A Galinha Psicocótica

6 Um frango por seus pensamentos


Notas iniciais
Olá meus caros! E a saga de Jessie continua! Desculpem o atraso, desta vez foi esquecimento ~mesmo.

–Minha nossa sinhora do Pepeu do Socorro1!!Acode!- Chico Mugunzá corria de um lado para o outro, com as mãos na cabeça, desorientado- Acode meu são José! Valhei-mi minha nossa sinhora! Mainha du céu!
–Valhe-mi minha nossa sinhora! Padim Ciço!-Emilio completava o coro que parecia que iria chamar todos os santos ao invés dos bombeiros ou uma simples ambulância, lágrimas já escorriam do rosto de ambos e , num último gesto de desespero, Chico precipitou-se em direção as chamas que consumiam o carro, mas Emílio o parou, agarrando-o pela cintura e jogando-o no chão, caindo ambos no mato seco.
–Não painho, não! Vá lá não!
–Eu preciso! A Emília! A Emilia!
O pobre homem se debatia no chão, preso pelo filho.
–A Emilia!
–Tem jeito não, painho, tem jeito não!
A fumaça negra elevou-se no céu, podendo ser vista por Jessie do sítio dos Mugunzá, a galinácea respirou fundo, tragando o cheiro de queimado do veículo misturado as cinzas dos humanos que estavam lá “*cocó* humano assado *cocó*”, ela ciscou com orgulho e estufou o peito para seu doce pinto-filhote, James e apontou para a fumaça. O pequeno pinto olhou para o alto com os olhos cheios de lágrimas, era pequeno demais para entender o que tudo aquilo significava.
Quando Chico Mugunza acalmou-se, alguns transeuntes já haviam chamado uma ambulância e o corpo de bombeiros, que tentava controlar a chama do carro que além de estar com o tanque cheio de gasolina de origem pouco confiável também fora adaptado a gás natural pelo próprio Tio Barnabé (que pouco entendia do assunto). Os paramédicos, incapazes de fazer qualquer coisa sobre as vítimas do acidente que ardiam, trataram de cuidar de Chico, verificando sua pressão, que subira assustadoramente e tentando acalmá-lo com um bom diazepam. Não demorou para que os policais do Ronda2 viessem também e os levasse para a delegacia, para prestar depoimento e colher algumas informações que seriam usadas na investigação já que o velho delegado Antônio Pombal da Pena estava achando aquela situação de catástrofes em torno da família de Mugunzá toda muito estranha. Ele sabia que demoraria pelo menos um mês até que o resultado da perícia do veículo saísse, talvez dois até... isso se... sim, isso se ele não usasse alguns métodos para apressar a investigação, nada que um bom frango assado e umas cervejas não pudessem fazer. Enquanto pensava em quantos frangos assados e engradados de cerveja Pombal precisaria, ele encarava a cara de babaca de Emílio, os olhos meio vazios e redondos, cheio de algo que Pombal não saberia descrever...
“Mas oxente que não pode sê” pensou ele, coçando a careca “Eu vou vê essa história a fundo”
E virou-se, indo buscar um café e carioquinha3 para o lanche.
–Oh, Osvaldo!- gritou ele para o jovem policial do ronda que levara os Mugunzá para a delegacia
–Sim, senhor?-
–Leva esse pobe coitado di volta pra casa e pede pu reboque ir de buscar o carro deles e deixá lá também, o Manuel deve di tá coçando o saco mermo.
–Sim senhor.
–Oxi, seu delegado Pombal, é muita da gentileza du sinhô!- gaguejou o pobre Emílio, enxugando as lágrimas que começaram a rolar em seus olhos.
–Carece não, Emilio, carece não. – e saiu para tomar seu café.


–*-*-*-*-*


No dia seguinte, Pombal foi ver seu amigo Luís da Banana Prata, que trabalhava na perícia em Fortaleza, levava a tira colo um frango assado enrolado em papel alumínio dentro de uma sacola de plástico4 e, no chão do carro, um engradado de cervejas.
–Seu Prata!
–Ah! Pombal, Pombal! A que me deve o prazer da sua visita? Logo tão perto da hora do almoço?- Prata olhou para o frango cheio de fome, já podia sentir o gosto da pele crocante e sequinha em sua boca.
–Vim di trazer um agradin pr’um meu amigo, oxi- falou, entregando o frango a Pombal
–Valha que só falta o baião! Veio a paçoca!
–Oxente, má é lógico, ômi!
–Pois almoce comigo, Pombal, que o franguinho aqui é gordo e dá pra nós dois, mas vou logo avisando que as coxinhas são minhas, ein?
Os dois almoçaram alegremente e, Pombal, como o detetive experiente que era, esperou o amigo terminar de roer os ossinhos da ave e estar de barriga cheia para jogar verde e colher madura.
–Prata, eu tava aqui matutando e matutando... e ai eu accheguei numa conclusão, sabe?
–Que conclusão,??
–que eu queria pedi um favô pra tu.
–Ora, mas diga ai amigão, que é?
E Pombal descreveu o que acontecera no dia anterior, os choros, o lamento e toda a ordem de eventos macabros que estava acontecendo, o caso deixou Prata perturbado, tanto que o homem pensou que precisaria de um anti-ácido para ajudar a lidar com tanto frango que havia comido.
–A investigação, não é? Sim, eu posso dar prioridade, Pombal. Eu hei de dar prioridade a ela... o carro, logo amanhã já vou ver isto e lhe mando um zap zap, ok?
Pombal saiu feliz e de barriga cheia, sabendo que não dividira um frango assado a toa com seu amigo. Ah, as coisas que um bom frango podia fazer!

–x-x-x-x

O celular de Pombal tocou exibindo na tela o número de Prata.
–Pombal...
–Oxi! Mai que coisa rápida, sô!
–Pombal, escute bem o que vou te dizer sobre o carro... é muito sério
Pombal ficou branco e sentiu algo se agitando em si que não parecia ser consequência do frango assado.
–O carro, Pombal, foi sabotado... os freios... o sistema de combustível... os freios iriam falhar e uma faísca, uma só faísca... e o carro pegaria fogo... foi crime, Pombal, crime...

Pombal deixou o celular cai, em choque5... então ele realmente estava certo.

Notas finais
1) Nossa Senhora do Pepeu do Socorro: lê-se minha nossa senhora do perpétuo socorro e, sim, tem gente que fala assim, minha tia por exemplo. 2) Ronda do Quarteirão: é uma Hilux legal da polícia que tem computador dentro e ar-condicionado :3 sim, é uma viatura, mas sem estabilidade alguma em curvas em alta velocidade o/ e só serve mesmo pra assustar os vetin. 3) Carioquinha: é assim que chamam o pão francês na cidade de vocês? Aqui é. 4) Aqui, quando compram frango assado, o pessoal embrulha em papel mesmo e joga dentro de uma sacola de plástico.... não muito higiênico né? 5) E o celular quebrou o visor, por que era um moto G D: *baseado em fatos reais, amiguinhos*