A Fuga
2 Capítulo 1: A paciente do quarto 142 [Parte 1]
Notas iniciais
Espero que gostem u_u
Pouco me restava das lembranças do que havia acontecido no período anterior ao que cheguei no hospital de Heavens. Os dias no quarto 142 pareciam intermináveis. Tudo o que eu via era uma sala perfeitamente branca, exceto pelo carpete verde-musgo cobrindo o piso. Além disso, havia a cama em que me deitava e uma janela. Mas... havia uma janela ali? Eu nunca a havia percebido antes. Nem eu sabia até então que aquele passaria a ser o momento decisivo; o divisor de águas que iria eliminar Hannah Lenn por tempo indeterminado.
Olhei para a janela; a ideia que surgia aos poucos, com dificuldade, parecia cada vez mais tentadora. Afasto os longos cabelos louros do rosto para contemplar os raios de luz do início da manhã que adentravam o quarto. Quando foi que colocaram aquilo ali? Uma mistura de admiração e surpresa tomavam conta de mim. Pensei em me levantar, mas em pouco tempo eles viriam para me dar a usual dose de remédios orais para combater minha doença – assim diziam, e assim sempre foi.
Aquele dia se passaria como outro qualquer: às 6 horas trariam os remédios; às 7 o café da manhã; às 11:30, o almoço; às 16 horas era o único momento em que eu saia definitivamente do quarto para ver um ambiente externo: era a hora de respirar um pouco de ar puro junto aos outros pacientes. Por pouco mais de uma hora, todas as pessoas, loucas ou não, se socializavam e contavam seus sonhos e desejos que seriam realizados após saírem de lá reabilitados e prontos para serem reinseridos na sociedade. Ao invés disso, eu costumava ficar sentada sozinha, tentando lembrar da minha própria vida antes disso, ou então perambulava pelos corredores sem um lugar específico para ir, apenas para esticar as pernas e sentir que ainda as tenho. E foi dessa forma que se seguiram os 2 anos.
Contudo, aquela não fora uma quinta-feira como outra qualquer: O ar estava diferente; havia ali uma janela completamente cerrada e impossível de abrir. Logo, a briza gélida que parecia invadir o quarto 142 não vinha daquele lugar. De lá o sol banhava o lugar com um pouco de luz que parecia refletir pelas paredes brancas e incendiava os olhos à primeira vista. Até aquele momento, os enfermeiros ainda não tinham ido dar a medicação do dia. Sem hesitar, fui chamada por aquela pequena abertura de vidro na parede e olhei para fora, com os olhos bem abertos de deslumbramento. A grama seguia um caminho de verde claro até ser quebrada pelo preto do asfalto. Alguns poucos veículos circulavam por ali. Mais a frente, prédios se erguiam em meio a algumas árvores. O que estariam fazendo todas aquelas pessoas? Provavelmente algo mais interessante do que estar aqui, fosse o que fosse.
Eu fiquei encantada com o cenário, como se tivesse fugido da realidade por horas, até que bateram na porta. Acordando do transe e com o coração incrivelmente acelerado, rapidamente voltei para a cama o mais rápido que consegui, bem no exato instante em que abriram a porta e duas pessoas entraram. Fechei os olhos e fingi estar dormindo.
“Acorde, garota!” disse uma mulher. Pela voz, eu já sabia que era a assistente que trazia a comida. Ela tinha feições um pouco assemelhadas a de um homem, era rígida, mas sempre estava ali e algo em seu olhar me dizia que ela era uma boa pessoa. “Está na hora do seu café da manhã”.
Acordando e me espreguiçando um pouco, observei sobre a franja que cobria meu rosto para a mulher que estava a meu lado. Atrás dela, encostado com a saída, estava um homem que eu não me recordava de ter visto antes. Ele estava com o pé apoiado na parede e olhava com certo desprezo para nós duas.
Gentilmente a mulher afastou meu cabelo do rosto e jogou-o para trás. E então colocou a bandeja que trazia no suporte da cama.
“É melhor comer logo, se não vai esfriar.”
“E os remédios?” perguntei.
O homem se aproximou e tocou no ombro da assistente antes que ela respondesse. Ele então disse em seu lugar:
“Hoje eles serão dados um pouco mais tarde.” sua voz era forte e confiante, mas com uma pontada de nervosismo “Isso é bom, garotinha. Você está melhorando aos poucos. Talvez um dia consiga ficar boa e sair do hospital.”
“Que bom” menti, demonstrando animação pela ideia. “Mas não sei se conseguirei continuar a vida sem a ajuda da senhora Erza. Você tem me ajudado muito.”
Ela esboçou um sorriso, afastando uma mecha do cabelo castanho escuro para trás da orelha. O homem soltou um riso de desdém e então continuou:
“Pois é, esse dia chegará. Mas depende do seu comportamento. Se for uma boa garota e seguir todas as regras, um dia sairá daqui.”
Balancei a cabeça afirmativamente, e então me voltei para a comida. Se o plano que surgia em minha mente fosse realmente ser posto em prática, aquele seria um longo dia.
***
Era sábado. Eu já havia visto repetidas vezes a mesma notícia sob diferentes pontos de vista das emissoras de TV. Se eu sei alguma coisa sobre meu dia a dia e horários, devo tudo a elas. Lá eles não contavam nada que pudesse dar uma ideia temporal ao interno – ou pelo menos faziam isso comigo. Talvez por isso que os dias parecessem ainda mais longos do que o habitual.
O que me fez aguentar todo esse tempo foi a simples sede de mudança de estado. A vontade de seguir para a liberdade era mais forte do que qualquer coisa. Além disso, algo me incomodava: aquela mulher, Erza. Algo nela fazia vez ou outra com que eu me sentisse como se ainda estivesse viva. Por várias vezes ela me ajudou com tarefas simples do dia a dia, olhou meu rosto e não expressava medo ou sequer surpresa, apenas um sorriso. Ela era diferente das outras pessoas que me cercavam no hospital.
Sentada no sofá da casa da única pessoa que podia acreditar em mim no momento, eu refletia sobre o ocorrido na noite de antes de ontem. Alguma coisa de fato ocorreu de diferente naquele dia. Não era apenas uma sensação estranha, a rotina diária havia mudado. Talvez por isso ou por ter percebido pela primeira vez a presença de uma janela, ou ainda por algum motivo que ainda não consigo entender, uma voz dizia em minha mente que aquele era “o dia”. Eu não podia ficar parada esperando. Se eu fizesse isso, certamente iria ter me arrependido pelo resto da vida. As coisas não podiam ter ocorrido de outra forma. Pelo menos, não devia. Eu tinha que agir, tinha que tentar. E assim foi...
***
A noite havia chegado. Como havia prometido para mim mesma, eu faria daquela a minha chance. Tinha que dar certo. Mais uma vez os enfermeiros não haviam aparecido às 7 horas da noite como usual. Mais uma vez a fagulha acendia aos poucos dentro de mim e o fogo que surgia era forte o suficiente pra me fazer agir.
Por mais algumas horas, eu acho, eu esperei, de olhos fechados, incapaz de conter um sorriso depois de tanto tempo de expressões vazias. Quando senti que devia, levantei-me da cama em um salto apressado e lentamente fui até a porta. Estava trancada pelo lado de fora.
A janela me olhava com ar de desafiadora. Ao chegar a ela, olhei para baixo. Talvez fossem uns cinco metros de distância até o chão. A ideia atingiu minha cabeça como um raio. É claro! Quantas vezes eu já não tinha visto na televisão e em livros pessoas que fugiam com um simples truque? Normalmente ocorria da seguinte forma:
Para escapar de um lugar alto e de risco, pegavam algum pano que estivesse disponível – no caso, peguei o pano da cama – e então amarravam a algo fixo – tive o máximo de cautela a levar a cama para próxima da janela, que não era tão alta – com isso, só bastava arriscar o pulo. Era algo perigoso, eu podia ser descoberta ou ainda sofrer algum dano maior que me impedisse de correr para longe. Mas eu tinha que tentar.
A cama do quarto tinha dois panos. Amarrando a ponta de um deles à cama com um forte laço e, da mesma forma, a outra ponta ao outro lençol, subi em cima da cama para contemplar mais uma vez o que me aguardava embaixo: grama. Sim, ela devia amaciar minha queda um pouco.
Mas pensei ainda várias vezes se isso era o certo a fazer. Apesar da vontade, o medo me consumia mais e mais, a medida que eu via o plano se tornando real. Aquilo sim era loucura. Era provável que eu me tornasse fugitiva. E nem sabia o que fazer ou para onde ir a partir dali.
Fiquei tomada pela insegurança. Senti que poderia estar cometendo um grande erro. Sentada no meio do quarto 142, olhei para o teto onde repousava uma lâmpada. Se eu fizesse isso, seria como se aquela lâmpada fosse para baixo e eu fosse para cima, tomar seu lugar. As coisas se inverteriam num instante. Não haveria volta. Se eu fosse pega, seriam mais rígidos. Naquele momento eu e a lâmpada estávamos numa mesma sintonia, na mesma posição. O que viria a seguir seria definido por um único momento. São engraçados os momentos; eles conseguem mudar todo o rumo de um caminho traçado, e levar a um novo ambiente. Dependia de mim decidir qual vida levar a partir de então. Eu queria estar em baixo e olhar para cima de minha cabeça como todos os outros faziam ao ver a lâmpada, ou estar em cima, em um lugar desconhecido, olhando para baixo?
Minha mente ia pirar. Mesmo se viessem e me dissessem que na verdade eu não era louca, já não podia acreditar... Principalmente depois de ter feito a escolha:
Eu vou fugir! Agora!
Levantei, sem forças, e olhei para as quatro paredes que me trancavam – e então para a única porta de saída. “Tem que ser agora”.
Não importava se eu fosse me arrepender do caminho que viria a seguir. Na verdade, não havia nada à frente, a não ser um horizonte e o chão. Eu teria que andar com meus próprios pés pela primeira vez na minha vida. Isso não era algo que eu faria no meu normal. Se bem que nem lembro mais qual era o meu normal, nem sequer como eu um dia fui antes de chegar aqui. Minhas memórias pareciam ter sumido. Mas esse é um assunto para outra hora.
Naquele instante, com os olhos ardendo de excitação, eu subi na cama e peguei o lençol. Os dois juntos deviam ter no máximo 3 metros.
Respirei fundo como nunca antes. Ao passar pela janela, meu mundo se faria de cabeças para baixo. Mas fazer o que, foi isso que eu escolhi.
Sem medo, reuni as chamas que se erguiam dentro de mim e então pulei com todas as forças . Meus braços na frente atingiram o vidro que se quebrou em mil pedaços. O ar do lado de fora atingiu meu corpo com uma briza fria que congelou todos os meus ossos e músculos. O frio era insuportável.
Chovia forte; as gotas batiam nos pedaços de vidro que brilhavam e escorriam pelos meus braços e meu corpo com pequenos filetes de sangue que saiam por todo lado. A camisa branca e longa estava se manchando de vermelho escarlate. A lua brilhava no céu escuro e a grama ao meu redor parecia chorar lágrimas de sangue e água. Mais a frente, o asfalto e então prédios cuja luz encandeava meus olhos, me forçando a cobrir os olhos com os braços. Era muita informação ao mesmo tempo.
E agora? O que faço? Pensei, desesperada.
De repente, saí correndo sem saber aonde iria parar. Aquela cidade parecia um lugar totalmente novo para mim. Eu já não lembrava de nada, não sabia sequer onde estava ou onde devia ir. Talvez tenha sido um erro, afinal de contas.
Meus olhos se fecharam. Tudo apagou. Não, aquele não foi um erro.
***
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