino. Pois, os negócios estavam crescendo e nós, não aceitávamos ficarmos separados, aonde um ia, todos íamos juntos.
Acordei deste sonho tão feliz, tão tranquilo, e o mais importante, tão confiante. Levantei-me bebi água, fui ao banheiro, mesmo que estivesse pela madrugada, andei um pouco pelos jardins.
Marvel estava lá, e pude conversar um pouco com ele. Que tem se mostrado um amigo incrível, neste período. Ele está muito angustiado com o que aconteceu, é muito grato a mim por não permitir que os impedissem de sepultar Mildrad, aliás, o que sobrou dele.
Eu realmente não consegui fazer aquilo. Pois, para mim, pagar pelos seus erros sim, ele deveria pagar. Mas, privar a sua família de sepultar seus restos mortais, como é costume para criminosos aqui no Reino, é outra coisa.
Por mais que eu não o suporte pelo que ele fez a Valerie, não tive coragem de fazer isto, pois, me lembrei dela, pois, apesar de tudo, ela não iria querer isto, e lembrei-me também que ela se assustou muito quando me contou de seu sonho com ele, por causa de minha reação de pura cólera e também, por minha reação ao vê-lo em nosso noivado... E eu não quero dar a ela esta impressão.
Mas enfim, por amor aos nossos amigos Oxford’s eu também não consegui permitir que não o sepultassem. E Marvel me disse que seria eternamente grato a mim por isto. Pois, sabia o quanto tudo que ele fez era custoso para mim. E para Valerie é claro.
Volto para o quarto pensativo...
E quando dormi novamente, veio o segundo sonho. E este realmente me despedaçou, pela grandeza e beleza, e por ser a confirmação de algo que sonhei lá atrás, ainda com ela em Daggorhorn.
Foi impactante, primeiro por que foi muito parecido, porém, mais completo do que o sonho que tive a respeito disto no chalé, algum tempo atrás. E, segundo, por ser algo que eu e ela temos em comum que almejamos tanto. Ela grávida de sua primeira gestação. E de alguma forma, nós sabíamos, eu não sei como, que eram gêmeos. Também não sei como sabíamos, mas era um casal, uma menina e um menino, o que sempre sonhamos.
Valerie estava, linda com aquele barrigão, e muito feliz e eu também. Eu curtia cada fase, sentia os bebês mexerem, chutarem, cuidava dela, saíamos a passear de carruagem, também para comprar coisas para os bebês. Passava um tempo e eu podia ver os bebês nascidos em nossos braços, à alegria de estarmos juntos e com uma família completa, as avós transbordando de alegria, nossos amigos...
Ao acordar deste a alegria era intensa, mas o desespero por ter que encarar uma realidade tão distante daquilo, foi muito maior. Valerie ainda estava em estado de coma...
Na verdade, algo dentro de mim, diz que, aqueles sonhos são para trazer de volta a esperança e a certeza, da grandeza, profundidade e força do nosso amor para o meu coração. Para lembrar-me da promessa que eu fiz a ela um dia, de que se algo acontecesse, algum dia, com um de nós o que ficasse intacto, lutaria pelo outro. Pois, lembro-me constantemente do que minha mãe me disse em um sonho, também já distante, que era para eu guardar em meu coração e se preciso fosse escrevesse as coisas que me dessem esperança. Para que nos momentos de caos eu pudesse acessá-las. E é o que tenho feito...
***
Então, após três dias. Depois daquele que eu passei a noite com ela, cuidando dela, eu volto a passar uma noite toda com ela novamente.
Eu chego até o seu quarto, com ainda mais disposição para conversar, pois, em pesquisas que andei fazendo, aqui no Grande Reino e em Grewnville, eu descobri que alguns pacientes ouvem durante o coma.
Começo dizendo...
— Amor, eu soube que você pode estar me ouvindo sabia? Então, esta noite eu quero conversar com você linda. Quero lembra-la de algumas coisas, para trazê-la de volta a mim. A primeira é lembra-la de o quanto eu amo você, e que eu esperei por você por anos. Lembra-la de que quando Peter morreu, eu fiquei para cuidar de você, mas, você acabou cuidando de mim, e cuidou muito bem, me deixando ainda mais apaixonado, por você linda. Muito mais...
Eu ia falando e revivendo cada memória, e percebendo o quanto realmente eu fui feliz naqueles dias... Mesmo ainda quando ela não sabia que me amava, ela ficou ali por mim, cuidou de mim, e nossa convivência foi permitindo as coisas acontecerem naturalmente. Então, eu continuava a rememorar e a dizer...
— Com a proximidade que construímos, eu não conseguia mais me afastar. Todo o meu coração, o meu corpo e a minha alma, pediam por você. E eu fiquei com você, passei a dormir no chalé, como você me pediu. Primeiro no quarto que você preparou para mim, e você no seu quarto. Mas, depois você me pediu para dormirmos juntos por causa dos seus pesadelos, e com muita relutância eu aceitei, porém, no meu quarto, aliás, o quarto que você preparou para mim, no chalé.
A lembrança de o quanto nós vivemos em tão pouco tempo, tão poucos dias, e da intensidade que teve tudo aquilo, me sufoca de tão grandioso que foi. Mas mesmo com a voz embargada eu me esforçava para continuar, eu precisava continuar, dentro de mim eu sabia que precisava...
— No início, nós dormíamos afastados. Mas depois quando você descobriu que me amava, e eu consegui compreender aquilo, que realmente você me amava e sentia falta de mim, nós passamos a dormir juntos, mas só dormir, você lembra-se amor? Que você morria de medo de fazer qualquer coisa que me aborrecesse por causa dos meus limites? Eu me lembro disto... E amor, hoje eu confesso a você, haviam horas que era engraçado.
Aquela lembrança me fez sorrir...
— Houve também o dia em que você quase me enlouqueceu de desejo na ferraria, nossa, meu amor... É difícil até rememorar, de tão intenso que foi... Nunca ninguém fez aquilo comigo princesa, somente você. Você sempre foi à única capaz de me fazer perder o controle, somente você. Você me mudou meu amor, completamente. Sou um Henry completamente diferente, e totalmente seu Valerie...
POV VALERIE
É impressionante que nos poucos momentos em que passo acordada, no estado da absoluta inércia, observo o quanto sinto falta, de Henry, quando não é ele que está me acompanhado.
Eu não consigo entender por que, mas, embora eu não compreenda suas palavras, tudo que ele me diz parece familiar.
Sinto falta dele quando não é ele que está comigo.
A cada palavra que eu ouço Henry pronunciar, não sei o porquê, mas a cada palavra eu sinto meu coração martelar em meu peito, mas minha mente esta em agonia, pois, ela não se lembra. Na verdade, a impressão que tenho, é que meu corpo e meu coração lembram-se e conectam-se com o que ele fala, devido as suas reações. Mas, a minha mente não, e meu desespero aumenta por isto. Parece que existem duas Valerie’s, dentro de mim.
Houve um momento em que Henry tocou meu rosto, e aquele toque acendeu chamas em meu corpo e mais uma vez, eu não entendi, não compreendi, e aquilo realmente me convoca de volta.
Eu quero poder voltar para compreender, quero vê-lo, e de certa forma, tenho até vontade de confortá-lo, mas, o que eu não consigo entender é por que eu sinto isto?
E aí, algo me preocupa... Como será quando eu voltar? E será que eu vou voltar?
POV HENRY
Observo-a tão serena, e continuo a dizer...
— Amor, eu sinto falta dos seus toques, das suas provocações, do seu corpo tão lindo... Como sinto falta!
Neste momento tomo as mãos de Valerie nas minhas, e começo a acaricia-las, beijo-as. Mas, de repente, quando toco seus pulsos com meus lábios, algo surpreendente acontece.
Eu consigo sentir suas pulsações enlouquecidas, aquilo me deixa primeiro confuso, e depois, eufórico e associo o fato aos meus toques e minhas palavras. Meu coração transborda de alegria. Pois, de alguma maneira lá no fundo eu sabia que, Valerie não manifestava reações voluntárias com seu corpo, mas ela as sentia, e provavelmente impulsionada por suas emoções.
— Linda você está me ouvindo? É isto? Você sente quando falo estas coisas para você amor? Amor volta para mim... Eu amo você.
E algo me ocorre, lentamente levo minha mão até seu peito, na altura de seu coração. É claro que tanto tempo sem contato, me deixa ofegante, minha mão é percorrida por formigamento. Com certeza, provocado pela expectativa ocasionada pela proximidade daquela parte de seu corpo que amo tanto. Mas, com cautela, eu mantenho a minha mão em seu peito para poder sentir seu coração, enquanto falo.
— Valerie minha linda, sou eu aqui, Henry, seu noivo, o homem que ama tanto você, que daria minha vida para poder estar em seu lugar. Simplesmente para que você não sofresse.
Seu coração acelera-se mais...
— Amor eu sinto sua falta! Volte Valerie, volte para mim. Sinto falta demais dos seus beijos, como sinto... Dos seus toques, da forma única de você me amar, lembra-se amor? Daquela manhã em meu quarto? Daquela música, vou trazê-la para você ouvir...
Percebo nesta hora o coração de Valerie ensandecido. E ele está mesmo, passo a acreditar que de alguma forma, em seu coração ela tem a lembrança e sente. Mas, o medo do que aconteceu, prende-a em algum mundo dentro de sua mente, fazendo-a continuar na escuridão. Pois, é assim que pessoas que vivenciaram o coma o descrevem, como uma imensa escuridão.
Então, ocorre-me a ideia de falar coisas felizes que vivemos coisas que nos marcaram muito.
— Amor lembra-se daquela manhã? Em que você se tornou minha? Foi à manhã mais maravilhosa de minha vida, princesa! Sentir o seu corpo, proporcionar prazer a você. Tê-la em meus braços tão entregue a mim, chamando por mim, gemendo meu nome, inesquecível aquilo... Sinto sua falta amor... Acho que você também não esqueceu princesa, seu coração está me dizendo que não, mas, você está presa em algum lugar de sua mente. O que eu posso fazer para te trazer de volta? Mostra-me qualquer coisa que eu faço... Lembra-se dos nossos banhos juntos? O primeiro e o segundo?
Pergunto, e minha mente se enche daquelas belas memórias.
— No primeiro em que nós dois cuidávamos do corpo um do outro? E no segundo em que começamos com você fazendo um strip-tease para mim, no quarto e terminamos no chuveiro? Amor, eu nunca me esqueço destas coisas, e me dá um trabalho lembrar... Por que logo em seguida naquele mesmo dia você propõe o nosso compromisso lembra-se? Que se tornou algo tão difícil cumprir, principalmente no passeio em Grewnville. Lembra-se do nosso lago? Lembra-se da promessa que eu te fiz, de voltarmos lá para algo especial, quando casarmos? Está perto linda, esta perto de nos casarmos e voltarmos até lá, então, você vai me dar o meu presente lembra-se? Você me disse que depois que casássemos você queria que nós voltássemos lá, pois, você gostaria muito de fazer amor comigo ali...
Sinto seu coração martelar no peito. E, eu tenho uma ideia, já que ela é minha noiva e não uma estranha.
Então, inclino-me para beijá-la, mas, sentindo seu coração com a minha mão. Enquanto toco seus lábios suavemente, posso sentir o coração de Valerie alterar-se, abro meus lábios contra os dela e seu coração responde de novo, toco agora minha língua em seus lábios e em seguida mordo delicadamente seu lábio inferior.
Algo extraordinário acontece, pois, eu sou surpreendido com algo que molha a minha face... Ergo-me para olhá-la, e fico maravilhado em constatar que lágrimas transbordam de seus olhos.
— Então você se lembra linda? Do quanto eu amo você, do quanto eu desejo você, e do quanto você me ama, e me deseja?
Nesta hora, as lágrimas aumentam... E a esta altura estou em prantos...
Ergo a mão que está em seu coração e levo-a em seus cabelos e acaricio cada mecha, e com a outra acaricio sua bochecha, seu rosto. Suas lágrimas, continuam a correr.
Beijo mais uma vez seus lábios e digo:
— Princesa, eu te amo tanto, eu não consigo mais viver sem você Valerie. E amor, todos nós sentimos sua falta, sua mãe também tem sofrido. Precisamos de você, volte minha linda!
Ao falar isto, lembro-me de que Suzette precisa ver isto, para renovar suas forças e esperança, e minha avó também, as duas têm estado abatidas demais, e estou preocupado. Então, digo a Valerie:
— Amor, vou rapidamente chamar sua mãe e minha avó para verem você, pois, elas também sentem demais a sua ausência princesa. Eu já volto, amo você meu coração.
Saio desesperado em busca de Suzette e minha avó.
Ao chegar até elas, no quarto em que dormem, eu simplesmente digo, ao me atenderem.
— Quero que vejam algo, é sobre Valerie.
Elas não hesitam, mas, sim, seguem-me prontamente.
Chegando ao quarto de Valerie, eu lhes mostro as reações dela diante de meu beijo, com cautela. É claro, ele eu não menciono nada mais sobre meu contato íntimo com Valerie. As duas ficam maravilhadas e pedem para ficar um tempo ali, e eu permito, pois, eu não quero força-la a se lembrar de mais nada, no momento. E também acho justo que sua mãe e minha avó tentem também... E elas tentam ver aquelas reações em Valerie, mas, ela não responde a nada mais...
Elas pedem para terminar de passar a noite com ela e eu permito, vou para o quarto que Made me cedeu e enfim, consigo adormecer depois disso. Entro pela madrugada com uma chama de fé e esperança em meu coração...
***
Sinto um toque em meus cabelos, um toque familiar e reconfortante, mas minha mente rapidamente identifica que não é o toque da minha amada.
Mas, também rapidamente faz a conexão de quem seja:
— Mãe! Que bom que está aqui. Tenho precisado tanto de você!
— Eu sei meu filho. E por isto estou aqui. Henry eu vim lembra-lo do que te disse a última vez, você se lembra?
— Claro mãe. E agora eu entendo um pouco... Eu não posso desistir de Valerie. – Ela não me deixa concluir...
— Sim, Henry, verdadeiramente você entendeu, mas, somente uma parte, pois, você tem oscilado muito na sua certeza, em sua fé na força do amor de vocês, na esperança de que Valerie pode voltar totalmente para você. Esta certeza ainda está abalada meu filho. E você vai precisar muito desta confiança para o que você terá de passar, pois, você precisará acreditar realmente, e lutar pelos dois, e pode não ser fácil. Lute Henry, aconteça o que acontecer,você não pode desistir, Valerie é sua recompensa por tudo o que você viveu, acredite nisto!
— Eu acredito mãe, mas é muito difícil...
— Claro que é Henry. Isto está relacionado ao seu maior medo. Mas preciso dizer, vai ficar pior do que está. – As palavras dela me fizeram estremecer, que será que ela quis dizer? — E você só irá vencer se realmente acreditar, e agir como quem acredita.
— Mas eu tenho tentado mãe...
— Eu sei e esta no caminho certo. Só estou querendo dizer que aconteça o que acontecer, você precisa continuar acreditando e agindo como quem acredita.
— Mãe, eu estou com medo...
— Eu sei Henry, mas desta vez, só há uma maneira de você vencê-lo Henry: você terá de enfrenta-lo. Não há mais como correr... Por isto, eu estou aqui. Para lembra-lo, Valerie ama você, aconteça o que acontecer, lembre-se disto, lembre-se de quando ela já te amava e ela não sabia, e pouco a pouco você a ensinou a te amar, ou melhor, a reconhecer que te amava. Lembre-se disto, você vai precisar Henry, daquela persistência. Amo você meu filho.
— Também te amo mãe.
E ela se foi. E eu acordei já sentindo a claridade do dia, ciente de que hoje parto para Daggorhorn, para cumprir com meus deveres por lá, e sou agradecido a Deus por Cedrico, que tem levado tudo adiante sem mim. Ele realmente tem sido para mim, um grande suporte.
POV VALERIE
Encontro-me em mais um momento em que não estou realmente dormindo, e sim, estou na inércia constante imposta por minha mente semiconsciente, pelo menos, é o que parece que ela está. E é neste momento que me lembro do sonho que tive com Peter:
— Peter você está aqui? – Eu o pergunto.
— Sim, eu vim te ver. – Ele responde simplesmente.
— Onde eu estou? – Eu o pergunto, muito aflita pela resposta.
— Bom, digamos que você esteja sonhando. E eu vim falar com você em seu sonho.
— Mas por quê? Eu posso ver você quando acordar... – Eu preciso de respostas, de mais respostas.
— Não Valerie, não pode. Eu não posso mais estar com você. Só em sonhos e de vez em quando, não sempre. – Aquilo me faz lembrar o que Henry disse: que Peter morreu. É verdade então? Mas quando?
— Mas por quê?
— Você sabe por que. Você precisa procurar se lembrar de tudo, Valerie.
— Lembrar o que Peter? Eu não entendo, não estou compreendendo nada, tudo é confuso para mim... O que eu sei, é que Henry sempre vem me ver, ele fala coisas pra mim, sobre você, sobre eu e ele. Eu sinto meu corpo todo reagir com as coisas que ele me diz sobre nós, mas, eu não compreendo, eu não me lembro de nada.
— Mas você precisa se esforçar para se lembrar de todas essas memórias, Valerie...
— Peter, você ouviu bem o que eu disse?
— Tudo Valerie. Ouvi, e vi tudo que você falou e entendi. E é você que precisa entender, e compreender Valerie. Ouça tudo o que Henry disser, confie sempre nele e procure se lembrar. Esforce-se.
— Você não entendeu eu disse que eu sinto coisas Peter, com o que Henry me fala, coisas em relação a ele... Henry me... Beijou... Ele me chamou de... Minha noiva...
Eu hesitava em falar, por receio as reações de Peter, mas, ele continuava tranquilo.
— Sim, eu sei...
— Mas, tudo isso é verdade Peter?
— Valerie você é que tem de se lembrar, mas, me diga uma coisa, se você sentiu, o que você acha? Pensa bem, se Henry afeta você com o que ele faz ou diz, quais são as possibilidades? Infelizmente, eu não posso te ajudar muito, só de uma forma limitada. A única coisa que realmente posso te dizer, e insistir nela, é que você precisa confiar em Henry, e procurar se lembrar e acreditar, principalmente, em tudo que ele disser que vocês viveram. Agora eu preciso ir, procure se lembrar. Confie em Henry, acredite nele. Henry ama você, e muito Valerie, ele está sofrendo demais. Você não tem ideia do quanto o fato de você estar aqui ainda, está doendo nele. — Ao ouvir isto o meu coração dói. E muito, como se estivesse estilhaçado em mil pedacinhos. Mas, eu não consigo entender. Peter percebe e diz...
— Viu? Você sente! Acredite no que você sente Valerie. Acredite em seus instintos, eles não mentem, e mais, domine o seu medo, é o medo que te atrapalha a querer voltar e a se lembrar. Enfrente seu medo. E eu preciso ir.
— Você vai embora? Por quê?
— Sim eu vou e você sabe por que... Procure se lembrar.
— Peter eu estou com medo de voltar, eu não consigo entender...
Ele vem até mim, olha-me profundamente nos olhos e diz...
— Eu sei, mas você PRECISA voltar. Você não pode mais ficar muito tempo aqui, se você ficar muito tempo... Fica mais difícil voltar Valerie. Ouça-me bem, Henry precisa muito de você e embora você ainda não compreenda por que, pois, inconscientemente sua mente está bloqueando que você se lembre, você também precisa muito dele. Então, como você não se lembra ainda, simplesmente, confie nele e em tudo que ele te falar e que ele quiser fazer por você, e deixa seu coração te guiar Valerie, e não sua mente, seu coração e seu corpo, pois, embora você não se lembre com sua mente, seu coração e seu corpo se lembram, a prova é o que você sente quando está perto dele, há marcas muito fortes em você que sua mente não conseguiu apagar. Portanto, no momento não confie em sua mente... Adeus... E não se esqueça, no momento confie em seu coração e seu corpo, pois, eles te darão os sinais que você precisa. E não confie, neste momento, em sua mente. Principalmente em relação a Henry. Adeus Valerie.
Sinto meu coração angustiado, pelas palavras de Peter, mas estranhamente em paz por ele ter ido, e esta confusão de sentimentos me desespera.
E quando o desespero parece aumentar:
Volto a sentir a real inconsciência me pegar.
***
Passa-se mais um tempo e de repente me sinto desperta, mas, ainda não consigo me mover, ou controlar meu corpo. Sinto-o, mas parece que ainda está desconectado de minha mente. Aí entendo que estou na letargia de novo, mas totalmente consciente agora, incrível isto, ouço vozes, nelas vejo desespero, em especial a de minha mãe e a outra... É de madame Lazar, a avó de Henry.
Ouço passos indo, e uma porta abrir-se e fechar-se, e passos agora se achegam.
Sinto Henry próximo, sei que é ele pelo seu cheiro, E como seu cheiro é bom, só o seu cheiro já é capaz de causar coisas estranhas em mim. Sinto o calor de seus lábios nos meus, e meu coração reponde em meu peito e tudo em mim, em meu corpo, se agita. Mas, mais uma vez eu não consigo entender.
Ele afasta-se, e estranhamente não quero que ele o faça. Mais uma vez, eu sinto seus lábios nos meus, e estranhamente sinto os meus ansiarem para que os dele não se afastem, mas minha mente trabalha contra aquilo, por que do beijo? Mas, também por que meu corpo gosta daquilo, da sensação de ter seus lábios, a textura deles, o calor nos meus? Tudo é muito confuso.
Sinto agora sua mão, primeiro em meu pulso sentindo meus batimentos, porém em seguida eu sinto sua mão sobre o meu peito. E sinto meu coração frenético nesta ora, ele me tocando de forma tão íntima, minha mente não processa aquilo sem questionar, mas meu corpo e meus sentimentos ficam enlouquecidos querendo que aquele toque se aprofunde. Mas, então, eu percebo que sua intenção não é me tocar me provocando, mas sim, sentir meu coração. Então, ele diz.
— Bom dia meu amor, senti sua falta. E você sentiu a minha?
Dos meus lábios, dos meus beijos? Seu coração me diz que sim, e isto me deixa feliz. Os médicos virão te ver hoje princesa... E, amor você tem algumas visitas querendo ver você. Os Lancelot's você lembra-se deles linda? A Sophie, o Araon, o Érion a tia Clara e o Tio Heitor, eles vieram de Grewnville só para te ver linda, Sophie tem ficado aqui em Livergoorn direto, e tem ajudado a cuidar de você.
Todas aquelas palavras me geram angústia, não sei quem são aquelas pessoas. Mas, pela forma de Henry falar, todos são conhecidos e íntimos.
E, eu não compreendo...
— Linda, eu preciso ir a Daggorhornver a ferraria e olhar as papeladas do nosso casamento, mas eu volto em dois dias. Mas devo dizer que eu ainda deixei a data do casamento em aberto, pois quero decidir com você, então, eu vou esperar você voltar.
Sinto uma confusão enorme com estas palavras, meu coração e meu corpo estão agitados. E percebo que estão protestando contra o fato de ele ficar dois dias fora, e em expectativa pela palavra casamento, mas, minha mente está atormentada, pois, não consegue processar aquilo, eu casando com Henry, noiva dele, e Peter? Estranhamente meu coração não protesta nem tentou protestar o dia que Peter me disse adeus, mas com Henry agora, estranhamente, não é confortável ter Henry longe.
Peter me disse para confiar em Henry, e que eu preciso voltar porque ele precisa de mim e eu dele, mas como? Realmente saber que ele vai ficar fora, me deixa ansiosa, mas, por quê? Por que eu não me lembro? O que me escapa?
— Valerie, ontem eu fui à cerimônia de condecoração minha a Major amor, e a partir de agora, eu posso fazer o que tanto você me pediu: vou desligar-me da Guarda por você linda, para cuidar de você e para manter minha segurança por você amor. Exatamente da maneira que me pediu princesa. E também, eu fui receber a recompensa por ter matado Mildrad e o entregado a corte.
Quando ele começa a pronunciar esta frase, minha mente fica uma confusão, meu coração dispara, e sinto meu corpo agitado, estremecendo, mas não consigo controla-lo, e Henry para.
— Calma meu amor, eu estou aqui, nada vai te acontecer. Perdoa-me Valerie, por eu não estar aqui quando aconteceu amor, me perdoa... Eu te amo demais linda. Realmente, agora ele não vai nunca mais, poder colocar as mãos em você.
Henry chora ao dizer isto, e é um choro muito dolorido de se ouvir, como Peter disse, Henry está sofrendo. Meu desejo é gritar para ele não falar, de calar a boca dele, mas, sou surpreendida com seus braços sobre mim, erguendo meu tronco da cama e abraçando-me contra seu peito, enquanto ele chora desesperadamente. E diz...
— Me perdoa amor, me perdoa Valerie eu preciso de você amor, não me abandona, não me deixe, volta para mim.
Assim que ele faz isso, me abraça contra o seu corpo, me dando proteção, imediatamente eu sinto um conforto imenso no calor de seu corpo, é uma sensação tão deliciosa, o desejo é de mover meus braços e abraça-lo, mas, o meu corpo não obedece minha mente, os dois parecem não ter conexão alguma e eu me desespero. Ele beija minha cabeça meus, cabelos, meus lábios e a vontade é que ele não pare me consome... mas, ele para.
Sinto-o acariciar meu rosto com carinho, e onde seus dedos passam, é como se correntes elétricas percorressem onde nos tocamos. Seus toques são tão suaves. Ele diz...
— Princesa, ontem eu fui à busca de umas músicas para você ouvir, eu não consegui todas as lá de casa, mas eu as trarei assim que eu voltar, mas, as que eu achei mais importantes estão aqui. E tem uma que quero ouvir com você agora linda.
(MÚSICA AQUI — Ouçam bem suave — É linda.)
Ele me deita novamente na cama e afasta-se, coloca uma música, que por sinal, é linda.
Ele volta e novamente ele me toma nos braços, mas, agora sinto que ele se senta, e me tem aninhada em seu colo. O que mais uma vez de uma forma estranha, me traz paz, conforto e segurança. Sinto-o beijar o topo de minha cabeça.
Paro para me concentrar na música, e estranhamente ela mexe comigo, sinto o meu coração acelerar. E, bem neste momento, o sinto tocar minhas mãos, pegá-las e tocá-las em seus lábios e beijá-las com carinho, sinto seu hálito quente em minha pele, o que faz percorrer formigamentos por meu corpo... E mais uma vez, minha mente protesta por não entender aquilo.
Em algum momento, eu sinto a minha mão que ele mantém em seus lábios, molhada, onde ela encosta sua pele, e a água é quente. Quando de repente, ouço um suspiro e um baixo soluço, e compreendo: Henry está chorando.
Estranhamente aquilo angustia meu coração. Lembro-me novamente, das palavras de Peter, que Henry está sofrendo e muito. De uma maneira muito estranha, mas, ao mesmo tempo muito familiar, aquilo não é confortável para mim, saber que Henry sofre. Ele começa a dizer...
— Ah, meu coração, esta música é a favorita da lista das nossas seleções. Você se lembra? Você se lembra do por quê?
Eu sabia que aquela música era especial de alguma maneira, mas, eu não conseguia me lembrar. Parece que há uma fina camada que impede que eu alcance o outro lado em minha mente.
Mas, quando chega o refrão meu peito aperta e eu sinto lágrimas correrem pelo meu rosto, e meu coração acelerar muito. E logo em seguida, sinto-o secá-las com seus lábios, eles correm por meus olhos, minhas bochechas, próximo ao meu queixo, sobe um pouquinho, próximo ao cantinho da minha boca, e a esta altura meu coração está em desespero em meu peito, mas o conflito é imenso em mim, pois meu corpo e o meu coração querem que ele aproxime-se mais de meus lábios, e beije-os, mas, a minha mente não, ela está em alerta, ela não entende, não compreende.
Estranhamente, eu sinto em meu corpo o desejo de que ele beije os meus lábios. E como que respondendo ao chamado que grita em meu corpo, seus lábios pousam sobre os meus, e sinto calor me percorrer e preencher completamente.
Então, ele diz...
— Esta música estava tocando no dia em que eu te amei a primeira vez... E foi o melhor dia da minha vida amor! Bom, você disse para mim que havia sido seu melhor dia também, você lembra-se amor?
Henry me disse isto com uma voz triste, melancólica, mas também desejosa... Queria poder olhar seu rosto. Mas, meus olhos não me obedeciam para abrir-se.
Com essas palavras de Henry, e estes gestos agora, e com as lembranças de tudo do que Peter me disse, algo em mim desperta!
Então, era isto? Além de, como Henry disse para mim, e foi confirmado por Peter no sonho, além de Peter ter morrido e ele não voltaria, eu realmente me apaixonei por Henry de tal forma, que ficamos noivos, estávamos perto de nos casarmos...
Com certeza, era algo sério de verdade, pois, eu nunca me imaginei me entregando a um homem que eu não o amasse. Bom, tem a questão do desejo que já senti por Henry lá atrás, há algum tempo, que agora não sei precisar, na fuga que fiz com ele do Padre Solomon, quando ficamos sozinhos no Beco dos Tintureiros...
Eu não quero pensar nisto, pois, eu nunca entendi aquilo direito. Será? Minha mente agora estava ainda mais conflituosa, como se ela soubesse sim, o que significava, mas, havia, de novo, uma fina camada que não me permitia acessar.
Mas, então é este o motivo, das reações do meu corpo, e a segurança e familiaridade que Henry trás ao meu coração? Eu o amei? Ou eu o amo? E por algum motivo minha mente não consegue acessar isto? Mas, de alguma forma é tão forte que está gravado em mim? Nas minhas emoções e no meu corpo?
Lembrei-me novamente do sonho de Peter. Ele pede para eu confiar no meu coração e no meu corpo, e não em minha mente. O bloqueio então, que eu sinto em minha mente é real? Mas, por quê?
Peter me disse várias vezes no sonho que eu precisava me lembrar, eu precisava enfrentar o meu medo. Ele disse que eu precisava confiar em Henry. Confiar no que ele me falava e no que ele fizesse para me ajudar a lembrar. E Henry sempre me pergunta se eu me lembro...
Na verdade, a minha mente não se lembra, mas, o meu corpo e meu coração cheio de emoções que ficaram gravadas em mim, sim.
No entanto, por que Peter agora queria ajudar Henry? Mesmo sabendo que o estava ajudando a ficar comigo, mesmo sabendo que estava me levando de volta a Henry e me afastando dele? E o mais intrigante de tudo, por que este afastamento de Peter é tão familiar para mim e tranquilo, e, o me afastar de Henry não? Pois agora a pouco mesmo, eu fiquei aflita com a notícia que ele me deu que se afastaria daqui por dois dias.
De certa forma eu me sinto feliz, segura e confortada nos momentos em que ele está aqui comigo, apesar de me sentir confusa, e estranha também, porque são os momentos que mais o meu corpo e o meu coração com suas reações me forçam a lembrar, mas, a minha mente fica enraivecida, bloqueando tudo o que pode.
Agora eu começo a entender. Existe algo que minha mente não quer que eu tenha acesso e me lembre... Mas, por que está ligado justamente a este período que Henry entrou para minha vida? Esta é outra grande incógnita para mim.
Então, como se tudo em mim se radiasse desta compressão, algo estala em mim, EU PRECISO VOLTAR. Para me lembrar de tudo, eu preciso voltar... E algo lá no fundo do meu coração diz:
“Eu preciso voltar por Henry.”Pois ele é que vai me fazer lembrar, e também por que ele precisa de mim.
E mais uma certeza me preenche: eu posso cuidar dele! Ele parece estar tão triste. Eu posso ajuda-lo como eu faria a qualquer amigo, mesmo por que eu sempre o admirei e tive carinho por ele. E ele pode, aos poucos, me fazer lembrar.
Assim, meu coração decide, e pelo que percebo, ele está em paz com a minha mente, que este é o caminho, voltar. Voltar por Henry.
Eu não compreendo por que, mas esta é a escolha, e a primeira coisa que quero, após sair desta letargia sem fim, é conversar com ele. E como que entendendo o que se passa dentro de mim e o que decidiu meu coração ele sussurra próximo ao meu ouvido, me fazendo arrepiar:
— Como espero pelo dia de tê-la novamente amor...
As palavras dele são reconfortantes, passam uma sensação de refúgio.
— Amo tanto você Valerie, volta para mim, eu estou esperando você, eu não vou desistir de você meu amor, ninguém desiste de sua própria vida, e você é toda a minha vida, princesa!
Ao ouvir estas palavras, a paz preenche meu coração, me dando a certeza de que eu poderia voltar, porque eu estaria segura com Henry, mesmo não entendendo ou compreendendo por que.
E, nesta névoa de paz, o sono me alcança enquanto sinto as gostosas carícias de Henry em meu rosto, e o calor dos seus braços e do seu corpo em torno de mim.
POV HENRY
Antes de sair para Daggorhorn, consigo conversar com os médicos que tem acompanhado Valerie, eles sempre vem atendê-la aqui, para evitar que tenhamos de ficar transportando-a.
É claro que isto aumenta e muito os custos do tratamento, mas, eu já faria desta forma mesmo, porém, a surpresa que recebi do Coronel-General Constantine, deu-me mais liberdade ainda para prover o melhor para Valerie.
Realmente fico surpreso com o quanto eu cai nas graças daquele homem. Agradeço ao Criador, por Aquiles também. Pois, tem usado de toda a sua influência para me auxiliar em todo recurso preciso e necessário.
Todavia, ainda que todos os gastos fossem arcados por meu bolso, quer saber, eu não me importo, se eu necessitasse gastar tudo o que eu tenho, só para trazê-la de volta, eu o faria.
Vejo que a vovó também não faz objeção nenhuma, é interessante, o quanto ela já ama Valerie. Fico pensando em como o Criador, foi tão bom para mim, me dando o Cedrico no tempo certo. Ele praticamente tem cuidado de tudo na ferraria para mim. E providencialmente, e também para a minha tranquilidade, tem dado conta muitíssimo bem.
O que fortalece meus planos futuros de expandir os negócios, e se futuramente, eu vier mesmo para o Grande Reino com este intuito, eu já sei que ele poderá assumir a ferraria em Daggorhorn. O que ajudaria a mim e a ele, pois, melhoraria e muito a sua qualidade de vida, e aumentaria ainda mais meu patrimônio. Mas, no momento, eu não posso focar nisto.
No momento, a minha prioridade é Valerie e sua total recuperação.
Assim que os médicos chegam, nos reunimos na sala e peço para que eu e Suzette possamos ficar a sós com eles. Não tenho nada contra, mas é que, eu quero ter mais liberdade para conversar, para compartilhar, inclusive haverá um momento, em que eu quero ficar somente com eles, porque eu falarei a respeito de coisas que competem apenas a mim e Valerie.
— Bem, bom dia Dartanhã e Dr. Robert.
— Bom dia Sr. Lazar e Sra. Suzette. – Dartanhã, que é o porta voz da equipe falou. E eu prossigo:
— Bem, eu estou de viagem a Daggorhorn hoje, e preciso conversar com os senhores, pois, quero estar a par de todas as minúcias do estado de Valerie.
— Claro, o senhor já nos havia orientado e Sra. Suzette também.
— Bem, todo o quadro que ela tem apresentado, dentro de tudo o que conhecemos a respeito, é normal. Ela sofreu uma queda, com uma grave concussão. Apesar do corte, não percebemos nenhuma lesão muito mais grave até o momento, o fato de não ter tido hemorragia por nariz ou boca ou ouvido, é um excelente sinal. Mas, como eu disse no hospital Henry, o que, nós não temos como afirmar, é quando ela acordará e se o fizer, e quando o fizer, se terá sequelas, isto nós precisaremos esperar.
Antes de começar a compartilhar com eles o que tenho feito nestes dias e o que tem acontecido como resposta. Eu vou direto as questões necessárias.
— Bem, justamente é sobre isto que eu quero conversar com vocês. Eu tenho ido à procura de informações de esclarecimentos aqui no Grande Reino e através de outras vilas. Pois, como sabem, eu fazia parte da Guarda e era responsável pelo meu vilarejo, o que me permite muitos acessos. Soube que há casos de pacientes em estado de coma que ouvem, sentem. Porém, é como se, suas mentes estivessem desconectadas do corpo por um tempo, como um bloqueio para retornar a interagir totalmente com o real. E eu soube que isto é muito comum, em casos onde junto à concussão, houve um trauma emocional, ou seja, um evento traumático grave. Cuja a mente quer a todo o custo impossibilitar o resgate ao real, para não ter que lidar com o evento traumático em si, por naquele momento isto ser insuportável para o sujeito. Isto é realmente verdade? Vocês poderiam me dizer algo a respeito?
— Claro, Henry. Realmente isto é um avanço de recente descoberta, como eu mesmo já havia lhe explicado um pouco em sua consulta com ela em Grewnville. Mas, é algo raro, e com muitas coisas a se considerar e você está correto em tudo. Porém, o grande risco, em relação a este tipo de trauma específico, é que, por todos os casos que temos observado, alguns dos pacientes que vivenciam um quadro deste, podem ser acometidos de Amnésia Retrógrada Seletiva ao acordarem do coma. Isto é uma regra? Não, mas, sim pode acontecer. E como você me perguntou, eu gostaria sim, de prepara-lo para as possibilidades, mesmo sabendo que pode não ocorrer, o que seria maravilhoso, mas, em todo o caso, se ocorrer, vocês precisarão estar preparados, eu prefiro trabalhar assim, com prevenção.
Meu coração se desespera pelo nome, e Suzette já chora ao meu lado desesperadamente, o que me leva a tomar suas mãos, para tentar acalmá-la, quando estou buscando forças para mim mesmo, mas, algo me diz que aquele nome tem uma especificidade única e resolvo perguntar.
— Dartanhã, eu sei o que é uma amnésia, mas, ao que parece, é que, esta é um tipo específico?
— Sim Henry ela é. E, eu vou lhe explicar. Geralmente o paciente acometido deste tipo específico de amnésia, tende a esquecer tudo aquilo que é insuportável lidar, assim, pode acontecer de ele também esquecer todos os eventos intensos, de um determinado espaço delimitado de tempo, que envolva o evento traumático em si. Ou seja, tudo que aconteceu próximo à data do trauma ocorrido também pode ser esquecido, principalmente eventos intensos onde são dispensadas grandes cargas emocionais. Pois, a mente faz isto, como um boicote a possibilidade da pessoa chegar ao que é insuportável, usando estes eventos próximos como associação.
— Meu Deus!
É a única coisa que consigo pronunciar. E Suzette a esta altura está em choque.
— Bem, o fator positivo de um quadro deste é que a pessoa pode relembrar a qualquer momento, pois, não há lesão tecidual do cérebro, mas, um bloqueio emocional. Como se fosse um mecanismo de defesa da mente. O importante, é que algo pode desencadear desbloqueio. Assim como, algo encadeou o bloqueio. Mas, o grande risco, que também, é o ponto negativo, é isto ocorrer de forma brusca, e se causar um bloqueio maior. Por exemplo, acompanhamos um quadro onde a família insistiu trazer algumas lembranças, e acabaram trazendo algo que remeteu a o evento traumático diretamente, sem que a pessoa estivesse preparada para lidar com aquilo. Assim, a pessoa desmaiou e não um voltou por um ano, ou seja, à mente acessou novamente o coma aparentemente para que a pessoa não interagisse, para não correr o risco de ela ouvir aquilo de novo, é claro, que este foi um caso raro. A mente não estava preparada para lidar com aquilo no momento. E ponto. E, por ser fatídico e verídico, podemos dizer, esta pessoa se recuperou completamente, mas, somente após 4 anos. Só que também, como eu disse, este é um caso singular, não é tão comum de acontecer.
Ao ouvir tudo aquilo, minha cabeça dá um nó. Sinceramente, eu não sei o que dizer, meu desespero é tão grande, mas tão grande, que as lágrimas começam a descer, mesmo eu estando completamente mudo.
— Desculpe o momento. Mas, por que o você tocou nisto Henry?
Respiro fundo, buscando forças e fôlego.
— Suzette você me deixaria ficar a sós com eles e Valerie só um pouco? Me perdoe pedir, mas, é que eu me sinto desconfortável.
— Claro meu filho. Pode ir, eu espero aqui.
— Obrigado, assim que terminar, eu chamo você.
— Obrigada Henry.
Levanto-me e conduzo os Doutores até o quarto em que Valerie está ficando, e por sinal já a trocaram hoje, e meu coração perde duas batidas, como mesmo naquele estado ela consegue ser tão linda? Minhas lágrimas voltam a correr. E, digo aos médicos.
— Desculpem por isto.
— O que é isto Henry. – Dartanhã me diz... — Nós entendemos perfeitamente, imaginamos que não deve estar sendo fácil.
De maneira alguma está, mas temo depois do que falaram ficar pior. Só confirmo com a cabeça para eles e por verem o meu estado de comoção, compreendem o meu silêncio.
Antes de aproximar-me, peço-os silêncio, pois, quero mostra-los. Confesso que é desconfortável pra mim isto, mas, eu preciso que eles entendam o que vejo, e a melhor forma, entendo que é mostrando-os.
— Observem, por favor. Tudo o que puderem.
Aproximo-me respiro fundo, com as palavras de Dartanhã rondando a minha mente, e digo...
— Olá princesa. Eu voltei para ver você antes de partir. Amor, eu irei sentir muitas saudades. Você não imagina o quanto, mas creio que você também irá sentir minha falta não é?
Neste momento, eu toco o coração de Valerie com minha mão, é claro que fico constrangido diante dos médicos. Por isto não o quis fazer diante de Suzette. Mas, eles entendem automaticamente meu gesto, pois, eu fiz sinal para Dartanhã vir conferir a pulsação dela.
No momento em que eu começo a sussurrar palavras no ouvido de Valerie, eles ficam tão impressionados quanto eu, com as reações em seu coração, eles percebem também, as alterações na respiração, embora para mim, não seja tão perceptível, mas, eles como médicos reconhecem como importante.
Mas, algo os deixa realmente maravilhados: a reação que ela tem diante de um beijo que eu lhe dou nos lábios, onde seu coração entra em frenesi, e as lágrimas correm de seus olhos.
Faço sinal para que não comentem nada ali, então, me despeço dela.
— Amor eu preciso mesmo ir a Daggorhorn, e como eu disse, dentro dois dias, eu estou de volta. Amo você linda.
E, lágrimas voltam a correr de seus olhos. Então, beijo novamente seus lábios deixando o quarto de coração partido...
Respiro fundo para encarar os médicos.
— Desculpem por aquilo, mas, eu achei uma situação difícil, de se explicar. Achei mais fácil de entenderem se vissem com seus próprios olhos.
— Claro e nós compreendemos completamente, devemos dizer que estamos impressionados com a intensidade com que emocionalmente e fisiologicamente ela corresponde. O que nos mostra que ela já está gozando de um certo grau de consciência, bem considerável. O que é um excelente sinal. Mas, que também evidencia toda a questão do evento traumático.
— É, eu percebi.
— Infelizmente Henry ou felizmente não sei, saberemos só depois, agora é aguardar, mas, pela intensidade do estado de consciência, cremos que ela não vai demorar a acordar. Mas, quanto a certeza de que ela se lembrará de algo, não sabemos.
— Tudo bem então.
Peço a eles, para passarem todo o quadro de Valerie a Suzette, é claro que eles são muito discretos. E terminando ali sigo em direção a Daggorhorn.
***
Em todo o meu retorno a Daggorhorn, meu coração está dilacerado com as palavras que ouvi dos médicos.
Ao chegar à estação de Grewnville, surpreende-me, por ser esperado. O tio, o Araon e o Érion, estavam ansiosos por mim, e o tio é o primeiro. Ele se aproxima, e antes que eu lhe de um cumprimento muito formal, ele me puxa para um abraço apertado, como geralmente um pai faz.
E exatamente ali, naquele abraço, naquele momento, eu me permito desmoronar, verdadeiramente, em muitos dias.
Toda dor, toda a angústia, tudo o que venho escondendo só para mim, vem como uma tormenta em meu peito. E depois de muito tempo, é que eu percebo, que estamos os quatro abraçados e verdadeiramente chorando.
Todos nós estávamos sofrendo e muito, pois, quando eu me afastei de todos, mais uma vez, durante estes dias de profunda agonia da minha alma e do meu coração, eu deixei de confortar e de me permitir ser confortado.
A dor era profunda, e não eram necessárias palavras naquele instante. Era notório o quanto todos já amavam Valerie e sofriam por vê-la naquele estado, e sofriam por me ver assim, por ela.
Por fim, depois de muito tempo assim, o tio me diz:
— Estamos aqui filho, não nos afaste mais de você. Não nos faça sofrer mais do que estamos sofrendo. Estamos sofrendo muito pela Branquinha, Grandão, demais. Mas, sofremos muito mais, por que estamos perdendo você também... Por favor, não nos afaste mais, deixe-nos ajudar você, e cuidar de você...
Tudo o que eu conseguia fazer, era chorar, chorar nos braços daquele que tem sido verdadeiramente um pai para mim, pois, é isto que o tio Heitor tem sido, um pai verdadeiro e fiel. E que tem sofrido muito por seu filho... E confesso, um filho extremamente arredio.
***
Eu passo os dois dias em Daggorhorn, e o tempo todo, é resolvendo as coisas que tenho a fazer.
Reúno os homens, reestabeleço as coordenadas, reorganizando-as.
Em um determinado momento, volto a pensar em o quanto minha vida mudou em dias. Aliás, em poucos dias.
Lembro-me do que aconteceu em relação à corrupção na Guarda do Reino...
Depois de recolher as evidências dos infiltrados na guarda, enfim, eu as entreguei a Constantine, com os nomes dos envolvidos.
Todos eles foram punidos, e alguns chegaram a alcançar à reclusão perpétua, e outros a morte pela guilhotina.
Após este feito, além de participar da cerimônia de condecoração minha a Major e recompensa pelo meu feito com Mildrad. Enfim, eles me concedem minha licença remunerada, segundo a minha solicitação.
Porém, após todos os meus feitos, continuo tendo acesso total a Guarda e ao Comando e com possibilidade de retorno a qualquer momento que eu desejasse.
Assim, me licencio com a patente de Major, e com um ordenado bem maior do que eu já recebia.
Fico pensando, como realmente na vida não temos tudo. Alcancei honras, privilégios, mais riquezas do que já possuo, porém, tenho estado na iminência de perder o que tenho de mais valioso em minha vida: Valerie, o meu grande amor.
Realmente eu preferia não ter nada disto, só para tê-la. Nada tem mais valor do que ela para mim.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!É impressionante me lembrar do dia em que eu recebi a recompensa por ter capturado Mildrad, e quando dei uma parte do dinheiro aos Oxford’s. Eles jamais esperavam. E realmente Marvel foi o que mais se emocionou por poder agora antecipar o seu casamento, e cuidar melhor de sua mãe.
Resolvi seguir as instruções do tio Heitor e ficar com uma parte do dinheiro para me precaver quanto ao futuro incerto da saúde de Valerie.
Apesar de que, com a minha promoção pré-licença, minha vida tornou-se mais estabilizada do que já é.
E com o dinheiro da captura de Mildrad, deu para investir no restante das coisas que eu queria e precisava, sem me preocupar com aperto.
Adiantei as obras da casa nova e mais ainda, o preparo do terreno para o casamento a reforma da casa de Suzette e em seguida, será a construção de sua casa e de minha avó. Mas, houve algo que programei fazer antes de tudo, foi à reforma da Ferraria, visto que aquilo era um grande desejo de Valerie, e visto que, também, que, ela viria trabalhar aqui comigo, mais tarde.
E foi Cedrico que ficou responsável em acompanhar para que ficasse da maneira que eu queria.
***
Na minha última noite em Daggorhorn, no pouco tempo que dormi, eu tive um sonho:
Eu estava voltando a Livergoorn e via Valerie desperta, porém, ela estava diferente, fisicamente ela era a mesma, mas, ao chegar perto vi que algo havia mudado.
Não consegui identificar o que, porém, quando ia começar a me afastar dela por estar confuso, Peter e minha mãe apareceram e nos conduziu de volta um ao outro. Peter a ela, e minha mãe a mim. E, assim que o faziam, eu aproximava-me dela e a beijava, e ela a princípio, embora relutante, depois de um tempo, retribuía o beijo. Passavam-se um tempo, e eu nos via ainda nos beijando, mas, agora vestidos de noivos.
E assim, eu acordo.
Ao acordar, eu me sinto inquieto. E em meu coração eu sei que eu devo voltar para Livergoorn no primeiro trem de hoje.
Mesmo estando de madrugada ainda, me levanto, troco de roupa e vou a ferraria adiantar as coisas para Cedrico e deixar as coordenadas para ele, por escrito. Visto que, eu não o verei antes de partir.
Após tudo pronto, volto para o meu quarto, arrumo as minhas coisas para a viagem e tudo que levarei para Valerie.
Por fim, tomo um banho e visto o meu pijama e volto a dormir exausto.
***
Vejo-a tão linda, e tão bem. Seu semblante é saudável. Ela me olha desconfiada, como se não tivesse entendendo nada e diz:
— Eu preciso falar com você.
— Claro, eu estou aqui, senti tanto a sua falta.
Ela cora, porém, continua estranha e diz:
— Eu acabei de acordar Henry, porém, eu não estou entendendo muitas coisas. Os médicos disseram que você é quem poderá melhor, me explicar.
Ela me diz apreensiva.
— Eu sei amor e é normal, Dartanhã havia me dito que isto pode acontecer. Fique calma, tudo vai ficar bem, eu estou aqui, e estarei sempre!
Ela me olha confusa, seu olhar é de pura dúvida...
E num piscar de olhos ela não está mais lá.
***
Acordo, apreensivo, e com uma sensação estranha. Mas, também com uma certeza, Valerie vai acordar do coma, e será em breve!
Preparo tudo para voltar a Livergoorn.
No entanto, antes de viajar, vou até a nossa casa, o antigo chalé para ver como está tudo.
Ao entrar, sou acometido de uma tristeza, em meio à alegria de ver que consegui terminar de fazê-lo, algo que desejei tanto, fazer por Valerie. A tristeza é por ela ainda está em coma, e não esta desfrutando de nada disto. Já fazem vinte e cinco dias de coma. E tudo em mim clama por ela, e anseia por ela.
Cada cômodo que entro, é uma lágrima que corre.
Todavia, quando chego ao terceiro andar, no nosso quarto, a dor é pior. Saber que a esta altura já poderíamos estar casados, desfrutando de nossa lua de mel, e que já seríamos um casal oficialmente, e comprovar que isto ainda não aconteceu e não ter previsão de quando ocorrerá, é aterrorizante e angustiante. Neste momento cedo as lágrimas, sentado à nossa cama.
E ali a única coisa que vem ao meu coração, em meio ao meu desespero, é pedir:
“Senhor, eu não sei o que tens reservado para eu ainda passar com Valerie, mas, eu preciso de Ti! Dê-me forças, me dê ânimo. E se possível, meu Deus, traga Valerie de volta para mim, eu preciso dela Senhor, preciso muito. Agradeço-te por que a livrou da morte, e entrego a vida dela nas tuas mãos. Conduza a vida dela de volta deste coma para mim. E me ajude a cumprir minha jornada em meio a tudo que terei de passar com ela, para estar ao seu lado, faça-me inabalável e inatingível Senhor, pois, se não for assim, sei que não poderei suportar.”
Ao terminar, sinto paz, conforto e tranquilidade, mesmo em meio a dor, que agora já me é tão familiar. Vou a banheiro, lavo e seco o meu rosto e deixo o chalé rumo a Grewnville, meu novo cocheiro conduz a viagem.
***
Chegando a Grewnville, sigo direto à estação, pois, algo me diz que preciso descer ainda no trem da manhã a Livergoorn.
Assim o faço. Ao embarcar, meu coração aumenta a expectativa.
Por mais que eu esteja ansioso, o balançar do trem, dá-me acesso às horas de sono que perco durante a noite.
Acordo com um senhor tocando o meu ombro dizendo:
— Olhe, eu não sei onde irá descer, meu filho, mas, já estamos em Livergoorn. Levanto assustado e digo-lhe:
— Obrigado senhor, eu desço aqui!
Digo, pego minha bagagem agilmente e desço do trem. Já saio procurando uma carruagem disponível que me leve até a residência dos Oxford’s.
Rapidamente, eu encontro uma e sigo caminho...
Quanto mais me aproximo, mais meu coração fica em expectativa.
Fico tão imerso em reflexões que só percebo que cheguei, quando o cocheiro abre a carruagem e diz:
— Chegamos senhor Lazar.
Saio do torpor e agradeço:
— Obrigado.
Pago ele e ao descer, me deparo com algo interessante:
A carruagem do Hospital, a que Dartanhã sempre vem nela, está na frente da casa dos Oxford’s.
Saio rapidamente, tentando imaginar, o que o traz ali quase no horário do almoço, será que...
Assim que entro, sou recebido na cozinha por Suzette e minha avó, elas vêm me abraçam e eu as beijo no topo de suas cabeças, elas têm um semblante feliz, porém, receosos. E eu pergunto:
— Como ela está? O que houve que os médicos estão aqui?
E Suzette responde:
— Ela acordou Henry, ela estava inquieta agora de manhã fazendo movimentos e mandamos chamar Dartanhã, e quando ela começou a dar sinais de que estava totalmente consciente, eles nos tiraram do quarto para examiná-la e já estão com ela a meia hora... mas...
Não fico para terminar de ouvir o que Suzette tem a dizer, corro em direção ao quarto em que Valerie está ficando...
— Espera Henry!...
Suzette diz, porém, não processo mais nada. Sigo corredor adentro...
Assim que chego em frente a porta do quarto, eu respiro fundo. Conto até três e abro a porta. Afinal, são vinte e cinco dias de coma, dez de hospital e quinze em casa.
Assim que o faço, entro rapidamente pela porta, fechando-a atrás de mim, e ao passar pelo rol de entrada do quarto e adentrar no ambiente, meu coração dispara, eles estão ao redor da cama, com pranchetas de anotações nas mãos, conversando com ela.
Neste exato minuto Dartanhã me olha e seu olhar é angustiado, porém, eu vou dizendo:
— Perdoe-me Dartanhã, eu não pude esperar... Eu preciso vê-la desesperadamente.
Percebo que o olhar de Dartanhã e Dr. Robert é de pura preocupação, porém, eu não dou muita atenção a isto, eles estão na frente daquilo que quero tanto ver.
Assim, eu me aproximo, com o coração disparado no peito e a ansiedade em mim é desesperadora.
Eu queria ser o primeiro a vê-la, mas, tudo bem, é bom que os médicos o sejam, para que ela receba os devidos cuidados.
Assim que me aproximo da cama, ela entra em meu campo de visão...
Ela está pálida, os olhos fundos...
Ela está muito mais magra que o normal, mas, ainda assim é linda... Minha linda.
Percebo que ela está escorada na cama com alguns travesseiros e que há outro médico, fazendo massagens em seus pés, creio que para ativar a circulação depois de tantos dias deitada.
Meu olhar não deixa o seu por um segundo sequer, e creio que pela intensidade que a olho, ela cora intensamente, o que contrasta e muito com sua pele que está tão pálida devido a tantos dias de convalescença.
Não aguentando mais, tanta morbidez, dou-lhe um imenso sorriso, ela me retribui com um sorriso muito tímido. Porém, o que me quebra inteiramente são suas palavras:
— Henry, onde está o Peter?
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