A Florzinha do Canteiro

3 A Florzinha do Canteiro (parte 3)


Era uma bela manhã de segunda. Era outono, e as folhas douradas caíam das árvores, embaladas pela brisa fria do pólo. Horo Horo estava deitado em sua cama, contando carneirinhos para dormir. Ele se acordara muito cedo e não queria desperdiçar as preciosas horas de sono. De repente, ele é interrompido pela sua querida e amada irmã:

- ACORDA, TRASTE, TÁ NA HORA DO ALMOÇO!!

- Nhunhum! — disse Horo Horo enrolando-se cada vez mais em suas cobertas do Buzz Lightyear.

- Seu merda! Hoje temos dobradinha e salada de beterraba com catchup, tu adoras! — revelou Pirika.

- Gosto mais da minha cama...

- ACORDAAAAA!! — e a menina tacou a tartaruga de Horo Horo na cabeça do mesmo.

- Ui, Filombeta... ela machuca a gente, sabia?

- Então vem comer! Vamos, que hoje tu tens de ir ao médico de tarde!

- O Fausto?

- É! Tu podes ter pegado uma pneumonia do Ren e preciso te levar para te vacinares!

- Eu não estou doente... A... A.... AAATCHIM!

- Viu? Doença! Vamos curar essas amebas com uma boa injeção!

- AAAAAAAAAAAAAA!! Opa! Eu não sou o Ren, não tenho medo de injeção! E vou comer essa salada, nem que seja a última coisa que eu faça na vida!

Então Horo Horo, que gostava muito da salada de beterraba com catchup, doou ela toda para sua tartaruga também se deliciar com a iguaria. Filombeta entrou em coma.

- Tu mataste a Filombeta com a tua salada envenenada! — acusou Horo Horo. — Como fizeste a salada?

- Eu não fiz! Achei no fundo do freezer!

- Deixa eu ver o pote... — e Horo Horo pega o pote. — Vencimento: 17/03/1984. Mas isso venceu antes de eu nascer!

- E o queco?

- Por que a Filombeta está em coma então?

- Porque ela não comeu direito! Tartarugas não têm dentes, não sabem mastigar e ficam em coma quando engolem alguma coisa! — explica Pirika inteligentemente chegando à essa conclusão baseada em argumentos sólidos e coerentes.

- Já comi! Vou voltar para o meu quarto! — e Horo Horo sai correndo para seu quarto e esconde-se debaixo da cama. — Humpft! Jura que vou no Fausto... aquele salafrário mercenário... enquanto a gente tá sendo atendido, a Elisa fica invisível e rouba o nosso dinheirinho...

- TELEFONE, HORO HORO!!! — anunciou Pirika delicadamente.

- Já vou... — depois de dez minutos, Horo Horo chega ao telefone. — Alôu? Quem ser? Ah, Ioh! O que tu qué, a gente se viu ontem. Ah, o Hao! Estranho? Mas ele sempre foi estranho... Agora tá mais? O que ele fez? Comeu um sabonete? Dove ou Lux Luxo? Ah, que bom que foi sabão em pedra, é mais barato... E o que eu posso fazer por ti? Não, eu não posso ir aí, eu tenho médico. É, o Fausto. Não, eu não peguei a pneumonia do Ren! Mas a Pirika teima que sim! AAA... ATCHIM!!! É alergia à... paredes. Como assim tu nunca ouviste falar em alergia à paredes? É grave, sabia? Eu posso morrer! Mas isso é menos grave que a loucura do teu irmão. Pára de chorar! Ninguém vai morrer... talvez o Manta. Pára de rir. Se o Manta morre, quem vai cozinhar pra vocês? Mas o Hao está louco! O teu vizinho vai se mudar... não, eu não vou aí cozinhar! A velha o 804 tá em coma no hospital, ela não pode cozinhar! O Ren tá doente! A Jum não sabe cozinhar! A Pirika também não, hoje ela envenenou minha tartaruga. Tem Fast Food perto do teu prédio. Como assim de regime? O Ren que é o gordo... queres sumir? Anoréxico! O Hao que disse? Ele mentiu, tu não estás gordo... ele é louco, esqueceste? Até comeu sabão! Tá, eu vou aí, então... Chego em cinco minutos! Não vou mais no Fausto, fica pra outro dia... tô indo, tchau!

- Tá indo aonde? — perguntou Pirika.

- Vou visitar o Ioh.

- Mas tu tens médico!

- É que o Hao comeu sabão em pedra.

- Oh, que horrível! Por que não levas ele no Fausto também?

- Porque o Fausto tem mania de curar todo mundo com injeção! E quem come sabão tem que ser curado com tabefes na cara!

- Ah, tá! Mas vai lá depois do médico.

- Não, médico não!!!

- Vamos! — e Pirika começou a puxar Horo Horo pelos pés.

Horo Horo foi arrastado até o consultório de Fausto, onde encontrou Jum segurando firme o pulso de Ren que tentava de todo jeito se soltar e fugir para poupar sua vida.

- Oi, Ren!

- Horo Horo, me salva!!! Daqui a pouco é a minha vez! — falou Ren.

- O próximo! — falou uma voz de dentro da sala no momento em que saía uma criança infeliz chorando e berrando da porta.

- É o Ren! — falou Jum.

- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOO! — e Ren foi arrastado por Jum para dentro.

- Viu, Horo Horo! Não tem nada de mais! — e os dois irmãos se sentaram nas cadeiras de espera. Podia se ouvir os barulhos lá de dentro: “Nãããão, me larga! Elisa, traga a injeção para pneumonia! NÃÃÃÃÃÃO! Sai de cima no armário, Ren! O lustre custou caro, sai de cima daí. Minha vida é preciosa! Não me faz passar vergonha, Ren! Minha vida está em jogo! É só uma injeçãozinha! OLHA O TAMANHO DA AGULHA!!! AAAAAAAAA!!! Peguei! Larga meu pé, Jum! Pega o cinto, Elisa, vamos amarrá-lo. Aperta mais, senão ele foge! NÃO, ME LARGA, ME LARGA! CAPOF! Ih, ele caiu do lustre e machucou a testa! Elisa, um band-aid! Segura ele, Jum! Me larga, Jum! Não! AAAAAAAA!!! Eu vi a injeção! Levanta a manga da camiseta dele! Isso vai trespassar meu braço! Não, tu és gordo! Jum, eu não sou gordo! Segurem forte o braço dele! Que guri forte, conseguiu arrebentar o cinto! Vamos, a corrente! O cadeado! Mais uns três cadeados! AAAAAAA!!! Ele conseguiu arrebentar dois cadeados! Seu guri mimado! PINC! AAAAAAAA, estão me matando! Pronto, viu, não doeu! Porque não era o teu braço!!! Ei, a Jum esteve todo o tempo comigo, ela deve estar doente também! Não vejo sintomas da doença nela! Estão dispensados! O próximo!”

Horo Horo engoliu em seco, ele não estava preradado psicologicamente, ele era muito jovem. Ele viu Ren todo estropiado saindo da sala de Fausto.

- Vamos! — disse Pirika pegando o irmão pelo braço esquerdo.

- Sinto que são meus últimos momentos... — suspirou Horo Horo. — Pirika... tu foste a melhor irmã que eu poderia ter tido... te deixo todas as minhas posses!

- Mas a Filombeta está em coma!

- Te esqueceste que também tenho uma coleção de figurinhas dos Ursinhos Carinhosos?

- Vamos!

- Oi, Horo Horo! — cumprimentou Fausto. — Não vai doer...

- Mas eu não tenho medo de injeção... — revelou Horo Horo entrando na sala de Fausto e sentando numa cadeira.

- Então traga a injeção, Elisa! — pediu Fausto.

- AAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!! OLHA O TAMANHO DA AGULHA!!!!

- Levanta a manga da camiseta dele, Pirika! — pediu Fausto.

- Estou usando regata! — revelou Horo Horo mostrando sua camiseta sem mangas.

- Que seja! Vamos, não dói!

- EAAHR! — resmungou Horo Horo; ele estava muito tenso.

- Olha ali, na janela! Uma águia americana! — e Fausto apontou para a janela aberta.

- Onde? — e Horo Horo virou-se para a janela tentando ver o pássaro.

- PINC — Pronto, não doeu! — e Fausto retirava a injeção do braço de Horo Horo.

Horo Horo olhou para o seu braço. Depois para Fausto e Elisa, e por fim para Pirika. Ele não entendeu... mas depois caiu a ficha.

- AAAAAHHH, ME PASSARAM A PERNA! Fui sacaneado!! Golpe sujo!

- Que nada! Tchau, o próximo!

- Hunf! — e Horo Horo saiu com Pirika ao seu lado, ainda olhando para seu amado braço.

- Tu disseste que não tinhas medo de injeção! — falou Pirika.

- E não tinha, mas me traumatizei! Vamos para o apartamento do Ioh, agora?

- Tudo bem... mas não é melhor levar o Fausto com a gente? Ele deve saber o que fazer com Hao!

- Boa idéia! — e eles voltaram para o consultório de Fausto.

- Fausto! Tu ainda tens algum paciente? — perguntou Horo Horo.

- Não, já foram todos!

- Tu podes atender um amigo meu que eu acho que é maluco?

- Claro! Elisa, traga minha maleta!

Foram os quatro para o apartamento de Ioh e Hao, mas no caminho encontraram Anna e Tamao.

- Oi, o que vocês estão fazendo aqui? — perguntou Pirika.

- Estávamos fazendo compras! E agora íamos visitar o Ioh! — explica Anna.

- Parece que o irmão dele ficou maluco! — sussurrou Tamao.

- Ele comeu sabão em pedra! — conta Horo Horo.

- Vocês já sabiam?

- Nossa, isso é mais grave do que eu pensei... — falou Fausto. — Ninguém que é certo da cabeça come sabão em pó.

- Em pedra! — corrige Elisa.

- Pior! Vamos! — e todos rumaram rapidamente para o apartamento de Ioh e Hao.

Chegaram lá e tocaram o interfone.

- TZZZZÉÉÉÉÉ.

- Quem é? — pergunta a voz triste de Ioh.

- Fausto, Elisa, Horo Horo, Pirika, Anna e Tamao!

- Nossa! Entrem... — PZZZZZNNNN.

Todos entraram e subiram pela escada, posto que o elevador ainda estava quebrado.

DINGUE DONGUE

- Oi... — atendeu Ioh. — Snif, snif! Entrem... Bubuuu.

- Onde está o teu irmão? — perguntou Fausto.

- No meu quarto... buuuuu! E o Manta tá no armário...

Todos foram em direção ao quarto de Ioh, onde encontraram Hao deitado de barriga pra cima, olhando para o teto.

- Já morreu? — perguntou Horo Horo.

- AAAAAAAANNN!!! — e Ioh desata a chorar.

- Calma, ele foi para um lugar melhor! — revelou Pirika.

- EEEEEEEAAAAANNN!!! — e Ioh chora mais alto.

- Vamos examinar o paciente... — e Fausto chega perto de Hao com um estetoscópio.

- Hum... — e Hao abre os olhos lentamente. — AAAAA!!! UM FAUSTO!!!

- AHN, UM HAO!!! Viu, ele tá vivo! — e Fausto colocou o estetoscópio no peito de Hao.

- Ahn, não estou doente! — revelou Hao. — Tô bem!

- Mas me disseram que tu estás louco, que comeste sabão! — revelou Fausto.

- Ah, isso, é uma longa história. — começou Hao. — Hoje de manhã, eu e o Ioh percebemos que havia uma grande quantidade de roupas sujas no banheiro que nos impedia de entrar nele. Depois de muito discutir a respeito, pedi para Ioh lavar as roupas. Mas ele se recusou e disse que deveríamos mandar o Manta lavar. Então lembrei que ele perdera a chave do armário onde Manta está trancado...

- Mas foste tu quem perdeste! — interrompeu Ioh.

- Ah, cala a boca, não interrompe eu! Continuando, então ele mandou que euzinho lavasse. Eu disse que não podia gastar minhas mãos lavando roupa. Então mandei que ele lavasse a roupa. Ioh recusou-se novamente e disse que era para eu lavar a roupa e me arrastou até a área de serviço. Então eu disse que não lavaria de jeito nenhum e começamos a brigar. E me armei de uma escovinha, e Ioh tacou em mim a coisa mais pesada que ele achara por ali: uma barra de sabão em pedra. Na hora, eu me assustei e comecei a gritar, mas foi só eu abrir a boca que algo semelhante a uma barra de sabão em pedra entrou na minha boca e eu, sem querer, engoli. E comecei a assustar ele arrotando bolhas de sabão. Então ele começou a chorar e foi ligar para o Horo Horo e eu fui dormir. — e Hao levantou-se da cama de Ioh.

- Hum... então vou te receitar um vidro de laxante. — e Fausto pegou seu receituário e pôs-se a escrever.

- Por que estão todos aqui? — perguntou Hao.

- Não sei... — resmungou Ioh. — Só chamei o Horo Horo. Acho que os outros estão aqui para lavar a nossa roupa...

- Quéisso, Ioh? Mandar as visitas lavarem a nossa roupa suja? Vamos chamar o Ren e mandar ele abrir o armário para libertar Manta. Esse servicinho é dele. — falou Hao.

- Ei, por que cada um não lava a sua própria roupa? — sugeriu Tamao.

- Boa idéia! — respondeu Ioh.

- Não gostei! — falou Hao.

- Então deixaremos vocês sozinhos para que decidam! — e as visitas foram embora.

- Bom... é melhor lavarmos a roupa! — falou Ioh.

- Hunf!

Ioh e Hao foram identificar suas roupas no banheiro. Hao amarrou um lenço na cabeça.

- Argh, tá difícil de entrar aqui dentro! — e Ioh escalou a pilha de roupas, seguido por Hao.

- Esse casaco é teu! — e Hao tacou um casaco azul na cara de Ioh.

- E essa calça é tua! — e Ioh jogou uma calça em Hao.

- Ah, é? — e os dois começaram a se jogar roupas. Uma delas caiu dentro da privada.

- Viu o que tu fizeste? — acusou Hao.

- Mas era a minha calça que caiu! — replica Ioh.

- Ah, tá! — e Hao puxa a descarga.

- Minha preciosa calça de pano!!! — e Ioh tentou puxar a calça de volta, mas era tarde. — Ora, seu... — e ele puxou os lindos cabelos hidratados de Hao.

- AAAAIII! PÁRA!! — e Hao deu um chute em Ioh.

Depois de um tempo, eles levaram suas roupas dentro de sacolas para fora o banheiro. Cada um tinha cerca de 18 sacolas abarrotadas.

- Pra onde vamos com isso? — perguntou Hao.

- Hum... vou perguntar para o Manta! — e Ioh foi até o armário — TOC TOC.

- O que qué? — perguntou Manta lá de dentro.

- Pra onde levaremos a roupa suja?

- Para a área de serviço! — responde Manta.

- Então tá! — e Ioh e Hao foram para a área de serviço.

- O que é aquilo ali? — perguntou Hao apontando para o tanque.

- Um tanque!

- Pra que serve?

- Para lavar roupas! Tu nunca lavaste roupas antes?

- Não, como se faz?

- Bom, eu já lavei uma meia uma vez...

- Faças tu primeiro, que és especialista!

- Ei, lava tu!

- Não, tu! — e Hao jogou o lenço que estava em seu cabelo em Ioh.

- Argh! Mas eu estou mandando!

- Não mandas em mim!!!

- Então vamos deixa as roupas aqui e amanhã chamaremos Ren para abrir o armário e libertar Manta.

- Mas eu quero usar meu casaco novamente... vamos chamá-lo hoje! — pediu Hao chorosamente.

- Deixa de ser maricas! Amanhã a gente chama o Ren...

- Vamos ver TV então? — sugeriu Hao.

- Claro! O que será que está passando?

- Cavaleiros do Zodíaco. Hoje o Seiya vai começar a lutar contra Poseidon! — revelou Hao.

- Legal... — e os dois irmãos atiraram-se no sofá e ligaram a TV.

- Gente... também quero assistir Cavaleiros do Zodíaco. — pede Manta, mas não foi ouvido. — Genteeeeeee...

- Vamos comer pipoca, Ioh? — perguntou Hao, abraçado em seu irmão.

- Vamos! Vai lá pegar na cozinha!

- Vai tu!

- Oras, seu preguiçoso! Vá tu! Eu levei 18 sacos abarrotados de roupa suja para a área de serviço! Anda, vagabundo!

- E eu levei 19! Seu feio!

- Seu bobão!

- O quê? Seu patetão!

Então Manta ouve alguns barulhos estranhos vindos de fora do armário.

— Não se matem, por favor, eu tenho que sair daqui antes!!! — implorou o menino, mas não foi ouvido.

Notas finais
Continua