A Galinha Psicocótica
14 Que pena...
Notas iniciais
A perícia considerou a morte do jovem como “acidental”, nada mais: o capataz, que havia sido contratado pelos vizinhos de Chico para ajudar na fazenda (a fim de fornecer parte da mão de obra necessária, já que o pobre homem havia perdido tantos filhos), havia tropeçado enquanto tentava pegar um dos patos e batido a cabeça numa pedra pontiaguda e desmaiado, porém, o azar do pobre homem não terminava ai: seu corpo havia rolado, fazendo-o cair de cara num pequeno córrego¹.
A conclusão da perícia é que a pancada em si não fora suficiente para mata-lo, mas ele morrera afogado em um córrego com pouco mais de 3cm de profundidade. Dessa forma, nenhuma suspeita foi levantada contra o fato de que Emílio pudesse ter sido preso por engano e o real assassino ainda estivesse a solta; o que agradou bastante Jessie, que se deliciava cada vez mais com o estado deplorável físico e mental que Chico se encontrava: o pobre homem, que já mal comia e falava com as pessoas, agora começava a pensar que seu sítio estava amaldiçoado ou coisa parecida e que era hora de vender as terras e se mandar para Fortaleza, para viver junto dos poucos parentes que ainda lhe restavam na cidade grande. Jessie, porém, não gostou nem um pouco da decisão do pobre homem e detestou mais ainda por que sabia que já podia haver um possível comprador interessado: O sr. Aviner, dono de várias granjas no estado. Segundo Aviner, a propriedade era grande o bastante para fazer uma granja exemplar e ainda ter espaço para construir seu novo investimento: a granja faria seus próprios sticks de frango empanado² e ainda teria um local para vender frango assado, sempre fresco.
Jessie detestou aquele desfecho ainda mais, suas companheiras galinhas também não ficaram nada contentes e começaram a se ressentir dela... porém, para a Psicocótica, a granja em si era apenas parte do problema, a outra grande parte era: se Chico fosse para Fortaleza, como ela poderia fazê-lo sofrer? Era chegada a hora de agir, já que não poderia mais tortura-lo com a perda abrupta de seus entes queridos, iria antecipar seu encontro com eles... porém garantiria que sua despedida não seria nada fácil e que sua morte seria de longe, uma das piores. Além de tudo, iria impedir aquela granja de se instalar lá e vitimar mais galinhas inocentes.
—-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-
—Olá, boa tarde, vim para ver o Paciente Emílio Mugunzá Pinto- Prata mostrou sua identidade para a recepcionista da clínica, que mal se deu ao trabalho de olhar na cara dele, apenas encarou por um milésimo de segundo a foto no documento e voltou a digitar algo para suas amigas no facebook.
—Só um instante – ela respondeu automaticamente e pegou o telefone – sente-se, por favor. – disse, apontando com o nariz o sofá velho da clínica. Prata respirou fundo e foi sentar-se, enquanto ouvia a atendente ligar para uma possível enfermeira e falar algo sobre preparar uma sala ou coisa pare5cida e, claro, tudo isso sem parar de digitar. Passaram quase vinte minutos até que a atendente se dirigisse a ele novamente, dizendo que ele deveria seguir a enfermeira até onde o paciente estava esperando. Prata andou por alguns corredores de azulejo branco e por alguns locais gradeados cuja vista dava para um terreno aberto onde era possível ver pessoas com roupas hospitalares andando de um lado para o outro com os braços estendidos ao longo do corpo, vagueando como que sem rumo em alguma espécie de sonho distante³. A expressão no rosto de alguns dos internos lhe deu um calafrio e ele decidiu parar de olhar, sempre fora fraco para a psiquiatria.... Depois de quase 3 minutos de caminhada chegaram a uma sala.
—Celular, anéis, colares, cintos, chaves, relógio... o senhor não pode entrar lá com nenhum objeto de metal.4– disse a enfermeira, estendendo para ele um envelope de papelão para que colocasse os pertences. Assim que Prata entregou o envelope a enfermeira, ela o lacrou com um grampeador e disse que ele poderia entrar.
Prata respirou aliviado e entrou na sala: um mundo de azulejos brancos que cheirava a éter e que não tinha nenhuma mobília. Emílio estava parado num canto da sala, olhando para a parede, como se lá houvesse uma janela que só ele conseguia ver, Prata sentiu um aperto no coração “meu deus, meu deus, o que eu ajudei a fazer com este pobre” pensou, respirando fundo.
—Emílio – ele chamou, a voz baixa e calma, tentando não transparecer o nervosismo nem a pena. O garoto se virou lentamente para ele e esboçou um sorriso pequeno e efêmero.
—Ora, é o sinhô seu Prata.
—Vejo que lembra de mim.
—E cumu é que eu pudia havê de isquecê? O sinhô também não acredito nimim.
—É por isso que estou aqui.
—Pá modi num credita nimim de novo?
Prata deu um passo para trás e buscou algo no bolso da calça: era uma pena. Ele viu os olhos de Emílio se esbugalharem e o espanto lhe tomar.
—Não Emílio, agora eu acredito.
Fale com o autor