A Fonte

9 Capítulo 9-Ed Junior


Ed Jr era egoísta e ambicioso. Depois que saiu de Jacarandá foi para São Paulo e arrumava confusões em todo lugar que passava. Não parava em emprego algum até que conheceu uma moça, a Arlene.

Ela era linha dura e gostava do jeito bad boy do Ed. Ela trabalhava e ele as vezes e iam levando. Ele dizia que herdaria uma madeireira e uns pedaços de terra no interior, era só esperar. Arlene não se conformava de como alguém poderia ficar esperando o pai morrer ao invés de trabalhar. Mas gostava dele, fazer o que.

Certo dia, Anne e Ed Jr se encontraram na Praça da Sé.

– Não acredito boneca, você fugiu de lá.

– Oi para você também.

– Ta trabalhando, casou, deu o golpe?

– Há, há, há. Quem deu o golpe foi você, achou alguém para te sustentar.

– Sabe como é. Elas não resistem a mim. Assim como você...

– Eu, heim? Sai fora. Foi um desprazer encontrar você.

Mas a atração continuava e eles se encontraram de novo... e de novo... Até que:

– Ed, eu acho que estou grávida.

– Ta , fala com o pai da criança e casa com ele.

– É você!

– Qual é? Como tem certeza? Pode ser de qualquer um.

– Ele é seu! Ed, teve corte na loja e eu perdi meu emprego. A dona da pensão não vai deixar eu ficar quando souber que engravidei e...

– Querida, eu sou um homem casado. Não posso perder a Arlene. Você tem que se virar.

– Ed... você é um canalha... um porco imundo...

– Calma aí boneca, porque você não volta para Jacarandá? A sua avó não te deixou aquela casinha?

– Eu não sei. Mas do que eu vou viver?

– A sua mãe se virou muito bem.

– SEU CACHORRO!

Assim que voltou para assumir a madeireira, Ed Jr já estava fazendo as coisas ao seu modo. Ninguém gostava dele, mas a madeireira empregava a maioria dos homens da cidade. Se fechasse, eles teriam que sair da cidade para procurar emprego.

Anne foi falar com Ed Jr, e não teve escolha, ela se submeteria a ele para que Carl não perdesse os filhos. Mas isso estava acabando com a sanidade dela e a cidade toda comentava.

Um noite, ela voltou completamente bêbada. Ken e Kim já estavam dormindo e Carl deitado no sofá. Ele sentiu o hálito de álcool perto do rosto:

– Carl... olha para mim...

– ANNE! Você... por fa...favor, vai dormir!

– Você não gosta mais de mim? Não me quer mais? – dizia com a voz pastosa.

– O que vo... ce...ce...está fa...faz..zendo ... oh, céus... saia daqui!

– Você ainda pensa naquela metida de cabelos en...ca...ro...ca..cho...ahhhhh...

– Pára! Você vai a...acordar as as crian...ças...

– DANE-SE, VOCE É O MEU MARIDO, OU NÃO?

– Anne... não faz isso...!!!

Engravidou de novo. Foi uma gravidez difícil e a criança nasceu prematura. O bebê precisou ficar um mês internado no hospital da cidade vizinha.

Maggie e as senhoras da igreja foram visitar o bebê e os comentários começaram. A criança tinha cabelos escuros e cacheados, bem diferente dos outros dois que tinham cabelos claros e lisos.

Anne era a própria imagem do desespero. Carl ignorava os comentários, na verdade fingia, não podia fazer nada, estava nas mãos de Ed.

Maggie, sempre que cruzava com Carl, desde que ele era pequeno, colocava a mão em sua cabeça e fazia um oração. Para protegê-lo, ela dizia. Após o acidente, ela continuava a fazê-lo.

Carl estava mais triste do nunca e Maggie foi excepcionalmente a casa dele e pôs a mão em sua cabeça e disse:

– Vá ver seu filho.

– Vou a...amanhã, ele de..deve ter alta lo..logo.

– Vá vê-lo hoje. A estrada está tranqüila, amanha é véspera de feriado e o transito vai ser pior.

Ele foi e viu a criança. Estava sorrindo e parecia reconhecê-lo. Carl chorou, lágrimas de felicidade. O bebê tinha os mesmos olhos de Ken e Kim, os seus olhos. Era seu filho.

Os médicos disseram que dariam alta e ele levou o filho para casa. Não importava mais nada. Ele tinha três filhos lindos e iria cuidar deles contra tudo e todos.

Já sabia que não poderia contar com a Anne, ele assumiria tudo sozinho.

Quando chegou, Ken e Kim estavam sozinhos na sala. Subiu ao quarto de casal e viu que a porta estava aberta, mas Anne não estava. Fazia tempo que não entrava no quarto, geralmente Anne deixava suas roupas do lado de fora da porta. Entrou e teve uma surpresa! Praticamente não havia espaço livre, eram caixas e mais caixas de produtos comprados em loja e na sua maioria enviados pelo correio. Alguns objetos repetidos e sem utilidade prática. Então era aí que ia todo o dinheiro que deixava com ela.

Resolveu levar tudo para a garagem e para a sua surpresa, atrás de uma cortina de lona nos fundos havia mais produtos. Como não havia percebido isso antes? O jeito era tirar a caminhonete e guardar o restante dos objetos.

Ia falar com ela para não fazer mais isso, mas só disse que arrumou um lugar para guardar as coisas dela e passou a dar dinheiro somente para as despesas da casa.

Certo tempo depois, ele estava carregando o caminhão de entregas quando Seu Manuel da mercearia apareceu para falar com ele:

– Carl, eu sei que a situação está difícil e você é um rapaz bom e honesto, mas eu preciso que você pague parte das compras da mercearia.

– Com...compras? Eu...eu não en...entendo!

– Sua mulher faz as compras e pede para anotar no caderno, mas já faz cinco meses...

– CINCO MESES! Mas...mas...eu sem..pre do..dou o dinhei...ro para as des...des...pe...sas...

Carl voltou correndo para casa, se ela pede para anotar em que ela gastaria? Foi verificar a garagem, mal conseguiu abrir a porta. Mais e mais caixas lotavam o espaço e ainda havia algumas caixas no quarto.

Não daria mais dinheiro para ela, ele mesmo faria as compras e precisava pagar a dívida com Seu Manuel. Reduziu ao mínimo, teria de economizar ainda mais. Com isso passou se um ano, parecia que Anne não comprava mais pelo correio mas sempre tinha dinheiro para comprar cigarros e alguma bebida. Ele não queria saber como ela conseguia, o importante era que as crianças estavam com ele.

Diante de tantas dificuldades, Carl agradecia o fato de seus filhos terem herdado seu temperamento pacato, eles não brigavam e não choravam a toa, ficavam apáticos, desde cedo percebiam que não deviam esperar muito da mãe. Ele e Anne ainda discutiam, principalmente quando ela deixava as crianças sozinhas e voltava tarde da noite. Ela ameaçava que ia embora e que deixaria ele e as crianças. Durante as discussões dos adultos, as crianças também choravam.

SEXTA FEIRA: Carl já estava quase desistindo, não agüentaria mais. Quem sabe as crianças ficariam melhor num orfanato, com chances de serem adotados por pais carinhosos e com melhores recursos? Mas essa idéia o deixava horrorizado. Ele amava essas crianças, eram as únicas coisas que lhe restavam no mundo.

Estava voltando para casa e viu uma placa de “vende-se” numa casa. A casa de July. Aonde ela estaria agora? Na certa bem de vida, casada e com filhos.

– Que hora para pensar nela – disse em voz alta.

Foi para casa, amanhã seria sábado e ele precisaria trabalhar. Para o domingo o padre pedira excepcionalmente a sua ajuda com certa urgência e ele não conseguiu recusar. O problema era convencer Anne a ficar em casa.

No sábado, Anne nem tomou café da manhã, saiu e nem deu a chance para Carl conversar com ela. Depois das crianças terem comido, ele foi atrás dela. Não gostava de deixá-los sozinhos. Ken tinha só seis anos, era muita responsabilidade para alguém tão novo.

Ele daria uma volta na cidade e voltaria, não havia muitos lugares para ela ir. Conseguiu avistá-la. Estava andando em companhia de uma moça. Parou e foi em sua direção, quando a viu!

Era ela! July, a sua July. Era continuava igual, o tempo não passou por ela. Eles tinham a mesma idade, no entanto...

De repente, a compreensão da sua situação chegou rápido em sua mente e sentiu-se envergonhado de estar daquele jeito.

July pareceu estar constrangida e parecia querer embora logo.

Anne o expulsou e ele foi, mas pensou, ele nem se despediu de July.