A Garota Da Capa Vermelha - Continuação.
58 REALIDADE DOLOROSA x RECOMEÇO - Capítulo 55 PARTE 1
Notas iniciais
POV HENRY
Nunca me senti tão destroçado. Sempre achei que abrir mão de algo é um ato de covardia. Mas, agora eu vejo, pode ser o maior ato de amor. Sei o quanto Valerie está sofrendo, sinto isto, sinto até que talvez seus sentimentos em relação a mim, podem estar mudando. Mas, não consigo mais imputar toda esta situação a ela. Por mais que doa, acho que nós dois precisamos deste tempo afastados.
Assim que ela dormiu, beijei seu rosto, seus cabelos, mas, o desejo era tomar seus lábios, mas, sabia que não podia, não mais.... Uma dor aguda atingiu meu peito. E vi que era hora de sair dali e me mobilizar para eu não desmoronar.
Abri o guarda roupa e fiz minhas malas. Havia muita coisa para fazer a partir daqui e eu nem sabia por onde começar. Eu realmente jamais previ um futuro sem Valerie, me sinto perdido de todas as maneiras possíveis.
Saí do quarto já com tudo pronto para deixar na carruagem, pois, pela manhã sairia no primeiro trem. Assim que chego do quintal de volta a casa, surpreendo-me com tio Heitor me esperando na cozinha. Sabia que não sairia daqui sem antes ouvi-lo e ele puxou uma cadeira para mim e disse:
— Precisamos conversar filho.
Respirei fundo e disse:
— Tio eu sei, mas, não vai ser agora, eu estou a ponto de desmoronar e se eu tocar no assunto o farei, e não pretendo fazer isto aqui, aos olhos de todos, e próximo a ela, apesar de tudo, sei que ela não está bem.
Ele confirma com a cabeça, compreendendo e diz:
— Está partindo?
— Sim e definitivamente tio, eu não volto.
Poucas coisas nesta vida abalam o tio Heitor, mas, naquele momento eu vi, ele ficou abalado demais e disse:
— O que aconteceu Grandão? Por favor, não me deixa no escuro com uma bomba desta. Meu Deus Henry, vocês tinham que ter esfriado a cabeça, meu filho pensa bem, foi tudo precipitado.... Acalme-se primeiro...
O tio estava apavorado, então, eu vi que teria de falar com ele, eu devia isto a ele. Contei tudo, o que aconteceu. O que Valerie viu o que conversamos. Falei de minhas dúvidas, o que disse a ela, e como rompemos nossa relação.
O tio chorou o tempo todo e muito, e ali eu vi, não seria só eu a sofrer com o término de minha história com Valerie. Todos nós, sofreríamos demais. Não era algo simples, era grande. Porém, algo realmente me surpreendeu, pois, o tio Heitor disse:
— Filho, eu não posso deixar de dizer que este não é o melhor caminho! Mas, para mim, para meu modo de ver e pensar. Mas, para você não sei, o tempo dirá. Sei que Deus tem tudo sob controle, sei que você tem confiado Nele. E no mais, vamos esperar. Fico feliz que não desistiu de cuidar dela.
— Claro que não tio, eu sou um homem, e de princípios, eu jamais faria isto.
— Posso dizer algo?
— Claro.
— Nada está perdido Henry, Deus surpreenderá você, eu creio!
Dei-lhe um sorriso sem humor algum, e ele beijou meu rosto e saiu arrasado.
***
Como não dormi, estava com tudo pronto logo cedo. O primeiro que vi foi Aquiles, e devo dizer que ele ficou surpreso demais, ao ver-me. Sentamos, conversamos e passei a ele todas as coordenadas de tudo.
Ele me surpreendeu com sua reação, pois disse:
— Não concordo com o que você fez. Perdoe-me. Mas, a meu ver, este não é jamais o momento de deixa-la. Sei o quanto é penoso para você, mas, ela ainda é a parte frágil Henry.
— Aquiles, eu não deixarei de cuidar dela e de suas necessidades.
— Sim eu sei, mas irá abandoná-la sozinha.
Ele estava impassível.
— Valerie também achou melhor assim Aquiles.
— Henry, pelo amor de Deus! A quem você quer enganar? O que está em jogo aqui é você e seus temores. Faz já um tempo que Valerie não está em condições saudáveis para decidir nada. Mais uma vez me desculpe, principalmente pela franqueza. Mas, creio que você está cometendo o maior erro de sua vida e irá se arrepender muito disto.
Aquiles termina estas palavras, pede licença e se retira.
Quando todos já estavam acordados, menos Valerie, eu resolvi fazer algo: reuni todos na mesa para o café da manhã e disse:
— Estou indo embora. O que aconteceu pela madrugada, realmente não foi culpa minha e Valerie sabe disto, nós conversamos e ela viu tudo. Porém, o que aconteceu redefiniu algumas coisas, sei que isto é questão nossa, mas, algumas satisfações, eu sinto necessidade de dar, e as estou dando aqui, neste exato momento. Pois, eu não sou moleque, eu nunca fui. E eu sinto que devo satisfação a vocês, pois, praticamente tenho a quase todos como família. O tratamento dela prossegue normalmente, as despesas ainda são minhas. E o que precisarem, eu deixarei Aquiles como contato direto para me passar o que for preciso e trazer o que necessitar. Sinto muito por todos os transtornos e agradeço a cada um por tudo e toda a colaboração. E Suzette, com você, e depois com Made, eu quero falar em particular.
Terminar aquele momento foi algo terrível e mais difícil do que eu previa. Todos os presentes, sem exceção, tinham lágrimas nos olhos. E me abraçaram ao final.
Aquiles foi o primeiro a deixar o ambiente, e sem falar comigo.
E aquilo não me agradou, sabia que tinha algo...
Ao terminar a reunião, primeiro sento-me com Made, a sós, e ela diz:
— Não estou feliz com o que aconteceu Henry. Não acredito que você desistirá dela. Tudo por causa daquela criatura infeliz...
Não deixo Made terminar e digo:
— Made, o que aconteceu com Louise só acelerou as coisas, mas, quer saber? Infelizmente, creio que mais cedo ou mais tarde, isto fatalmente aconteceria. Eu creio plenamente que nós dois precisamos disto, mais ela do que eu obviamente. Made, eu a amo mais que tudo em minha vida, eu estive disposto a dar minha vida por ela, e daria mesmo, sem pensar, e ainda dou. Mas, está doendo demais tudo isto. Você não tem ideia. Saber que o amor da sua vida te amou tanto, e agora não sabe de nada do que viveram... – Minha garganta se incha com um nó, me dificultando falar. — Precisamos nos afastar eu para tentar me recompor, e ela para pensar sem minha interferência.
Ao terminar estas palavras o choro me vence e Made aproxima-se e me abraça e diz:
— Desculpe Henry, sei que está sofrendo, não quero julgá-lo. Mas, eu te peço que, por favor, não a abandone! E quero que saiba, eu tenho certeza que no final de tudo isto, vocês se acertarão.
— Obrigado Made, cuide dela, por favor, e saiba, eu jamais a abandonarei, tudo o que precisarem, qualquer coisa, me peça. Não quero que falte nada a ela e nem a vocês.
— Tudo bem, se cuida também Henry.
— Certo.
Made me beija o rosto e neste momento, Araon chega, e abraça a nós dois, e diz comovido:
— Sabe que poderá contar conosco não é Grandão?
— Eu sei Araon, cuidem da minha... – Hesitei, pelo hábito de chama-la de minha. — Princesa.
Disse eu.
— Ela é sua, mesmo, Henry! Não precisa ter receio de dizer, tenho certeza que tudo irá se acertar.
Araon diz chorando, e eu me retiro, também chorando.
Ao sair dali, tento me recuperar um pouco.
Vou até o quarto de Suzette e bato. Ela diz:
— Entre.
O faço e vejo-a sentada na cama de olhos vermelhos. Digo-lhe:
— Me perdoe Suzette, sei que a desapontei.
Ela me olha nos olhos, com uma tristeza sem fim no olhar...
Vou até ela e sento-me ao seu lado. Passamos um longo tempo conversando...
Deixo Livergoorn com o coração aos pedaços.
***
POV VALERIE
Acordar esta manhã foi à sensação mais estranha que eu já tive. Ao me dar conta de estar só na cama, uma forte rajada de tudo o que houve me atingiu me roubando o ar. Olhei para o quarto, e não o vi também. Será que ele tinha dormido em outro lugar? Acho que sim.
Levantei-me arrumando a cama, e fui direto ao banheiro, e as lágrimas já ameaçavam a cair. Eu sabia que seria um passo difícil, mas, não imaginava que seria tanto. Todo o meu peito dói, só de pensar que não o terei mais por perto...
Saio do banheiro de roupão e vou até o, guarda roupas pegar algo para vestir...
Fico assombrada completamente ao constatar, que não há mais nada de Henry ali. E neste momento o choro que eu continha me alcança, e com ele uma enorme histeria.
Alguém bate a porta e entra. É Made, e ela fica desesperada ao ver-me aos prantos, sentada ao chão, ela vem até mim, me abraça e diz:
— Vim chama-la para o café. O que foi minha amiga?
Made diz me abraçando forte e beijando meu rosto.
Levanto-me com dificuldade, abro o guarda roupa vazio e lhe digo:
— Ele se foi não é?
Made me olha triste, suas lágrimas também rolam, e ela responde:
— Sim, muito cedo. No primeiro trem.
E o choro aumenta... O que leva a Made a me olhar espantada e em plena compreensão, então, ela diz:
— Ah meu Deus, Valerie! Você já o ama! Você já está apaixonada novamente por ele, não é?
Eu a olho chorando ainda mais, e sem condições alguma mais de negar.
— Sim, achava que era uma coisa pequena Made.... Cheguei a pensar que era até coisa de minha cabeça... mas, sim. Made eu aprendi a amar Henry novamente, mesmo sem memórias.
— Mas, amiga por tudo que é mais sagrado, por que não disse a ele? Ou você disse e assim mesmo ele se foi?
Made estava aflita.
— Não, eu não disse, ele foi sem saber.
Made ficou brava.
— Valerie por que fez isto? Você é masoquista por acaso? Gosta de sofrer? E pior, fazê-lo sofrer? Henry saiu daqui arrasado e aos pedaços.
Aquilo me doeu mais.
Neste instante alguém bate a porta, e entra.
Era minha mãe e tia Clara.
Ao verem meu estado elas correm até mim e mamãe diz:
— Ô minha filha, você já sabe, não é?
— Sim mãe.
Digo e choro mais, ela e tia Clara sentam-se ao chão comigo e Made. E ali conto a elas tudo o que houve e o que estou sentindo. E assim como Made, elas não concordam por eu ter deixado Henry ir. Mas, não interferem.
Aos poucos, naquele dia, todos manifestam seu pesar pelo ocorrido a mim, por Henry ter ido embora.
Porém, ninguém se intromete na situação, a não ser Érion que está inconformado e faz questão de me mostrar sua indignação. Mas deixa claro que me apoiará no que for preciso.
Uma surpresa para mim foi à reação de Aquiles, ele tornou-se muito próximo, dando-me todo o suporte possível. Mas era incrível como suas conversas eram povoadas de Henry, seus feitos, sua conduta, seu caráter, coisas que os dois compartilhavam juntos, mas notava que Aquiles evitava falar de nós dois juntos, eu e Henry.
***
Dez dias se passaram desde a ida de Henry, e a cada dia era mais difícil sentir sua ausência, eu não tinha fome, o sono só vinha, por que Dartanhã aumentou minha medicação.
Eu sentia falta de tudo nele, sua conversa, seu cuidado, seus carinhos, seus beijos, de estar próximo ao seu corpo. Mas, havia algo que era insuportável: dormir sem ele.
Eu ficava pensando constantemente: foi preciso ficar longe dele, e me ver ameaçada em perdê-lo para que eu enxergasse o quanto já o amo!
Todavia, eu fico refletindo, como não amar Henry? Ele é lindo, gentil, carinhoso, cuidadoso, romântico, protetor, cavaleiro, e claro, gostoso ao extremo, mesmo não me lembrando de quando fizemos amor, só pelas carícias que já trocamos e momentos juntos, eu já identificava isto. Que Henry era um amante completo.
Passo horas dos meus dias tocando alaúde.... Engraçado, é que, algumas músicas que não me lembro de ter ouvido, surgem de vez em quando. Eu as toco, e aos poucos, suas letras surgem em minha mente. Porém, não revelo isto a ninguém.
Na verdade, só Aquiles sabe. Por que geralmente é ele quem me acompanha no riacho, e lá é um dos momentos em que mais toco e canto.
***
Infelizmente, minha mãe também precisou ir embora e tia Clara também foi, mas, vinha com frequência me ver com Sophie, e eram momentos felizes, pois Sophie era animada. A vida continuava para todos, afinal, só a minha estagnou. E pelo que soube pelos rapazes, a de Henry também estava seguindo...
Érion e Araon, eram presenças constantes, afinal, tinham Elise e Made aqui em, Livergoorn. Mas, sempre me davam carinho e atenção.
Ananda era outra pessoa, muito presente. E que fazia questão de sempre falar sobre eu e Henry, falar sobre como nos achava perfeito juntos.
Aos poucos eu fui percebendo, todos sofriam com o nosso afastamento e de certa forma tentavam nos reaproximar, aos poucos e com cautela.
Ninguém, na verdade, havia se conformado com nosso afastamento. Isto era nítido e visível. Eu ficava pensando se todos faziam o mesmo com ele.
***
Numa dada manhã, em que eu teria consulta com Dartanhã, eu estava determinada a saber dele se Henry continuava o tratamento, eu sei que não era uma pergunta ética, mas, eu queria saber se ele se cuidava. Achei estranho, pois, minha consulta era à tarde, mas eles a anteciparam para parte da manhã e isto nunca acontecia.
Sempre quem me levava era Aquiles e naquele dia não era diferente. Assim que consegui sair, percebi Aquiles apreensivo e eu disse:
— Algum problema?
— Não senhora.
— Aquiles, eu acho que não precisa mais me chamar de senhora. Isto sempre me incomodou, mas, eu compreendia que era seu respeito por Henry. Mas, agora não faz mais sentido.
— Desculpe. É que é difícil aceitar o que aconteceu.
As palavras de Aquiles me mostraram, que realmente meu afastamento de Henry, não era algo que ele concordasse facilmente.
Fico surpresa ao chegar para minha consulta no consultório de Dartanhã. O motivo: Henry estava lá. Seus olhos brilharam ao ver-me e tenho certeza que os meus também, ao vê-lo. Ele fica surpreso tanto quanto eu. Percebo que está abatido e mais magro. Um exato reflexo de mim. Noto que me observa também. Automaticamente, creio que pelo hábito, ele se levanta e vem me receber. Vejo que ele olha discretamente para os presentes de noivado que me deu, constatando que ainda não me desfiz deles e também olha para a aliança. Neste momento sou tentada a olhar para sua mão direita, e vejo sua aliança ainda lá. Nem sei dizer o que senti, mas, não consegui deixar de sorrir, e ele correspondeu.
Como ele sempre foi cavaleiro, para quebrar o gelo, ele vem até mim e diz:
— Olá Valerie, é bom ver você!
Olho-o sorrindo e com o coração martelando por ter aquele olhar nos meus olhos e digo.
— Tenho o mesmo prazer em vê-lo Sr. Lazar.
Ele sorri e aproxima-se mais, e então diz:
— Posso?
Ele pergunta fazendo menção de que quer beijar meu rosto, e eu digo:
— Sim.
Ele o faz e uma corrente elétrica percorre meu corpo a partir do contato com seus lábios. Logo após ele toma a minha mão e beija seu dorso, e em seguida a palma, e logo após a fecha, e eu a levo ao meu coração, na intensão de guardar o beijo para mim.
Aquilo é muito bom. E delicioso.
Assim, que me afasto, digo, sem receio:
— Senti falta disto.
Vi seus olhos brilharem, e criando coragem prossegui.
— Sinto falta de você Henry.
Ele sorri e diz:
— Também sinto sua falta Valerie, muita.
Mas, naquele instante a recepcionista avisa que é chegada minha hora. Saio e Aquiles e Henry ficam juntos. Porém, eu digo:
— Fique à vontade para fazer o que quiser Aquiles. Daqui à uma hora nos veremos.
Ele sorri e diz:
— Tudo bem Valerie!
Senti os olhos de Henry voarem para Aquiles, o queimando pela forma com que me chamou. Porém, logo tive que entrar. Porém, o fiz preocupada...
A consulta foi boa, embora Dartanhã tenha se preocupado em desculpar sobre eu e Henry em horários próximos e eu disse:
— Sem problemas, eu gostei.
Dartanhã sorriu discretamente e prosseguiu a consulta.
Próximo ao momento de encerrar a consulta, eu ouço vozes alteradas lá fora e percebo que é de Henry e Aquiles.
Noto que Dartanhã também percebeu e está aflito. Por fim, encerramos e nós dois vamos até a porta, e ao abrir, surpreendo-me com Henry em uma postura realmente intimidadora para Aquiles, e percebo que os dois estão de pé, e que os punhos de Henry estão fechados e tremendo.
Então ele diz:
— Isto está sendo bem confortável para você não é Aquiles? Você somente esperou eu me afastar para se aproximar. No fundo você sempre viu em Valerie a oportunidade de ter Irina de volta, e de aplacar a saudade de sua mulher?
Aquiles ficou vermelho-fúria, e levou uma das mãos fechadas para socar o rosto de Henry, mas, Henry foi rápido, bloqueando-o no ar.
Porém Aquiles disse num tom gélido, feroz e letal:
— Nunca mais abra a sua boca para falar de Irina ou insinuar o que disse. Você não a conheceu e não nos conheceu juntos, ela era insubstituível para mim, sempre foi, e eu não a abandonei. Nunca abri mão dela, ao contrário de você.
Henry ficou furioso e disse, tentado agora ele, golpear Aquiles, porém foi detido:
— Eu não abandonei Valerie, Aquiles! Eu jamais eu faria isto. Eu somente dei um espaço para que ela pudesse repensar o que precisava, mas, nada a faltou...
Aquiles não o deixa terminar...
— Só o mais importante: a sua presença, somente isto.... Isto não é nada não é Henry?
Aquiles disse com sarcasmo, pois, também estava uma fera. Henry o machucou com suas palavras, e foi mais cruel ainda quando disse:
— Quem é você para dizer algo sobre isto Aquiles, você deixou Irina tão só, que não estava lá para impedir que ela fosse morta!
Meu Deus! Henry foi longe demais, pois, Aquiles apesar de visivelmente ter se encolhido pela dor, sacou a Adaga e ia direto ao pescoço de Henry, porém, Dartanhã que até agora estava em choque como o resto de nós, na recepção, gritou com autoridade, me fazendo pular:
— CHEGA! GUARDE ISTO AGORA AQUILES! E VOCÊ HENRY ACALMEM-SE!
Aquiles com o corpo tremendo e mãos também, creio que pela raiva, não relutou, obedeceu. Mas disse para Henry:
— Eu sou um homem e não saio por aí me atracando com ninguém, principalmente por mulher alheia. Estou acostumado a resolver minhas questões no diálogo ou na espada.
Henry também é letal ao dizer.
— Está insinuando que sou um moleque Aquiles? Pois, se o estiver resolveremos na espada sim, e com prazer.
Porém, Aquiles responde:
— Nunca o vi como moleque Lazar, pois, você sempre agiu como homem honrado que sei que é, mas, está tão fora de si, que se rebaixou a molecagem, dizendo o que não sabe, sobre alguém que não conheceu. Nunca mais, ouse dizer qualquer coisa sobre Irina, ou eu não respondo por mim.
Ele e Henry ainda se encaravam de forma mortal. Porém, Henry suavizou levemente o olhar, acho que quebrado pelas palavras verdadeiras de Aquiles.
Assim, Aquiles diz mais calmo...
— Eu não tenho culpa se você a abandonou, e agora se arrependeu. Ela é uma mulher inteligente, incrível e linda! E está solteira, muito embora ainda não viva como tal. Mas, achar que ninguém se aproximará dela, é presunção sua.
Meu Deus! Por que Aquiles disse aquilo? Eu não me aproximei de ninguém e nem quero alguém que não seja Henry.
Porém, o efeito do que Aquiles diz, sobre Henry é automático e ele diz:
— Você bem que queria não é Aquiles?
Aquiles não responde, e vejo nesta hora que é o momento de interferir.
Vou até o meio dos dois, e olho para cada um pausadamente e digo primeiro a Aquiles:
— Por que fez isto? Não preciso que me defenda de Henry, Aquiles.
Henry já formulava um sorriso, porém agora olho para ele e digo:
— Você não pode dizer estas coisas para Aquiles o magoando Henry! Como pode fazer isto? Ele tem sido leal e ficado ao meu lado o tempo todo.
Arrependi-me na hora, pela forma com que pronunciei as palavras, pois, o semblante de Henry endureceu na hora, certamente ele achou que eu estava defendo Aquiles por estar comigo, e antes de entrar com Dartanhã, ele disse:
— Então, faça bom proveito da companhia dele!
E ele entrou no consultório sumindo de vista, mas, em um segundo voltou e disse implacável, olhando para Aquiles:
— Peça a Camelot para me procurar aqui na cidade Aquiles, pois, a partir de hoje você não trabalha mais para mim, passarei para ele as coordenadas.
Henry disse friamente. Senti uma pontada em meu coração com aquilo, por Aquiles, porém, ele disse algo nos surpreendendo.
— Não preciso do seu dinheiro para terminar o que comecei, que é proteger Valerie, uma pessoa no momento, totalmente indefesa. Mandarei Camelot como pediu. Mas, minha parte, eu continuarei fazendo...
Henry, visivelmente recuou, porém, disse:
— Como quiser, Valerie é livre!
Suas palavras foram cortantes como aço em mim, mas, notei que ele não teve coragem de olhar em meus olhos para dizer aquilo. E ele sai fechando a porta assim que Dartanhã entra.
Todo este episódio me desgastou muito. Eu fiquei terrivelmente infeliz, parecia que tudo correria bem, mas, ao deixar os dois sozinhos tudo desandou. Aquiles percebeu que eu estava aborrecida e não moveu uma só palavra para mim. Ele estava amargurado, era visível isto. Henry o havia ferido... E mais, ele havia afastado mais ainda Henry de mim.
Já na carruagem, depois de um tempo ele diz:
— Me perdoe senhora, eu queria ajudar, mas, o que ele insinuou sobre Irina me fez perder a cabeça. Eu deveria ter ignorado, pois, vocês estão todos muito abalados emocionalmente, mas, infelizmente eu não consegui.
Por mais que eu estivesse frustrada e triste com o que aconteceu, não senti raiva de Aquiles, ao contrário, mas, claro que temia que tudo estivesse perdido. Então eu disse:
— Tudo bem, eu compreendo, mas, ficaria feliz que nada disto houvesse acontecido, pois, por um momento eu senti que as coisas se acertariam, agora acho difícil.
E por mais que eu me contenha, as lágrimas rolam.
Aquiles me olha, agora constrangido ao extremo, e com um olhar de compreensão no rosto, diz:
— Senhora, você o ama! Você voltou a amá-lo, não é?
Não consigo responder, pois o choro não deixa, mas, afirmo com a cabeça.
Olho para Aquiles e ele está apavorado, creio que com o que fez. E digo:
— Fique calmo Aquiles, tudo bem, você não sabia...
Ele não me deixa concluir, e diz:
— Eu já desconfiava sim, só não imaginava que era tão forte. Como eu fui sego Valerie, você já o ama profundamente...
Aquiles estava perplexo e eu disse:
— Sim, mas quando aconteceu, nem eu sabia que era tão forte Aquiles. Só com a distância eu consegui perceber o quanto Henry é necessário para mim e o quanto sinto falta dele, de sua presença e companhia. Eu realmente o amo, de verdade. Acho que no fundo eu já amava, mas, tinha medo de me entregar, e ele se afastar, pois, eu não recuperei as memórias, e eu sabia o quanto isto era importante para ele. Assim, mantive-me mais recuada, procurando tentar não me envolver ou entregar totalmente, e foi isto que não me deixou aproximar-me mais ou perceber o quanto já era forte o que eu sentia. Foi preciso eu.... Eu perdê-lo para compreender isto.
E agora o choro me abate, e Aquiles me consola. Dizendo:
— Vai ficar tudo bem senhora, ele a ama também, só está ferido demais. Aguente firme.
Aceno que sim com a cabeça.
A partir daquele momento seguimos o caminho em silêncio.
***
Os dias após o episódio entre Henry e Aquiles passam-se se arrastando, minhas esperanças de tê-lo novamente, estão cada vez mais escassas. A saudade dele corrói minha alma a cada segundo, a dor é dilacerante.
Made, e Érion, e até mesmo Aquiles, me dão palavras de ânimo e encorajamento o tempo todo, dizem que ficará tudo bem. Até Aquiles diz crer nisto piamente. Mesmo não trabalhando mais para Henry, Aquiles não deixa de me acompanhar e estar ao meu lado, ele só não fica mais constantemente, na casa dos Oxford’s. Apesar de depois de ele ter uma longa e sincera conversa com Marvel, e ele o ter dito que sabia separar as coisas, Aquiles diz achar melhor evitar problemas futuros.
Nas consultas seguintes, ainda vejo Henry no consultório, porém, apesar de muito educado ao me tratar, ele agora é distante, principalmente no dia em que ele me vê chegado com Aquiles, pois agora, outros me acompanhavam, mas naquela manhã, todos tinham compromissos e Camelot estava muito resfriado para sair, e Aquiles se ofereceu para ir e eu aceitei sem problemas.
Henry mal falou comigo, me deixando muito mal com aquilo.
Quando saio da sala de Dartanhã, Aquiles não está ali e vejo Henry com um olhar diferente, ele parecia estar numa batalha interna, seus olhos me diziam que ele queria estar perto e se aproximar, porém, sua atitude ainda é hostil. Assim, sem pensar me aproximo dele e faço algo impulsivamente: beijo seu rosto sem que ele espere e digo:
— Não sei o que pensa, e no que acredita mais, mas, ainda assim, quero que saiba: sinto sua falta, e muito mais agora!
E num ato de covardia, antes de ver sua reação, eu saio. Porém, um pouquinho feliz por notar a aliança ainda em seu dedo.
Cheguei a acreditar que ele me seguiria, mas, ele não o fez.
Assim que vejo Aquiles na carruagem, vou até ele. Ao entrar ele nota que tenho lágrimas nos olhos e diz:
— Ele se importa, só está muito ferido... E é compreensível, pois, ele sofreu muito, e está sofrendo.
— Eu sei Aquiles, ele está acabado, e isto me mata ainda mais, não sei mais o que fazer. Está doendo tanto, mas, tanto...
Aquiles fica desolado com meu sofrimento, porém, só me conforta em silêncio.
***
Os dias passam e nada parece mudar. Desde que Henry foi embora comecei a fazer algo que Dartanhã já havia me sugerido: escrever.
Assim, eu compro uma Caderneta e começo a cada dia escrever sobre os acontecimentos de minha vida, todos eles. E incrivelmente, ao final de cada dia, quando vou revisá-lo, para ver se faltou algo, fico impressionada, que mesmo que Henry não esteja presente ali comigo, ele é a figura mais presente em minhas escritas, ele está presente o tempo todo. E é incrível a forma com que escrevo sobre ele, parece que meus sentimentos transbordam para o papel. Escrevo o que estou sentindo, o que sinto por ele, como o que sinto por ele tem-se expandido e se ampliado a cada dia. Escrevo as palavras que gostaria de dizer-lhe, de pronunciar-lhe. E que não o posso mais. Sempre ouvi dizer, que: “palavras escritas, são palavras eternizadas”, e isto me dá mais ânsia de escrever.
***
Certo dia, e já estava próximo de fazer um mês que Henry se foi, e faziam alguns bons dias que não via minha mãe, Érion chegou para sua consulta e disse que Araon ficou, pois, tem acompanhado Henry para cima e para baixo, com o objetivo de preparar tudo para a abertura da nova Ferraria em Grewnville.
Eu fiquei imensamente feliz por saber que ele estava conseguindo dar seguimento a sua vida e seus projetos. Porém, arrasada por constatar que, de repente, ele vai mesmo conseguir seguir em frente sem mim. Aquela compreensão me fez conhecer outro tipo de dor: a dor, da resignação, de ter de aceitar algo que talvez eu não possa mais mudar.
Porém, depois de algum tempo, me observando, e triste, Érion diz:
— Ele está mal Branquinha, Araon e eu procuramos não sair de perto, para não deixar que ele desmorone. O próprio Cedrico não tem dado conta dele sozinho, nem madame Lazar. E sua mãe, tem sentido sua falta Valerie, muita. Aliás, todos nós sentimos, imagina o Grandão. Ele ama demais você!
— Mas, ele se afastou Érion, no fundo, ele também desistiu.
Érion me olha com um semblante diferente e diz:
— Será? Você realmente acredita nisto? Eu sinceramente tenho minhas dúvidas, quem sabe, esta não foi uma forma dele permitir que você descobrisse por si mesma, o quanto precisa dele, sem sua interferência. E de certa forma, funcionou não é mesmo? Não precisa admitir, só reflita sobre isto.
Tudo o que Érion diz, me incomoda muito, então, na tentativa de esclarecer tudo, de uma vez por todas, começo a programar-me para ir até a Daggorhorn.
Minha pretensão é ir e resolver tudo, eu sabia que voltaria de lá com uma resolução. Porém, o medo me abatia, pois, eu sabia que Henry estava ferido demais.
E fiquei ainda mais preocupada ao constatar que o único que poderia me acompanhar seria Aquiles. Pois, Camelot estava cuidando de Ananda, que agora, também estava doente, ele havia conseguido um afastamento de uns dias com Henry para tal. Como todos tinham seus afazeres, só havia Aquiles.
Assim, conversei com Dartanhã, e ele me liberou para uma viagem. E coincidiu ser ao término de trintas dias após Henry ter ido embora.
Eu passava agora a maior parte do tempo só ou com Made, ajudando-a com sua mãe. E era sempre nos momentos a sós, que eu mais sentia falta dele. Parecia que cada célula do meu corpo sentia sua ausência. Eu nunca tive vício algum, mas, já vi meu pai em crises de abstinência, e o que eu senti era muito parecido. Às vezes à noite, que era quando eu sentia mais falta, eu ficava desolada, e o corpo tremia... O coração martelava, quando eu acordava de algum sonho em que eu tentava desesperadamente alcança-lo, e só conseguia depois de um imenso esforço e sofrimento. Aquilo me lembrava das crises de abstinência do álcool do papai.
Antes de dormir, era sagrado eu ler a bíblia que ele havia me dado, e não era o mesmo fazê-lo sem ele. Aquilo me dava mais saudade ainda, e aumentava a certeza de que sua presença em minha vida deixou marcas profundas, era impossível dormir sem uma rodada de choro após esta constatação.
Tudo em mim protestava a ausência de Henry, enfim, eu realmente o amava, e apesar de todas as incertezas e do furacão no qual eu me encontrava no centro, duas coisas eram certas: eu sentia paz com esta revelação, e sabia que eu nunca mais seria capaz de amar alguém como eu o amo.
Se pelo menos as memórias voltassem...
***
Embora estivesse animada com a possibilidade de ver minha mãe e é claro, a Henry, eu estava muito receosa, pois, sabia em meu coração, que este encontro com ele, seria definitivo.
E eu estava com medo, estava com medo de perdê-lo definitivamente. E eu sentia que a presença de Aquiles poderia agravar tudo.
Mas, resignada ao meu destino segui adiante com o que precisava fazer...
Uma das coisas que ainda me dava esperança de verdade, de que iríamos superar tudo isto, era ler as cartas que ele havia me dado aqui. As cartas de Henry eram profundas e falavam com a alma.
Aquilo era real, não era imaginário.
***
POV HENRY
Apesar de tudo que já sofri. Nunca havia sofrido tanto quanto eu sofri neste mês sem Valerie. Quando decidi abrir mão, e vir embora, na verdade, dei minha última cartada para tentar trazê-la de volta. Como já havia feito tudo, como eu mesmo disse a ela, e nada tinha resolvido, pensei que se eu tivesse coragem o bastante de renunciá-la por um tempo, talvez a levasse a sentir minha falta.
Já havia conversado com Dartanhã a respeito, por várias vezes, pois, como ele insistia que falar sobre as memórias não era seguro, eu dizia que poderia haver algo. Então, houve uma consulta, uma semana antes do episódio com Louise, que acabou desencadeando o afastamento meu e de Valerie, em que Dartanhã após muito ter refletido, começou a discorrer comigo sobre fatos e situações que se tornaram reveladoras.
Ele me disse:
— Sabe Henry, eu sempre achei que Valerie associou o evento traumático da tentativa de abuso na infância com o fato de estar sobre o domínio de Mildrad novamente, e com esta associação, e talvez pelo fato disto, ter sido talvez insuportável a ela, a mente dela tenha bloqueado as lembranças após o retorno do coma. Eu ainda acredito nisto. Mas, sempre ficou em aberto para mim, o fato dela se esquecer, justamente só dos fatos que aconteceram exatamente do período em que se aproximaram até o dia da captura. Assim, nós hoje precisamos conversar sobre se você se lembra de algo que aconteceu que marcou muito fortemente, emocionalmente, a aproximação de vocês. Para que, a partir daí, possamos levantar alguns dados e tentar algo mais eficaz, porém, mais seguro para que ela se lembre.
Quando Dartanhã disse isto, a única coisa que veio a minha mente foi à morte de Peter e todo o sofrimento que Valerie passou. Este justamente foi o evento que marcou nossa aproximação. Mas, falar sobre isto era um risco. Então, fui cauteloso, experimentando Dartanhã.
— Olha, até que ponto você guardaria um segredo Dartanhã?
Ele se assustou, porém disse:
— O que é conversado aqui em atendimento, passa por sigilo absoluto Henry.
— De verdade?
— Claro, mas, você está me assustando.
— Bem é que eu preciso de garantias, pois o que irei te contar pode comprometer Valerie. E a mim também, pois eu mataria e morreria para defendê-la e mantê-la segura.
Ele parece perceber a seriedade da situação e diz:
— Sempre soube disto e não duvido Henry.
— Pois bem. O único evento que marcou nossa aproximação... – Eu hesitei... — Foi a morte do ex dela.
Dartanhã ficou chocado, mas, por que havia compreendido errado, pois, disse:
— Você o matou?
— Claro que não, eu jamais faria isto, sabia que iria ferir Valerie!
Ele respirou aliviado, porém, se preocupou mais, e disse agora...
— Ela o matou?
Meu Deus! Dartanhã pensa cada uma, mas, na verdade, é por que é impossível mesmo deduzir o que estou prestes a contar.
— Claro que não, Valerie o amava! Bem, ele foi assassinado Dartanhã, eu fiz de tudo para ajuda-lo a matar os homens que o perseguiam, porém, ele foi atingido, exatamente quando pressentiu a chegada de Valerie que estava preocupada com ele, e foi procura-lo na floresta, foi numa noite de lua Cheia... – A cada coisa que eu dizia, por mais que Dartanhã tentasse ser imparcial, ele não conseguia esconder seu espanto, seus olhos estavam arregalados... E agora viria a pior parte. — Ele era lobisomem. E infelizmente estava sendo caçado.
Dartanhã primeiro perdeu a cor, depois, ficou vermelho demais, e após, respirou fundo e procurou se acalmar. Ele disse, depois de um tempo considerável.
— Isto explica muita coisa. Então ela o viu morrer?
— Sim, na verdade, ele morreu nos braços dela. Já em forma humana.
Apesar de chocado e surpreso, Dartanhã estava comovido e arrasado.
— E você assistiu a tudo Henry?
— Tudo! Exatamente tudo e providenciei os cuidados com o corpo, pois, ninguém poderia saber. Por causa dos riscos para Valerie, pois, eles poderiam acusa-la de bruxa. Como já tinham feito.
Dartanhã me olhava com pesar...
— Meu Deus! Como vocês têm suportado tanto, sozinhos? Como? Por isto tanto estrago e desgaste emocional. Agora eu compreendo por que se ligaram tanto, tornaram-se o apoio e refugio um do outro. Os laços que unem vocês é muito forte Henry, demais.
— Eu sei. Mas, tem mais, eu pretendo te contar tudo, pois, talvez isto nos ajude a mapear um pouco o que pode estar se passando com ela.
Assim, eu abro meu coração a Dartanhã e conto, tudo.... Sobre o pai de Valerie. Conto com detalhes, como a defendi da fúria do vilarejo e do Padre Solomon. Como Peter foi mordido tentando salvá-la e que a única alternativa foi ele matar o pai dela, e que ela teve de ajuda-lo, pois, não queria ser amaldiçoada. E como ela vem guardando todo este segredo, e que eu só o soube, pois, Peter fez uma aliança comigo para protegê-la, caso algo acontecesse com ele.
Dartanhã ouviu tudo em silêncio, e pensou por um longo tempo, e perguntou:
— No dia da Captura dela por Mildrad, me conte detalhes de como foi.
Eu o contei tudo, cada detalhe, e confesso que não fiz sem chorar, pois, reviver aquilo foi forte, e eu ainda não tinha o feito desta maneira.
Disse como senti que ela estava em perigo, e ao voltar, como fomos surpreendidos, conto cada versão passada a mim, inclusive a de Aquiles e Camelot. E conto o desfecho com clareza, mas, omitindo os lobos.
Falo sobre o desespero dela, ao me ver sob o domínio de Mildrad. E neste momento, Dartanhã me pede detalhes e eu dou.
Quando termino, seus olhos estão tomados de compreensão e ele diz:
— Agora eu entendo! Eu compreendo claramente Henry. Você disse que ela ficou devastada de perder o ex em seus braços, não foi?
— Sim, muito.
— Pois é. E foi exatamente como ela ficou quando esteve na iminência de perder você, minutos antes de ser lançada nas rochas, aquilo foi provavelmente insuportável para ela, e claro a remeteu a perda lá de trás. Obviamente não teria como esquecer uma sem esquecer a outra, pois, você estava ligado aos dois eventos e foi à peça chave nos dois. Então, por temer uma associação dos eventos relacionados a você, e a estes dias penosos, para ela, provavelmente, a mente dela bloqueou tudo neste intervalo. É só uma teoria, mas, a mais provável para mim agora, e a que mais faz sentido. Se ela lembrar que te ama, ela corre o risco de sofrer por te perder novamente, e foi insuportável esta possibilidade para ela. Isto se confirma se pensarmos sobre o que vou te falar agora: você se lembra da pergunta que a fiz na primeira consulta com ela? “O que Henry representa para você Valerie?”
Lembrei-me exatamente de sua resposta:
— Sim, e ela respondeu: “Minha Segurança. Henry é meu tudo!”
— Sim exatamente, imagina algo tocar no seu tudo.... Foi exatamente o que a fez desmaiar e entrar em crise após o evento com Mildrad no noivado, em que ela te viu descontrolado, e ainda correndo risco.
Tudo que Dartanhã disse fez todo o sentido para mim. Como eu não percebi antes? Como eu não compreendia? É tão claro agora.
Assim, com toda esta conversa e estas possíveis descobertas, ele me autorizou pensar em uma possibilidade segura de afastamento. Pois, eu não poderia falar sobre as memórias, mas poderia tentar trazer aquelas emoções à tona para que aos poucos no tratamento ele as fosse trabalhando. Porém, o que aconteceu com Louise, de certa forma me desestabilizou, pois, eu estava por um fio também, e tudo que eu disse a Valerie na noite em que decidimos pelo afastamento, era verdade, naquele dia eu rasguei meu coração para ela.
Porém, como continuei meu tratamento, Dartanhã foi me levando a compreender como eu poderia tentar contornar tudo aquilo e ainda conseguir alcançar meu objetivo. Ele sugeriu aproximar os horários das consultas, só me disse que não usaria as consultas e o tratamento para interferir, pois, seria antiético. Porém, me dava suporte para que eu tomasse minhas próprias atitudes.
Só que, o meu emocional, já não estava bem, e o afastamento de Valerie me deixou um barril de pólvora.
Quando comecei a perceber o quanto Aquiles estava próximo, eu me enchi de fúria. Eu já havia percebido isto, antes de tudo acontecer, mas, tentava ignorar achando que era meu ciúme. E também, os conselhos de tio Heitor e dos rapazes, quando conversávamos, me diziam que eu via demais, e, que Aquiles só era solícito, por ser neste tempo, o que mais conviveu e cuidou dela, e que ele nos respeitava muito.
Porém, quando o vi no consultório, chama-la de Valerie, meu sangue ferveu, por ver que o nível de intimidade dele com ela, havia aumentado. E naquele instante, eu tentei começar um diálogo, mas, meu humor estava alterado, e ele deixava claro o tempo todo que não aceitava o fato de eu tê-la abandonado, é claro que ele não sabia e nem iria saber o que eu e estava tentando, sob a supervisão de Dartanhã, que por sua vez, havia deixado bem claro que se percebesse durante o tratamento, que algo poderia dar errado prejudicando-a, eu teria de suspender aquilo.
Eu sabia que era arriscado, mas, era uma tentativa desesperada de trazê-la de volta a mim, e de forma, segura para a sua saúde.
E nestes encontros aparentemente “casuais” que nós tínhamos, no consultório, eu cheguei a acreditar que ela sentia algo por mim, pois, ela fazia questão de mencionar que sentia minha falta.
E foi assim, até o dia em que eu ouvi ela dizer as palavras que me deixaram em pura fúria, por saber que Aquiles estava ao seu lado e não a abandonara.
Assim, quando ela se posicionou a favor de Aquiles, foi demais para mim, saí dali decidido a deixar as coisas acontecerem, não é que eu entregaria os pontos, eu tentava me convencer disto, mas, eu não conduziria mais nada. Seria como tivesse de ser.
Só que ao fazer isto, assinei meu atestado de destruição, pois, enquanto eu lutava e me mobilizava de alguma maneira, havia esperança, quando deixei de lutar, a esperança me abandonou, e fiquei apático.
Dia a dia eu vinha definhando, não conseguindo mais comer. Dormir eu já nem contava, meu refúgio vinha sendo o que eu fazia antes de ter Valerie, me afundar no trabalho.
Porém, como li em um livro de Ruben Alves: “A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar.” E a minha clama todos os dias, gritando que deseja voltar para o lado de Valerie, local de onde jamais desejei sair. E o quando o fiz, minha alma ficou lá, com ela. Já não posso, já não consigo ser um Henry inteiro, completo. Isto é impossível sem Valerie.
Todos têm estado em desespero comigo, tentando me fazer reagir. Érion, Araon, tio Heitor, que sempre vem me ver. Cedrico, nem se fala. E minha avó, ela pensa que não sei, mas, só a vejo pelos cantos, chorando para que eu não veja e intercedendo, pedindo a Deus por mim.
Mas, infelizmente por mais que eu tente, estou cada vez mais recuado e sem forças.
Até os cavaleiros, principalmente Avalon, têm tentado me animar com as lutas, mas, meu físico tem estado bem debilitado e minha atenção totalmente sem foco. Tornando a tarefa um risco constante, por fim eles desistem.
***
Soube que Valerie virá a Daggorhorn ver sua mãe, mas, minha alegria se desfez ao saber que Aquiles viria junto, pois, se ele ainda a acompanhava, certamente eles estavam ainda mais próximos, aquilo me deixou em plena fúria e agonia novamente.
Então, na manhã em que fazia trinta e um dias em que deixei Valerie, aconteceu:
Eu a vi passar pelo centro da praça, em frente à ferraria, porém, do outro lado.
Apesar de muito mais magra e abatida, ela ainda estava linda. Valerie sempre será linda para mim. Impressionante que mesmo toda esta distância não era capaz de ensinar a meu corpo esquecer as sensações que eu sentia ao vê-la. O coração descontrolou-se, o corpo inteiro se aqueceu e as mãos e os meus lábios formigaram, na ânsia de tocá-la e beijá-la.
Quando seus olhos cruzaram com os meus, fogo líquido correu em minhas veias, me trazendo a vida novamente. Pois, incrivelmente, não sei se minha mente estava me pregando uma peça, mas, eu via desejo e amor em seus olhos? Será?
Assim, ela aproximou-se, determinada como ela sempre foi. Ela veio direto na minha direção, e quando estava bem próxima, disse:
— Olá, vim ver a mamãe, e na verdade... É... – Ela hesitava. – Eu sinto a sua falta, demais Henry.
Vi muita sinceridade em seus olhos, mas, bem quando ela disse aquilo, uma carruagem passou do outro lado da praça. Ela não viu. Mas eu o vi. Aquiles estava nela e olhava em nossa direção, e tinha os olhos insondáveis. Seu semblante estava imperturbável, o que me transmitiu uma mensagem de autoconfiança.
Ele estava seguro de si. E aquela minha percepção foi o suficiente para me irritar, e ignorar, à duras penas, e à custa de uma dor avassaladora na alma, a receptividade de Valerie.
Assim eu lhe disse:
— Por que sentiu falta de mim? Aquiles não tem sido o suficiente para você? A companhia dele não é o bastante?
Ela prontamente recuou, e nos seus olhos, imediatamente surgiram, tristeza e mágoa. Ela havia se ferido com o que eu disse. Mas, como ela podia? Que direito ela tinha?
E eu? Não podia ficar ferido, pelo fato dela ter preferido à companhia dele à minha?
E foi o que disse a ela, contei-lhe novamente a história sobre quando ela me afastou uma vez lá no tio Heitor, com detalhes, e disse-lhe ao final:
— Naquela época, eu te disse, foi doloroso demais, o afastamento que você me impôs. Não entendo: você tem a mania de afastar-me quando você mais precisa. Só que eu não suporto passar por isto mais, pois, na primeira vez, eu já me senti um inútil e incapaz de te oferecer refúgio e proteção, e desta vez eu pude sentir o mesmo. Principalmente depois que eu vi que você não permitiria que eu ficasse com você, para cuidar de você, mas, permitiu Aquiles se aproximar. Como acha que eu compreendi isto? Aos meus olhos, para você, Aquiles pode te oferecer mais proteção e segurança do que eu. Se coloque no meu lugar, ao menos um pouco.
Ela ficou sem reação. Senti que queria falar algo, porém por algum motivo, desconhecido para mim, ela se conteve. E por fim, depois de muito olhar nos meus olhos e a esta altura, via os seus se acumularem de lágrimas, ela respirou fundo, os limpou se contendo, e antes de se afastar disse:
— Eu disse a verdade, sempre a disse a você. Eu nunca menti. Sinto demais a sua falta. Só que pelo visto, isto não é mais suficiente para você. Afinal, eu ainda sou a Valerie de depois do coma. Aquela que não tem as malditas memórias, não importa o que mais eu tenha... O que importa, o que sempre importou para você, por mais que você não tenha admitido, foram as memórias. Bem, pelo menos agora eu tenho certeza que eu tentei. Fique bem Henry, pois, embora você não acredite: te ver mal, me faz sofrer. Você é importante demais para mim, não sabe o quanto, e acho que nunca saberá...
Dizendo isto, ela corajosamente vem rapidamente até mim, beija meu rosto como no consultório a última vez, e sai. Deixando-me sem reação e com o meu rosto ainda queimando pelo contato com os seus lábios.
Mesmo já ao longe, ela se vira, e vejo seu rosto repleto de lágrimas, e por mais que eu queira correr até ela, confortar-lhe, abraçar-lhe e pedir-lhe perdão, eu não consigo. A mágoa, o medo e a dor, não me deixam.
Entro para ferraria, e vejo que Cedrico ainda não voltou da entrega, e o ajudante estava em horário de lanche. E ali, já sem forças, desabo a chorar no sofá, de tanta dor e tristeza. Pois, estive tão perto e ao mesmo tempo tão longe...
***
Mais tarde, depois, de uma hora e meia em que Valerie esteve aqui. Ouço Cedrico que estava voltando de mais uma entrega, enquanto eu estava com o ajudante terminando de treiná-lo em alguns serviços:
— Olha, eu não acho uma boa ideia, ele não quer te ver. Ele já a viu pela manhã, e quando cheguei, ele estava arrasado, dá um tempo para ele, ele não está bem, temos tido um trabalhão, para pelo menos incentivá-lo a viver. Chega, ele está muito mal cara...
— E como você acha que ela está hein? Ela esteve aqui para vê-lo para tentar resolver as coisas, ela sente falta dele Cedrico, ele a tem ignorado.
No mesmo instante reconheci que era Aquiles, e que estava intercedendo por Valerie e eu fui até ele e Cedrico. E disse:
— Veio interceder por ela? Viu que não seria o suficiente para ela e veio tentar reparar os estragos que fez, não é? Não deve estar suportando vê-la sofrer. E quem suporta? Vamos Aquiles responda...
Eu dizia o provocando, enquanto Cedrico se aproximava e dizia:
— Fique calmo Henry, por favor, se acalme.
Aquiles me olhava estranhamente, eu não conseguia ver raiva, ou autoconfiança em seu olhar, eu via pura compaixão.
E ele disse:
— Como você pode ser tão cego? Mesmo após ver com os seus próprios olhos? Meu Deus Henry, uma vez, eu mesmo te disse que não deixasse seu medo de perdê-la cegá-lo, e você está fazendo exatamente isto. Ela nunca quis nada comigo, nem muito menos eu com ela Henry, acorda! O coração dela já é seu a muito tempo, mesmo antes de deixa-la lá. Mas seu medo de perdê-la, seu maldito medo! Não deixou você enxergar o que estava debaixo de seu nariz. Ela o ama, ela sempre o amou, mas, o próprio medo dela de se entregar por receio de você apenas deseja-la ao seu lado com as memórias, a bloqueou.
As palavras de Aquiles me atingiram como um soco, um soco profundo, forte e dolorido demais. Os olhos de Cedrico brilharam, e vi ali, felicidade, e acender-se uma chama de esperança de que Valerie era minha, minha Valerie. Porém, eu estava tão tomado de raiva, que aquilo durou apenas segundos, e foi como se eu não tivesse ouvido.
Porém, Aquiles continuou:
— Vocês se amam Henry, e eu nunca vi algo assim, a não ser em minha relação com Irina. Por favor, não deixe para valorizar isto quando acontecer o que houve comigo, que você a perder de verdade, como eu perdi Irina.
Por mais que suas palavras fossem incontestavelmente verdadeiras, elas me chicotearam de uma forma, que só fizeram minha raiva aumentar, fazendo-me dizer:
— Dê o fora daqui. Você não tem o direito de falar estas coisas para mim... Fora Aquiles!
Surpreendo-me ao ver seu rosto angustiado e triste, e muito mais ainda, quando sem relutar, ele sai.
Cedrico tenta me acalmar, mas, percebe que eu quero ficar só...
Todo aquele dia demora-se a passar...
Não consigo comer. Mas, à noite, o cansaço e esgotamento são tantos, que me levam a dormir ao menos um pouco.
***
Estou na floresta em meio a uma ronda quando o vejo.
Ele olha para mim, com um olhar muito diferente do que sempre vi em seu rosto. Está sereno, tranquilo, mas tem decepção e tristeza em sua face. Ele se aproxima e diz.
— Como você está?
— O que imagina?
Eu apenas respondo.
— Parece acabado. – Dou-lhe um sorriso sem humor por sua constatação. – Eu vim com um propósito.
Ele diz e eu pergunto:
— E qual é?
— Vai mesmo desistir?
Não havia tom de provocação em sua voz.
— Eu não desisti.
Mesmo assim o respondi com fúria. E enfim, ele me confrontou:
— Ah não? Não é o que parece Henry.
Por mais que eu quisesse sentir raiva de Peter eu não conseguia, principalmente por que o que eu via em seus olhos não era provocação, e sim determinação. Ele realmente estava aqui com um objetivo. Ele prossegue:
— Tem noção do que eu seria capaz de fazer para estar em seu lugar? Para poder lutar por Valerie? Para arrancá-la do mundo do medo ao qual está trancafiada? Mas, nem isto eu não posso, só você pode, somente você!
Olho furioso para ele. Como, mesmo morto, ele vem aqui me atormentar?
— Mas você não está! Sou eu que estou Peter.
Cuspo as palavras para ele. Mas incrivelmente ele não se abala.
— Sim é você! E devo dizer que pela segunda vez, ela escolheu você! Só que na primeira, ela foi conduzida pelas circunstâncias a escolher. Mas, desta vez não. Desta vez foi ela que escolheu voltar, e foi por você, pelo seu sofrimento. Mesmo não sabendo o porquê, só pelas reações que ela sentia perto de você e por ver o quanto você precisava.
— O que?
Eu não compreendia nada que Peter me dizia, era profundo demais para mim. As palavras dele me acertaram mesmo desta vez.
— Eu estive com ela no coma Henry, em sonho, como vim até você agora.... Eu fui incentivá-la a voltar, mas incrivelmente, não precisei de muito argumento, e nem houve resistência na hora de me despedir. Por que o coração dela, e as emoções dela, já a pediam para voltar por você...
Ele me olhava intrigado:
— Diga-me uma coisa somente, me explique por que eu não compreendo.... Quando você vai acordar que tudo isto, foi por você, para você enfrentar este maldito medo e tomar posse do que sempre foi para ser seu? Quem mais precisa vir dizer? O que mais tem de acontecer, para provar que Valerie é sua?
As palavras de Peter esmiuçaram meu coração. Lembrei-me de Valerie me contando que realmente havia sonhado com ele no coma, mas, eu não sabia dos detalhes que Peter me falava agora.
Eu sabia que ele estava correto, em tudo o que ele estava me questionando, embora eu não quisesse admitir. Como fiquei mudo, ele prosseguiu com autoridade:
— Você NÃO TEM O DIREITO de se trancafiar em seu próprio mundo de novo, ela não merece isto, ela lutou demais e enquanto pode para te arrancar daí! Você precisa se levantar e lutar, reagir para trazê-la de volta, só você pode fazer isto. O que vocês viveram é tão forte Henry que é a única coisa capaz de tirá-la de lá do mundo ao qual a mente dela está presa. Eu sei o que está pensando, mas arrisque, deixa o medo de lado, arrisque!
Ele foi direto ao cerne da minha ferida. Eu realmente tenho medo de tentar e ela recuar para sempre. Eu tenho medo de arriscar e perder tudo, até mesmo o que eu tenho hoje.
— E no mais, passe a olhar esta situação com outros olhos, de outra perspectiva, reconquiste-a Henry, você conseguiu uma vez. Ganhe-a novamente, se for preciso, ensine-a... – Ele Hesitou e pude ver o quanto seriam difíceis de pronunciar aquelas palavras para ele.
— Ensine-a a te amar, ou faça-a lembrar-se do quanto ela te ama, não sei, como quiser... E o resto, deixa acontecer. Deixe que o seu coração te guie Henry, enfrente seus medos, conquiste Valerie novamente, independente de saber se ela voltará a ser a mesma Valerie de antes ou não, ou você não a ama a este ponto? Ou você só a quer, se ela voltar a ser o que era completamente?
Como é? Mas, o que ele está dizendo?
— Por que é nisto que ela acredita, você sabia? Ela acredita piamente que se ela não se lembrar de tudo o que viveram você não irá querê-la.... Foi por isto ela se afastou Henry, acorda! Ela tem medo de te dar esperança de algo e isto não acontecer, e te fazer sofrer mais ainda, e por outro lado, ela também tem medo de se entregar e você não a quiser se ela não voltar a se lembrar. E mais Henry, uma das mensagens mais lindas que já li sobre o amo diz que: “O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha;...” Está em 1 Coríntios 13:4-8. Acredito que você a conheça devido aos ensinamentos de sua mãe.
Eu o olhei nos olhos e afirmei com a cabeça. E ele concluiu.
— Então, está mais que na hora de coloca-la em prática.
Todas as palavras de Peter, fez-me entender o que eu venho fazendo, e onde eu tenho errado. Ele prosseguiu...
— E talvez, este seja o caminho para curar uma ferida antiga que há em você que ainda dói.
Estas últimas palavras dele, me mostram a verdade. O meu medo da perda é tão grande, que me impede arriscar, e muitas vezes prosseguir.
— E agora o mais importante: PRESTE BASTANTE ATENÇÃO Henry, NÃO RECUE, e pensa bem nas suas escolhas e atitudes, daqui para frente, pois, eu não posso mais voltar. Com o que fiz hoje, eu interferi de forma muito grave, mas eu faria de novo, eu a quero feliz Henry, e eu sei que é com você que ela o será. Acredite nisto. Você tem e é tudo o que ela precisa para ser feliz.
Ele diz cada palavra com seus olhos repletos de sinceridade. E concluiu...
— Adeus!
As palavras dele dilaceram meu coração, pois eu não sabia o que, mas sabia que Peter abriu mão de algo para estar aqui.
— Adeus, e obrigado Peter.
Ele assentiu para mim e saiu pela floresta adentro.
***
Acordo, no meio da madrugada... E por incrível que pareça, eu estou em paz. E acordo sabendo exatamente o que vou fazer...
Vou até o meu, guarda roupa e pego as cartas, visto que neste período da reforma eu e Suzette trouxemos as coisas pessoais de Valerie para cá. E pego as cartas, que eu enviei para ela, estão todas em um envelope, também pego as minhas que ela mandou para mim. Pego as músicas das seleções. Pego as escrituras dos terrenos, os desenhos do chalé para reforma, os da casa aqui da Vila que inclusive está em andamento, como o Chalé ficou pronto logo, iniciei a construção da “Casa do Lago”, este seria o nome, se Valerie concordasse. E Cedrico, Araon e Érion, têm acompanhado para mim.
Após recolher tudo, preparo uma bolsa com todas estas coisas, e mais algumas que levarei para o Grande Reino, quando eu retornar com ela, pois, estou decidido, enquanto ela precisar ficar lá, eu ficarei com ela.
A esta altura, eu sabia que precisava estar ao lado dela, principalmente se quisesse que ela realmente se lembrasse. E eu usaria tudo que eu pudesse. No entanto, eu começaria por coisas seguras.
Mas, primeiro, ela precisava aprender uma coisa novamente, e em meu coração eu sei que eu posso, eu não vou desistir de Valerie. Eu não vou deixar que o que temos acabe.
Vou conquista-la novamente, e não me importa quantas vezes eu tenha que fazer isso, ou quanto tempo demore, ou eu tenha que esperar, eu já esperei uma vez, por que eu a amava, e esperarei de novo, se for preciso, por que eu a amo, eu não irei parar até conseguir. Tudo irá ficar bem. Enfim, agora eu sei, eu posso ensiná-la novamente a me amar.
E hoje, esta será minha meta: passarei o dia com ela, levando-a a lugares que nos marcaram. Que foram importantes para nós.
Ela não veio a Daggorhorn por acaso, Deus a trouxe aqui com um propósito. E Aquiles não me procurou atoa ontem, ele foi sincero, tenho de admitir. Ela também foi ao vir me ver, e foi corajosa também. E eu fui um idiota completo com os dois, deixei minha mágoa e o meu medo, ditarem minhas ações, e agora estou aqui, corroído por culpa.
Portanto, hoje é a minha vez de colocar meu orgulho de lado, e trilhar o caminho de volta, de volta ao que eu comecei a fazer, mas comecei da forma errada. Pois, eu estava focado demais em trazer Valerie de volta ao que era, que eu me esqueci de mostrar a Valerie de agora, que eu ainda a amo, e posso ensiná-la a me amar novamente.
Desde que ela me permita, e mais, o que ela esqueceu são memórias, e memórias podem ser refeitas, reconstruídas e até substituídas por memórias ainda melhores, e é o que farei.
Saio do quarto deixando tudo pronto, pois assim que Valerie resolver voltar, eu volto com ela, para o lugar que eu jamais deveria ter deixado de estar: ao seu lado, onde quer que ela esteja.
Quando passo pela copa, minha avó está servindo os cavaleiros e diz:
— Bom dia meu filho.
— Bom dia vovó e bom dia rapazes.
Todos acenam para mim e vovó vem e me dá um beijo. Então diz:
— Tome café.
— Não vovó, hoje não. Talvez mais tarde, hoje tenho coisas urgentes a fazer agora cedo.
Beijo seu rosto e cumprimento os cavaleiros e saio.
Pego meu cavalo para ser mais rápido, ignorando a carruagem e disparo em direção à casa de Suzette.
Sinto meu coração acelerar pela expectativa de vê-la.
Com a Recompensa que recebi da morte de Mildrad, além de conseguir adiantar a casa daqui da Vila, que está praticamente pronta, consegui realizar a reforma da casa de Suzette. E a construção da casa nova, de vovó. Infelizmente, com o meu inevitável afastamento de Valerie, Suzette acabou se constrangendo de continuar morando no casarão com a vovó e o pior, não queria mais deixar que eu reformasse sua casa, aceitar a casa nova então, foi fora de cogitação.
Assim, depois de muito custo e longas tentativas de persuasão minha e também de minha avó, por fim ela concordou com a reforma de sua casa, mas, não me permitiu fazer tudo o que eu queria, disse que já se sentia em débito demais comigo. E o pior ainda não tinha chegado: como Valerie não sabia da reforma do Chalé, nosso maior receio girava em torno de quando ela descobrisse, pois, ela certamente não iria querer morar mais lá. E sua única opção seria voltar para Vila, para a casa de sua mãe.
Certamente isto seria um martírio para ela, já que ela sempre se esquivou de cogitar a ideia.
Tudo isto para mim, era desnecessário, pois, mesmo que nada se acertasse entre nós, eu não faria questão se que elas ficassem com tudo, afinal, o tempo em que vivemos juntos, Valerie me fez muito feliz, e tanto ela quanto sua mãe, tiveram uma vida de muitas privações, fico feliz por poder mudar isto. E ainda que ela não viesse a usufruir comigo, ela merece.
Chego à casa de Suzette e desço com rapidez do cavalo, com tudo em meu ser, em plena agitação.
Subo as escadas da entrada e toco a campainha...
Depois de menos de dois minutos, a porta se destranca e abre-se, e Suzette diz surpresa:
— Henry!
— Olá Suzette, me desculpe pelo horário, mas é que eu preciso falar com ela, o mais rápido que eu puder, se não eu irei enlouquecer, por favor, me deixe vê-la.
Suzette me olha com olhar de tristeza e diz:
— Olha Henry, eu sempre desejei demais que tudo desse certo para vocês dois, acho que não existiu ninguém que torceu mais do que eu para isto, porém...
Eu a interrompo...
— Suzete, me ouça, me perdoe, eu sei que eu errei, eu a magoei, eu fui fraco, mas, é que tem sido tudo muito difícil para mim, e eu nunca esperava viver uma coisa destas, mas, enfim, eu consegui compreender que eu estava vendo tudo errado...
Agora ela me interrompe...
— Olha Henry eu não te julgo, quero que saiba, mas, é que ela está sofrendo muito, você ficou este tempo todo, aliás, nós ficamos focados, em querer a Valerie antiga, cuja única diferença é que ela tinha mais memórias. E ao fazermos isso, ignoramos a Valerie de agora, que é a mesma, porém, com algumas memórias a menos que facilmente podem ser substituídas por memórias melhores. Nós a ferimos com isto, enfim, depois de muito conversar com minha filha eu a compreendi.
— É exatamente isto Suzette, eu enxerguei isto, eu quero Valerie, eu ainda a quero, e é independente se ela vai se lembrar do que vivemos ou não, eu quero ensiná-la a me amar novamente, ensinando-a primeiro a sentir minha falta, quero me tornar necessário à vida dela novamente, até chegar o dia em que ela veja por si mesma isto, que eu sou necessário a ela...
Mais uma vez Suzette me interrompe...
— Ela já sabe Henry, ela já sente, acho que você já pode pular para o próximo passo que seria ensiná-la a te amar novamente, pois, ela já sente falta de você meu filho, e muita, Henry. Ela ontem chegou aqui arrasada por ter visto o seu estado de sofrimento. Quando ela resolveu aceitar que se afastassem, ela disse que foi a coisa mais difícil que ela já fez, mas, ela achou que se deixasse você ir, você acabaria seguindo em frente. E quando ela viu que não foi bem assim e viu o seu estado, o coração dela doeu muito, por isto ela foi à ferraria. Também, foi por isso que ela tentou se aproximar, ela sente falta, mas, você mais uma vez, cheio de suas reservas não deixou. E quando Aquiles compreendeu que isto, talvez fosse por você estar com seu orgulho ferido, por algo que nem era verdade, e que não existia, ele foi tentar intervir... Ele foi tentar te mostrar o quanto você foi longe demais. Mas, mais uma vez você não deixou...
As palavras de Suzette me cortaram por dentro, pois, me mostraram o quanto o meu medo me tornou inseguro, cego e precipitado, mais uma vez. Então, com lágrimas nos olhos e tristeza no coração, mas, com toda sinceridade que eu consegui reunir eu disse:
— Por favor, me deixe vê-la Suzette, me perdoe por tudo. E eu preciso pedi-la perdão também!
— Henry eu gostaria mais eu... Não posso...
~~~~~~~~~~~~~~
(CONTINUA...)
Fale com o autor