A Garota Da Capa Vermelha - Continuação.
2 PESADELO - Capítulo 2
Notas iniciais
POV VALERIE
(Ouçam bem suave)
Ao chegarmos ao Chalé, já estávamos os dois sem ar. Não conseguíamos conter os beijos, as carícias, às palavras profundas e silenciosas que nossos olhares trocavam.... Comigo e Peter sempre foi assim, nossos silêncios, sempre diziam muitas coisas.
Ele foi direto para o quarto, me deitou na cama, sentou-se ao meu lado, de frente para mim, me observando. Seu rosto transmitia uma mistura de sentimentos: desejo, desespero, medo, tristeza, ansiedade. Neste momento não mais resisti, puxei-o pela camisa em direção a mim, arrancando-a, quando ao mesmo tempo minhas mãos passeavam por seu torso nu. Ele era tão lindo, tão perfeito, tão bom, como ele podia se achar um monstro, uma fera, como ele mesmo dizia?
Embora estivesse aprisionado naquela infeliz condição de lobisomem, Peter tinha uma alma maravilhosa. Eu nunca o imaginei matando como o meu pai, por prazer e satisfação, e para obter vantagem. Ele é muito diferente. Peter renuncia sua natureza, não mata humanos, só se for por acidente, jamais por vontade própria, ele sacia sua sede de sangue com animais.
Enquanto eu pensava sobre suas qualidades, mais meu desejo aumentava, eu o beijava, acariciava seus cabelos, beijava sua orelha, enquanto minha outra mão passeava por seu peito em direção ao seu ventre, e aos poucos, aquele misto de sentimentos que a pouco vi em seu rosto, foi se desfazendo aos meus toques, minhas carícias, e ele ia tomando a forma do predador voraz que ele era.
No entanto, ali, sua fome não era de sangue, mas, de satisfação do seu desejo, por mim. Eu era sua presa naquele momento, mas não uma presa indefesa, mas, uma presa ativa e feliz por estar em seu domínio.
Suas mãos passeavam por minhas costas, desciam em direção aos meus quadris, coxas, enquanto seus lábios passeavam em meus ombros, meu colo buscando explorar cada centímetro de minha pele. Então, ali naquele momento, nossos medos e anseios se dissipavam, ele era meu e eu era dele, e isto bastava. O que viria depois não importava, pois tudo podia acabar ali, que estaria perfeito, por que estávamos nos braços um do outro. Quando já estávamos exaustos, adormecemos, entrelaçados um ao outro, em plena luz do dia.
***
Que estranho.... Eu não estou mais em casa, na cama com Peter, onde estou? Está tudo escuro.... Nossa estou na floresta, mas cadê o Peter?
— Peter, cadê você? Peter? – Tudo que ouvi foi um rosnado gutural, que me levou a perceber que eu estava atrás de uma árvore presenciando uma batalha sangrenta:
Peter, meu Peter-lobo lutando contra um exército de guerreiros que estavam o perseguindo e golpeando, de repente pude ver que conhecia um deles, aqueles cabelos e aquela altura... meu Deus era Henry, não! Mas espera aí, Henry não estava lutando contra Peter, ele estava tentando.... Ajudá-lo?
Desvencilhando hábeis golpes de sua espada contra os golpes do inimigo, percebi que a atenção de Henry e Peter, estava dividida, por isto, o inimigo avançava mais. Mas por quê? Eles eram tão fortes. Foi quando notei que os dois estavam ansiosos por mim, por minha segurança, os dois estavam me protegendo, mas espera aí, Henry sabia sobre Peter? Como? Ele o aceitava? Por quê?
Foi bem em meio a esta confusão de minha mente, que eu não consegui acompanhar como aconteceu. Peter foi atingido... Bom, mas ele é forte, não é qualquer golpe que pode derrubá-lo, e Henry a esta altura já tinha golpeado três e Peter antes de cair, derrubado, mais alguns, e único que restou já corria em retirada, mas Henry foi mais rápido, laçou-o com um chicote, e golpeou-o fatalmente no peito.
Henry voltou correndo para ver Peter-lobo, mas espera aí, cadê o lobo? Foi quando de repente minha mente se deu conta do que os meus olhos estavam vendo, aquele corpo enorme e nu ao chão rasgado na altura do abdômen, era... Peter que tinha voltado a sua forma humana, não! ... Peter. Henry já estava ao seu lado cuidando dele, e retirando... Meu Deus... Uma... Espada de prata[1].... Não! .... Não pode ser.
Neste momento, sai do estado de choque e fui em direção aos dois, me lançando ao lado de Peter, segurando seu rosto, gritando:
— Peter, não me deixe! Por favor! Você não pode fazer isso comigo...
Eu suplicava para que ele não me abandonasse. Eu sabia que ele estava muito ferido e seus olhos refletiam pura dor, dor física, dor na alma..., mas, sua expressão, ainda assim, era serena. Ele me olhava com ternura e carinho e com a pouca força que tinha ele disse:
— Valerie, eu te amo, sempre te amei, você é e sempre foi à razão de eu existir. Não saberia jamais viver sem você, por isto voltei, por isto, não posso ficar não sou seguro para você.
— Não, não diga isto! Eu te amo tanto Peter. – Eu dizia em meio as vastas lágrimas.
— Eu sei, Shhhh.... Não chore, não fique triste. Vai dar tudo certo, tudo vai ficar bem, você será muito feliz!
— Espere aí... Nós seremos... – eu quis contestar, por que ele disse “eu serei feliz”? Mas ele foi mais rápido.
— Henry?
— Sim. – Henry que estava ali quieto, mas perceptivelmente muito infeliz com a situação que presenciava. Peter naquele estado, e meu sofrimento ao vê-lo assim... naquele momento eu pude realmente entender o que Peter um dia me disse: Henry verdadeiramente me amava, não era apenas um capricho de menino rico que tem tudo o que quer. Ele seria capaz de abrir mão de mim por me amar, assim como ele fez, quando desfez nosso noivado, por ver o quanto eu desejava a Peter e não ele. Henry possuía talvez, o mais belo tipo de amor, o amor altruísta, ele mesmo era altruísta em sua essência, por mais que sofresse por me ver declarar meu amor a Peter ele entendia, respeitava, e não se alegrava com o sofrimento de Peter, pois era o meu sofrimento. – Sim Peter, o que precisa? Farei o que quiser.
— Eu sei. – Peter respondeu e colocou uma das mãos no braço de Henry que não hesitou, e a outra permaneceu em meu rosto. – Quero que saiba que admiro você, e sei que realmente você ama Valerie, a ponto de todo este tempo saber o que sou e nunca ter feito nada contra mim, muito obrigado!
— Como? Henry sabia? – Perguntei perplexa.
— Sim, era sempre ele que percebíamos vigiando-nos na floresta, mas, ele só o fazia por não confiar em meu autocontrole, por medo de eu te machucar, então, mesmo que ele sofresse em nos ver juntos e felizes, ele estava sempre por perto. Por você, para te proteger.
— Como você sabe disso Peter? – Perguntei por ainda não compreender.
— Sei, pois, fui procura-lo para pedir que cuidasse de você quando estivesse fora. Embora eu tenha resistido muito a fazer isso, eu não tinha outra escolha.... Eu sabia em meu coração, que o que aconteceu hoje, viria mais cedo ou mais tarde, temia por você e por sua segurança, Valerie. Então, Henry me disse para não me preocupar, pois, ele já fazia isto desde o início. – Fiquei apavorada e admirada com o que ouvia. Então Peter continuou.
— Henry, sei que vai, mas prometa-me que irá cuidar dela para mim, enquanto você viver?
— Para Peter, você irá fazer isto! Você! Não o Henry. – Pelo canto dos olhos eu vi as lágrimas descendo pelos olhos de Henry. Eu não sabia se era pela dor que sentia por ouvir aquilo, ou pela dor de me ver chorar e sofrer tanto, ou talvez pelos dois. Foi quando ele segurou a mão de Peter que estava em seu braço e disse com límpida determinação.
— Com a minha própria vida, eu prometo Peter, que eu a defenderei e protegerei com minha própria vida. Ainda que você não me pedisse, eu o faria como tenho feito até agora.
— Eu sei! Obrigado Henry, de todo meu coração. – Peter agora se volta para mim, apertando meu rosto em seus dedos e diz:
— Valerie olhe para mim, por favor. – Eu não conseguia olhar em seus olhos mais, pois, eu sabia o que veria ali: dor, dor, e mais dor, mas quando eu o fiz, em seu pedido, fui surpreendida. Seus olhos estavam felizes. Era como se ele percebesse que as coisas estavam começando a chegar onde realmente elas deveriam estar. Então ele me disse muito ternamente, mas, com pura obstinação em seu olhar:
— Valerie, sei que não gosta de cuidados especiais, mas me ouça, por favor! Deixe Henry cuidar de você.... Olhe, se você me ama realmente, faça isto, ele sabe o que fazer e... – Os olhos de Peter brilharam quando disse suas ultimas palavras... – Ele ama você, e... Eu... Eu só estou admitindo isto, pois, eu posso reconhecer, pois, eu também sei o que é o amor. Eu te amo minha querida e quero muito que você seja feliz... – E estas foram suas últimas palavras.
— Não!... Peter, por favor, não me deixe, não.... Não!
Foi quando levantei assustada, olhando em volta, para aí me dar conta que eu estava em casa, no quarto, dormindo em minha cama, e... Espera aí cadê o Peter, Peter.
— Peter, cadê você?...
***
— Estou aqui. – Peter entrou desesperado no quarto trazendo flores frescas. – Estava colhendo flores para você, para te dar quando acordasse, e cuidando do jardim, aproveitando o lindo sol de hoje.... Quando comecei a ouvir você gritar, vim correndo. O que houve meu amor? Está tudo bem! Eu estou aqui. Está tudo bem.
— Peter não me deixe, prometa que não vai me deixar.... – Eu dizia isto aos prantos.
— É claro que não, não seja boba, Valerie! Eu jamais faria isto, mesmo por que não conseguiria viver sem você. Quantas vezes eu terei que dizer que te amo? Hein?
— Eu sei, mas prometa-me que irá se cuidar para nada te acontecer, por favor. – Quando eu disse estas palavras ele congelou sobre meu abraço.
— Por que está dizendo isto? Hein Valerie? O que houve? Me diga...
— Nada, um pesadelo, é só isto, um pesadelo. – Mas, mesmo assim, ao invés da angústia em seu rosto diminuir, ela aumentou. – O que está havendo Peter? Me fala.
Ele somente me olhou nos olhos com pura tristeza, mas parecendo saber e estar resignado com seu destino, respondeu em um sussurro:
— Um pesadelo.
***
[1] A Espada de Prata é fatal contra um lobo, filho da lua.
Fale com o autor