A Filha dos Raios
26 Pulverizado
Despertei determinada a resolver as coisas.
Por uma semana inteira eu não saí do quarto mas recebia as visitas de Breeze,Cedar e Lucius que vinham checar se eu ainda estava viva enquanto decidir como agir estava me corroendo a cada hora que passava.
Meus olhos depois de Thalia vir e toda a agitação acontecer tinham agora um azul esverdeado tão claro que parecia que relâmpagos cortavam por entre as cores,meu cabelo que era preto tinha desbotado pra tons de cinza que me deixaram apavorada no primeiro dia em que me olhei no espelho.
Mas de todas as mudanças a maior era que eu queria aceitar que eu não poderia e nem conseguiria ficar longe de Percy,que teria que pedir ajuda a todos pra defendê-lo mas eu ficaria com ele até o fim.
O dia estava pesado e cinzento,com a chuva caindo pesada e raios cortando os céus quando coloquei um sobretudo chumbo,meia calça preta e botas e caminhei decidida enquanto a água me encharcava.
Controlei os tremores,segurei as pernas que já estavam habituadas a correr daquela presença e bati na porta da cabana de Poseidon.
“Acho que é o Grover chegando,se arrume.”
Ouvi o murmúrio de Percy e abracei os braços pra me manter aquecida,me preparando pra encarar seus olhos e finalmente poder gritar aos quatro ventos o quanto eu o amava.
Percy abriu a porta enrolado por um lençol e petrificou quando viu que eu estava ali.
Tentei sorrir e dei um pequeno aceno dando um passo a frente.
Pra quase cair de joelhos quando olhei pra dentro.
Com os cabelos soltos e desgrenhados e o corpo coberto por uma camiseta de Percy,Annabeth cobriu a boca pra segurar o grito de espanto.
Tudo girava,minha mente era um borrão enquanto eu dava passos pra trás segurando meu peito com tanta força quanto podia pra evitar que meu coração despedaçado caísse ali.
—Eu não o esqueci...você me esqueceu…
Minha voz saiu embargada,sufocada pela dor enquanto raios caíam cada vez mais perto de mim.
—Annie não!Eu...posso explicar!Ela só veio passar a noite comigo por que eu não estava bem,vem aqui amor,vamos conversar.
O gosto de bile subia na minha garganta enquanto nojo tomava conta do meu corpo.Annabeth aparecia vestida na porta enquanto eu começava a me afastar sentindo o controle das pernas.
—Annice vamos conversar,ele estava falando a verdade...Por favor deixa a gente explicar.
Como eu nunca tinha feito antes,os raios caíam em uma coluna pesada abrindo buracos no chão,estourando as lâmpadas dos postes e chacoalhando tudo ao redor.Nas minhas palmas a energia fluía e eu segurava cada raio que se aproximava como uma lança.
—Voces se merecem! — eu gritei entre os raios que retumbavam ao meu redor.
Lancei um raio na porta dele atirando os dois pra dentro e corri sem destino,sem conseguir enxergar nada além da dor lancinante que rasgava meu peito e atordoava meus sentidos.
Ouvi gritos ao meu redor,vi alguns campistas apontando pra mim enquanto eu caía de joelhos na lama escorregadia e voltava a correr queimando árvores e abrindo crateras por onde eu passava.
—Annie querida se acalme!Minha querida venha aqui,por favor Annie volte a si!
Parei de correr e me apoiei numa árvore vendo Daeria chegar perto em forma humana tentando se proteger das cargas descontroladas que emanavam de mim.
Ela pedia,estendia suas mãos pra mostrar que não havia nada com ela enquanto Lucius e Breeze se aproximavam cada um de um lado até chegarem a poucos passos de mim.
Meus gritos ecoavam com os trovões enquanto eu tapava meus ouvidos e caía de joelhos no chão.Tudo doía tanto,minha respiração machucava,meu coração quebrado perfurava meu peito enquanto eu tremia violentamente.
Lucius me pegou no colo e correu com Breeze jogando um casaco por cima de mim.
Fui levada até a enfermaria vazia fazendo Grover saltar em seus cascos com os meus gritos ecoando nas paredes.
Daeria fechou as portas e me puxou no colo me balançando enquanto eu perdia noção de tempo e espaço.
Lucius me pegou de volta e se deitou numa maca comigo entre suas pernas e beijava minha testa sem parar enquanto Breeze tirava minhas botas e tentava secar meu corpo com a toalha.
—Princesa você precisa se controlar ou vai destruir o acampamento todo.Vendo a direção de onde você veio eu já imagino o que possa ter acontecido mas deixa a gente te ajudar,deixa a gente tentar amenizar sua dor…
Breeze veio com uma xícara e a levou até minha boca me fazendo engolir um chá com um sabor enjoativo.
—Eu sou muito boa com ervas,o chá que dei a ela fará com que ela consiga descansar por enquanto — ela sussurrou tocando meus cabelos.
Chorei em silêncio agarrada a camisa de Lucius que começava a ter buracos onde minhas unhas estavam cravadas.
—Ele...com ela...eu ia dizer...fui lá dizer mas ele…
Seus braços se apertaram a minha volta enquanto ele beijava minha testa e xingava com tudo o que era possível pronunciar entre rosnados baixos.Lucius tinha entendido.
Adormeci depois de horas lutando contra o cansaço sem Lucius ter me soltado um instante sequer.
Quando despertei novamente a escuridão e o frio da noite estavam tomando conta do lugar.
A cada vez que eu fechava meus olhos eu o via enrolado nos lençóis e ela dentro do quarto praticamente nua com culpa estampada em cada pedaço de pele que eu podia ver.
E acima de tudo eu sentia nojo de mim por ter sido tão idiota.
Uma trupe entrou na enfermaria naquela manhã.
Cedar,o monitor da casa de Ares,Clarice e mais quatro meio sangues filhos de Ares vinham armados com espadas e escudos, Breeze segurava um arco com flechas prateadas,Daeria vinha em silêncio pra perto de mim enquanto Lucius me pegava no colo com um braço e segurava sua espada na mão livre.
—Fique tranquila querida,vamos te levar pra sua cabana garantindo que ninguém te incomode. -Daeria explicou.
Eu sabia quem era esse ninguém.
Lágrimas corriam dos meus olhos inchados enquanto eles abriram a porta e o vento frio me acertava.
—Eles estão na cabana dos monitores junto com o senhor D.
Outro campista vinha pela porta e anunciava.
Todos ali ao meu redor tinham tanto cuidado com o que falavam e como agiam que parecia que eu iria desmoronar a qualquer instante.
Lucius vinha comigo nos braços no meio da formação,Cedar na frente com Clarice,o monitor atrás e Daeria do lado com os outros campistas ao nosso redor.
Todos ali pareciam proteger um tesouro inestimável tomando cuidado a cada passo.
Descemos a colina vendo cada cabana com seus monitores nas portas impedindo a passagem dos campistas curiosos com a comoção.
Tudo estava calmo até chegarmos perto daquela cabana e eu ouvir aquela terrível voz me chamando.
—Annie!Annice me escuta!Você tem que conversar comigo!
Segurei a vontade de vomitar e escondi meu rosto no peito de Lucius.
Todos da formação de posicionaram impedindo qualquer avanço mas a voz não parava, Percy me chamava sem parar enquanto era empurrado.
Meu peito afundava,meu coração estilhaçado me cortava por dentro e minha alma chorava em desespero me fazendo ver...aquilo.
—Cala a boca,cala essa merda dessa sua boca!Cale a boca Percy!
Gritei tapando meus ouvidos e senti a pulsação dos raios convergir ao nosso redor como um teto de raios que vinha.
—Annie,boneca você precisa se acalmar senão vai fritar todos aqui que não são a prova de raios — Lucius murmurou me pressionando.
Não,eu não machucaria nenhum deles.
Mas descontaria minha raiva.
Concentrei toda a minha energia sob um ponto específico e a terra tremeu,o céu brilhou prateado enquanto a cabana de Poseidon era reduzida a cinzas.
Virei meu rosto encarando os olhos apavorados de Percy que tinha Lucius ao seu lado o segurando pelos braços.
—Fique longe de mim ou vou fazer muito mais do que destruir seu alojamento — eu sibilei.
Nossa comitiva voltou a andar e eu sentia os olhos nervosos presos em mim mas ao menos um pouquinho daquela dor tinha se acalmado no meu peito ao ver aquela cabana cheia de memórias reduzida a pó.
Lucius riu pesadamente e beijou minha testa enquanto Cedar abria a porta.
—Não dá pra negar baixinha,você tem estilo — ele sussurrou.
Entramos sendo recebidas por Nox que piava inquieto pendurado na madeira do teto.
Lucius se deitou comigo deixando apenas Bree,Cedar e Daeria enquanto os outros saíam e ficavam de guarda nas portas.
Duas semanas se passaram fora da minha janela enquanto Nox alcançava o tamanho de um cavalo,Lucius ficava quase todo o tempo comigo e Breeze vinha pra me contar tudo o que podia do acampamento com Cedar ao lado sempre trazendo comida.
Eu praticamente não andava ou falava,era apenas uma boneca sendo colocada em uma pose diferente por qualquer um que estivesse ali.
E foi a pior sensação que alguém poderia sentir.
Acordei numa madrugada fria,coloquei um jeans, tênis é um moletom e fui pro meio da chuva.
Cada passo era incerto enquanto eu andava até o pequeno penhasco e me.deitava na grama molhada.
O céu escuro reluzia com raios de prata correndo pelos céus,a lua brilhava pálida por entre nuvens escuras e a água fria me cobria de cima a baixo.
Algum tempo depois a chuva cessou e a manhã veio secando minhas roupas,eu me levantei e fui até o refeitório mantendo o máximo de calma possível.
Um silêncio mortal se instaurou enquanto eu pegava pedaços de queijo e uma maçã pra poder comer.
—O que você é afinal? O que estão escondendo de nós?
Olhei pro lado e um garoto muito magro e alto vinha me olhando com grandes olhos castanhos emoldurados por uma expressão franzida.
—Eu sou filha de Zeus,minha mãe era humana assim como todos vocês.Eu não sei por que tenho tanto poder — eu respondi alto o bastante pra que todos ouvissem.
—Por que você tem que ficar numa cabana só pra você? — outro perguntou
—Tem outra filha de Zeus aqui além de mim e não me disseram? — eu perguntei erguendo a sobrancelha.
—Foi você que destruiu o alojamento de Poseidon?Por que fez aquilo.
Ok,eu não estava pronta pra essa.
—Fui eu sim — eu murmurei fechando os punhos.
—Agora ninguém pode falar nada contra ela,a aberração pode te destruir se você a contrariar.
Virei pro lado sentindo meus dedos crepitarem com energia enquanto eu via um filho de Hermes andando em minha direção.
—Eu dei todos os motivos pra que ela fizesse isso Jeremy,assim como todos nós que temos poderes ela tem os dela que por alguma razão são mais fortes,mas quem de nós conhecemos totalmente os limites de Zeus?É natural que alguém com o sangue dele correndo nas veias seja mais poderosa do que qualquer um de nós.
Aquela voz fez meu estômago revirar.Meus olhos encontraram Annabeth olhando pro chão enquanto eu passava por ela.
Sua mão trêmula se fechou em meu pulso.
—Nós precisamos nos falar, não aconteceu nada do que você estava pensando — ela sussurrou me conduzindo pra fora do refeitório.
—Não tenho nada pra falar com você,aproveite seu prêmio e me deixe em paz — eu sibilei dando um passo.
—Voce não entende...me deixe explicar…
Meu limite já tinha passado há muito tempo.
Soquei Annabeth com toda a força que eu poderia ter e satisfatoriamente seu corpo saiu do chão e caiu num baque seco.
—Annice me escuta!Mesmo com a profecia ele quer estar do seu lado,quer lutar com você,resolver isso,eu só fui consolá-lo…
Atirei-me contra ela caindo sob seu peito e o tapa que dei fez com que todos ali saíssem pra ver a agitação.
—Consolá-lo?Quanto ele te pagou pelo programa então Chase?Avise a Percy que ele está morto pra mim,o que acontecer com ele de agora em diante não me interessa.
Larguei-a e Daeria veio correndo ao meu encontro com Quiron e Lucius no encalço.
Fui conduzida a Dionísio num silêncio fúnebre enquanto Lucius acariciava minha mão com a sua.
—Então você foi pra fora do acampamento,sua irmã pousou aqui fora de si,você tem o favor de Afrodite e a apreciação de Atena,Zeus te deu uma armadura celestial e você fulminou a cabana de Poseidon.Voce tem feito muita coisa ultimamente hein?
Dei de ombros encarando meus pés enquanto ele se aproximava e tocava meus ombros.
—O que você é menina?Quem realmente é você? Caçada sem parar ,com um poder que eu nunca vi em nenhum semideus,nem em Hércules,mas em você...O que você esconde?
Eu me senti um rato de laboratório sendo observada,julgada e analisada por Dionísio.
—Como foi tocar o raio?
A pergunta me fez encarar seus olhos.--Eu não tinha pensado nisso,era uma.energia imensa correndo por mim,mas não me machucou,apenas...Era como se uma parte que faltava tivesse voltado pro lugar de direito. — respondi puxando o cadarço do moletom.
—Ela não faz ideia do que é capaz de fazer,ou do que é.Nenhum de nós sabe os limites do poder da filha de Zeus e eu não aconselharia ninguém a testar.Se ela for embora e o acampamento voltar a ser atacado teremos problemas,ela ficar aqui é o melhor no momento até entendermos tudo o que vem acontecido contra os deuses e contra nós.
A voz de Nico era pesarosa,entediada e assustadora enquanto ele descia as escadas e vinha tocar minhas mãos.
—Não faça mais bobagens,tente resolver as coisas antes que se arrependa das suas decisões.
Saí em disparada assobiando enquanto asas pesadas batiam sob minha cabeça.
Nox voou baixo e me joguei em suas costas alcançando os céus.
Dali de cima nada parecia tão caótico, tão...ruim.
Voamos por horas até que pousamos no meu deck e havia ali um garoto de cabelos pretos,pes na água e olhos azuis da cor de mar da mesma cor dos olhos de Percy.
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