Eu, novamente somente eu. Na cidade de NY eu estava sozinha, correndo da escola, fugindo de novo.

Não sei o que aconteceu, tenho 17 anos e até agora passei por mais escolas do que um professor no auge da sua carreira, aquilo me dava nos nervos, ser disléxica e ter transtorno de déficit de atenção e principalmente duvidarem da minha capacidade, me tratando diferente por onde eu passava.

Eu não sei se um dia eu mesma acreditarei no que eu sonhava,sempre com raios e trovões que pareciam me chamar, e ao invés de me assustarem me incentivavam a chegar mais perto do céu, e, ao mesmo tempo eu ouvia ondas bravias e sentia o cheiro do próprio mar quebrando aos meus pés, quando eu estava prestes a acordar eu via um estranho garoto pálido e magro com incríveis olhos da cor do mar dando-me sua mão,mas quando eu ia tocá-la eu me sentia sendo puxada pra longe e acordava geralmente aos gritos.

Estava eu andando pelo Central Park e tentando apagar da memória o que eu tinha visto, e pior, o que eu pensava que tinha feito. Pensava que quando voltasse ao orfanato mais coisas com a eletricidade aconteceriam.

Bem, acho que devo me apresentar, meu nome é Annice,filha de pai e mãe desconhecidos, moro em Saint Fleur, um orfanato a 100 km de NY, tenho olhos azuis como o céu, sou branca como uma nuvem de verão mais tenho o temperamento de uma tempestade, e por que eu me comparo a coisas ligadas aos céus?Não faço a mínima idéia.

Agora posso contar o que me aconteceu, eu estava no museu vendo uma exposição de Edson, ironicamente sobre eletricidade quando Cassandra, uma garota da escola que frequento vem ao meu encontro e me coloca contra uma das paredes de mármore do prédio. A

uma série de provocações eu revidei com uma resposta espirituosa e ela me pegou pelo pescoço, aquilo me irritou de tal maneira que gritei, e quando vi quem gritava se contorcendo era ela.

Peguei um ônibus pros campos de Long Island pra ver se eu relaxava, por que além de confusa fui vista como, louca já que quando contei o que fiz pra Daeria, minha mentora da escola, pessoa essa que sempre me acompanhava em sua estranha cadeira de rodas pra onde eu fosse; ela fez pouco de mim.

New Hampshire pelo menos nas fazendas era um lugar lindo pra se visitar, principalmente a plantação de morangos por onde eu passava. Daeria me veio à mente agora, ela tinha me pedido pra não sair sozinha, pra esperá-la, mas eu tinha uma propensão a não escutá-la, usualmente achando um ultraje pensar em obedecê-la.

Desci do ônibus e a noite caía me trazendo à sensação de que estava sendo observada, que alguém prestava atenção aos meus passos. Subi uma colina onde tinha um belo pinheiro e sentei-me lá sentindo uma estranha proteção, como se o próprio pinheiro me fizesse sentir melhor.

—Então está ai filhote de deus?- uma voz perguntou.

Olhei pra direção de onde a voz vinha e vi um monte, parecia uma montanha escurecida, mas a coisa se movia,aproximando-se mais e mais com um tipo de clava na mão.

O que vi deixou-me sem ar, a criatura parecia um ser humano, mas com um olho imenso no meio da testa, sua cabeça provavelmente pesava 48 kg fáceis, exatamente como eu, se não mais.

A criatura vinha pra cima de mim com aquela clava imensa e cheia de pontas, juro que se acreditasse nas histórias de mitologia grega que Daeria me contava, e que aquele era um troll ou algo do tipo, chegava a ser engraçado.

—Digo vai acabar com você!- ele exclamou investindo contra mim. Eu me virei a tempo de não virar panqueca.

Meu corpo parecia saber aonde ir, dar voltas e voltas ao lado da coisa e não ser afetada. Mas ele aprendia meus movimentos rápido, então fiz o que nem eu pensava possível, investi contra a criatura e sabe-se lá como eu parei em suas costas enquanto ele se debatia furiosamente, passamos ao lado do pinheiro e eu pude pegar um galho de tamanho considerável e com uma das mãos que não me segurava ao colete que a coisa tinha eu cravei o galho naquele imenso e esquisito olho amarelo.

A criatura berrou e depois se jogou contra o chão pegando sua clava e tentando novamente me golpear em meio a guinchos altíssimos. Trovões estouravam perto de nós enquanto a clava cheia de pontas ia e vinha perto demais.

Minha cabeça trabalhava a mil pra tentar tirar aquela coisa do meu pé, virei meu corpo e subi quase em sua cabeça.

—Hey, olho tonto, aqui em cima!- eu berrei.

Tudo aquilo foi muito rápido depois disso, eu vi o monstro bater sua clava e eu pulei nela, no movimento de volta eu me soltei sendo lançada longe e vendo um clarão estourar perto do velho pinheiro. Apaguei depois.

Minha cabeça doía e eu estava de mau humor, meu corpo todo pedia por um hospital ou algo do tipo, agora eu sentia algo com gosto de pipoca entrar pela minha boca.

Olhei pro lado e senti o coração falhar quando percebi que o garoto do sonho estava ali.

Levantei pra correr, mas a última coisa de que me lembro é de um nome que até agora não me lembro, por que a única coisa que me vinha à mente eram os olhos daquele garoto, o garoto do meu sonho.

Tudo girava violentamente, as paredes não estavam onde deveria estar, e em meu estômago, se a essa altura do campeonato eu tivesse algum.

Levantei quase não agüentando o próprio peso, minhas pernas tremiam e eu estava em um tipo de cabana de madeira mal arrumada e fria.

Fui dando passos inseguros apoiando-me nas paredes que já não rodavam tanto, abri a porta que me isolava daquele ambiente. Olhei pro lado e quase infartei quando vi que estava ali, Daeria me fulminava, na verdade ela era um misto de raiva e alívio naquele momento.

—Você me deixou preocupada mocinha- ela disse.

—Onde estou Daeria?- perguntei olhando ao redor e vendo o que me parecia um daqueles acampamentos temáticos.

—Posso saber o que você enfrentou, e por que fugiu de mim daquele jeito?- ela perguntou cruzando os braços.

—Daeria, onde estou?Fale logo ou eu descubro por mim mesma

—Responda minha pergunta Annice- ela disse categórica- você não vai a lugar algum, pelo menos não do jeito que está agora se acalme e sente-se ali- ela disse apontando pra uma espreguiçadeira.

—Não Daeria, se você não me responde, bem, eu vou sair perguntando por aí- eu disse ignorando seus protestos.

Saí andando batendo os pés duramente na trilha de pedras que seguia em frente, eu estava possessa e aquilo me fazia sentir como uma tempestade, ao longe um trovão soou impiedoso, como se atendesse ao meu pedido.

—Hey, o que você faz aqui, deveria estar descansando!- uma garota loira de olhos acinzentados esbravejou segurando um copo na mão.

—E quem é você?- perguntei irritada.

—Annabeth Chase, filha de Atena- ela disse parecendo orgulhosa.

—Certo Annabeth filha de sei lá quem, você pode dizer onde estou?- perguntei categórica.

—Acho que não entendeu enfrentar um troll e ser arremessada do jeito que você foi não é algo de fácil recuperação, então é melhor voltar e...

—Certo, vou perguntar pra outra pessoa então- respondi e saí andando.

A garota esquisita ficou ali me encarando e murmurando alguma coisa que não entendi, dei a volta por um campo verde e continuei cambaleando por aí até encontrar uma garota grande e com cara de estressada, seus cabelos eram vermelhos como sangue e a pela branca, ela usava uma camiseta laranja imensa com um colete de couro por cima.

—Ah, então a novata acordou?Então vamos a sua iniciação- ela disse- sou Clarisse de Ares.

Olhei confusa enquanto ela se aproximava e me puxava pelo braço.

—Clarisse, não!- Annabeth disse chegando perto.

—Fique fora disso!- ela esbravejou.

A garota entrou no banheiro comigo e me jogou contra a parede, minhas costelas que doíam protestavam contra o impacto.

—O que você quer comigo?- eu perguntei.

—Ué, você não ouviu?Vou te iniciar!-ela disse me empurrando pra privada.

Aquilo me aborreceu demais, Annabeth estava ali e não fazia nada além de olhar, virei meu corpo de lado jogando Clarisse no chão, ela praticamente rosnou e investiu de novo contra mim.

—Fique longe de mim!- eu gritei.

Tudo então foi muito rápido, cabos elétricos estouraram as paredes e foram ao encontro de Clarisse abraçando-a como cobras e eletrocutando-a. Admito que se ela não estivesse a ponto de fritar com os choques que recebia aquele seria um belo show de luzes e explosões.

—Parem, ela vai morrer!- eu gritei.

Os cabos soltaram-na e ela pulava como um peixe fora d’água, pessoas que penso serem amigas dela puxaram-na pra fora do banheiro que piscava suas luzes freneticamente.

—Ai meu Deus!O que aconteceu aqui?- eu perguntei pra Annabeth que me encarava assustada.

—Você- ela disse saindo.

Desci o bosque correndo a toda, passava pelas pessoas somente enxergando vultos, meus olhos turvados pelas lágrimas me fizeram tropeçar uma vez ou duas na grama verde.Parei num lugar que me pareceu isolado, um tipo de penhasco inclinado pra frente como se quisesse tocar o céu.

Sentei-me na ponta e olhei em volta, parecia que nada dali eu reconhecia, como se ali não fosse New Hampshire, e sim um pedaço da Grécia antiga.

—Não devia correr por aí no estado em que você está- alguém me disse.

Dei um passo pra frente enquanto levantava e quase caí no penhasco quando vi de onde vinha a voz, aquilo era um tipo de homenzinho com corpo de cabra ou sei lá o que.

—Ai, meu Deus, um garoto com pés de cabra!- eu disse em estado de choque.

Os olhos do garoto cabrito pareceram faiscar.

—Não sou um cabrito, sou um bode!- ele exclamou.

Não quis descobrir, meu choque era maior que a curiosidade, disparei de novo correndo a toda; minhas costelas latejando incessantemente em protesto.

Voltei pelo mesmo caminho que fiz e senti que tinham pessoas me olhando, mas não parei pra perguntar, só corri até a cabana.

—Daeria, Daeria o que?Ai meu Deus!- eu gritei correndo de novo.

Onde deviam estar às pernas de Daeria estavam cascos, da cintura pra baixo ela era um cavalo imenso, corri á toda até chegar à colina onde havia um pinheiro solitário, ouvi passos, passos não, trotes chegando perto de mim perto demais pra ser seguro.

—Pare, Annice pare agora!- Daeria gritava.

Meu corpo estava cansado, minhas pernas fraquejavam, mas eu queria correr, sair dali, pena que meu corpo não teve a mesma idéia que eu. Caí na grama verde exausta enquanto Daeria vinha mais perto cavalgando em si mesma.

—Saia de perto de mim seja lá o que você for!- eu gritei pra ela.

Ela não ligou, foi se aproximando enquanto eu perdia minha consciência, ouvi uma voz de garoto perguntando o que tinha acontecido, olhei pra direção da voz e vi o garoto de meus sonhos estranhos, ele estava ali, e o pior, ele estava ali olhando pra mim. Afundei de vez na inconsciência com medo do que teria de enfrentar quando voltasse.