A Garota Da Capa Vermelha - Continuação.

12 NOVA REALIDADE - CONTINUAÇÃO - Capítulo 12


Notas iniciais
Olá Pessoal, boa noite! Capítulo 12. Neste capítulo, Valerie e Henry começam a se conhecer de verdade... Sem mais spoiler... Ótima Leitura!

POV VALERIE

Minha pergunta parece ter pego Henry desprevenido, e ele vacilou um pouco antes de responder, então, antes que ele falasse, eu disse...

— Fale exatamente o que está em sua cabeça não pense, não edite, eu gostaria de saber o que se passa aí dentro. — Apontei a sua cabeça e logo em seguida o seu coração... — Realmente eu quero te ajudar Henry, e... talvez.... Assim, eu possa permitir que você me ajude também, sem tanta relutância, como eu sempre eu faço.

Eu pude ver que ele experimentava e avaliava cada palavra minha com cuidado, e após, uma longa pausa, ele respirou fundo puxando bastante ar, como se para tomar coragem e respondeu...

— Estou pensando em muitas coisas, e claro, a maioria delas envolve você, o que aconteceu, a forma com que você cuidou de mim hoje, e...

— E... – Eu disse encorajando-o.

— E como vai ser daqui para frente. – Entendi por que ele estava hesitante, Henry, estava avaliando as possibilidades a partir de agora, mas como assim?

Ele não disse que se caso algo acontece com Peter, eu e ele... Eu não estava entendendo, e como que adivinhando meu diálogo interno, ele falou:

— Sei no que está pensando Valerie. Na realidade, eu não achava que seria um bom momento de falarmos sobre isto, devido ao contexto, mas, se você quer mesmo, conversar agora, tudo bem. Por que se não, em outro momento falamos...

E eu o interrompi, pois, eu também sentia que, talvez, este não fosse o momento, no entanto, se eu fechasse a oportunidade agora, quem me garante que eu conseguiria ter acesso a ele desta mesma forma novamente, e eu gostaria mesmo de ajuda-lo, entende-lo...

— Quero sim Henry, e quero que saiba, que eu não tenho segundas intenções com isto, mas, eu sinto mesmo vontade de estar disponível a você...

— Por que Valerie? Por pena? – E estas palavras me pegaram desprevenida me deixando ferida, mas, antes mesmo de me levantar e encerrar o assunto, como estava prestes a acontecer, eu refleti rapidamente.

Na verdade, este é o ponto, este é o medo de Henry, se eu retroceder, se eu agir por impulso, com raiva, ou receio, eu quebro contato com ele, destruo a oportunidade, então, eu decido fazer o contrário, e respondo com calma, e convicção, olhando dentro de seus olhos, aproximando o meu rosto a centímetros do seu, e tocando as suas mãos que estavam sobre a mesa...

— Não, por pena não! Também não é por compaixão, muito menos por me sentir em débito. Mas por gratidão! – Seu olhar era de surpresa. — Sim Henry, gratidão por você ser quem você é, e como você é, por se dedicar não só a mim, aos outros também, por você ser por essência um homem tão bom, e por... – Estas palavras eram mais difíceis de ser proferidas, pela intensidade e profundidade, mas, eu sabia que eu precisava pronunciá-las... – Por você me amar tanto, mesmo sabendo que eu jamais mereci ou vou merecer o seu amor. Gratidão Henry, por você sempre estar aqui por mim. E eu quero que você saiba que eu tenho prazer de expressá-la a você. Eu sei que, pode não ser muito, mas, é tudo o que eu posso oferecer a você neste momento, mas, eu ofereço com todo o meu coração, com todo o meu ser, e realmente ficaria muito triste se você recusasse... – Não consegui terminar a frase sem lágrimas, pois, realmente coloquei minha alma em cada palavra. Mas, eu não queria que ele parasse, achando que era fraqueza, por que não era, era emoção... – Não estou chorando por fraqueza ou tristeza Henry, e sim por que eu estou emocionada, porque, estas palavras realmente refletem a verdade do meu ser, da minha alma...

Assim, desarmado pelo que eu disse, ele levantou-se, puxou-me para seus braços, abraçou-me apertadamente de uma maneira que pudéssemos sentir todo nosso corpo em contato, beijou o topo de minha cabeça. Só então, que eu levantei meus olhos, olhando-o a espera de que ele falasse. E ele compreendeu.

— Obrigado, minha querida! E, eu quero que você saiba, Valerie, que eu jamais pensei em você como uma pessoa fraca. E, a minha relutância em falar é devido sim, aos meus medos, minha insegurança, e também em parte por eu não estar acostumado a fazer isto, me abrir, mas, eu vejo que eu terei de aprender a lidar com isto, se eu quiser ser realmente justo com você, e bom, então, este é o momento de começar...

Dizendo estas palavras, ele me chamou até o sofá, e sentamos um de frente para o outro, ele fez um gesto como que pedindo permissão para continuar segurando minhas mãos, como para encorajá-lo e eu acenei que sim com a cabeça. Então, ele começou cautelosamente, mas, com muita sinceridade.

— Bom, veja bem, eu sempre amei você, sempre, e sei que isto não é uma surpresa, você já sabia disto. Eu também sabia sobre o Peter desde a infância, mas, aí ele foi embora, e quando nós crescemos, enfim, eu resolvi pedir a sua mão aos seus pais. Daí, Peter voltou, e houve os episódios com... o lobo, a perda da Lucy, sua avó, seu... Pai. – cada vez que ele hesitava, eu apertava firme as suas mãos e acenava com a cabeça para encorajá-lo a prosseguir. – A questão de Peter ter me pedido para ajuda-lo a te proteger, o fato de eu ter presenciado toda a extensão do... amor de vocês, eu sei, eu jamais poderei negar, que ele realmente te amava, e sei que você também o amava. Veja bem, tudo isto, aliado aos acontecimentos de ontem, o fato de ele ter pedido para você seguir em frente como se ele tivesse certeza de que eu estaria a disposição aqui para isto. Tenho que confessar, isto tudo, me deixou confuso, feriu meu orgulho, me fez sentir rejeitado, como alguém que só esta aqui por falta de opção, e claro, tudo isto, me magoou, me deixou furioso. Entretanto.... Hoje, quando eu vim para cá, após terminar de aprontar tudo, eu sentei no jardim, e comecei a pensar claramente sobre tudo isto, olhando cada faceta com cuidado, e enfim, eu pude entender que, nenhum de nós nunca teve opção Valerie. Nem Peter, nem eu e nem você, as coisas foram acontecendo e tivemos que ir criando maneiras de lidar com elas, do jeito que podíamos, às vezes acertando, às vezes errando, e enfim, eu pude compreender que, eu não sei o que nos espera, e muito menos o que vai acontecer a partir daqui, e sei também, que nós não podemos mudar tudo que passou, mas, hoje a situação realmente começa a ser diferente. Por mais triste e desesperador que tenha sido tudo o que nos aconteceu, inclusive a morte de Peter, realmente uma nova perspectiva nos atingiu, abriu-se um caminho de possibilidades, não sei como vai ser, o que vai ser... Mas, se eu suportei e resisti a tudo até agora, por que voltar atrás justo neste momento? – Ele deu uma pausa, respirando fundo para tomar fôlego...

— Veja bem, Valerie, não estou dizendo aqui, que eu vou te forçar a nada, mas, também, não vou desistir de você, ou seja, eu não vou fechar as possibilidades. Todavia, também serei bastante cauteloso, pois, sim, eu tenho medo de me ferir ainda mais, e ao fazer isso, também estou me expondo mais. Entretanto, desta vez.... As coisas terão de acontecer naturalmente, e terão de partir de você, estarei aqui, para o que você precisar, qualquer coisa. E se... algum dia você me quiser, se estiver pronta para mim, você terá de me mostrar isto claramente.

Henry dizia cada coisa com uma intensidade e sinceridade enorme.

Absorvi cada palavra com toda a força que elas tinham, era palpável o quanto Henry estava sendo sincero, e justo. Afinal, ele já havia sofrido demais. Mas, eu não sei por que, de certa forma, eu fiquei feliz, por ele não ter cortado de vez a possibilidade de um futuro juntos.

Eu podia entender cada parte de seu ponto de vista. Realmente, desde que tudo começou, nenhum de nós teve escolha, e agora era diferente, e ele, bem, para ele eu sempre fui a sua escolha. Se há alguém aqui que terá algum dia que se decidir, se quer uma nova história ao seu lado ou não, este alguém sou eu, nada mais justo, que seja eu a ter que provar isto, simples assim. Senti que ele esperava minha reação diante de suas palavras...

— Bom, é muito justo tudo o que você colocou, e compreendo o seu ponto, a sua ponderação, porque você já tem se exposto demais Henry... e... eu preciso confessar a você que, me deixou feliz, saber que ainda há esta possibilidade. Eu não estou dizendo o que vai acontecer, mesmo porque tudo ainda está como uma tempestade dentro de mim, mas, eu confesso que é bom saber que.... Eu ainda tenho acesso a você Henry, não que eu mereça isto, pois, eu tenho convicção que eu não mereço.

Não consegui dizer estas palavras sem ficar extremamente corada, sabia que estava, porque minhas bochechas pegavam fogo, e a mão que Henry estendeu para afaga-las, comprovou isto. Mas, eu precisava ser sincera também, já que ele estava sendo comigo, e realmente me incomodou o fato de ele, anteriormente, ter dito, que não iria me querer mais, não sabia o porquê, mas aquelas palavras não foram confortáveis para mim.

— Bem, de qualquer forma, obrigado por sua sinceridade, Valerie.

— De agora em diante pretendo que seja assim, e espero que com você também seja, tudo bem Henry?

— Claro.

Ele ainda me olhava profundamente e prosseguiu:

— Bem, agora, nós precisamos conversar sobre algumas coisas, em especial a sua viajem, e as preparações para ela. Quero colocar que, eu achei prudente orientar você em algumas coisas, mas, são apenas sugestões de um amigo, tudo bem? Faça como, você, achar melhor. – Afirmei com a cabeça e ele continuou: — Uma das coisas, seria esperar pelo menos, mais duas semanas para viajar, pois, mesmo sabendo que será difícil, será um tempo seguro para você poder voltar a trazer a sua mãe e as meninas para o convívio. Eu sei que a única coisa que impedia isto, era a presença de Peter, e eu creio que, neste momento, é melhor você deixa-las se aproximar, vai ser bom pra você, te ajudará a se recuperar mais fácil, e eu confesso que, tem me preocupado você dormir e ficar sozinha direto aqui... – quando ele viu que eu não iria aceitar, ele fez sinal para que eu aguardasse ele a concluir e depois eu poderia falar, então, eu deixei... – lembre-se que eu prometi a Peter, cuidar de sua proteção, e sei que esta sempre foi uma preocupação dele também e é uma das minhas, então...

— Tudo bem, eu não irei contestar, você está certo, mas, vou deixar registrado que, nas noites de lua cheia, eu quero voltar a dormir aqui, gosto daqui, aqui é o meu lar agora... – E antes que ele pudesse refutar, eu fiz sinal para ele me deixar concluir. – Ouça, neste jogo, dois jogam certo? E... eu também tenho receio por você ficar na floresta, assim também, como eu tinha por Peter, mesmo ele sendo o lobo. Contudo, eu temo também por sua segurança Henry, e sei que eu não devo trazer as meninas ou mamãe para dormir aqui, seria expô-las demais, mesmo não tendo um lobo desta região, porque, podem haver outros, então, eu quero te propor uma coisa... – Henry percebeu que eu estava hesitante, mas é que eu não sabia como ele iria receber minhas palavras...

— Pode falar Valerie, vou ouvir, apenas eu não sei se eu vou concordar.

— Com a morte de Peter, eu sei que por enquanto, não há ameaça a temer, e a ronda poderá ser mais leve, então, eu te proponho que, ao invés de você ficar vagando lá fora, na floresta, você durma... aqui. Tenho o outro quarto, e vou ficar mais segura, por você e menos preocupada, e como já estamos no meio da floresta mesmo, será fácil você se deslocar, caso seja necessário. – Pude ver que Henry estava ponderando minhas palavras, as avaliando.

— Mas, isto pode trazer inconvenientes para você, comentários, e eu não quero isto, de jeito nenhum. – Então eu bufei.

— Aff! Como se eu me importasse com isto Henry! Vocês homens tem umas coisas.

— Por quê? Como assim?

— Bem, eu creio que você já deve deduzir que... hum, mesmo antes de casarmos, eu e Peter já tínhamos uma convivência de casados. — Embora, sei que ele soubesse, sua expressão mostrou que ele havia ficado desconfortável com o comentário. – veja bem, ele também se preocupava com isto, e por isto, mesmo em sua nova condição, ele queria se casar comigo. Enfim, eu acho que isto é uma preocupação de vocês. Para mim, eu estarei cedendo a minha casa a um amigo, apenas isto.

— Tudo bem então. Entretanto, eu tenho então outra proposta a fazer.

— Sim, eu quero muito ouvir.

— Sei que nem a sua mãe e nem as meninas poderão dormir todas as noites aqui, e nem sempre você irá querer ir para lá, então, nas noites em que elas não vierem ou você não for, estarei por perto, certo?

— Não, você estará aqui, certo? Se for para me proteger, para a minha segurança, então, será nos meus termos Henry, pois, de que me adianta ficar segura, preocupada com você lá fora na floresta? Certo para você?

— Não tem jeito mesmo? – Neguei com a cabeça. E ele suspirou. — Tudo bem então. – Ele me deu um sorriso satisfeito que há muito tempo não via em seu rosto...

— Bem, antes de anoitecer, o que não vai demorar, eu vou ao vilarejo, ajeitar umas coisas, pegar algumas roupas e avisar a minha avó que eu estarei fora, e volto. Tudo bem para você?

— Claro que sim, mas, você vai ficar hoje?

— Eu pretendo, algum problema? A não ser que você queira dormir com a sua mãe.

— Não, claro que não. Para mim será ótimo eu ficar por aqui, eu terei mais privacidade, e não corro o risco de ela ficar me sondando ou perceber meu estado de espírito.

— Olha Valerie, se você quer privacidade, eu acho melhor eu ficar por perto, mas lá fora...

— Não, claro que não Henry, e ponto final! Você sabe pelo que eu estou passando, vai entender se eu tiver pesadelos, ou gritar a noite, elas não, elas irão suspeitar.

— Pesadelos?

— Sim, eu sempre os tenho, não sei se pelas preocupações com Peter, mas, eles têm sido constantes. Mas.... Bem, esta noite ou o resto dela, eu não tive, engraçado não é mesmo?

Eu ainda não havia observado esse fato notável.

— Você acha engraçado o fato de não ter pesadelos? Você deveria gostar. – Ele disse isto sorrindo um pouquinho.

— Não, é que, eu não havia me dado conta que eu não tive pesadelos, e ultimamente eles têm sido muito constantes. Que bom, mas, eu acredito que deve ser pelo fato, de que eu estava muito entorpecida, pela dor.

— É, pode ser sim, Valerie. Bem, eu preciso ir, logo. Breve eu estarei de volta, certo?

— Certo.

Ele aproximou-se de mim, me abraçou, e eu retribui sem relutância. Ele beijou o topo de minha cabeça e se foi.

Eu voltei a me concentrar nas coisas a fazer, o jantar, lavar as louças do almoço, que ainda estavam ali, preparar o outro quarto para Henry. Resolvi ajeitar a casa para a noite, e preparei também um chá para tomarmos com biscoitos antes de irmos dormir.

E assim, me distrai realizando as tarefas, como se estivesse em um dia normal. Mas, de vez em quando, alguns pensamentos sobre Peter, me deixavam, meio que fora do ar, e a dor, em meu peito, procurava ganhar foco.

No entanto, rapidamente eu a silenciava, evitando que ganhasse intensidade, afinal, eu teria de aprender a lidar com isto. Eu acho que esta dor, independente do que vier a acontecer a partir de agora, me acompanharia, pois, a presença de Peter, que seria a única maneira de silenciá-la, não seria mais possível. E ele também, onde quer que esteja agora, provavelmente, não poderia descansar em paz, se visse que eu não estou bem.

E no mais, a vida estava sendo muito mais que generosa comigo, me permitindo ter Henry por perto, mesmo tendo-o feito sofrer tanto.

Notas finais
E aí pessoas lindas, o que acharam?