A Garota Da Capa Vermelha - Continuação.

52 VIAGEM A LIVERGOORN – A CAPTURA - Capítulo 50


Notas iniciais
Leiam notas iniciais e finais, são importantes. Olá pessoas lindas! Capítulo 50. O capítulo, está incrível, mas, não sei o que acharão, acho que surpreenderei vocês. Realmente espero que gostem, de verdade. Gratidão aos meus leitores fiéis que me encantaram com seus comentários e carinho de sempre. Gratidão em especial a Catherine Fuhrman Ludwig, e Juliana, por suas belíssimas recomendações. Seja bem vinda Juliana, leitora nova que tem me horado com comentários a cada capítulo adoro. Gratidão ao meu querido Bruno Monjardim, pelo lindo livro de seu avô, eu amei a viagem do sonho, e, também por pacientemente ter betado este capítulo. Bruno você tem sido incrível, breve te quero escrevendo para nós, gente o bruno é súper talentoso. Tenho outras Fanfics, visite meu perfil e as procure, creio que irá gostar. Sem mais demora, ótima leitura! Nos vemos nas notas finais.

POV HENRY

Esta noite não foi uma noite confortável para mim. Geralmente, as noites em que eu durmo com a Valerie, são mais tranquilas e eu durmo melhor. Porém, não foi o caso desta noite.

Estive em um sono agitado o tempo todo. Eu sentia uma angústia profunda em meu coração. E nas vezes em que eu estava acordado, e não eram poucas, vi que o sono de Valerie também não foi um dos melhores, ela também se debateu muito. E chamou meu nome muitas vezes.

Assim, depois de muitas tentativas buscando dormir, por fim, resolvi abrir uma exceção no que havíamos determinado.

Desde o dia em que eu prometi, não a tocar intimamente, mais, e que, nós firmamos um acordo de dormimos separados para evitar cedermos às tentações, realmente não compartilhamos mais a mesma cama.

Porém, esta noite, algo parece que nos convocava a estarmos juntos, e a termos os nossos corpos, o mais próximo possível. Pois, nós só conseguimos pegar no sono, após nos encontrarmos nos braços um do outro.

Aconteceu da seguinte maneira:

Após realmente me debater por longo tempo e a Valerie também, finalmente, nós dois percebemos que estávamos acordados, e a certeza veio quando resolvemos nos virar de uma forma que os nossos olhos se encontraram. E foi o suficiente para que eu percebesse que nesta noite eu quebraria a minha promessa. Porém, eu lhe disse:

— Você está bem?

— Não, eu estou aflita e angustiada, eu não consigo dormir, Henry. Pois, quando fecho os olhos vejo você distante, e tento alcançar você e não consigo. Isto não me deixa dormir.

Ela diz baixo, deitada em sua cama, olhando para mim.

— Tenho de confessar que eu também não consigo dormir. Perdoe-me, sinto a sua falta. Sinto falta de tê-la em meus braços, demais. E esta noite está mais difícil ainda, eu não sei por que, sinto cada parte do meu corpo, protestar a sua ausência. Eu a amo muito, Valerie.

Ela me olha tristemente. Sei que deseja o mesmo que eu, pelo seu olhar. Porém, por muito me respeitar, não me diz nada, e eu por medo de estar a desrespeitando, nada digo.

Todavia, permanecemos assim, nossos olhos fixados um no outro, lendo mutuamente nossas almas, e ainda compartilhando palavras silenciosas.

Quando não suporto mais, resolvo ser sincero. Levanto-me e ajoelho-me ao lado de sua cama, e faço todo o processo sem desviar os meus olhos dos seus.

Assim, tomo as suas duas mãos, e as beijo e digo:

— Você consideraria como falta de limites meu, ou falta de respeito da minha parte, se eu dissesse que quero demais ter você em meus braços nesta noite? Sinto uma necessidade extrema, e sinto que não iremos dormir se não o fizermos. Porém, eu prometo que eu não a tocarei com provocações, eu apenas preciso tê-la junto a mim. No entanto, eu quero somente se você também o quiser, de verdade, Valerie!

Ela me olha pensativa e solta uma de suas mãos da minha, e toca o meu rosto e diz:

— Eu quero muito, Henry, porque eu sinto a mesma coisa que você.

— Então eu posso?

Pergunto apontando a sua cama, indicando que quero me deitar ali.

Ela diz, afastando-se um pouco para abrir espaço para eu me deitar.

— Sim, pode, Henry...

Levanto-me do chão, e prontamente o faço. Coloco meu braço sob sua cabeça como de costume. E ela olha para mim e pergunta:

— Posso?

Ela pergunta, evidenciando que quer aproximar seu corpo do meu, envolvendo-se a mim.

— Claro, deve, meu amor.

Eu respondo sinceramente.

Assim ela o faz e eu a abraço com força e determinação, com uma terrível sensação de saudade que me deixa confuso. E ela diz...

— Você está sentindo também, não é?

— O quê?

Respondo-lhe com outra pergunta.

— Uma sensação de saudade, de como se todo o tempo juntos não fosse o suficiente para dizimá-la?

— Sim, eu estou, e por isto não consigo dormir. Por que será?

—Eu não sei, Henry. Eu sei que eu estou com medo.

Aquilo me alarma, pois, aprendi a jamais brincar com as intuições de Valerie. Então, levanto-me, recosto-me na cabeceira da cama e a puxo para o meu colo de lado, de uma forma que a possa ter totalmente em meus braços de maneira protetora.

—Do que exatamente você tem medo, meu amor?

—Já disse, de perder você!

—Mas, Valerie, isto é impossível, eu jamais te deixaria...

Ela não me deixa terminar... Olha para mim e toca o meu rosto.

—Eu sei, mas, esta não é a questão, Henry. Meu medo é de me afastarem de você. Ou você de mim.

Entendi. Ela temia que algo acontecesse que nos separasse. Assim como eu temo.

Tomo seus ombros de uma forma que a tenho quase de frente para mim e agora tenho a sua cabeça entre minhas mãos... Olho com profundidade em seus olhos e lhe digo:

—Vou dizer a você a famosa frase de Tristão e Isolda que repercute até os dias de hoje:

“Eu não sei o que é mais forte, a vida ou a morte, mas, o amor é maior que ambos.”Nada é maior que o meu amor por você, e eu irei amá-la sempre onde eu estiver. Entende? Sempre! Eu jamais desistirei de você. Você arrebatou meu coração e alma para si. Eu amo você, e não importa o que acontecer, eu não irei te deixar.

Ela me olhava com lágrimas correndo em seus olhos e disse.

—E eu respondo-lhe as palavras de Isolda:

"Não há algo mais que só viver? Algo mais que dever, e morte. Por que temos sentimentos, se não podemos vivê-los? Por que desejamos coisas, se não foram feitas para nós?"Eu amo e desejo tanto você, Henry. Por que tudo isto está acontecendo, então? Ou então, por que eu ter aprendido a te amar tanto, se sempre algo quer afastá-lo de mim?

—Eu não sei, porém, de uma coisa eu sei e garanto que você está errada! Eu fui feito sim, para você, e hoje eu tenho certeza que você foi feita para mim. Eu só amei a você como mulher e sei que para sempre amarei apenas a você, Valerie!

Nós nos olhávamos como se pudéssemos ver a alma um do outro. Verdadeiramente eu a amo, e muito! Após nos contemplarmos por um tempo ela fala...

—Eu tenho certeza que eu também amarei somente a você, aconteça o que acontecer, Henry!

E tomo os seus lábios nos meus, já não podendo conter o desejo que eu estava de beijá-la. E a forma com que acariciávamos a boca um do outro era suave, profunda e íntima.

Porém, como temos realmente aprendido a nos conter depois que prometi na carruagem a não a tocar com intimidade, até nos casarmos, não havia provocação, e não permitíamos mais a intensidade das carícias irem muito além.

Eu estava com uma de minhas mãos em suas costas e a outra em sua nuca, em meio aos seus cabelos, e ela, uma nos meus cabelos, próximo à nuca e no meu braço acariciando e traçando linhas imaginárias com seus dedos, o que era muito gostoso.

Por fim, nos afastamos e volto a envolvê-la em meus braços e sussurrar uma melodia para ela. Ela fica olhando em meus olhos, acariciando meu rosto com seus dedos delicados e com muito carinho.

Até que por fim, ela começa a dar sinais de que vai adormecer, porém, ela beija o meu peito quando está prestes a fechar os olhos e diz:

—Nunca se esqueça que eu amo você, Henry! E não importa o que aconteça, não importa o que for, se por ventura, algo me afastar de você, eu um dia darei um jeito de voltar. Pois, eu não vivo sem você: Amo você, Sr. Lazar.

Ela diz e me beija mais uma vez. E eu respondo:

—Nada vai afastar você de mim, amor, eu não vou deixar. Porém, se algo acontecer, eu sempre irei esperar por você e sempre irei te amar.

Então, nos deitamos novamente, envolvidos nos braços um do outro como se fôssemos um só. Vou acariciando seu rosto e seus cabelos e ela, o meu rosto enquanto tem sua outra mão em meu coração. Até que finalmente adormecemos.

***

Sinto uma enorme sensação de calor e conforto e sinto que estou tão protegido e envolvido de uma forma tão boa. Imediatamente, sei que estou no lugar que mais amo: “Evolvido no calor do abraço do meu amor”.

Abro os olhos, para contemplar seu semblante sereno e tranquilo a ressonar no meu peito. Ela está tão linda, com cabelos espalhados em torno de seu rosto e com seu corpo totalmente envolvido no meu.

Minhas memórias desta madrugada começam a ganhar foco. Nós dois acordados com dificuldades para dormir, porém, assim que resolvemos deitarmos juntos, como num passe de mágica, rapidamente, a tranquilidade, a paz, o conforto e a segurança necessária para algumas horas de sono, nos envolve. Assim, dormimos.

Olho para o relógio, e vejo que acordei com quarenta minutos de adiantamento. Mas, ainda assim, levanto-me. E o faço com extrema cautela para não acordar Valerie.

Praticamente, hoje antecede nossa véspera de irmos embora. Já resolvemos tudo. Busquei meu traje com Suzette, Valerie foi com Made buscar as suas coisas que restavam. Agora, só restam estes dois últimos dias do meu treinamento.

Levanto-me, faço minha higiene matinal e tomo um banho. Assim que saio e me visto, volto para o quarto e passo alguns minutos a contemplando. Fico maravilhado em pensar que falta tão pouco para torná-la minha, que dentro de dois dias estaremos em Daggorhorn e que após isto, ela será minha esposa.

Eu não sei por que motivo, um calafrio percorre minha coluna, me fazendo arrepiar, o que faz-me ajoelhar-me ao chão, próximo a ela e tomar suas mãos beijando-as, e depois, beijando seu rosto e, em seguida, os seus lábios.

Assim, eu digo:

—Sempre amarei você. Prometo que sempre a amarei e cuidarei de você. Não importa o que aconteça, eu não desistirei jamais do nosso amor.

Beijo os seus lábios novamente. Agora me levanto e termino de vestir a minha armadura, ainda que esteja cedo. Já que estou acordado e semi-pronto, vestindo a parte de tecido, vestirei logo o restante.

Beijo mais uma vez Valerie e saio do quarto. Ao fazê-lo, encontro Suzette com o café pronto, e ela está sentada à mesa. Beijo o topo de sua cabeça e digo...

—Bom dia, Suzette.

—Bom dia, meu filho. Não está cedo ainda?

—Sim. No entanto, eu estou sem sono.

Eu respondo. Quando estou para me sentar o telefone toca. E digo...

–Deixe que eu atenda...

Aproximo-me e pego o aparelho:

—Alô.

( —Alô. É da residência dos Oxford’s?)

—Sim, é.

( —Oi, aqui é da Guarda e quem está falando é o Coronel-General Constantine. Eu quero falar com o Capitão Lazar.)

— Sim, senhor, pode falar Coronel, sou eu, Capitão Lazar. Bom dia!

(— Bom dia, Capitão! Desculpe a hora, mas, é que o horário do treinamento de hoje foi antecipado devido a algumas programações extraordinárias que teremos no comando. Portanto, ao invés de estarem às oito horas aqui, preciso de vocês às sete. Sinto por não ter avisado antes, mas, foram mudanças de última hora.)

— Tudo bem, Coronel, estaremos aí! Obrigado! Até mais, senhor.

(— Até mais, filho.)

Desligo o telefone um pouco perplexo. Ainda acho bem interessante a forma dele me tratar. Como em tão pouco tempo, consegui cair nas graças de alguém? Bem, mas, não há tempo para pensar agora. Tenho que acordar os rapazes, pois, os nossos planos foram antecipados bruscamente.

Lembro-me que tenho que avisar Valerie também. Porém, não quero acordá-la, tão cedo, visto que, ela quase não dormiu.

Assim, eu volto ao quarto e escrevo uma carta. E assim que termino...

Dobro o papel e escrevo por fora: A minha Futura Esposa! Amo você!

E coloco na mesinha da cama.

Volto à cozinha e vejo o Marvel, o Marverick, o Camelot e o Aquiles, tomando café e digo:

— Bom dia Marvel, Marverick, Aquiles e Camelot.

— Bom dia!

Eles respondem juntos. E minha sogra diz...

— Tome café, Henry.

— Irei fazê-lo, no entanto, primeiro eu preciso acordar o Araon e o Érion, pois, o comando acabou de avisar que teremos que começar o treinamento hoje uma hora mais cedo.

Aquiles me olha surpreso...

— Avisou agora?

Ele pergunta.

— Sim, o próprio Coronel-General Constantine ligou e pediu para falar comigo, porém, fui eu quem o atendi.

— Como?

Aquiles pergunta e eu explico o que o Coronel disse. Então, ele compreende que ele só o fez porque era comigo, pois, realmente caí nas graças dele, pois, se não teria colocado qualquer um para avisar. Porém, como é comigo, e ele me respeita muito, ele mesmo o fez.

E neste momento Marvel, diz:

— Henry, já que vão cedo, vocês nos dão uma carona para o centro de Livergoorn?

— Claro. – Eu respondo – Deixa-me apressar mais ainda, os rapazes então...

Assim que eu consigo acordar o Araon e o Érion, volto à cozinha para passar as coordenadas do dia, para o Aquiles e o Camelot. E digo-lhes:

— Não saiam de perto de Valerie, pois, esta noite inteira eu passei apreensivo com ela. Não sei, eu acho que algo pode acontecer. Ou talvez, seja porque eu sei que dentro de dois dias, nós iremos embora e eu estou apreensivo.

Suzette me olha preocupada.

Após tudo pronto, saímos em direção ao Centro do Comando da Guarda que está situado ao leste de Livergoorn, quase na divisa com Hinermoorn. Passamos pelo centro de Livergoorn e deixamos os rapazes.

Assim, assumimos uma estrada bem deserta, ainda mais a esta hora da manhã. Meu coração está o tempo todo apreensivo, enquanto o Érion e o Araon, que estão sentados de frente para mim, passam o tempo todo falando sobre algumas coisas.

Eles até tentam no início, me envolver no enredo, porém, logo desistem, pois, percebem que a minha pretensão, esta manhã, é permanecer mais quieto e em silêncio.

Como quase não dormi à noite, o balançar da carruagem, logo exerce um efeito sonífero sobre mim. E começo a cochilar em alguns momentos.

Só que num destes cochilos, bem na hora em que abro os olhos, o que vejo a minha frente, não é o Araon e o Érion, e sim ele. Depois de tanto tempo...

Peter tem uma expressão séria e firme, embora imperturbável. Então, ele simplesmente diz alto, claro e forte:

— HENRY, VOLTE! VALERIE ESTÁ EM PERIGO!

E quando pisco os olhos, ele não está mais lá.

Rapidamente, como se houvessem acabado de me jogar um balde de água, eu desperto num solavanco e já gritando, pela janela para o condutor:

— PARE A CARRUAGEM! DÊ MEIA VOLTA E VOLTE POR ONDE VIEMOS, AGORA!

Ainda que, sem entender, o condutor obedece!

Porém, como a parada é brusca, tomamos um baque enorme, e o Araon e o Érion, que também cochilavam, acordam assustados, e o Araon pergunta.

— Henry, o que houve? Por que estamos voltando? Vamos nos atrasar.

— Eu sei, mas, infelizmente eu não posso fazer nada!

— Com o assim? O que está havendo?

O Érion pergunta preocupado, pois, percebe a seriedade em meu olhar.

Então eu digo:

— É a Valerie. Ela está em perigo, e precisamos voltar agora!

E grito ao condutor:

— Apresse-se pelo amor de Deus, o mais rápido que você puder!

— Como você sabe, Henry?

Agora, o Araon pergunta...

— Não posso explicar, eu só sei que ela está em perigo e em grave perigo!

E todos nós preparamos nossas espadas, posicionando nossas mãos nas mesmas como que prevendo que em breve as usaríamos.

***

POV VALERIE

Acordo com uma sensação horrível de angústia. Corro a mão pela cama ainda sem abrir os olhos, porém, sinto-a vazia. E, rapidamente abro os olhos para constatar que o Henry não está ao meu lado. Olho para a outra cama para conferir se ele está ali. E não está. Assim que avisto a mesinha, vejo a sua carta:

A minha Futura Esposa! Amo você!

Abro rapidamente, sem pensar duas vezes e vejo escrito:

Bom Dia, minha Noiva Linda!

Futura Senhora Valerie Lazar!

Não sabe a satisfação que é pronunciar o seu nome assim: Valerie Lazar. Que será uma grande evidência de que és minha.

Já parou para imaginar que dentro de pouquíssimos dias você será minha oficialmente, para sempre? Minha Esposa. Nossa! Será um orgulho enorme chamar você de Minha Esposa. As palavras chegam a encher a minha boca!

Bem, infelizmente, eu precisei sair mais cedo e não foi possível nos despedir da maneira que gostamos, nem deu para você me vestir esta manhã (Detalhe: eu estou mal-acostumado com isto, amo você cuidando de mim, culpa sua, porque o faz com tanto prazer e o faz tão bem).

Amor, agora é sério. O Comando ligou cedo e antecipou o treinamento em uma hora, portanto, como não consegui dar as orientações eu mesmo, estou as deixando claramente escritas:

Não saia hoje, por favor; ouça o Aquiles em tudo. E, se o fizer, leve o Aquiles e o Camelot juntos. Não sei o porquê, porém, eu estou sentindo uma sensação muito ruim hoje, e é desde a madrugada, e sei que você também sentiu, então, não dê brechas, Valerie.

Pergunto a você o de sempre: Tem alguma ideia de como eu ficaria se algo acontecesse a você? Pois é. Não permita, meu amor, eu confio em você, minha princesa que amo tanto!

Cuide-se. E me espere, pois, logo estarei de volta!

Te Amei Ontem, Te Amo Hoje e Eternamente eu Te Amarei!

Do sempre Seu: Seu Futuro Esposo, Henry Lazar.

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Ler a carta do Henry me deixa muito mais angustiada e saudosa.

Imediatamente, lembranças dos flashes e sonhos inacabados da madrugada irrompem em minha mente: Henry longe, inalcançável, e a última imagem que não compartilhei com ele: um sorriso sarcástico e de escárnio de Mildrad, que me assustou completamente.

Assim que eu me lembro, tenho uma certeza: “Mildrad vai tentar matar o Henry hoje!”

Esta certeza, acerta tão forte o meu coração, que chega a me roubar o ar, e a angústia agora, aumenta e começa a me dar a sensação de que, o meu diafragma está comprimindo os meus pulmões. E, a única coisa que aliviará isto é ver o Henry seguro, com os meus próprios olhos!

Mesmo com um mal-estar terrível, eu corro ao banheiro, e, com a pouca agilidade que me resta, faço minha higiene e troco de roupa.

Eu começo a pensar em como fazer para ir atrás do Henry. Aquiles e Camelot, certamente, não deixarão. E como o Henry não está aqui, tenho certeza que o Aquiles está na porta do meu quarto e o Camelot, no portão à frente da casa.

Como posso sair? Ainda tem a minha mãe, e se ela desconfiar, ela não vai permitir. E Made? Made talvez me ajudasse, pois, se o Henry está correndo risco, Araon também está, pois, eles estão juntos.

Foi só pensar em Made, e ela entra no quarto. Ao olhar para mim, ela fica atordoada e diz:

—Valerie, eu vim te acordar para tomar café comigo e sua mãe. Porém, que bom que já está acordada. Mas, o que está acontecendo que você está com esta cara assustada?

—Made, eu preciso de sua ajuda para algo, porém, antes, eu quero que me prometa que se não me ajudar não falará o que eu irei fazer a ninguém. Você me promete?

Ela me olha muito assustada, mas, creio que, por ver meu semblante, nota que estou falando sério e diz:

—Claro que eu prometo, Valerie!

—De verdade, Made? Eu não te perdoo se você não cumprir a promessa...

—Tudo bem, deu para ver que é sério, Valerie... Diz logo!

—Há quanto tempo o Henry saiu?

—Uns trinta minutos. Por quê?

—Made, não me pergunte como eu sei, pois, eu não posso explicar. Mas, o Henry está em perigo de vida, e eu não posso saber disto e ficar de braços cruzados. Eu não sei por que, ou o que está acontecendo. Eu somente sei que o responsável é o Mildrad.

E quando termino de dizer, Made põe a mão na boca para abafar um grito e diz:

—Meu Deus! Valerie, o que você vai fazer?

—Bem, eu preciso definir isto agora, Made... E eu preciso que você me ajude a pensar. Se eu for de carruagem será lento, porém, se eu for à cavalo, eu tenho chance de chegar mais rápido, pois, eles estão de carruagem. Só que o problema é eu conseguir sair daqui. O Aquiles está aí na porta, não está?

—Sim, e o Camelot, na frente da casa. E, de vez em quando, roda todo o terreno.

—Pois é. A primeira coisa, é pensar como eu sairei daqui. Tem de ser rápido, eu preciso de um cavalo.

—Você não, nós precisamos.

—Não, Made, eu não vou permitir que você se coloque em risco por mim...

—O QUÊ? Eu já estou em risco dede que concordei em te ajudar, pois, se algo te acontecer, Valerie, o Henry mesmo me matará, e se ele não o fizer, os meus irmãos o farão. Então, se algo houver que acontecer a você, eu prefiro que aconteça comigo também. Não quero enfrentar a fúria de ninguém sozinha!

—Tudo bem. Como faremos então? – digo planejando andando de um lado a outro... – Já sei: distraia Aquiles que saio pelos fundos... E você vem em seguida.

—Não, Valerie, eu tenho uma ideia melhor. Sairemos juntas sem que nos vejam, vamos pelo portão dos fundos do terreno, e pegamos um dos cavalos de nossa carruagem, pois, hoje, eles estão aqui, visto que, os meninos desceram com o Henry, de carona, para trabalhar. Retiramos o cavalo em silêncio até próximo à trilha do riacho, e depois, nós cortamos caminho por dentro para pegar a estrada. Mas, devo dizer, é uma estrada deserta. E a partir do momento em que entrarmos nela, estaremos desprotegidas.

—Não tem problemas. Vamos.

Eu ia indo em direção à porta e a Made me segurou...

—O que você está fazendo?

—Saindo...

—E o Aquiles?

—Ué, você não sugeriu sairmos juntas? Lá fora, nós o distraímos.

—Sim, eu sugeri, mas, não pela porta, Valerie...

—Por onde então, Made?

—Para que existem as janelas, Valerie?

—Made, que ideia brilhante! Vamos logo!

Abrimos a janela com cautela e olhamos todos os lados. Camelot não estava visível na lateral da casa.

Então, primeiro eu subi e pulei, depois ajudei a Made e encostamos a janela novamente...

Saímos rapidamente, e em silêncio, pela lateral da casa, até os fundos do terreno, e foi um alívio constatar que o Camelot também não estava lá.

Corremos silenciosamente até a carruagem e por sorte já havia um cavalo desatado da mesma, e Made disse:

—É o Faísca de Marvel. Ele é muito veloz, estamos com sorte, Valerie, e já está selado. Vamos.

Saímos em silêncio com o Faísca. E a Made, que estava com as chaves, abre o portão dos fundos, e bem quieta. Assim que saímos completamente eu digo:

—Made, tranca o portão para ganharmos tempo, caso nos vejam saindo...

Assim que o digo, minha mãe aparece na porta da cozinha e nos vê e eu coloco o dedo na boca pedindo que ela faça silêncio. E antes eu não fizesse, pois, creio que, ela deduz que eu estou fugindo escondida e grita desesperada:

—AQUILES, CAMELOT! AS MENINAS FUGIRAM! SOCORRO!

—O QUÊ?

Ouvimos o grito dos dois, mas, a esta altura, eu e a Made já estávamos montadas em Faísca, e saíamos apressadamente pela trilha do bosque até o riacho. Como Made é mais experiente com as estradas daqui ela vai guiando.

Ela toma o caminho das encostas e eu pergunto:

—Made, o que você está fazendo?

—Ganhando tempo. Você não quer alcançar o Henry? Como o faremos se seguirmos o mesmo caminho? Precisamos pegar um atalho e ele já cai direto na estrada, cortamos o centro de Livergoorn e ganhamos muito tempo, uns quinze minutos, eu creio.

—Tudo bem, então, porém apresse-se que creio que Aquiles logo vai nos seguir.

—Você crê? Eu tenho certeza! Ele deve está furioso conosco, Valerie. Por falar nisto, você está preparada para enfrentar a fúria de sete homens e uma mulher quando voltar? Porque é o que enfrentaremos. Todos irão querer as nossas cabeças. Eu espero que você esteja certa e que consigamos ajudar ao Henry.

—Meu Deus, Senhor, nos ajude e nos guarde!

Eu digo e Made fala:

—Peça mesmo, Valerie, pois, eu acho que nós iremos precisar. E agora segure-se firme, pois você irá descobrir porque Marvel batizou o seu cavalo de Faísca. IAH!... – Made gritou, e de forma impressionante, Faísca disparou numa velocidade incrível, me fazendo arfar... – Eu não disse? Ele só deixa faíscas para trás. Segure-se, Valerie!

Made grita, pois, a esta altura a cavalgada era muito veloz e podíamos ouvir nitidamente o vento.

Segurei-me na cintura de Made fortemente, e cada vez que Faísca galopava, mais ainda, ele ganhava velocidade. Meu Deus, aquele cavalo era um corredor, e eu juro que se não fosse o medo de perder o Henry, eu daria lugar ao medo que eu estava da velocidade que atingíamos.

Às vezes eu procurava manter os olhos fechados, pois, o vento fazia-os lacrimejar, e era uma tortura.

Já havíamos alcançado as encostas e as estávamos contornando. E neste momento, já conseguíamos contemplar a estrada, e o quanto ela era realmente deserta. Era assustador pensar que eu, Made e Faísca estávamos sozinhos naquela imensidão cercada por florestas. E eu disse a Made bem alto para que ouvisse...

—É floresta em todo o percurso, Made?

Grito para ela...

—Sim, Valerie! E, é muito assustador, então não pense, por favor!

—Tudo bem.

Mas, no fundo aquilo me deu um enorme frio na barriga. Só que quando a imagem da risada de sarcasmo de Mildrad aparecia em minha frente e eu me lembrava do semblante de tristeza do Henry, eu me esquecia do medo. O medo de perder o Henry é maior.

Ao tomarmos a estrada, Faísca, não sei como, ainda ganha muito mais velocidade. E agora, praticamente voávamos, e as árvores, passavam como um borrão diante dos meus olhos já irritados.

Porém, após uns dez minutos cavalgando pela estrada, podíamos ouvir trotes distantes e quando me viro, ainda que distante, muito distante, terminando de curvar a encosta, eu vejo o Aquiles.

Aquilo me apavora e grito a Made:

—Made, Aquiles acabou de curvar a encosta!...

E ela responde ofegante, creio eu que já está cansada.

—Eu imaginei, ele deve ter deixado o Camelot se virando atrás de outro cavalo e vindo logo. De certa forma, é até bom, Valerie! Pois, pensa bem, se o Henry está em perigo, o que podemos fazer? Já o Aquiles é um guerreiro, e, de certa forma, estamos atraindo ele até onde o Henry está, e ele sim, poderá intervir.

—Sim, eu sei, Made. Só que ele não pode nos alcançar antes, pois, ele não nos deixará concluir a jornada!

—Sim, eu sei, Valerie. E estou dando o máximo de mim, e o Faísca também.

—Eu sei, minha amiga, e vou te dever para o resto de minha vida!

—Nada disto, eu que estou começando a te pagar o que tem feito por mim.

E neste momento, eu beijo a bochecha de Made e ela sorri. E penso em como somos realmente insanas, o mundo acabando-se ao nosso redor e ainda temos tempo para brincar.

De repente, surge uma curva na estrada e naquele momento, sei que o Aquiles nos perderá de vista por um tempo, e Made também percebe e diz:

—Vamos, Faísca, mais rápido um pouco. Você é o melhor, campeão!

E Faísca parecendo compreender, corresponde e dispara mais rápido ainda.

Porém, não estávamos preparadas para o que veríamos...

À nossa frente vinham dois cavaleiros velozmente, em nossa direção, e estranhamente, eu senti todos os pelos de minha nuca se eriçarem e percebi que Made também ficou tensa, bem no momento em que ela disse:

—Meu Deus! Eu não acredito!

—O que foi, Made?

Digo apreensiva...

—É Mildrad, Valerie! É ele que vem lá. Ele e outro que eu não sei quem é. E eles estão vindo em nossa direção...

—Ai, meu Deus, Made, o que faremos?

Digo em desespero, preocupada com o que ele fará comigo. E se ele me pegar? Porém, algo me ocorre, mas, espera aí, se Mildrad está aqui, ele passou por Henry...

—AH NÃO, MADE, SE ELE ESTÁ AQUI ELE... AI MEU DEUS, O HENRY!

***

POV AQUILES

Esta manhã não está sendo boa para mim. Eu estou apreensivo. Sinto que algo está para acontecer. E esta sensação é reforçada quando o senhor Lazar chega até mim e diz que é para eu prestar bastante atenção em Valerie, pois, ele também passou a madrugada assim.

Algo me diz que todos estes dias de tranquilidade acabam hoje. Porém, não sei explicar por que, e nem como.

Só sei que, o meu instinto de guerreiro, diz para mim que o dia de hoje mudará toda a história destas pessoas. E lá no fundo do meu coração, eu sei que é algo relacionado ao Henry e a Valerie. E isto me gera muita aflição. Pois, por mais que eu seja muito bom no que eu faça e sempre o desempenhe da melhor maneira, sei que tem coisas que escapam ao meu controle.

Eu não gosto deste sentimento. Pois, é o mesmo que eu experimentei, quando vi a minha esposa morta daquela maneira. O sentimento de impotência, e ele é terrível de se experimentar.

Assim que o senhor Lazar sai, eu vou para frente do quarto de sua senhora para manter a guarda e o Camelot fica no terreno e concentra-se na frente da casa, já que os fundos estão com o portão trancado.

Eu estava tranquilo em meu posto, quando de repente ouço à senhora Suzette gritar aflita:

—AQUILES, CAMELOT! AS MENINAS FUGIRAM! SOCORRO!

No desespero eu grito e percebo que é junto ao Camelot:

—O QUÊ?

Eu saio em disparada para os fundos do terreno e chego no mesmo instante que o Camelot.

Suzette está aos prantos e aos gritos, porém, já foi à cozinha e voltou com a chave do portão dos fundos, pois, as meninas o trancaram ao sair. E creio que é para ganharem tempo.

Digo bravo e frustrado.

—Mas, que diabos elas pensam que estão fazendo? O que deu nelas para fazerem isto? Meu Deus!

—Aquiles, elas levaram um cavalo.

—Eu sei, Camelot. Faça assim: eu vou à frente e você vai à busca de algum cavalo e me alcança. Elas foram pela trilha do bosque. Siga o rastro.

—Como pode, nós sermos ludibriados por duas garotas de 19 anos, Aquiles?

Olho furioso para ele e simplesmente respondo:

—Mulheres... elas sempre dão trabalho quando se trata de segurança, são impulsivas demais! Eu só não entendo o porquê agora? Pois, elas se comportaram tanto até aqui...

Bem no momento em que digo, eu e o Camelot nos olhamos e compreendemos no mesmo instante e dizemos juntos:

—Valerie pressentiu o perigo para os rapazes!

Aquele entendimento me apavora mais e eu digo:

—Rápido, Camelot!

Eu digo, pois, enquanto conversávamos Camelot já havia soltado e selado o cavalo e Suzette havia aberto o portão. Ela estava aos prantos esperando-nos sair, e eu disse-lhe:

—Suzette, assim que sairmos, tranque tudo e não saia até voltarmos, tudo bem?

—Sim e traga a minha filha de volta, e em segurança, Aquiles.

Apenas afirmo com a cabeça, pois, não consigo pronunciar uma palavra se quer, pois, em meu coração, eu sei que algo irá acontecer só não sei o quê. Eu apresso Camelot:

—Terminou, Camelot?

—Sim, Aquiles, eu terminei. Vai logo, então.

Monto rapidamente e saio pelo portão...

–IAH!...

Grito assim que ganho o bosque pela trilha, e o cavalo dispara...

Saio em alta velocidade, e facilmente consigo identificar o rastro deixado pelo outro cavalo. Vou seguindo e logo noto que pegaram o caminho pelas encostas, e naquele momento meu peito comprime.

O caminho escolhido por elas leva a um atalho para a estrada deserta, que justamente foi a estrada que o senhor Lazar tomou esta manhã. Assim, se Valerie e Made foram por ela, confirma-se para mim que, de fato, Valerie certamente pressentiu que algo está para acontecer com ele e não quis dizer por receio de não a permitir intervir.

Mas, eu me pergunto, como ela sabe? Como ela sente estas coisas? Estou começando a desconfiar que exista um segredo por trás disto que ela e o Henry não revelam. Mas, o que será?

Assim que eu percebo que o cavalo está pronto para aumentar a velocidade, eu o incito a fazê-lo. E é impressionante, pois, assim que começo a curvar a encosta e avistar a estrada, vejo ao longe elas galopando muito velozmente.

E percebo que a Made guia, e sei que é para ganhar tempo, pois, ela conhece os caminhos. Porém, mesmo ao longe, consigo ver que a Valerie se vira, constantemente, para ver a minha distância delas, eu acho.

Quando eu já estou na estrada, noto que elas ainda ganham mais velocidade, e só então, eu percebo que elas foram espertas e pegaram o corredor puro sangue do senhor Marvel, o Faísca. Assim, tento forçar o meu cavalo, o mais que posso. No entanto, sei que ele não terá o desempenho de Faísca.

Repentinamente, eu noto que elas somem e dou-me conta que estão em uma curva. Apresso mais ainda a cavalgada, e quando ouço trotes, ao longe, que pelo visto são velozes, atrás de mim, olho rapidamente e vejo o Camelot e um outro rapaz,talvez o dono dos cavalos, em disparada vindo em minha direção. Corro o máximo que consigo.

Quando começo a fazer a curva, já ouço o trotar do cavalo das meninas, porém, algo me alarma, ouço mais alguns trotes, além do delas e grito:

—IAH!... Mais rápido!

Tentando exigir o máximo do cavalo em que eu estou e incrivelmente como se percebesse a necessidade de se apressar, ele esforça-se mais.

Porém, quando estou terminando de fazer a curva e quase pegando a reta da estrada, novamente ouço algo que faz gelar o meu sangue:

Gritos desesperados de mulheres, e consigo imediatamente identificar: Valerie e Made...

Meu coração dispara no peito ainda mais... Pois, eu não acredito que vou falhar nesta missão, eu dei a minha palavra, não pode ser... O senhor Lazar confiou-a a mim. Como podem duas garotas conseguirem me distrair e me enganar?

Os gritos se intensificam, porém, agora ouço que um vai se afastando e juntamente com uma cavalgada que também se afasta. Eu aperto mais ainda as rédeas e assim que termino a curva, vejo duas coisas que me deixam em alerta máximo:

Mildrad ganhando a floresta com uma Valerie aos gritos presa em seu domínio e Made aos gritos nos domínios de outro cavaleiro, um dos mercenários que conheci do Lado Negro. Ele está com ela no meio da estrada.

Meu desejo é ir até Valerie, mas, receio que o plano seja que, se eu me mover até lá, ele mata Made, e eu percebo que estou em um impasse. O rosto do guerreiro ganha um sorriso de escárnio quando percebe que eu notei sua armadilha.

Noto que não ouço mais os trotes do cavalo de Camelot. E a esta altura, sei que está usando de alguma estratégia para se aproximar, temendo alguma surpresa. Assim meu estado de alerta aumenta.

Porém, logo compreendo, pois, vejo-o cruzar a floresta pela esquerda fazendo nosso código de aproximação: um assovio de cotovia. E sei, neste momento, que ele surpreenderá o guerreiro por trás, dando-me a chance de avançar e tomar Made...

Camelot aproxima-se de um lado, porém, assim que o faz, o guerreiro pressente a sua presença e vira-se. No entanto, eu avanço.

Porém, eu congelo quando ouço um disparo de um rifle!

***

POV MILDRAD

Não consigo acreditar que o tão esperado dia tenha chegado. Anos a fio esperando, planejando, e finalmente o que tenho desejado será meu!

Quando decidi fazer a emboscada para o Lazar, no período em que Valerie estava fora, foi porque eu imaginei que ele estivesse tão focado em sua segurança que daria mais brecha quanto à dele própria. Porém, eu me enganei e, de certa forma, naquele dia, a sorte estava ao seu lado.

Primeiro porque eu não consegui o ferir para a morte, e segundo porque no final, chega socorro inesperado para ele. E vi ali, a minha chance de sair intacto e preparar algo com mais cautela, e assim, a cada aproximação, eu vou conhecendo as brechas em sua defesa.

Então, quando eu fui informado por meus infiltrados na Guarda que ele estaria aqui nesta semana, vi a grande possibilidade que eu queria: encurralá-lo-ia dentro do meu território.

Eu poderia reunir o maior número de homens possível. E assim que eu o fizesse, eu invadiria a casa dos meus irmãos e pegaria Valerie! Já que não haveria muito para me impedir.

Porém, hoje a sorte parece que está ao meu favor. O Lazar saiu mais cedo, e, a princípio, eu achei que seria péssimo para os meus planos. No entanto, aconteceu algo que foi uma grande surpresa.

Quando preparei a emboscada de hoje, eu fiquei com homens agrupados e atentos, em três trechos da estrada: ao centro, onde realmente eu pretendia surpreendê-lo; no início, após a primeira curva, após as encostas; e mais à frente, logo após um desvio para uma trilha que leva a cachoeira e ao despenhadeiro.

E deixei mensageiros prontos nos três pontos estratégicos, pois, se por ventura, alguém fora dos planos se aproximasse daqueles trechos, rapidamente os homens dariam um jeito para que a estrada ficasse limpa para mim.

Só que eu não contava com duas surpresas: a primeira foi a notícia de que o horário do treinamento havia sido modificado em cima da hora e o Lazar havia passado mais cedo pelo trecho, o que na hora me deixou furioso. Todavia, eu não previa que aquilo que eu tanto queria, Valerie, viria até mim.

Assim, inexplicavelmente, recebi um aviso do mensageiro de que o Lazar estava voltando e iria cruzar o último trecho do plano inicial, e ordenei que deixassem, ele passar, e, se concentrassem rapidamente no trecho do meio, e vindo escondidos pela floresta, ali o surpreendessem com a força toda, reunida.

Porém, a surpresa maior foi saber, por outro mensageiro, que Valerie vinha sozinha com Made montadas em um cavalo, e já estavam próximas de alcançar o primeiro trecho do plano inicial, demarcado por meus homens, da estrada.

Então, eu fiz o mesmo. Pedi que todos os homens, exceto um, se concentrassem no trecho do meio, também vindo sorrateiramente pela floresta, enquanto eu voltava rapidamente até lá com um dos mensageiros para encontrar com um dos guerreiros que lá ficaria.

Assim o fiz. A alegria em mim era gigantesca, tudo muda para mim hoje, terei o meu troféu por longos anos de espera e uma cabeça que vale ouro para erguer.

Matar alguém como Lazar, no mínimo, garante para alguém do meu meio, o Lado Negro, como nós nos intitulamos, respeito. É tudo o que eu preciso. Mesmo porque esta questão hoje se tornou uma questão pessoal. Principalmente, quando eu vi com os meus olhos, no bosque, aquele dia, a forma íntima que ele a toca e que ele a tem. Aquilo fez ferver o meu sangue.

Eu sei que a Valerie nunca me quis e esta é uma questão irrelevante para mim. Eu a quero, sempre a quis e a terei, e o que farei depois que estiver satisfeito não sei. Mas, não me faltarão ideias, nunca me faltam.

Assim, que me aproximo da curva, o guerreiro vem, encontra-se comigo e o mensageiro fica na mata para ver o desfecho e dar a notícia de como vai tudo aqui com os outros, para que, desta forma, possam dar seguimento ao plano.

Porém, o guerreiro avisa-me:

—Mildrad, elas estão terminando a curva, porém, assim que o mensageiro saiu, identificamos que o Aquiles também se aproxima, com alguns minutos de distância.

—Maldição!

Eu esbravejo.

—Faremos assim: você fica com minha irmã de refém e eu pego a garota e parto em direção à floresta, vou por dentro até cortar a queda da cachoeira, próximo ao despenhadeiro. Vou escapar por ali. E se ele tentar passar, você a mata, ok?

—Matar a sua irmã, Mildrad?

—E que outra estratégia me sugere?

Ele me encara surpreso, porém, diz.

—Tudo bem. Se você quer assim.

E eu digo furioso:

—Eu só quero que o Aquiles não passe daqui, só isto. Pois, o número que temos lá, dá conta do Lazar. Então, é com você aqui.

—Pode deixar, faz tempo que desejo um embate com o Aquiles.

Assim que ele termina, tomamos posição, pois ouvimos as galopadas agora muito mais perto e assim, partimos para cima, com nossos cavalos rapidamente.

Quando elas terminam a curva. Posso ver algo que faz meu sangue ferver de excitação: o terror nos olhos de Valerie!

É impressionante o quanto seu medo de mim me excita ao extremo! A impressão que tenho é que ela tem a exata lembrança do dia em que eu quase a possuí e da promessa que a fiz: “De que um dia, eu terminaria o que comecei”.

Quando os seus olhos se arregalam de pavor, o meu sorriso cresce no rosto. E meus pelos todos se arrepiam em antecipação pela sensação de prazer que aquilo me dá.

A melhor coisa, a meu ver, é possuir alguém com o sangue cheio de adrenalina descarregada por uma onda de medo. A satisfação é inexplicável.

Eu nunca entendi isto em mim, mas, o fato é que algo assim me enche de satisfação. E até hoje, a única pessoa que ainda não me deu esta satisfação foi Valerie. Todas as que eu quis, eu consegui, portanto, cada tentativa de aproximação de Valerie me excita mais em antecipação, e aumenta o desejo de satisfazer esta privação de tanto tempo.

A verdade, é que não tenho nenhuma tolerância à frustração. Quando quero, eu quero, independente do preço. E hoje, enfim, eu terei o meu troféu!

Elas até tentam parar e retroceder, porém, quando o fazem, os três cavalos estão emparelhados. O meu de um lado, já tomando Valerie que grita e se debate, e o do guerreiro, do outro, que toma também uma Made relutante que grita para mim:

—VOCÊ É UM MONSTRO, MILDRAD! LARGA ELA, O HENRY VAI MATAR VOCÊ!

E eu começo a rir enquanto prendo, com prazer, a Valerie em meus braços, porém, amarrando suas mãos, antes. E digo com satisfação a Made para Valerie poder ouvir:

—Há, ha! A esta altura, minha irmã, o Lazar mal pode prezar por sua vida!

E o que eu queria acontece: Valerie se desespera e grita:

—NÃO, MILDRAD, O HENRY NÃO! VOCÊ JÁ CONSEGUIU O QUE QUER, DEIXA-O EM PAZ, PELO AMOR DE DEUS! FAÇA O QUE QUISER COMIGO E EU COOPERO, MAS, DEIXA O HENRY EM PAZ, POR FAVOR!

E ela começa a chorar, o que me dá uma raiva terrível, pois, seus gritos se intensificam. Não porque quer me conter para não fazer nada a ela (que é o que me excita!), mas, sim, porque não quer que eu toque nele.

A minha ficha cai naquele momento: Ela o ama! No mesmo instante, em que sei o que quero, grito ao mensageiro:

—Vá logo e reforce as ordens para matar o Lazar! Não o quero vivo! E volte assim que o fizer para pegar o desfecho aqui.

E ele o faz...

E Valerie grita mais. Porém ouço quando o Aquiles se aproxima e ainda vejo quando ele desfaz a curva e entra ao alcance dos nossos olhos. E neste instante, disparo floresta adentro, e o guerreiro que fica, segue com o seu plano.

Porém, Valerie olha para trás e grita a plenos pulmões a Aquiles.

—AQUILES!... NÃO DEIXE QUE ELES MATEM O HENRY. SALVA-O E DIGA QUE EU O AMO!

E bem neste momento, ela não resiste mais, ela só sabe chorar. E aquilo me enche de mais raiva.

Nunca gostei de lidar com lamúrias emocionais, principalmente de mulheres. Gosto quando identifico o medo nelas, pois, me enche de prazer. Gosto do pavor, do pânico, da luta e resistência que apresentam antes de possuí-las, porém, não gosto desta reação. Assim, eu sei que, eu terei trabalho e terei que antes brincar com Valerie para provocar-lhe o medo.

Então, eu começo:

—Tem alguma ideia do tempo que eu esperei para conseguir isto, e do que eu precisei fazer?

Ela não responde. Está sem reação, estática como uma boneca inerte e só chora. Olho-a em seus olhos, e não vejo mais nenhum medo ali, nenhum. Somente tristeza. E aquilo me enche de cólera, pois, eu não sei lidar com isto. Então, eu grito tentando provocar seu medo:

—OUVIU O QUE EU DISSE? EU ESTOU FALANDO COM VOCÊ!

Apesar de se sobressaltar com o susto pelo meu grito, ela não reage... e eu digo:

—Eu não te entendo, sinceramente, cadê seu medo? Cadê a sua resistência? Cadê o seu pavor que me inflama tanto a te querer? Hum?

Digo segurando os seus cabelos, fazendo-a me olhar com aqueles enormes olhos verdes. Enfim, ela diz:

—Se o Henry morrer, Mildrad, pouco me importa o que vai fazer comigo, vou te agradecer se me matar...

Suas palavras me deixam furioso e algo me ocorre quando eu já estou bem adiantado na cavalgada...

—Você não sabe o que está dizendo! Você tem medo de mim, eu sei que tem e se eu quiser, posso tê-la antes mesmo de prosseguirmos caminho. E ela diz novamente:

—Já disse... Se o Henry morrer, faça o que quiser, pois, se você não me matar, eu mesmo me mato!

Aquilo me dá vontade de tomá-la naquele momento, só pelo desafio!

Porém, algo acontece que me deixa em alerta máximo:

Meu cavalo fica arredio repentinamente, e seus pelos se eriçam. Ele acua e desço rapidamente com Valerie, pois, ele está a ponto de nos derrubar. E ele sai em disparada pela floresta.

Neste momento, ouço um barulho gutural, e, um rosnado de fera...

De repente, bem à minha frente, aparecem uma matilha de seis lobos muito bem emparelhados, e a sincronia dos movimentos que fazem é tão perfeita que tenho a exata noção do que se tratam.

Não são lobos comuns, são lobisomens, e a completa certeza ocorre quando vejo os seus tamanhos. Um é marrom, outro, preto acinzentado, outro, areia, outro, caramelo, outro, cinza, e o que está à frente é horripilante, pois, os cabelos são negros como a noite e os olhos parecem verdes, como os de Valerie. Algo igual, eu nunca vi.

E eles avançam em minha direção e de Valerie. É estranho, pois, ela está tão hipnotizada pelo lobo de pelos negros e olhos verdes que não expressa reação alguma. Parece que ele exerce um fascínio sobre ela e ela não tem mais uma reação.

Como num passe de mágica, repentinamente, um deles, justamente o de pelos negos e que está em uma postura à frente dos outros, se levanta com destreza sobre as duas patas traseiras, e transforma-se habilmente em um homem de cabelos escuros e olhos, ainda verdes, e se aproximando completamente nu diz...

—Mildrad, nós não temos negócio nenhum contigo e nada ainda contra você. Porém, eu preciso falar com ela...

—Ela está aqui, diga...

Eu digo, pois, realmente não pretendo me envolver com esta gente, só nos vemos quando precisamos de trocas de favores. Porém, procuro nunca negociar diretamente com eles, sempre há um intermediário.

E Valerie surpreendentemente diz...

—Por que eu posso ouvir você na forma de lobo? Quem é você?

Ele a olha inteiramente e ela está tão estática que a nudez dele não a incomoda... E ele responde:

— Não interessa, Valerie. Interessa que eu sei quem você é, e há muito tempo venho seguindo todos os passos de Mildrad até que ele te alcançasse, pois, eu queria me aproximar, mas, não posso ser visto e nem colocar meu clã em perigo. E seu noivo é um daqueles que nos caça. Assim, o grande dia chegou. Eu quero saber onde está seu pai, Cesaire?

Ele diz sem rodeios e Valerie pergunta...

—Como assim? Meu pai desapareceu, e se você me persegue há tanto tempo, deveria saber.

Ela o desafia e ele a olha com indiferença e diz:

—Sim, mas, a última pessoa a fazer contato com ele foi você, depois, eu soube que também o Peter. E há rumores que o Peter foi mordido, e algo me diz que foi tentando salvar você. E sei que o Peter está desaparecido e agora, você é noiva do Lazar, então, eu quero as peças do quebra-cabeça e sei que elas estão em você. Você é a chave para tudo fazer sentido. O desaparecimento de Cesaire, o de Peter... o que aconteceu, Valerie?

Valerie o olha com desprezo e simplesmente diz:

—Eu não sei. Por que eu saberia?

Ele se sentindo desafiado diz:

—Ah, por quê? Você quer mesmo que eu diga? Está bem, não pretendo mesmo guardar segredos de você, somente os que me convém. Você tem o sangue da maior linhagem de lobos que existiu, Valerie. Você é filha do lobo que arregimentou todo o meu clã, somos um exército bem treinado a ponto de em plena manhã e fora da lua cheia estar em plena forma de lobos. E somos filhos da lua legítimos, porém, seu pai nos treinou. Não é por menos que ele tenha conseguido passar despercebido na vila por tantos anos, ele era o fenômeno da nossa raça. Devemos toda nossa gratidão e devoção a ele. Enquanto na vila ele era menosprezado, em nosso meio ele era idolatrado! E queremo-lo de volta, e você foi o motivo dele ter protelado tanto para voltar. Antes era Lucie, porém, ele descobriu que ela não era filha dele, assim, ele ficou até conseguir pegar a sua única herdeira mulher, você. E seria por meio de você que faríamos uma raça invencível de lobisomens...

Ela não o deixa terminar e diz com ódio:

—Eu jamais me prestaria a este serviço, jamais eu geraria monstros como você e o meu pai.

Ele sorri em escárnio para ela e diz:

—Hum, você não teria escolha se fosse transformada em uma loba, você já tem o sangue.

Ela o olha, e está assustada. No entanto, ele diz nos surpreendendo...

—Porém, eu não posso tocar você antes da lua de sangue e ainda faltam onze anos. Mas, o tempo vai passar e nos encontraremos novamente, e aí sim, eu te farei loba!

—Jamais!

Valerie diz furiosa e em determinação!

—Quem vai me impedir? O Lazar? Coitado, nenhum humano pode comigo, assim como você, eu pertenço à terceira geração e sou quase indestrutível, mas, os meus filhos e os seus o serão.

—Não ouse, eu jamais me deitaria com você, seu...

Ela diz furiosa...

—Claro que não! Nem eu quero! E eu não preciso disto, tenho outros planos para você! Porém, não é tempo de você saber. E você, Mildrad, – ele diz agora se reportando a mim –faça o que quiser com ela, é toda sua. Porém, não a mate, se não, eu acho você, até no inferno!

Ele transforma-se e vai embora com sua matilha exatamente como chegou. Sorrateiramente. E digo a Valerie:

—Então, você é uma loba em potencial, pois, tem sangue de lobo? Você tem um segredo, então? E seu noivo, ele sabe do teu segredo? Algo me diz que sim. Porém, ele foi sempre tão fascinado por você que não se importa. E nossa... realmente você deve ser muito especial, muita gente te quer–digo acariciando seus cabelos–o Peter te quis, o seu pai te queria, o Henry te quer, eu te quero, esta matilha inteira tem planos para você... você deve ser muito poderosa. Exerce um fascínio imenso sobre os homens. Porém, como ele mesmo disse, posso fazer o que quiser com você desde que eu te deixe viva! Está de bom tamanho para mim. Vamos, fale alguma coisa! Reaja! Cadê o seu medo? Hein? Cadê?

Ela me olhava com desdém, e com tristeza...

Neste momento, ouço cavalos se aproximando e tomo Valerie segurando-a junto ao meu corpo e prendendo seus cabelos, pois, suas mãos estão presas para trás, e caminho com ela floresta adentro em busca de um esconderijo para podermos ver quem se aproxima. Ela não se debate e nem hesita.

Como já estou próximo à cachoeira, eu escondo-me com Valerie próximo às rochas. Porém, ao longe consigo ver quem se aproxima, e não acredito no que meus olhos veem. É o Lazar. E logo atrás, o Aquiles. E os dois estão com a armadura banhada em sangue, evidenciando que participaram de uma luta violenta. Eles estão à nossa procura, e Valerie ainda nãos os viu. E, na verdade, nesta hora, eu imagino que ela não acredita que ele vai sobreviver e está triste. Porém, me surpreendo quando a ouço soluçar baixo.

Quando o Lazar diz:

—Ela está próxima daqui, Aquiles, eu sinto. Ele está escondido com ela. E se eu conheço bem Valerie, ela está me vendo neste exato momento e não vai dizer uma palavra com medo de ele fazer algo contra mim. Assim como, o meu maior medo é perdê-la, ela não suporta a ideia também. Porém, ela precisa acreditar que não vai acontecer nada comigo.

Ele diz a Aquiles enquanto eles vasculham a área, próximo à cachoeira. E agora ele reporta-se à floresta, depois às rochas e diz:

–Ouviu, Valerie? Amor, ouça: nada vai me acontecer, me deixa saber onde você está, confie em mim. Eu sei que eu prometi que ele não te tocaria, eu falhei e eu te peço, me perdoa! Deixa-me corrigir isto! Eu quero matá-lo, Valerie, e eu vou matá-lo. Esta parte da promessa eu vou cumprir. Por favor, só me auxilie a te encontrar logo, para que eu possa te tirar das mãos dele.

Olho para Valerie e ela está com rosto banhado de lágrimas e digo em seu ouvido:

—Não vai gritar? Não vai pedir socorro?

Ela me olha com um olhar penetrante e diz:

—Mildrad, você nunca amou ninguém, não é mesmo? Por isto é tão mau, e tão cruel. Quando amamos de verdade, damos a vida por quem amamos. Você pode fazer o que quiser comigo desde que não toque em Henry. Deixa-o em paz. Por favor.

—Muito bonito isto, e quase me comove, porém, as coisas não funcionam assim, eu preciso de você com medo. Do que você tem medo? Hum? Já sei!

Ela me olha com atenção agora...

—Você não faria isto!

—O quê? Então, você não me conhece Valerie...

E dou uma risada em seu ouvido...

—Venha, vamos, rápido.

—Não, eu não vou!

—Tudo bem, eu atraio ele até aqui.

—Não, Mildrad, pelo amor de Deus, deixe o Henry fora disto!

—Não! Eu não vou deixar, e já chega!

Pego-a agora e colo seu corpo ao meu novamente, ela está de costas para mim. Pego minha adaga e a firmo em seu pescoço, e digo:

—Nem ouse pensar que eu não te mataria, até os lobos me encontrarem é outra história.

Aproximo-me da área aberta onde o Henry e o Aquiles ainda vasculham criteriosamente e surpreendo-os:

—Olá cavaleiros, acho que estão procurando algo...

Digo e imediatamente tenho a atenção dos dois.

E o olhar de fúria também. Porém, Valerie diz:

—Henry, por favor, não faça nada que ele pedir, pelo amor de Deus, e nem você, Aquiles.

—Ah, ele vai fazer, queridinha, claro que ele vai.

Eu digo e o Henry me olha com olhar mortífero e o prazer que me percorre é tremendo por sentir sua agonia de ver Valerie em meus braços. E para provocá-lo, cheiro seus cabelos e digo:

—O que você não faria para estar com ela exatamente assim?

Valerie chora e o Henry estremece visivelmente.

E agora, eu beijo os seus cabelos e vejo os olhos do Henry flamejarem, e suas narinas inflarem de ódio e ouço mais um soluço de Valerie, pois, sei o quanto ela sabe que aquilo o está matando por dentro e ela sofre com isto e agora as coisas começam a chegar onde quero. E Aquiles o diz:

—Acalme-se, Henry, é tudo o que ele quer. Ele quer que você aja impensadamente, não faça isto.

E entro na minha deixa:

—Não, Aquiles, eu quero mais, não esperei tanto, para não ter um show completo.

—E o que você quer, Mildrad?

Enfim, o Henry pergunta.

Começo a colocar meu plano B em ação.

—Sua vida pela dela.

Ele responde, sem hesitar:

—Feito Mildrad: “minha vida pela dela”.

—NÃO! MILDRAD, POR FAVOR, O HENRY NÃO!

Valerie grita desesperada...

—Sim, é a única maneira. O Aquiles mata o Henry e eu entrego você.

Valerie começa a se debater gritando:

—NÃO, POR FAVOR, NÃO FAZ ISTO, AQUILES, O HENRY NÃO... AMOR, DE JEITO NENHUM...

POV AQUILES

Após o disparo certeiro com o rifle, o guerreiro cai ao chão morto, pois, o tiro foi direto no coração.

Imediatamente, o Camelot vai até a Made, que está aos prantos, e a coloca com ele em seu cavalo. E diz para mim sobre o seu companheiro...

—Aquiles, eu sei que ele é civil e não deve se envolver nisto, porém, eu não tive opção, ou era isto, ou nada de cavalo.

E, eu digo ao rapaz...

—Amigo, agora você está livre para ir. Cumpriu mais do que deveria! Obrigado.

Porém, o homem cheio de determinação disse:

—Não ainda, senhor. Vejo uma sangrenta batalha à frente, e creio que esta ajuda será bem-vinda – e ele levanta o rifle –e dará a vocês alguma vantagem. E, eu quero ajudar.

Camelot olha para mim, pois, todos sabemos que nós guerreiros nunca devemos permitir que um civil se envolva com nosso consentimento em algo que possa levá-lo à sua morte. Pois, vivemos para protegê-los. Então, eu digo:

—Desde que assim que você perceber que terá vantagem para fuga e que corre risco, saia daqui.

—Sim, senhor, eu prometo!

—Tudo bem.

Ao olhar para floresta, antes de partir, vejo o último mensageiro que Mildrad deixou, escondido, disparar para onde acontecia a batalha, para dar suas informações de tudo o que viu, e se ele chegasse avisando do rifle, estragaria nosso elemento surpresa. Assim, disparamos atrás dele.

—Tudo bem, Camelot, acho que ele realmente será útil. – Eu digo, apontando o rapaz –Vamos pegar aquele mensageiro, antes que ele chegue ao seu destino. Porém, só atire se tiver certeza, economize suas balas para a batalha.

Saímos rapidamente com os nossos cavalos em alta velocidade, pela estrada, atrás do mensageiro, porém, ele está a muitos metros à frente.

Noto alguém, que pela altura e porte físico, mesmo ao longe, identifico ser o Henry, o que me alivia e muito, por vê-lo vivo. Ao perceber a aproximação do mensageiro, o interpela e pega-o com fúria em seu cavalo.

Apresso mais ainda minha cavalgada neste momento, e o Camelot e o rapaz fazem o mesmo. Ao estarmos quase nos encontrando com o Henry, percebemos que um grupo de guerreiros se desloca para nossa direção. Assim, eu digo ao dono do rifle:

—Amigo, é a hora de provar seu valor. Use suas balas e sua pontaria com sabedoria! E poupe o primeiro cavaleiro, ele é um dos nossos, é o Capitão desta missão!

Ele acena que sim com a cabeça e se prepara, e Camelot também entra em posição para combater algum guerreiro que passe pelas balas.

O Henry chega, gritando ofegante:

—Vou atrás de Valerie!... Consegui arrancar do mensageiro qual o plano de Mildrad antes de matá-lo!

E eu digo:

—Também vou, senhor.

Porém, o Henry responde:

—Aquiles, você será útil aqui. Estamos em poucos e os guerreiros que Mildrad contratou são bons. Graças a Deus, nós não tivemos nenhuma baixa ainda, porém, estamos todos esgotados.

E neste momento o revelo o meu trunfo!

—Porém, eles não esperam por isto, senhor...

E aponto para o nosso novo aliado com o rifle em posição.

O Henry arregala os olhos e diz preocupado:

—Aquiles, ele é civil.

E rapidamente o rapaz responde:

—Me perdoe, Capitão, temos um acordo, e se minha vida for colocada em risco, eu saio daqui. Fique tranquilo, quero ajudar. Vá resgatar sua senhora em paz!

O Henry o olha, já mudando sua postura para uma mais intimidadora ainda e responde:

—Obrigado, será muito bem recompensado por isto, rapaz.

—Obrigado, senhor, já é uma honra poder participar.

—Porém, Aquiles, eu quero que você ainda fique dando auxílio pelo menos agora, para se certificar que tudo ficará bem, e depois, você vai atrás de mim. Estarei próximo à cachoeira, ao despenhadeiro e à floresta, pois, é por lá que o Mildrad pensa em escapar.

O Henry diz, e dispara com seu cavalo floresta adentro, em direção ao local informado pelo mensageiro.

POV HENRY

Assim que tomo a floresta, sigo em direção ao local que o mensageiro me disse. Porém, embora ele tenha me dito que Mildrad está sozinho, eu prefiro ser cauteloso, por receio de ser pego com uma surpresa, afinal, é tudo que mais amo no mundo que está em jogo aqui: a vida de Valerie.

Meu cavalo parece pressentir o perigo, pois, fica um pouco mais arredio, à medida que vamos avançando...

Quando eu já estou próximo à divisa da floresta com o despenhadeiro e a cachoeira, vejo uma cena que me surpreende completamente, e que faz a minha memória buscar uma conversa minha com o Aquiles no riacho nesta semana, em que falávamos sobre clãs vivos de lobisomens.

Vejo Mildrad com Valerie em seus braços, e me incomoda demais o fato dela ter seu corpo totalmente próximo ao dele. E ele mantém as mãos dela totalmente para trás, amarradas. Eles estão de frente a uma matilha sincronizada de lobisomens. Sei que são lobisomens, pela perfeita formação em que se encontram, e pelos tamanhos.

Desço com cautela do meu cavalo o deixando ali, e me aproximando o máximo que posso para ouvir a conversa, e tudo o que ouço mudará para sempre minha forma de ver minha vida ao lado de Valerie:

Valerie diz a um lobo de pelagem totalmente negra, que toma a forma humana em sua frente, e como me incomoda aquela figura completamente nua de frente à minha noiva, porém, ela está tão chocada, que parece nem se dar conta:

Por que eu posso ouvir você na forma de lobo? Quem é você?

Ele a olha da cabeça aos pés e com intensidade. E ele responde:

Não interessa, Valerie. Interessa que eu sei quem você é, e há muito tempo venho seguindo todos os passos de Mildrad até que ele te alcançasse, pois, eu queria me aproximar, mas, não posso ser visto e nem colocar meu clã em perigo. E seu noivo é um daqueles que nos caça. Assim, o grande dia chegou. Eu quero saber onde está seu pai, Cesaire?

Ele diz objetivamente e Valerie pergunta...

Como assim? Meu pai desapareceu, e se você me persegue há tanto tempo deveria saber.

Neste momento ela revela sua verdadeira personalidade, a que ela sempre teve antes de se fragilizar adoecendo, pois, ela o desafia dizendo suas palavras secamente. Porém, ele diz sem se incomodar:

—Sim, mas, a última pessoa a fazer contato com ele foi você, depois soube que também o Peter. E há rumores que o Peter foi mordido, e algo me diz que foi tentando salvar você. E sei que o Peter está desaparecido e agora é noiva do Lazar, então, eu quero as peças do quebra-cabeça e sei que elas estão em você. Você é a chave para tudo fazer sentido. O desaparecimento de Cesaire, o de Peter... O que aconteceu, Valerie?

Valerie o olha com nojo e indiferença e diz:

Eu não sei. Por que eu saberia?

Não aprovando o tom de desafio na voz dela, ele diz:

—Ah, por quê? Você quer mesmo que eu diga? Está bem, não pretendo mesmo guardar segredos de você, somente os que me convém. Você tem o sangue da maior linhagem de lobos que existiu, Valerie. Você é filha do lobo que arregimentou todo o meu clã, somos um exército bem treinado a ponto de em plena manhã e fora da lua cheia estar em plena forma de lobos. E somos filhos da lua legítimos, porém, seu pai nos treinou. Não é por menos que ele tenha conseguido passar despercebido na vila por tantos anos, ele era o fenômeno da nossa raça. Devemos toda nossa gratidão e devoção a ele. Enquanto na vila ele era menosprezado, em nosso meio ele era idolatrado! E queremo-lo de volta, e você foi o motivo dele ter protelado tanto para voltar. Antes era Lucie, porém, ele descobriu que ela não era filha dele, assim, ele ficou até conseguir pegar sua única herdeira mulher, você. E seria por meio de você que faríamos uma raça invencível de lobisomens...

Ela não permite que ele prossiga a sua fala, e com toda a força e fúria que reúne, ela diz:

Eu jamais me prestaria a este serviço, JAMAIS eu geraria monstros como você e meu pai.

Bem neste momento, eu vejo o quanto é repugnante para Valerie, a ideia de que ela pode conceber uma fera. Ela simplesmente tem pavor disto. E mais uma vez o peso das informações que ouvi do Aquiles no riacho, pesam sobre mim.

Porém, eu ainda não tenho o mínimo de desejo de falar. Não quero que ela deixe deter filhos por causa disto, não quero que abra mão de ser mãe, já que ela deseja tanto, e no mais, eu quero uma família com ela. E sei que este segredo ainda me atormentará muito.

Agora ele dá uma potente risada de sarcasmo e escárnio para Valerie e diz:

Hum, você não teria escolha se fosse transformada em uma loba, você já tem o sangue.

O meu sangue ferve por temer que ele a toque e a transforme, e creio que ela também teme nesse momento, pois, pela primeira vez, ela o olha assustada... no entanto, ele diz algo que a surpreende e a mim também.

Porém, eu não posso tocar você antes da lua de sangue e ainda faltam onze anos. Mas, o tempo vai passar e nos encontraremos novamente, e aí sim, eu te farei loba!

Meu coração dispara, pois percebo que minha batalha em proteger a vida de Valerie está apenas começando. E Valerie diz furiosa a ele...

Jamais!

Ela fala de forma obstinada! E ele responde mais uma vez em deboche...

Quem vai me impedir? O Lazar? Coitado, nenhum humano pode comigo, assim como você, eu pertenço à terceira geração e sou quase indestrutível, mas, os meus filhos e os seus o serão.

Aquilo me enoja profundamente, pois, pensar naquela criatura tocando Valerie é impensável para mim. E creio que para ela também, pois, ela faz uma cara de repugnância e diz:

Não ouse, eu jamais me deitaria com você, seu...

Ela diz em meio à fúria. E a esta altura, minha fúria também é enorme, porém, se eu intervier agora, acabo com a chance de salvá-la.

Eu preciso controlar cada nervo do meu corpo e cada músculo, para que eu não aja impulsivamente. Preciso ser frio e calculista para premeditar cada ação minha para que eu tenha êxito em minha tarefa em resgatá-la.

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Porém, uma coisa eu sei, ele não tem intenção de matá-la, e pelo que vejo, nem salvá-la de Mildrad. O que ele quer então? E presto atenção para terminar de ouvir e compreender...

Claro que não! Nem eu quero! —ele diz firmemente e imperturbável–E eu não preciso disto, tenho outros planos para você! Porém, não é tempo de você saber. E você, Mildrad, – ele diz agora se reporta a Mildrad–faça o que quiser com ela, é toda sua. Porém, não a mate, se não, eu acho você, até no inferno!

Ele transforma-se e vai embora com sua matilha exatamente como chegou, deixando Valerie nos braços de Mildrad.

Fico impressionado de ver a ligação daquele lobo com ela, como ela pode ouvi-lo?

***

Ali sei que está minha chance de me aproximar, dou a volta por dentro da floresta para que os lobos não me vejam, nem muito menos Mildrad. Apanho meu cavalo onde deixei...

Fico pensando em tudo o que ouvi. Por que Valerie o ouve como lobo? Ela ouvia o Cesaire, mas, porque ele era seu pai, e ela tem o sangue de lobo dele.

Porém, quando volto a me aproximar da região em que ele estava com Valerie, olho e vejo Aquiles...

—Senhor, não a encontrou?

—Encontrei, porém, eu estava em uma posição desfavorável e tive que aguardar, e no período em que contornei pela floresta para ganhar outra posição, ele mudou de local e se escondeu com ela. Vamos avançar mais, Aquiles.

E o fazemos, seguindo um pouco mais, com os nossos cavalos... Não toco no assunto dos lobos com o Aquiles.

POV VALERIE

Eu nunca pensei que o que eu fiz hoje, me conduziria a tudo o que passei até agora. A dor e a agonia em meu peito é grande demais. Eu saí com o objetivo de salvar o Henry, e agora me vejo como o motivo de sua morte.

Desde que compreendi o que Mildrad queria, que era matá-lo, eu não estou nem aí para o que ele quer fazer comigo, contanto que ele não encoste em Henry.

É impressionante. Eu nunca imaginei que um dia amaria o Henry. E hoje, eu o amo tanto, que facilmente seria capaz de oferecer a minha vida para poupar a sua. Eu sempre tive um medo terrível de Mildrad. Porém, agora eu vejo que este medo não é nada comparado ao medo de não poder mais ter o Henry vivo.

É tudo o que importa para mim, mantê-lo vivo e em segurança. E só agora eu vejo, o quanto o amor nos faz forte, pois, eu não estou bem. Emocionalmente, estou em frangalhos, fisicamente, estou esgotada, porém, para me sacrificar pela vida do Henry, me sinto intacta.

Assim, quando o Henry se oferece para sacrificar sua vida para me deixar viva e segura, eu entro em desespero, pois, eu sei que ele seria extremamente capaz disto. A mesma força que o move, é a força que move a mim: O Verdadeiro Amor.

E começo a sentir dentro de mim, minha vida se esvair. Sinto a morte agora tão perto, pois, eu tenho certeza que se Mildrad matar o Henry, ele não precisa me tocar, pois, eu já estarei morta. Não há um futuro para mim sem ele, eu sempre soube disto.

Quando o Peter, se foi levando com ele, a minha última grande perda, deste processo todo, o Henry foi o meu remédio, a minha cura completa. Só há uma Valerie hoje, porque houve um bravo e valente Henry para mantê-la viva. Se este Henry partir, não sobrará nada desta Valerie...

POV HENRY

Eu nunca imaginei de verdade que eu teria de fazer uma escolha assim, porém, eu não penso duas vezes quando Mildrad pronuncia:

—Sua vida pela dela.

Mesmo ouvindo os gritos de Valerie e percebendo o seu desespero se intensificar quando ele revela seu plano de Aquiles me matar para deixa-la livre, eu não hesito.

Imediatamente, eu retiro a minha espada da cintura e a jogo ao chão, e meus joelhos também cedem ao chão e digo com firmeza e certeza a Mildrad e depois a Aquiles:

—Feito Mildrad: “minha vida pela dela”. – Digo sem hesitar a ele e depois a Aquiles. — Aquiles, vai.

Aquiles me olha atordoado, sem entender... E balança a cabeça negativamente, enquanto Valerie grita desesperadamente tentando se debater com uma adaga na garganta.

E naquele momento eu entendo... eu entendo tudo... o que move Mildrad, o que dá prazer a ele é ver o medo e o desespero que ele pode causar nas pessoas. Vejo isto com clareza quando percebo seus olhos brilharem intensamente com os gritos de Valerie diante do meu sofrimento. E nesta hora, a minha mente estratégica começa a trabalhar. E digo:

—Mildrad, Aquiles fará exatamente o que você quiser. Porém, eu tenho um pedido antes.

—Você não está na condição de pedir nada.

Ele responde rudemente. Porém, eu digo firme:

—Mas, irei pedir assim mesmo. Eu quero beijá-la uma última vez. Somente uma.

Valerie chora ainda mais. Meu coração dói demais com aquilo, pois, sei que ela está revivendo suas dores em escala máxima.

—Você acha que eu sou trouxa, Henry?

—Mildrad, pensa bem, você pode vir junto. E exatamente como está, com ela em seu domínio. Eu nunca arriscaria a vida dela. E no mais, pode mandar Aquiles me amarrar e conferir, se quiser, e assim você estará no controle. Vamos lá, não custa nada. Você está com ela, estou deixando você me matar... qual é o problema?

Os olhos dele brilham com a possibilidade de ver Valerie sofrer com a minha morte. Enfim, eu consegui compreender um pouco como funciona a sua mente doentia.

E ele diz excitado por aquilo:

–Amarra ele, Aquiles, e nem sonhe em fazer graça.

Ele diz ameaçando e apertando a adaga no pescoço de Valerie, e aquilo aumenta a minha fúria.

Aquiles começa a amarrar minhas mãos para trás, enquanto Mildrad acompanha criteriosamente, porém, distante, com Valerie nos braços. Dói-me demais vê-la ali tão indefesa e tão sem reação, achando que está tudo perdido. E, suas lágrimas a esta altura correm soltas, fazendo meu peito se comprimir de tristeza. Ela evita olhar meus olhos, o que me dói mais ainda.

Assim que Aquiles termina, ele afasta-se e Mildrad diz:

—Mais longe, Aquiles...

Vejo que Aquiles está relutante e digo:

—Vai, Aquiles, obedeça.

Eu percebo que Aquiles está angustiado e sem acreditar no que estou fazendo, porém, sinto que está depositando a sua confiança em mim.

E digo a Mildrad:

—Tudo pronto, Mildrad. Eu estou ajoelhado, amarrado e indefeso, e só quero um beijo da minha noiva antes de você me executar.

Ele me olha com o olhar de vitória e o choro de Valerie aumenta e ela diz:

—Mildrad, por favor, não faz isto, por tudo que é mais sagrado, não machuque ele... Faça o que quiser comigo, por favor...

Ela diz já sem forças, o que faz meu peito doer demais, pois, sei o quanto ela está sofrendo. Porém, reúno forças e digo...

—Nada disto, Mildrad. Nós temos um acordo: minha vida pela dela. Você me mata e deixe-a viver, em paz.

Ele sorri em escárnio.

—Você está com sorte hoje, Lazar. Vou conceder seu pedido.

—Vamos, Valerie, e ajoelhe-se em frente a ele. E não ouse fazer graça que eu a mato, você sabe disto!

Ele diz apertando a adaga no pescoço de Valerie, a ponto de ela gemer e correr um filete de sangue. E aquilo me corrói por dentro, e meu ódio por aquela criatura, a esta altura, é mortal.

Valerie agora se aproxima e, olhando para mim, chora ainda mais e quando está a um palmo de distância, Mildrad diz:

—Ajoelhe-se agora, e rápido, Valerie.

E ela o faz, deixando seus joelhos cederem ao chão.

Meu corpo todo reage ao senti-la tão próximo e sentir seu calor, seu cheiro, ver seu corpo tão perto. Meu instinto de proteção faz crescer em mim o desejo de tomá-la em meus braços e sumir com ela daqui, protegendo-a, e redobra também o desejo insano de matar Mildrad e fazê-lo pagar por tudo o que ele está a fazendo sofrer. Ela esta de cabeça baixa e não consegue me olhar nos olhos e diz:

—Me perdoe, Henry, eu saí pela manhã, pois, senti que ele mataria você hoje. E eu quis intervir, eu não podia deixar. Porém, agora, ironicamente, eu vou ser o motivo da sua morte. Acabou para mim, Henry, eu não aguento isto, eu não posso perder você, amor...

Ela começa a chorar mais, e agora em desespero...

Eu inclino-me até ela e aproximo meus lábios dos seus e digo:

—Ei, princesa, olha para mim, por favor, me olha.

E ela o faz, e há tanta tristeza em seu olhar que faz expandir a dor em meu coração, porém, digo-lhe:

—Vai ficar tudo bem, meu amor. Amo você, minha vida, e lembre-se, Valerie: “O amor é forte como a morte!” Hum? E é meu amor! O meu amor por você é maior e mais forte do que tudo. Eu amo você, Valerie, sempre a amei e sempre a vou amar! E você me ama?

Ela me olha agora com profundidade. Chora mais um pouco e diz:

—Amo muito, Henry e não quero perder você!

Ela acaricia meu rosto com o seu, tentando sentir o contato com minha pele, eu acho, e aquilo é revigorante para mim, este mínimo contato. E movido por este vigor, eu digo determinado a ela:

—Então, confia em mim, Valerie, e me beija!

Digo, e, a esta altura, as lágrimas correm abundantes em seus olhos. E percebo, pela minha visão periférica, o quanto a nossa agonia satisfaz Mildrad. A satisfação em seu olhar é impressionante!

—Me beije, amor. Confie em mim.

Ela aproxima-se, e sela meus lábios e sinto todo seu amor por mim naquele beijo e toda sua aflição pelo medo de me perder. E sinto suas lágrimas correrem por seu rosto, e naquela hora o ódio por aquela criatura cresce absurdamente pelo sofrimento que ele está imputando a Valerie.

Enquanto beijo-a, faço o que planejo fazer...

Só ouço quando Mildrad grita em desespero e afasta-se com dor aos berros, então, levanto-me e quando vou levantar Valerie, ele se aproxima...

Porém, num átimo, Aquiles chega e o separa dela com a espada apontada para a sua garganta, porém, eu digo:

—Ele é meu, Aquiles. Eu vou matá-lo, porém, antes...

Olho para Valerie agora em meus braços chorando e beijando muitas vezes o meu peito, mesmo por sobre o peitoral da armadura, corto a corda que prende seus braços e digo:

—Meu amor, acalme-se, pois, eu preciso que você saia com Aquiles, pois, não quero que veja, Valerie.

—Não, Henry, eu quero ficar. Eu não vou para longe de você, amor, não me peça isto.

Ela me diz chorosa, o que me dói, pois, realmente sei o quanto é penoso nos separarmos nestas circunstâncias. No entanto, eu digo a ela...

—Valerie, está tudo bem, ele não tem mais como me ferir, minha vida. Confie em mim.

Ela assente que sim com a cabeça e afasta-se para sair com Aquiles...

***

Tudo aconteceu assim:

Quando Aquiles amarrou minhas mãos, eu a posicionei de uma forma que eu não perdesse os movimentos e a mobilidade em meio à corda, assim, enquanto Valerie conversava comigo e me beijava, eu usei minhas mãos para pegar minha adaga afiadíssima que estava no suporte invisível, preso na parte de trás de meu cinto. Soltei a corda rapidamente e com fúria, destreza e precisão na minha mão esquerda, eu segurei a adaga e sem que ninguém percebesse, num impulso e raiva, eu havia feito o que planejei e Mildrad gritava em desespero:

Eu decepei a sua mão que segurava a adaga que ele mantinha no pescoço de Valerie.

E a única coisa triste para mim daquela cena, foi ver seu sangue que jorrou para todos os lados, cair sobre Valerie, que estava tão aliviada por nos ver livres, que nem se importou. Após liberar suas mãos, ela me abraçava, beijava meu peito para constatar que eu estava vivo e bem.

E agora Mildrad pegava no bolso com a outra mão um lenço e fazia como podia um torniquete para estancar um pouco o sangue...

***

Enquanto Valerie se afasta, vejo os olhos de Mildrad faiscarem e num piscar de olhos ele faz aquilo que vai dilacerar para sempre o meu coração:

Ele, eu não sei como, se desvencilha da espada de Aquiles, e puxa Valerie pelos cabelos para si, porém, alcanço na velocidade da luz minha espada e a cravo em seu abdômen antes dele aproximar Valerie ainda mais de si, porém, ele ainda a pega.

Rapidamente, levo minha mão livre para puxá-la. No entanto, mesmo corroído pela dor, ele movido talvez pelo ódio, é mais rápido, e com as forças que lhe restam, ele, num solavanco pelos cabelos, a joga longe em direção às rochas, levando-me a gritar:

—VALERIE, NÃO!

Porém, algo surpreendente acontece, vejo um lobo de pelagem prateada se jogar na direção de onde Valerie foi lançada e quando vou levantar-me achando que ele irá machucá-la, algo mais surpreendente ainda ocorre:

O lobo se lança com tudo nas rochas, gemendo pelo impacto, segundos antes de Valerie se bater com tudo e rolar rumo ao despenhadeiro. Ele, na verdade, amorteceu sua queda e poupou-a do despenhadeiro, e aquilo é extraordinário de se ver.

Porém, mesmo com toda a sua tentativa, ela ainda bate sua fronte com força em uma pedra, e mesmo chocado, eu rapidamente corro até ela enquanto Aquiles volta a dominar Mildrad. Porém, não consigo alcançá-la, quando vejo seu rosto lavado em sangue, pois, quando me aproximo, o lobo prateado, que agora vejo acompanhado de mais quatro lobos de cores bem diferentes dos outros que vi anteriormente, rosna para mim, e paro onde estou. Porém, eu digo:

—Eu quero cuidar dela, eu jamais faria mal a ela. Ela é minha noiva, olhe as alianças, o anel e o bracelete, não estou blefando, e estou aqui para salvá-la, não para machucá-la. Ele a Capturou e queria fazer mal a ela.

Eu digo apontando a Mildrad. E mais uma vez, ele rosna. Porém, lentamente vou me aproximando, e vejo quando ele lambe o rosto de Valerie, limpando o sangue. No entanto, percebo que procura não tocar sua ferida. Ele está cuidando dela, mas, por quê? Quem ele é?

Ele afasta-se e reúne-se um pouco mais retirado de sua matilha, quietamente, como se estivessem tendo uma reunião. Porém, ele antes de prosseguir, olha para mim e faz sinal com a cabeça, indicando Valerie, e eu compreendo que posso me aproximar dela.

Corro até ela fechando o espaço entre nós, para em seguida alcançá-la e envolvê-la em meus braços em desespero ao constatar que sua fronte está aberta por um talho enorme e ainda sangra muito.

Aquilo ferve minha raiva.

E bem neste momento, chegam o Camelot e o Érion e deduzo que o Araon tenha ficado para tomar conta da Made.

Eles olham assustados para a cena e para os lobos sem nada entenderem, que, na hora, começam a rosnar temendo que eles representem perigo, e digo:

—Eles são amigos, me ajudaram no resgate dela.

Digo apontando Valerie em meu colo. E eles se acalmam e voltam ao que estavam fazendo...

Beijo o rosto e os lábios de Valerie mesmo em meio ao sangue, e levo-a no colo e entrego ao Érion, que compreende o que quero na hora, e a segura, e eu digo a ele e ao Camelot:

—Não me perguntem nada agora, depois conversamos.

Eles assentem entendendo. Porém, o Érion diz:

—Seja rápido, Henry, pois, ela está perdendo muito sangue, e está inconsciente.

Aceno que sim com a cabeça e aproximo-me de onde Aquiles mantém Mildrad em seu domínio com a espada ainda cravada em si.

Retiro lentamente a minha espada de seu abdômen, o fazendo gritar de dor.

No entanto, naquele momento, ele sorri sombriamente e diz algo olhando de mim para Aquiles:

—Pode me matar agora, Henry. Pois, de qualquer jeito, eu venci. Ela não será minha, mas, também não será mais sua. E desta vez eu tenho certeza que foi eu que completei o serviço, pois, fiquei para ver até o final. Com Irina foi diferente, Aquiles.

Aquiles toma um sobressalto...

—O QUÊ?

Aquiles diz exasperado, e Mildrad, sorri ainda mais em escárnio.

E o que ele diz surpreende e enoja a todos nós, e aquele é o único momento em que agradeci ao Criador por Valerie está inconsciente para não ouvir aquilo...

—Sim, Aquiles, como eu não conseguia colocar as mãos em Valerie com facilidade, quando eu descobri que Irina, sua mulher, era tão parecida com ela, eu resolvi me divertir com ela antes, pois, assim, eu aplacaria um pouco minha espera por Valerie, porém, nem posso considerar uma grande diversão, visto que ela estava enorme porque se encontrava grávida, e já em seu final de gestação. Porém, devo dizer que antes de terminar a minha diversão por completo, pois, eu mesmo iria matá-la aproveitando a deixa para, além de me satisfazer com ela, me vingar de você e ferir ainda mais seu orgulho, eu precisei sair para voltar em seguida e a deixei trancada em casa, ciente do estado deplorável em que estava... – ele dizia cada palavra sem emoção ou remorso algum –Ela não poderia sair e nem teria mais forças para pedir ajuda. Eu não demorei muito. Porém, quando eu cheguei, para minha surpresa, alguém já havia terminado o serviço. Mas, quanto a você, Henry, – agora ele vira seu rosto para mim – com Valerie eu mesmo terminei.

E não mais me contive, gritei alto e arranquei minha espada da bainha e iria decepar sua cabeça de uma vez com ela, porém, sou surpreendido por uma das duas espadas de Aquiles cruzando com a minha e parando-a no ar, enquanto ele tem a outra na mira da garganta de Mildrad.

E, agora, o Aquiles com o rosto coberto de lágrimas de desespero por tudo que ouviu e os olhos destilando ódio, me diz olhando profundamente na minha alma através dos meus olhos:

–Sei que você disse que ele era seu, só que eu te peço que diante de tudo que você ouviu, Henry, por tudo que é mais sagrado, deixe-me matá-lo. Eu prometo que lavo a sua honra e a de Valerie, porém, eu preciso vingar Irina para eu ter paz! Por favor. Se você for matá-lo, será rápido e indolor, pois, Valerie está necessitando de cuidados e você tem pressa, e também, porque vai fazer jus ao homem que você é sensível e de bom coração. Porém, eu não. Sou conhecido e temido por gostar de sangue e carnificina, eu estou nesta vida destas brutalidades a anos, e vou dar a este miserável a morte que ele realmente merece. Lenta e dolorosa. Por favor, me dê a honra? Por elas.

Por mais que meu desejo de matar Mildrad fosse insano, eu vi nos olhos de Aquiles a sua dor, e ela atingiu minha alma. E também como sabia que Valerie precisava de cuidados rápidos, eu disse:

—Tudo bem, Aquiles. Porém, deixe-me afastar primeiro com Valerie, não quero que ela corra o risco de presenciar ou até mesmo ouvir nada se eu puder. E lembre-se que precisamos das evidências de que é ele, para entregar ao comando.

—Sim, eu sei, a cabeça estando intacta, e as mãos, é o suficiente. Sei como funciona. Obrigado, Henry.

E Aquiles se curva em reverência para mim e agora diz ao Camelot:

—Camelot, vai na frente o mais rápido que puder e procure rapidamente o Coronel-General Constantine e use as nossas influências para hospitalizar Valerie pela Guarda e diga a ele que eu me responsabilizo por tudo...

—Nós nos responsabilizamos, Aquiles, eu estou nisso também.

O Camelot responde e prepara-se para sair, porém...

Os lobos parecem terminar a reunião e aproximam-se e, assim como presenciei na matilha anterior, um deles, o prateado, que dava todos os indícios de ser o Alfa, habilmente levanta-se em suas duas patas traseiras e tomando uma forma humana de cabelos grisalhos e olhos verdes, diante de nossos olhos, diz para mim:

—Henry Lazar?

—Sim, sou eu...

Eu respondo.

—Primeira coisa: o que presenciaram aqui hoje não pode sair daqui. Antes que digam ou pensem algo errado, o meu clã, ou minha matilha, como queiram, não representa perigo, protegemos vocês. Alguns de vocês, inclusive você, guerreiro Aquiles e você, guerreiro Camelot, conhecem as nossas histórias, só não sabiam até hoje, que eram reais. Pois, saibam que muitas o são, porém nem todas.

Ele agora, olha de novo para mim e diz:

—Henry, cuide dela. Ela está muito ferida e muito fraca. Precisa de socorro urgente, quero tentar algo para ajudá-la a suportar e a sobreviver, porém, é arriscado, só que, se minhas suspeitas a cerca dela, forem verdadeiras, fará mais bem do que mal. Eu posso? É uma tentativa.

—É para salvá-la?

Eu pergunto.

—Sim, claro, eu só não garanto que ela sai sem sequelas desta, pois, por mais que eu tenha tentado conter a sua queda, não foi suficiente.

—Entendo, e você deu o melhor de si. Pode tentar. Seja o que for, eu sinto que dará certo.

Assim, o homem-lobo se aproxima de Valerie no colo do Érion e transforma-se em lobo novamente e como é muito grande, sem esforço lambe a ferida de Valerie deixando-nos todos assustados preocupados com o veneno. E agora assume a forma humana novamente e diz apontando a cabeça de Valerie e eu me aproximo para ver. Ele diz orgulhoso:

—Deu certo.

E havia dado mesmo, a ferida não se fechou, porém, a camada da saliva estancou o sangue, o que daria a Valerie uma chance de chegar sem uma perda maior ao hospital.

Agora ele olha para mim e diz:

—Camelot, está liberado para ir ao comandante providenciar o hospital.

E Camelot olha para o Aquiles que o libera com um aceno de cabeça. Então, ele sai prontamente, tomando seu cavalo, em disparada na frente.

Olho para o homem-lobo, e digo:

—Obrigado!

Porém, ele responde:

—Obrigado, você. Cuide dela, ela é especial, e sei que você sabe do que estou falando!

—Eu sei, eu sempre soube!

Eu digo com toda certeza.

—Proteja-a e saiba que, de alguma maneira, estaremos sempre por perto!

—Tudo bem.

Eu respondo.

E ao me virar, ainda posso ver o sorriso de triunfo nos olhos de Mildrad. Fico impressionado o quanto ele é desprovido de afeto e emoção, ele assistiu a tudo e sabendo que vai morrer, com toda frieza. Chega a ser assustador.

E o homem-lobo diz:

—Só uma coisa: ele é nosso. – Ele diz apontando para Mildrad –Sei que os dois têm motivos de sobra para querer matá-lo, – ele diz apontando agora para o Aquiles e eu. –Porém, eu garanto que nós o faremos melhor do que os dois juntos, e é nosso dever limpar a terra de gente como ele. E, Aquiles, eu entendo a sua dor, e sinto demais por sua perda, porém, é o nosso dever. Lavo a honra dos dois, sua e de Henry, e de suas companheiras. Eu prometo!

Eu assinto que sim com a cabeça, e Aquiles ainda que relutante também o faz. Porém, diz ao homem-lobo:

—Precisamos das evidências para entregar no comando.

E o homem-lobo diz:

—Eu sei, a cabeça e as mãos são o suficiente. Deixaremos para vocês. Dentro de uma hora podem buscar aqui nas rochas, estará preparado para que leve. Eu só peço que pensem bem na história que contarão para não nos expor, pois, acho que demos provas suficientes de que não queremos mal.

—Tudo bem, podem ir em paz!

Eu digo e Aquiles confirma.

Eles se vão, silenciosamente, e a única coisa que ouvimos são os gritos de Mildrad sendo arrastado pelos dentes do homem-lobo, agora em sua plena forma de lobo.

Digo a Aquiles:

—O que quer fazer?

—Ficarei para esperar e levar logo o que vamos precisar. Eu preciso de um tempo sozinho para me refazer, Henry.

Aproximo-me dele e toco o seu ombro e digo:

—Apesar de tudo que também estou passando, quero que saiba que eu estou aqui.

Ele agora toca o meu e diz...

—Eu sei. Agradeço e digo o mesmo.

E agora eu saio tomando, rapidamente e com cuidado, Valerie dos braços do Érion que diz:

—Precisamos correr, Henry, ela perdeu muito sangue.

—Sim, vamos.

Digo a ele.

Tomamos os cavalos e Érion a segura novamente para eu montar, e depois me dá ela. E sigo com ela envolvida em um de meus braços e com a outra mão na rédea, porém digo ao Érion:

—Precisamos levá-la até a carruagem, pois, ela não pode se debater tanto ao ser transportada. Vamos.

—Vou à frente, então, e preparo a carruagem com o meu cavalo e o do Araon, pois, ele está lá com a Made e acredito que ela também precisa de cuidados médicos, pois, está em estado de choque.

—Claro – eu digo.

Assim, o Érion sai na frente e eu, neste momento, sinto um enorme arrepio em minha coluna e sinto os pelos de minha nuca se eriçarem, como se houvesse um grande mal nas minhas costas, me observando.

Quando olho ao longe, próximo às rochas mais altas e distantes, vejo a primeira matilha, e o olhar de fúria do lobo negro é direcionado a mim, porém, eu lhe destino o mesmo olhar, e ele retira-se com sua matilha.

Sigo num ritmo rápido de cavalgada, porém, mais cauteloso com minha vida nos braços. E me dá tanta tristeza vê-la daquele jeito tão indefesa, cheia de sangue envolvida em meus braços e digo a ela:

—Ah, minha amada, não sabe como eu temi perder você hoje, meu amor. Te amo tanto, Valerie, tanto! Você não pode me deixar, princesa. Eu não saberia viver sem você.

Faço rapidamente o trajeto até a carruagem, e ao chegar lá, ela está pronta para partirmos e o Érion está à frente para guiar. O Araon me espera atrás com uma Made dormindo nocauteada, creio que pelo choro, pois, quando os deixei ela estava desesperada.

Porém, neste momento, começamos a ouvir gritos, e reconheço na hora que são de Mildrad, evidenciando que os lobos estavam cumprindo a promessa e haviam começado a sua tortura. O Araon me olha com uma interrogação nos olhos e eu respondo.

—Mildrad... é uma longa história, mais tarde falamos.

A carruagem ganha a estrada rapidamente, mas, os gritos de Mildrad são muito audíveis.

Algo me ocorre e pergunto ao Araon...

—E o rapaz do rifle?

—Assim que ele terminou com suas balas, com muito custo, conseguimos que ele se fosse. Ele ficou bem.

—Tudo bem. Assim que retornarmos, eu quero que ele seja recompensado por sua ajuda.

O Araon confirma com a cabeça.

E neste instante também, Valerie tosse um pouco e tenta abrir os olhos algumas vezes, e meu desejo naquele momento era estar só com ela para dizer-lhe tantas coisas. E o Araon parecendo perceber diz:

—Aja como se eu não estivesse aqui, sei que você precisa.

Agradeço-o com o olhar e agora a olho focando em seus olhos sujos de sangue, e falo:

—Ei, meu amor, você está segura agora. Eu estou aqui, estou te levando para um hospital para cuidarmos melhor de você, princesa. Acabou, ele nunca mais vai encostar-se a você. Perdoa-me, Valerie...

Nesta hora eu cedo e meu choro vence, e eu não me importo mais do Araon estar ali e digo:

— Me perdoa por não ter conseguido evitar que ele te machucasse ou que ele te tocasse. Perdoa-me, Valerie.

Ela toca meu rosto, e neste momento ouvimos mais um grito, e é alto e desesperador. Valerie se assusta. E passando uma mão em seu rosto digo:

—É Mildrad, amor, está sendo morto. Ele nunca mais tocará você!

Ela me olha de olhos arregalados, e diz no seu finzinho de forças.

—Então você cumpriu, meu príncipe, pois você disse que o mataria se ele me tocasse, e alguém o está fazendo por você! Eu te amo, Henry, não esqueça disto, aconteça o que acontecer. E eu não tenho o que te perdoar, pois, você estava disposto a dar sua vida por mim, amor. Amo tanto você, tanto. Eu sofri tanto de imaginar que eu te perderia...

E neste momento, ela faz uma careta que parece ser de dor e começa:

— Ai, Ai, Henry, minha cabeça começou a latejar de repente, meu Deus, quanto tempo livre disto, ai...

Ela vai dizendo e chorando com dor e eu digo:

—Aguenta firme, amor, logo estaremos no hospital. Vamos cuidar de você!

Porém, neste momento, seus olhos ficam estranhos e parecem perder o foco, e eu digo:

—Valerie? Valerie, amor?

Ela simplesmente responde:

—Henry, está tão escuro e tão frio, amor.

E ela fecha definitivamente os olhos e eu grito já chorando:

—NÃO! Valerie, querida, aguente, por favor...

POV VALERIE

Foi tão difícil me separar daquele rosto lindo. Um rosto tão torturado, e tão triste, imerso em lágrimas. Mas, ainda assim, um rosto perfeito. Um rosto que aprendi a amar tanto. Um rosto pertencente a alguém tão necessário para mim.

Quanto mais a escuridão me envolvia, mais longe ele ficava e mais frio eu sentia. Até que a dor latejante de minha cabeça se tornou tão insuportável que eu não conseguia mais lutar contra a escuridão.

Enfim, ela me envolveu. Porém, no mesmo momento em que isto aconteceu, um túnel reluzente, de uma luz intensa começou a se abrir à minha frente. E quando ele se tornou amplo, fiquei perplexa, ao notar que ao longe, ao que parecia ser o seu final, haviam quatro pessoas que estavam de pé, sorrindo para mim. Elas acenavam me dando tchau, porém, em nenhum momento me chamavam para seguir pelo túnel.

E o que foi mais impressionante, foi ver aquele rosto. Aqui agora, eu podia vê-lo melhor, nenhum sonho que eu tive com ele após ele ter partido fazia jus à sua beleza de agora. O Peter estava lindo, seu corpo e suas roupas também eram reluzentes.

Fiquei surpresa ao ver a Laura ao seu lado. Afinal, o pai do Peter a tinha matado, e, ao que parece, um sorria para o outro. Acho que quem segue por aquele lugar não tem um coração voltado à mágoa ou a guardar rancores. Mas, os dois outros rostos não eram conhecidos para mim. Um era enorme, verdadeiramente grande, mas os dois eram muito mais reluzentes que o Peter e a Laura, e mais belos. Era incrível aquela visão. Atrás deles havia um belíssimo jardim.

Noto que a Laura sorri e manda um beijo suave para mim.
Neste instante, um pensamento me ocorre... Se eles não me chamam para o túnel e eu estou aqui em meio à escuridão, para onde eu vou? Será que não fiz por merecer ir para lá? Olho de um lado para outro e vejo que não há outro lugar para eu ir.

Começo a refletir sobre ir até eles, porém, bem neste momento, várias imagens, na verdade, vários flashes, invadem minha mente, um atrás do outro:
o dia em que eu e Henry nos beijamos a primeira vez; o momento em que ele disse que me amava; o dia em que ele me pediu em casamento; a primeira vez em que ele me fez sua, e cada detalhe veio com clareza, quase me roubando o fôlego. A nossa ida ao lago, cada momento nosso ali, ele cantando para mim, o nosso jantar de noivado, os momentos no quarto em Livergoorn e no riacho...

E enquanto estas e outras imagens surgiam, meu desejo de voltar para ele, de vê-lo, ou de tê-lo, de amá-lo e estar junto a ele, ia ficando insuportável.

Porém, num dado minuto, outras imagens começaram a aparecer: Henry, contemplando meu rosto chorando muito, antes da escuridão me envolver. Ele ajoelhado de frente para mim e eu também ajoelhada e chorando muito.

E neste instante, eu vejo quando meus cabelos são puxados fortemente e Mildrad encharcado de sangue, me lança nas rochas, para longe do Henry, que faz um esforço sobre-humano para me alcançar e não consegue. Ouço seu grito de desespero:

—VALERIE, NÃO!

E em seguida, meu corpo bate em algo macio e quente enquanto minha cabeça bate com um baque surdo nas rochas, e a inconsciência me apanha...

E é nesta hora que eu vejo, se eu voltar para o Henry, apesar de ser o que eu mais queria, eu sempre seria o motivo de sua dor, tudo o que acontece comigo o atinge, eu já tinha feito-o chorar demais, e o pior, eu quase fui o motivo de sua morte várias vezes, nas emboscadas, agora mesmo, minutos antes quando ele queria dar a sua vida por mim. Entregando-se nas mãos de Mildrad para morrer.

Por mais que o nosso amor um pelo outro seja incontestável, eu sou o grande motivo de preocupação e sofrimento dele. Ele não pode morrer, ele não pode continuar sofrendo ou correndo risco por mim. E eu sempre terei pessoas como Mildrad atrás de mim, não vê aquele maldito homem lobo? E o Henry sempre se colocará em risco para me defender.

Por que não colocar um fim nisto? Eu já estou aqui mesmo, é só caminhar para o túnel em que está a Laura e o Peter.

O Henry é lindo, ele vai encontrar alguém, sei que ele irá sofrer muito, mas, ele vai se curar. Ele é jovem ainda, e um homem maravilhoso. Encontrará uma bela e boa mulher para amá-lo, cuidar dele...

E quando a imagem, destes pensamentos capturam minha mente, a dor é gigantesca. Ver o Henry nos braços de outra mulher, beijando outra mulher, é impossível para mim.

Eu não posso, eu simplesmente não consigo abrir mão dele, eu sou uma covarde, isto seria o melhor a fazer, pouparia arrastar seu sofrimento, sofreria por mim, apenas mais esta vez, e com o tempo ele iria se curar...

Mas, eu simplesmente não posso, não consigo, eu o amo demais.
Mas, por outro lado, eu não quero fazê-lo sofrer, nem correr risco mais.Não suporto mais esta situação. Ele merece ser feliz, ao lado de alguém que não o faça sofrer.

Assim, fico olhando agora para o túnel e para a escuridão, decidindo para onde ir...

Ouço vozes falarem comigo, sinto mãos tocarem meus olhos, abrindo-os, sinto a claridade, porém, não vejo nada, as vozes são longínquas, e não consigo discernir a maioria. Mãos trabalham em mim rapidamente, me causam dor, uma dor no peito, no diafragma, ainda assim, não consigo reagir.

Ouço mais uma voz, meio familiar, parece o Dr. Dartanhã. Mas, não consigo ver nada, e agora, nem ouvir...

Mais uma vez a escuridão me arrasta e ainda vejo o túnel... porém, parece que estou perdendo a consciência, indo para um vazio...

A única coisa que me vem na memória agora é aquele rosto que amo tanto, chorando, e depois, ele me dá um lindo sorriso, e a paz me envolve quando vejo aquele sorriso, pois, é isto que me importa no mundo: ele estar bem; Henry viver seguro e feliz. Assim, tudo desaparece...

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Notas finais
Pessoas lindas do meu coração, o que acharam, por favor, preciso saber, sejam sinceros, mas, não me hostilizem se puderem e não queiram me matar, amo vocês. Eu mereço reviews e recomendações? Gratidão, beijos e até semana que vem no capítulo 51.