A Floresta Negra
12 Capítulo 11 - O chamado ancestral
Notas iniciais
Rendel caminhava pelos corredores da Drossel, acompanhado de um homem usando uma manta negra, cobrindo o rosto:
–Então, onde está o “príncipe”? –o encapuzado pergunta:
–Nas celas subterrâneas. –Rendel revira os olhos, odiava aquele cara:
–Subterrâneas? Para que coloca-lo lá? –o encapuzado o olha:
–Talvez você não saiba, mas o principezinho é um mestre em fugas. Não é a toa que ficou dois anos foragido. –Rendel revira os olhos:
–Então, se ele é um “mestre”, como conseguiram captura-lo? –o homem obviamente queria irritar Rendel:
–Armamos uma emboscada, uma isca, e o capturamos. –ele bufa –mais alguma pergunta idiota ou vamos logo até as celas?
–Huhuhu, você é bem ousado garoto. –a risada do homem fez Rendel bufar ainda mais:
–Vamos logo! –Rendel caminha mais rápido, o homem o seguindo sem o menos esforço.
Ao entrar nas celas subterrâneas, um odor estranho sopra nas faces deles:
–Que cheiro é esse? –o homem pergunta:
–Digamos que ninguém vem aqui faz uns cem anos. –Rendel revira os olhos:
–Mas não tínhamos prisioneiros aqui?
–Sim, mas já devem ter morrido sozinhos, sem agua ou comida. –Rendel lança um sorrisinho para o homem:
–Seu senso de humor é peculiar.
–Talvez. –Rendel para na frente de uma cela –pronto, aqui está ele.
O homem olha por entre as grades, e vê um Selen acorrentado nos braços e pés, ajoelhado:
–O que vocês querem agora? –Selen fala:
–Nossa, sua cara está pior que antes! –Rendel ri –e pelo estado dos seus pulsos, eu diria que você tentou se libertar, não é? Foi por causa do cheiro? Desculpe, é que não limpamos isso faz cem anos. Quantos prisioneiros tínhamos? Hum, deixe-me ver... Cem? Duzentos? Não, acho que eram duzentos e cinquenta e três... É, deve ser isso. E nenhum sobreviveu.
–Nisso você está errado... –Selem sorri e uma enorme sombra surge atrás de Rendel e o homem –esqueceram que eram duzentos e cinquenta e quatro?
Rendel pula para o lado no momento em que uma pesada bola de ferro é atirada no lugar onde antes ele estava. Um homem com dentes pontiagudos, olhos vermelhos e desnutrido o olha, arreganhando ainda mais os dentes:
–Ora, ora, quem diria que o velho Darten iria sobreviver? –o homem ri, se desviando das garras do prisioneiro:
–E ainda se soltou... –Rendel pula quando Darten tenta pegá-lo –parece que esses cem anos não lhe ajudaram nada na aparência, hein?
–Cale a boca! –Darten ruge, mas é imobilizado pelo homem:
–Agora, quietinho... –o homem olha Rendel –esse cara vai ser um problema se sair daqui.
–Claro, com a fama que ele tem... –Rendel olha Selen –ficaram amiguinhos na minha ausência?
–Como se eu fosse ficar amigo de alguém como ele... –Selen o encara:
–Claro claro, o príncipe odeia coisas “sujas” –ele faz aspas com os dedos –imagino como conseguiu gostar daquela garota... Qual é mesmo o nome dela? Kurayami? –ele lança um de seus sorrisinhos a Selen, que tenta se avançar nele, mas é impedido pelas correntes:
–Não ouse tocar no nome dela! –ele rosna:
–Sabe, até que ela não é de se jogar fora. –Rendel o encara –o beijo dela tem um gosto muito bom....
–RENDEL! –Selen fica louco e tenta de todas as maneiras se libertar para matar o servo de seu pai, que apreciava a cada momento daquela luta inútil:
–Acho melhor você parar de provoca-lo Rendel –o homem fala, ainda mantendo Darten preso entre suas mãos –afinal, o que falará para o rei se ele aparecer como se tivesse sido atropelada por cem bois?
–Talvez eu fale isso mesmo –debocha Rendel, revirando os olhos –então que tal você cuidar do nervosinho aqui enquanto eu cuido do “grandão” aí?
–Se assim você quer... –o homem larga o prisioneiro, que cai de cara no chão –sorte minha, pois queria fazer algumas perguntas ao príncipe...
–Sinta-se à vontade! –Rendel levanta o prisioneiro do chão –ah, e talvez você queira isto –ele atira o colar de Kurayami na direção do homem, que o pega no ar:
–Ora, colar dos ancestrais! –ele examina, virando de um lado a outro –nunca pensei que viveria até vê-lo novamente!
–Eu lhe daria mais uns dez anos de vida –Rendel debocha:
–Cuidado com a boca, servo do rei. –Selen é levantado pelo homem, que lança um olhar gélido para Rendel –posso ser velho, mas ainda sou capaz de acabar com você em dois segundos.
–Até parece... –o homem desaparece e reaparece atrás de Rendel, dando-lhe um golpe na lateral, jogando-o para o outro lado da sala. Rendel fica tonto e sangue lhe sai da boca –seu...
–Pense antes de falar garoto arrogante –e com isso o velho pega Selen e o leva para fora da cela:
–Ele ainda vai me pagar por isso... –ele trinca os dentes e se levanta, pegando Darten e o levando para fora também.
–---
–Essas feridas são sérias. –o medico diz ao examinar Kurayami, que continuava desmaiada –ela perdeu muito sangue e, se não cuidarmos direito, vai infeccionar e ela vai morrer.
–Então o que fazemos? –a mãe o olha, desesperada –não tem nenhum remédio com você que a faça melhorar?
–Eu recomendo passar isto no ferimento uma vez ao dia –ele lhe entrega um frasco com um liquido, por pelo menos três dias seguidos, isso vai retirar a infecção. –ele abre o frasco e coloca em um lenço, passando no ferimento dela –três dias a partir de agora. –ele termina de passar e entrega o frasco a preocupada mãe:
–Muito obrigada doutor. –ela lhe agradece, que apenas coloca o chapéu e vai embora, deixando a mãe e o cara sozinhos junto com uma adormecida Kurayami:
–Pelo jeito ela não vai acordar... –ele suspira:
–Deixe ela descansar. E você... –ela o olha –agradeço pela ajuda, mas agora peço que saia da minha casa, não quero que me traga mais problemas do que já tenho –ela o olha friamente, como se não estivesse pedindo, e sim mandando:
–Claro, sei quando não sou bem vindo. –ele se rende e vai ate a porta –mas vou bater aqui amanha para saber como ela está –ele aponta Kurayami com a cabeça:
–Ela vai estar muito bem, pois eu vou cuida-la. –ela responde, olhando ternamente para a filha –agora vá antes que eu te tira daqui a base de tapas.
–Já fui. –e ele desaparece pela porta.
A mãe relaxa e faz um carinho na cabeça da filha:
–Afinal, o que houve com você filha?
–---
Kurayami...
Uma voz a chamava.
Kurayami...
A mesma voz de sua lembrança, quando fugiu da casa da avó, assustada, desorientada.
Kurayami venha ate mim...
Ela acorda sobressaltada, sentindo uma dor aguda no peito. Ao olhar o peito, vê ele enfaixado:
–Rendel... Ele que me fez isso... –ela murmura, se lembrando do ocorrido.
Não posso cair nas mãos dele novamente...
Kurayami se assusta. Quem estava falando com ela? Parecia que a voz vinha diretamente de dentro de sua cabeça:
–Será que estou ficando louca? -ela tenta se levantar, mas a dor a impede.
Me tire daqui Kurayami...
–Quem está falando comigo? –ela olha ao redor, mas não vê nada –se mostre!
Eu estou em Garvaln, o palácio dos lobos...
–Onde?
A cidade dos lobos, onde reside o rei, pai de Selen.
–Afinal, quem é você? –ela continuava a olhar para os lados:
Um dos ancestrais, o terceiro ancestral, aquele que reside no seu colar, Althair..
–A-a alma daquele ancestral? –Kurayami engasga.
Preciso que venha até mim e me tire deste lugar, não posso cair nas mãos dele novamente...
–“Dele” quem? –mas ela não obtém resposta, tudo ficou em silencio, como se aquela conversa maluca nunca tivesse acontecido.
Kurayami se recosta novamente na cama, suspirando. Parece que aquele “conto de fadas” não iria deixa-la em paz tão cedo:
–Parece mais um conto de terror... –ela sussurra e cai no sono novamente.
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