E, por fim, a D. Clotilde é a única que ainda tem marido, é uma beata de primeira que gosta de comentar a vida dos seus vizinhos quase toda até onde lhe der a autorização para coscuvilhar. Não gosta de Sónia, vê-a como uma vadia pela profissão que tem, acha que é dinheiro mal ganho que vem do diabo onde é que já se viu no meu tempo, havia de ser bonito… mas tenta tolerar por respeito a Scott, que é uma ternura de vizinho. Agora que o casamento acabou, só espera que Sónia acabe por vender a casa e sair dali.

– Isto hoje já não há educação. – Profere D. Clotilde – onde é que já se viu entrar aqui e não cumprimentar uma pessoa?

– Esta não é a Lisa Valentino? – Indaga Noémia que toca no braço de Isilda.

– É, sim, e é bem parecida com a mãe. – Toma a palavra Isilda.

– Olhem, deixem que também não se parece com uma grande peste.

O número sessenta e cinco aparece no ecrã. Lisa levanta-se e dirige-se ao balcão. Um senhor de bata branca espera-a, ela entrega a senha e tira os óculos de sol.

– Ora boa tarde – cumprimenta o farmacêutico com um belo sorriso – então o que é que vai ser?

– Um teste de gravidez, por favor.

– Tem preferência pela marca?

– Pode ser o Clearblue Digital.

– Ok! – O farmacêutico vira-se e procura o teste. Não está exposto, entra numa espécie de gabinete.

– Isilda, o que a cabeça de víbora quer? – Investiga D. Clotilde

– Não sei, não dá para ouvir. – Declara D. Clotilde, aproximando-se do expositor para ouvir melhor. O farmacêutico regressa ao balcão trás uma embalagem nas mãos.

– Tem receita?

– Não

– ok! Então siga as instruções… – fala ao registar e mete dentro de um saco plástico – são só vinte e nove euros, vai pagar a dinheiro?

– Não dá para usar cartão?

– Dá querida, claro que sim… – Lisa dá-lhe, o cartão dourado, o farmacêutico passa no Multibanco – marque o código.

Lisa marca, põe os óculos e espera pela conta. Mete tudo dentro do saco plástico e sai pela porta que entrou. Na rua caminha de olhos postos no chão, braços sobre a barriga, em direcção a casa. Entra para dentro e sobe as escadas até ao seu quarto. Põe o saco no armário, a mala no bengaleiro, vai à casa de banho, e senta-se na sanita, o período estava atrasado. Lisa sente cheiro de laranjas:

– Estranho! Não há laranjas neste tempo.

Volta para o quarto, olha para a mesa-de-cabeceira, o relógio digital marcava catorze horas.

No teatro, Pipa e Sónia conversam:

– Tu já viste o estado de Lisa, deixa-me preocupada. – Comenta Sónia.

– Realmente, até a mim … – deduz Pipa com um ar incomodado – mas não te preocupes, Sónia que não deve ser nada.

– Deus queira que não, e se for aquilo que estou a pensar… ai! – Grita de terror – Deus nos, livre é que a Lisa está como quando eu estive grávida!

– Sónia! Sónia! – Pipa acena a cabeça em negação – como é que queres que ela esteja grávida, se nem namorado tem?!

– Eu sei, eu sei que é de mais até para a miúda mas o que é que se pensa assim numa ocasião, ela está atrasada.

– Atrasada?!

– Sim a menstruação… tenho medo. – Declara Sónia – é que depois John pode acusar-me de ser uma péssima mãe e ficar com a guarda de Lisa.

– Sónia isso não vai acontecer… tu és uma óptima mãe. Alias, John adora-te!

– Obrigada Pipa, muito obrigada – agradece-lhe Sónia – eu não sei o que seria de mim sem ti.

– Parva.

*

Sérgio entra para a biblioteca com Tomás e toca numa estante, que roda mostrando uma abertura. O melhor amigo de Pedro aproxima-se, espreita para dentro da garganta, vê só uma escada que vai dar a parte incerta, iluminada por tochas que ardem. O vereador da Câmara Municipal entra naquele sítio escuro, perseguido de Tomás. A escada estreita construída em cimento leva a um espaço amplo, no fundo com janelas com madeira pregada por fora, um cheiro de mofo, filtra no nariz de Tomás, uma cama no centro com um colchão de palha, uma pessoa em tronco nú acorda com as mãos e os pés atados. Tenta-se soltar mas é em vão.

Transpira, o suor corre no peito cabeludo.

– Onde estou? – Pergunta insensatamente, olha em redor à procura de respostas, – está aí alguém? Socorro… – Pedro Grita.

Tomás aproxima-se de Pedro, o cheiro a suor aumenta:

– Olá Pedro! O que é que te fizeram?

– Quem és? – A pouca luz daquele lugar, e o facto de estar constantemente a dormir, deixam-no confuso.

– Tomás, o teu melhor amigo, Pedro.

– Então tira-me daqui, deste lugar horrível, por favor!

– Não posso, não posso. – Tomás ajoelha-se no chão ao pé de Pedro e chora – se eu pudesse, meu bom Pedro.

– O que é que aconteceu? – Pergunta Pedro.

Mas tudo o que obtém em troca é uma picada no braço. O líquido mistura-se com o sangue, que arde, nas veias, Pedro abre bem os olhos e levanta a cabeça mas um terrível cansaço abateu sobre ele que o obriga a fechar os olhos de novo, a cabeça batendo em cima da almofada de palha. Pedro adormece.

Tomás despede-se dele, prometendo que o virá visitar todos os dias até ao dia em que ele deixar este mundo. Sobe com Sérgio, cabisbaixo. À entrada da biblioteca, olha para trás, antes de Sérgio fechar a entrada.

Tomás dirige-se para uma cadeira, senta-se nela, triste por ver o amigo de longa data assim. Sérgio avalia-o, mais uma vez:

– Então rapaz! Estás assim porquê?

– Pelo Pedro, não há mesmo salvação…

– Não sei, o médico, diz que não. Mas eu não acredito. Não posso viver sem Pedro, Tomás, ele é precioso demais para mim.

– Não é só para si, tio – profere Tomás com dificuldade em segurar as lágrimas – também o é para mim.

– Eu sei, eu sei Tomi, tu serás sempre um amigo.

– Obrigado tio, mas eu não sei como vou sobreviver à morte de Pedro. – Confessa por fim – Ele marca-me tanto.

– Olha, ele ainda não morreu, pois não? Por muito que nos custe temos que aceitar o destino sem olharmos duas vezes para trás. Força! — Sérgio abraça Tomás que chora. – Coitado do Pedro! Tão novo e tanto para viver…

Sérgio já não duvida da fidelidade de Tomás. Sabe que pode confiar nele, tal como o seu filho confia.

– Vá, olha uma coisa, os homens não choram, isto é aqueles que são Homens com um “H” maiúsculo – informa Sérgio – mas já vi que infelizmente, não o és…

– Tio! Posso vir cá todos os dias ver Pedro?

– Podes… só tens é que me avisar em antes para eu cá estar, ok?

– Combinado.

Sérgio consegue fazer com que Tomás não chore. Despedem-se e este vai embora quando a lua sobe no horizonte.

Notas finais
Será que Lisa vai encontrar Pedro?
Terão as desconfianças de Sónia fundamento?
E, Tomás será mesmo um homem com um H maiúsculo?
Até breve,
Anne.