A Galinha Psicocótica
3 No frigir dos ovos
Notas iniciais
Nos dias seguintes após o assassinato de Josefá, Jessie optou por ficar afastada e apenas observar o que aconteceria, afinal, ela não queria arriscar deixar sua vingança pela metade. Ela observou os choros, os lamentos, os gritos de raiva e aflição que vinham daquela casa antes tão feliz e sentiu dentro de si, cada vez mais, uma satisfação crescente e, junto com este sentimento, um novo ímpeto de matar. Mas ela sabia, do fundo de sua alma galinácea que seria mais prudente esperar; então, para poder acompanhar toda a movimentação na casa dos Mugunzás, ela decidiu até mesmo ciscar mais perto da casa a fim de saber se a polícia (que a essa altura estava quase sempre por lá) já tinha algum suspeito e, foi com imensa satisfação que ela percebeu: ninguém jamais suspeitaria de uma inocente galinha, era perfeito.
Com este pensamento em mente, Jessie decidiu voltar a cena do crime na calada da noite. Novamente, a pequena galinha esperou que todas as luzes estivessem apagadas e o silêncio envolvesse a casa para agir; foi com alguma surpresa que Jessie notou que a janela da cozinha continuava aberta e pensou “isto pode *cocó* ser uma armadilha *cocó*” e decidiu dar a volta e aproveitar-se da porta do quintal, que havia um buraco para o finado cachorro da família passar. Ela foi até lá e, com alguma dificuldade, conseguiu passar.
–Devo estar *cocó* ficando gorda *cocó* desse jeito serei o próximo a virar *cocó* assado.
Ela seguiu seu caminho até a cozinha e foi quando viu, reluzindo a luz fraca da lua que entrava pela janela entreaberta, a faca que matara Galindo. “Que grande *cocó* ironia” pensou Jessie, encontrar ali, em cima da pia, a faca que esquartejara seu mais lindo amante e que futuramente, esquartejaria toda a família mugunzá. Ela deu um pequeno voô até a pia e olhou, de maneira bastante galinácea¹, para a faca que emanava um brilho azul e assassino... desajeitamente ela tentou pegar aquela faca, mas não conseguiu de primeira e a deixou cair... foi quando ouviu passos e sentiu seu coração parar uma batida
–*Cocó* que faço agora?
Jessie, que não era só uma galinha bonita – e assassina- desceu rapidamente da pia e deitou-se ao lado da geladeira, fingindo dormir. Foi quando ouviu os passos se aproximarem ainda mais e viu a luz se acender, ela entreabriu os dois olhos e viu o filho de Chico Mugunzá, um jovem de mais ou menos 16 anos cheio de espinhas e com cara de pamonha, se aproximar da pia e pegar a faca, colocando-a de volta no lugar. Ele olhou ao redor e então viu Jessie....
Jessie não se desperou, apenas retribuiu o olhar do Moleque Mugunzá
–Cocó? [oi?]
–Oxi, que ‘cê tá fazendo aqui dona galinha?
–cocó có có cocó [me perdi do galinheiro]
– vixi, minha fia, teu lugar num é aqui não, é no galinheiro, fia... vai que ‘cê caga tudo aqui... a mainha – ele soluçou – vixi que num tem maius maninha não...
–cocócócó [oh, que pena, sinto muito #sqn]
–Oxi, mas nem o fantasma da manhia ia querer cocó de galinha aqui não... xô! Xô!
–-cooó [já vou!]
Jessie se levantou se saiu correndo pelo corredor, fingiu sair pela abertura da porta da cozinha, mas na verdade se escondeu atrás de um jarro, nas sombras... lá ela esperou o moleque mugunzá saie voltar chorando para seu quarto. Quando teve certeza que que o moleque estava no quarto – já chorando até dormir e por isso não ouviria mais barulhos... Jessie voltou a cozinha para pegar a faca, a fatídica faca que esquartejara Galindo e que, assim como acabou com a felicidade na vida de Jessie, acabaria com a felicidade (e a vida) daquela “inocente” família...
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